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14 de setembro de 2018

Peripécias do Quadriénio

   Caríssimos, ilustríssimos, digníssimos e honradíssimos leitores (e todos os outros que se sintam tentados a declinar estes epítetos maioritariamente elogiosos que acabo de elencar), era já mais do que tempo de voltar à escrita. Só que não sabia como, e, a bem dizer, nem agora o sei. Recuso-me, por um lado, a incorrer (mais ainda) na repetição incessante de afirmações já antigas – mas nem por isso, diria eu, menos pertinentes – a que uma ausência de temas discerníveis me obrigaria, e, por outro lado, não posso deixar de continuar a escrever, posto que desde que finalizei a concepção da ideia que subjaz todo este blog me sinto vagamente incumbido do dever de levar a bom porto os melhoramentos que pude entrever e combater as injustiças que presenciei – e ainda presencio. Sei, porém, que possuo uma forte tendência para a utopia e para o idealismo, e por isso devo pedir aos eventuais leitores que me perdoem estas sempre presentes e (vagamente) tresloucadas ambições…

   De qualquer dos modos, eis-nos quatro anos depois da fundação deste blog, pouco mais do que um passo à frente comparativamente ao que estávamos então, senão em pior estado ainda: posto que a blogosfera (e as demais esferas informáticas) se alimentam sobretudo de novidade, não posso deixar de tentar (como o tenho feito, assaz infrutiferamente, nos últimos tempos) criar novas entradas, desencantar novos temas, debater novos assuntos; no entanto, a já antes mencionada exaustão da maioria das temáticas que se apresentam ao meu assumidamente limitado entendimento como pertinentes e adequadas ao propósito deste espaço, juntamente com a perda do ímpeto criativo inicial que já seria expectável e a degradação do tempo livre decorrente da infeliz evolução dos percursos escolares, leva-me ao silêncio que já se tem prolongado há pouco menos de três meses, para não falar das repetidas vezes em que se tem vindo a manifestar essencialmente ao longo dos últimos dois anos. E eu mesmo já perdi a conta às vezes que prometi – sem o cumprir – que evitaria um tal silêncio, que escreveria mais, que arranjaria forma de inventar novos temas, pelo que não me atrevo a repeti-las.

   Os remorsos não me parecem, porém, a forma apropriada de celebrar um aniversário; sinto-me tentado, em vez disso, a olhar para o futuro, como creio que se deve sempre fazer em ocasiões destas. E o que contém esse futuro? Não o posso saber com clareza. Talvez esperança. Talvez mudança. Espero eu que alegrias também, e felicidade, se esta sequer for atingível, e a solução para todos os problemas do Mundo (e, se não fosse eu suficientemente céptico para questionar até o cepticismo, admitiria agora estar a ser irónico, mas a verdade é que não o estou, não obstante ser um pessimista convicto…). Mas, em particular, o que sei que o futuro garantidamente contém é a continuação deste blog, nem sempre tão mexido quanto gostaria, mas nem sempre tão parado quanto agora tem estado, e a continuação desta ideia, não tão difundida e aceite quanto desejaria, mas não tão criticada e esquecida quanto o receava…

   E creio ainda termos tempo e espaço para desejar a todos aqueles que iniciam, iniciaram ou iniciarão o ano lectivo a melhor das sortes e o maior dos sucessos, não deixando de lhes relembrar e pedir respeitosamente que não deixem nunca de questionar, pensar e tentar encontrar a forma mais benéfica para todos de as coisas estarem organizadas, e que não desistam nunca de lutar por aquilo que consideram ser o correcto…

17 de dezembro de 2017

Da Inaudita Ausência

   Caros leitores, é com grande desagrado e desprazer meus que escrevo as palavras que lêem. Mais uma vez, estive ausente, durante muito tempo, durante demasiado tempo. O culpado, ironicamente (ou não tão ironicamente assim, posto que não posso nunca excluir a possibilidade de que ele se esteja a defender, restringindo-me o tempo que tenho livre para o criticar…), é o sistema de ensino, ou, talvez mais precisamente, a pilha enorme, abstrusa, infinita, de erros e injustiças que nele estão infiltrados. Porém, tenho a grande esperança e a firme convicção de que, nos próximos tempos, isso já não se verificará mais, e, nesse sentido, apenas vos tenho de pedir, caso ainda aí estejam, caso ainda por aí fiquem, aguardando novas minhas, que perseverem apenas um pouco mais, posto que espero em breve ter uma nova entrada para apresentar, contrariando, espero que de uma vez por todas, esta minha mais recente tendência, que é a do silêncio.

   Dir-vos-ei, portanto, até breve, e obrigado por ainda me lerem…

14 de setembro de 2017

3

   Três. São já três os anos que completa este blog. Trinta e seis meses, sem tirar nem pôr, com a eventual excepção de umas quantas horitas de diferença entre o momento exacto da inauguração e a publicação desta entrada. Três anos, e o que aconteceu entretanto? Será isso mesmo que hoje (confesso que à falta de melhor tema…) vou abordar. Naturalmente, será inevitável que escapem ao meu radar assaz metafórico umas quantas mudanças, ou então que a minha falibilidade intrínseca me leve a descurar algumas delas, não as enumerando aqui; se assim for, e se isso constituir uma qualquer fonte de incómodo para vós, caros leitores, apresento as minhas mais sinceras desculpas, e garanto que, uma vez alertado para essa eventualidade, farei o meu melhor para corrigir a falha.

   Eis, portanto, e sem mais demoras, as diferenças no ensino que pude encontrar entre o momento da inauguração do blog e os dias de hoje:

  • Foram abolidos os exames do 4.º e do 6.º ano. Como já tenho dito, a sua substituição por provas de aferição é equivalente a trocar uma tortura potencialmente impactante por uma tortura inócua, mas poderia ser um passo em frente na direcção certa… se as coisas não tivessem ficado por aí. Acho que entendem onde pretendo chegar, certo?
  • Foi introduzida a gratuitidade dos manuais escolares do 1.º Ciclo. Correndo o risco de repetir o anteriormente afirmado, sem querer entrar em discussões políticas mais aprofundadas, e pondo de lado os eventuais impactos económico-financeiros da medida, a intenção é louvável, ainda que a sua aplicação possa não ser isenta de falhas; em particular, a reutilização de livros pode acarretar alguns problemas, razão por que consideraria mais pertinente que se optasse cada vez mais por manuais digitais em vez de físicos, como, de resto, creio que já se planeia fazer.
  • Mudaram os programas e os currículos, 25% dos quais algumas escolas puderam já alterar, ao abrigo de projectos-piloto diversos. A alteração de programas dificilmente constitui uma modificação surpreendente no estado das coisas, menos ainda quando (segundo me consta, de fonte que considero, no mínimo, razoavelmente fiável) alguns dos novos programas coincidem, pelo menos em parte, com outros que foram aplicados no passado – e num passado assim não tão recente quanto isso –, e, nalguns casos, poderão ter sido remodelados de forma tal que aumenta em vez de diminuir a confusão dos professores e, por intermédio disso, dos alunos; por outro lado, no que toca à flexibilização dos currículos, como já antes disse, é positivo que se o faça, posto que, a meu ver, flexibilizar poderá ser uma solução para uma boa parte dos problemas no ensino, mas poderemos correr o risco de subjugar demasiadamente o que é leccionado nas escolas ao que a região circundante tem para oferecer (ou pode oferecer…), uma limitação que, mesmo podendo, em certa medida, ser útil (em termos laborais, em termos da promoção do património cultural local…), não deixa de ser uma limitação e, como tal, numa situação ideal, não deveria existir.
  • E, para terminar com um ponto muito menos público que os restantes, o texto principal dos Mini-Ciclos de Leccionamento foi revisto. Como anunciado aqui, foi-lhe feita uma revisão profunda, tornando-o (esperançosamente) mais claro, mais legível, mais explícito e mais completo… ainda que isso muito pouco tenha contribuído para fazer qualquer dos melhoramentos a ele associados ocorrer, de facto. Mas nunca é tarde: a mudança, no fundo, pode sempre estar ao virar de uma esquina, e é com esta nota de esperança que pretendo saudar o novo ano que se aproxima…

   Como nota final, devo estender os meus mais sinceros agradecimentos aos múltiplos contribuidores que me permitiram efectuar esta recolha de mudanças, que foi surpreendentemente difícil. Talvez isso seja consequência da minha própria ineficácia, da minha ausência demasiado prolongada da contestação, ou talvez diga bastante acerca de como mudou o ensino em Portugal nos últimos tempos – fundamentalmente, muito pouco. Seja como for, agradeço-lhes imensamente pela ajuda, e devo frisar que quaisquer erros, falhas ou omissões provêm da minha sempre abstrusa pessoa e não das deles.

   E assim termino, de uma forma pouco habitual, esta entrada pouco habitual, esperando que o ano que agora se inicia seja recheado de muitas mais entradas do que aquelas que tenho produzido nos últimos tempos…

19 de maio de 2017

Lamento e Agradecimento

   Caríssimos leitores, é com grande pesar que verifico que, mais uma vez, incorri numa longa ausência. O motivo é o do costume: a escola. Como sempre.

   Enfim, por esse mesmo motivo, devo confessar que não tenho uma entrada tradicional para aqui apresentar; em vez disso, farei algo tão ou mais importante, e que já há muito tempo deveria ter feito: agradecer a todos aqueles (que eu gosto de pensar que são muitos, seja isso, ou não, verdadeiro) que, não obstante a minha ausência, têm continuado a ler e a visitar, e, espero eu, a apoiar a ideia (nem que seja criticando-a!), enfim, a todos os leitores, por aturarem a irregularidade da minha escrita (e a minha escrita em si), enfim, por tudo, um enorme obrigado!

   E, com estas palavras, e esta curta entrada, me despeço, na esperança de vir a escrever mais em breve…

18 de novembro de 2016

Confirmação do Provavelmente Não Questionado

   Caros leitores, lamento imenso pela minha ausência, mas motivos académicos diversos prejudicaram sobremaneira a minha disponibilidade temporal e, nesse sentido, não tenho podido propriamente escrever, como queria, uma nova entrada verdadeiramente digna desse nome. Não se preocupem, porém: não faleci, não desisti, pelo que ela aparecerá! Eventualmente… Talvez… espero eu…

Brincadeiras à parte, sinto que tenho, de facto, de vos apresentar um novo texto, e estou, garanto que estou, profundamente empenhado em vo-lo dar… assim que tiver tempo. Se quiserem, entretanto, dizer alguma coisa, perguntar alguma coisa, sugerir alguma coisa, ou, até, criticar alguma coisa, estejam à vontade (como, de resto, espero que já estivessem…), que eu responderei logo que possa.

Pela minha parte me despeço, com vago desânimo, até à próxima entrada…

17 de setembro de 2016

Breve Apontamento de Duas Mudanças Medianamente Mediáticas

   As habituais saudações a todos os leitores. Trago, desta vez, mais uma vez, uma coisa ligeiramente diferente do habitual; não é que seja tão inovadora assim, porque, enfim, já cá se fez parecido, mas também não é o texto (comprido) do costume: são dois textos (talvez um pouco menos compridos…) na temática do costume (que outra poderia ser?), sobre dois temas particulares que, de uma forma ou de outra, se me afiguraram como dignos de atenção, até porque, de certa forma, tiveram vaga cobertura mediática.



I – Da Gratuitidade Bibliográfica

   Como o título um pouco obscuro pretende indicar, a primeira coisa de que falarei será o facto de os manuais escolares do 1.º ano (e, posteriormente, do 1.º ciclo) virem a ser gratuitos.

   Ora bem, não podemos ser intrinsecamente maldizentes; há que admitir que a ideia, em si, até que é louvável. Afinal, se o ensino deve ser tendencialmente gratuito e tudo o mais, faz mais do que sentido que se arranje uma forma de eliminar o custo (aparentemente) inevitável dos manuais escolares.

   Porém, também não podemos ser ingénuos ao ponto de afirmar que está tudo bem, e, sobretudo, que está tudo bem feito. Por um lado, há aquele pequeno grande pormenor de haver mais anos de ensino para além do 1.º (ciclo), nos quais os manuais também deveriam ser gratuitos; é certo que isto é só um começo e que não se pode exigir logo tudo, sobre tudo quando o aspecto financeiro da coisa vem à baila, mas não acho que nos devamos contentar em ficar só por aqui… Por outro lado, estaríamos muito iludidos se disséssemos que esta medida contribui significativamente para reduzir e eliminar os lobbies e os poderes económicos associados à educação (nomeadamente o das editoras, mas não só…), visto que só os manuais em si serão gratuitos – o que quer dizer que ainda há uma vasta gama de livros de fichas, de apoio ao estudo, de preparação para isto e para aquilo, e por aí fora, com os quais muito boa gente (e gente não tão boa assim…) pode fazer muito bom dinheiro – e ainda há uma vasta gama de outros materiais – ainda para mais na primária – que podem ser pedidos (às vezes até com marcas específicas…); claro, a medida ajuda a reduzir esta exploração, mas, convenhamos, não a faz desaparecer da noite para o dia, e, tendo em conta a própria natureza das entidades envolvidas e do seu modo de actuar, pergunto-me se, no fundo, não acabarão por sair a lucrar disto tudo…

   Pois bem, já deitei o suficiente abaixo, agora é tempo de reconstruir. Que poderíamos fazer para melhorar esta iniciativa? Diria que duas, uma relativamente interligada com a outra. Já sabem que sou a favor do uso de tecnologias no âmbito da educação, e espero que saibam igualmente que, ao abrigo do paradigma alternativo de ensino que apoio e defendo, haveria a tal plataforma on-line com toda a matéria; com Mini-Ciclos de Leccionamento ou sem Mini-Ciclos de Leccionamento (embora prefira a primeira opção…), acho que esta é uma boa ideia, só pode ser uma boa ideia, até porque providenciamos um suporte comum a todas as escolas, o que ajuda a dissipar diferenças, sem ter um custo tão elevado assim (só a elaboração e a manutenção dos sistemas informáticos necessários). Paralelamente a isto, em vez de se gastar o dinheiro dos contribuintes para pagar os livros directamente às outras (saber-se-á lá com que margem de lucro para elas…), e na eventualidade de a adopção de uma plataforma on-line não ser possível, ou não ser desejada, o Ministério da Educação poderia editar os seus próprios manuais, de acordo com as indicações programáticas e tudo o mais, que passariam a ser os oficiais (o que também traz consigo um grande risco de manipulações e condicionamentos diversos em prol do Estado e do status quo, mas tal, no fundo, já se passa, mesmo havendo editoras independentes e privadas…).

   Então, quanto a esta questão dos manuais escolares, creio estarmos conversados.



II – Da Autonomia das Escolas

   Esta segunda questão, a da autonomia das escolas, já vem, a meu ver, um pouco lá de trás, desde os tempos da Municipalização do Ensino, no sentido em que esta já preconizava que as escolas (ou melhor, seriam as câmaras municipais responsáveis pela sua gestão, mas vai dar um pouco ao mesmo…) poderiam decidir sobre parte do currículo. Ora bem, seja como for, agora é certo que podem decidir sobre 25% do currículo. E eu, enfim, fui levado a tentar avaliar (sem trocadilhos…) essa situação.

   Em primeiro lugar, o lado positivo: se as escolas podem decidir sobre o currículo, mesmo que só em parte, estamos a dar um passo (nem que seja um passito…) na direcção da flexibilidade, que é, como acho que já disse várias vezes (e como transparece através do sistema de ensino alternativo que defendo…), de extrema importância na melhoria dos processos de ensino-aprendizagem; por outro lado, como a decisão sobre estes assuntos será efectuada a nível local, há a possibilidade de melhor se adaptarem as coisas às características e necessidades dos alunos da escola e da região, o que, obviamente, também contribui positivamente para a eficiência e eficácia desses mesmos processos de ensino-aprendizagem.

   Porém, há também um lado negativo: tal como na municipalização do ensino, se o processo decisivo for efectuado a nível local, corremos sempre o risco de subjugar demasiadamente o ensino àquelas que serão as actividades presentes na região (ainda que o limite dos 25% contrabalance isso um pouco), o que, embora possa facilitar questões laborais diversas, acaba por prejudicar a prossecução de muitos sonhos; um pouco em paralelo com isto, também aumentamos a diferenciação entre regiões, e, aliás, entre escolas, o eu só vem tornar (ainda) mais ridículo aquele aspecto – já de si bastante ridículo – de se aplicarem provas de aferição e exames para garantir a uniformidade dos conhecimentos dos alunos (no sentido em que é totalmente incongruente encetar algumas medidas para uniformizar e outras medidas para diferenciar…); por fim, como em todas as descentralizações, esta autonomia abre o caminho para que, havendo mais cabeças a pensar, haja mais cabeças a pensar mal, agravando mais ainda o problema que já havia de quase nunca nem sempre os decisores decidirem bem (mais a mais porque, calculo eu, sejam raros os casos em que a totalidade da comunidade escolar – alunos, funcionários, pais/encarregados de educação e professores, por ordem alfabética para não discriminar ninguém – vá ser verdadeiramente auscultada relativamente às decisões a tomar no âmbito do currículo, que, logicamente, também lhe dizem respeito e afectam significativamente a sua vida…).

   Assim sendo, parece-me que esta medida talvez venha estragar mais do que o que melhora. Flexibilizar currículos é bom, sim, mas total e não parcialmente, descentralizando as coisas a tal ponto de a decisão caber ao utilizador final (leia-se: do aluno) e não tanto no sentido de ficar nas mãos de figuras hierárquicas apenas um pouco mais distantes do poder central. Mas não vamos por aí, que só há mesmo um sítio onde iremos (ou, pronto, irei eu) parar…



   E foi isto. Talvez até tenha ficado uma entrada demasiadamente grande, peço desculpa por isso, mas, enfim, foi o que me deu na gana fazer. E eu gosto sempre de aproveitar a inspiração (quando vem), para que ela não me abandone tão depressa… Enfim, lirismos à parte, espero que não tenha sido totalmente desinteressante nesta minha abordagem e que tenham minimamente conseguido relacionar-se com o que escrevi; seja como for, não se acanhem, expressem a vossa opinião, de forma fácil e (se o desejarem) anónima, algures entre os comentários e os Contactos.

   Fiquem bem e até à próxima entrada…

5 de setembro de 2016

Poesia Contestatária II

   Caríssimos leitores, estendo até vós as minhas mais cordiais saudações, de novo, e, pelo título, saberão já que esta será mais uma entrada não em prosa. As minhas mais sentidas desculpas a quem ficar incomodado por isso, mas devo admitir que os temas me continuam a eludir, e, em vez de tentar desencantar alguma coisa para dizer, o que resultaria numa reflexão inútil e/ou desinteressante (pronto, mais ainda do que as restantes…), decidi recorrer ao estratagema já não inédito de há cinco entradas e colocar aqui um poema inútil e desinteressante, para, enfim, ter algo para dizer. Chama-se A Escola da Inutilidade e tem tudo a ver com o ensino, como não poderia deixar de ser.

A Escola da Inutilidade
Chega Setembro,
E ressoam os passos das crianças
Nas pedras da calçada:
Carnes jovens,
Mentes jovens,
Sangue fresco,
Marcham todos,
Em fila indiana,
Rumo à sua casa derradeira
No estabelecimento escolar mais próximo.
Lá dentro,
Simpáticos e sorridentes,
Os professores;
Cá fora,
Sorrindo e acenando,
Os pais.
E uns a puxar,
E os outros a empurrar,
Conseguem todos,
Finalmente,
Forçar de um modo amigável
As crianças a entrar na escola.

Sentam-se todos,
A bem,
Ou a ma1,
E, enquanto aprendem
As migalhas de conhecimento
Que, resignadamente,
Lhes querem dar,
Mal sabem
Que entretanto bebem
Um sem-fim de manipulações,
E, ao fim de uns tempos,
Já tão aturdidos estão
Que tomam a bebida por comida
E já nada mais querem,
E já nada mais perseguem,
E já nada mais procuram
Que as verdades que convém terem,
E não as que poderiam atingir
Se se desse o (infeliz) acaso
De saberem toda a enormidade de coisas
Que, desde sempre, lhes têm escondido,
Dizendo que é para depois,
Ou para mais tarde…

Mas eu digo que basta de ilusões,
Basta de joguinhos,
De sombras e de espelhos!
Basta de imposições arbitrárias,
De limites sem razão nem motivo,
De escolhas forçadas,
De abdicações forçadas,
Só porque as coisas são assim!
Digo que basta,
Sim, basta,
De “é a vida”,
De “é assim”,
De “sempre assim foi,
E sempre assim será”!
Nada é absoluto,
Nada é definitivo,
Nada tem de ser
Seja o que for que é!
Pois eu digo
Que é tempo de tomarmos das mãos dos outros
As rédeas que nos controlam os freios!
Pois eu digo
Que é mais que tempo
De pensarmos por nós próprios,
De agirmos por nós próprios,
E de pormos um ponto final
Nesta imbecilidade,
Nesta perversidade,
Nesta obscenidade,
Nesta calamidade,
Da escola da inutilidade…

E era isto. Obrigado por lerem (ou apenas por visitarem, mas já sabem que, se não tiverem lido, nunca saberão que vos agradeci…), as minhas desculpas, mais uma vez, a todos queles que não gostaram desta ruptura das temáticas e das formas habituais, e espero que nos reencontremos todos na próxima entrada, que, se tudo correr bem, será já em prosa…

24 de agosto de 2016

Da Obrigatoriedade Educativa

   Saudações a todos os leitores. Voltamos a encontrar-nos após uma pausa um pouco maior do que o que eu queria, mas a falta de inspiração e de temas que se costuma instalar no Verão fez-se sentir agora em força, o que quer dizer que, para grande desgosto meu, não será esta a entrada maravilha por que tanto assinava eu (e, não sei, mas, se calhar, vocês também). Seja como for, o que tenho a dizer não será inteiramente desprovido de interesse ou relevância, porque vou abordar aquele que é, ou que me tem parecido, um dos aspectos dos Mini-Ciclos de Leccionamento que mais dúvidas e questões levanta. Estou a falar, como o título indicia, da inexistência de qualquer tipo de obrigatoriedade na aprendizagem ao abrigo deste sistema de ensino.

   Começo já por dizer que entendo perfeitamente as razões que levam a que se defenda a existência de um certo grau de obrigatoriedade no ensino. Afinal, se o propósito de qualquer sistema de ensino é mesmo o de ensinar (conforme tenho vindo a defender desde a Fundamentação Metafísica do Propósito da Escola), para que se posa cumprir tal propósito, torna-se mais ou menos essencial que o aluno aprenda, e, como a natureza humana tende mais para a preguiça que para a realização de tarefas mais ou menos desagradáveis, mas mais ou menos necessárias, acaba por fazer sentido obrigar o aluno a aprender (não necessariamente de uma forma prepotente ou totalitária…), porque ele, naturalmente, não terá uma tendência assim tão grande para o fazer.

   Porém, devo confessar que discordo desta perspectiva. Além de um certo preconceito muito particular relativamente às obrigações em geral, sou levado a crer que o ser humano se socorre de um sem-número de estratégias e artimanhas para, sempre que possível, fazer prevalecer a sua vontade (não vou é debater até que ponto essa vontade será absolutamente livre e espontânea…), e, nesse sentido, se um aluno não quer aprender, ele inevitavelmente arranjará uma forma de não aprender; mesmo que se imponham verificações do conhecimento, de modo a garantir que o aluno terá de levar com a matéria de novo se não a tiver aprendido, em última análise, o aluno poderá sempre treinar-se e preparar-se especificamente para essas verificações e depois, uma vez passado, pôr tudo para trás das coisas. Quererá isto dizer, portanto, que todos os alunos são causas perdidas e que então não devemos tentar levá-los a transcender o seu natural e original estado de ignorância? Não, nem por sombras. Isto apenas pretende demonstrar que apontar-lhes uma arma à cabeça (com variados graus de literalidade…) e dizer “estuda!” não é exactamente a solução mais eficaz. E, diga-se de passagem, acarreta consigo um efeito secundário muito nocivo, que é o da desmotivação dos alunos (que é meio caminho andado para a não aprendizagem), face ao facto de serem obrigados a ouvir e a aprender matéria na qual não têm qualquer interesse (mesmo que lhes possa fazer falta posteriormente…).

   Assim, creio que todos podemos mais ou menos ver que, se calhar, obrigar os alunos a aprender talvez não seja assim tão produtivo para as suas aprendizagens, o que, embora pareça, à primeira vista, um grande contra-senso, começa a fazer cada vez mais sentido (pelo menos, para mim, começou…) à medida que se vai esmiuçando mais as coisas. Mas, bom, se obrigar não dá, o que podemos fazer? Bem, possivelmente, um milhão de coisas diferentes (se não mais…), mas acho que já conhecem a minha predilecção para analisar as coisas ao abrigo de um certo e determinado paradigma de ensino alternativo… pelo que já devem conhecer medianamente a minha resposta.

   Pois bem, ao abrigo dos Mini-Ciclos de Leccionamento, não temos, de facto, qualquer tipo de obrigatoriedade educativa, não só pelo facto de esta ser (ou, no mínimo, se me afigurar como) medianamente contraproducente para a eficácia da aprendizagem, mas também porque contradiria toda a filosofia de máxima flexibilidade que este sistema de ensino alternativo pretende seguir. No entanto, tal não significa que os alunos sejam pura e simplesmente deixados à solta, sem que haja a mínima atenção ou consideração para com a sua aprendizagem, e, portanto, colocados no rumo da ignorância. Antes pelo contrário, tenho fortes razões para crer que, ao abrigo dos Mini-Ciclos de Leccionamento, os alunos até aprenderiam mais e melhor (mas, como acho que já se aperceberam, não devo ser exactamente a pessoa pais imparcial para o aferir…).

   Acima e tudo, há um aspecto que nunca é de mais destacar: um dos principais desincentivos à aprendizagem (excluindo questões de ordem sócio-económica, questões essas que sistema de ensino nenhum por si só, conseguiria resolver, o que implica que, por mais infelizes e indesejáveis que sejam – que o são –, não se as abordará aqui por não se ter – ainda – uma alternativa mais ou menos viável… lá virá o dia, mas não será hoje…) é mesmo o conjunto de tarefas que, de uma forma ou de outra, vêm agregadas ao acto de aprender. E, se há algumas que são quase inevitáveis (ir às aulas, estar atento à matéria…), há umas quantas (e, acrescentaria eu, umas quantas das mais relevantes) que os Mini-Ciclos de Leccionamento eliminam: precisamente os testes, os trabalhos de casa e indesejabilidades anexas. Assim sendo, creio que temos, logo à partida, menos razões para que o aluno rejeite apender, o que é praticamente equivalente a haver mais razões para o aluno aprender.

   Para além disto, se o sistema de ensino (e, num certo sentido, toda a sociedade) estiver estruturado de forma a promover o conhecimento como ideal mais ou menos atingível (e não só uma coisa que se tem de ter, ou provar que se tem, porque assim mandam as regras e os regulamentos…), e se, complementarmente a isto, os membros da sociedade com que os alunos interagem mais frequentemente (na maioria dos casos, serão, sobretudo, os familiares e os professores, mas não importa propriamente quem sejam…) exercerem a quantidade certa de pressão e persuasão benfazejas no sentido de estimular os alunos a aprender, aguçar-lhes a curiosidade, levá-los a querer saber, mais motivos ainda haverá para que os alunos queiram estudar.

   Um pouco em paralelo com isto, e a modos que em contraponto com o sistema de ensino, a própria natureza do conhecimento humano e das tarefas que a organização social origina implica que haveria sempre uma espécie de soft obligation (não sei bem porquê, apesar de não apreciar grandemente os estrangeirismos gratuitos, não poderia ter deixado de usar esta expressão…) no que toca ao ensino, no sentido em que, com a possível excepção das tarefas… mais simples (que são, convém frisar, tão importantes e dignas de respeito quanto quaisquer outras, por menos que a organização sócio-económica actual o demonstre…), a grande maioria das tarefas acabaria por ter como requisito (entre outros mais específicos) um conjunto de conhecimentos básicos e essenciais para qualquer coisa (assim muito genericamente, os fundamentos da linguagem, da Matemática, do Funcionamento do Universo e dos Seres Vivos e da História e Cultura Humanas, ou seja, praticamente até ao caule da Árvore do Conhecimento). Isto, convém frisar, não seria característica nenhuma do sistema de ensino, seria apenas uma consequência natural da sua estruturação e da sua relação com aquele que hoje em dia é o mundo laboral. De qualquer das formas, se a estruturação social se mantiver mais ou semelhante à actual, temos aqui mais um incentivo para que se estude, no sentido em que, para se ter um emprego melhor (correspondente, em última análise, a uma tarefa mais bem vista pela actual organização social, que, grosso modo, acaba por corresponder a uma tarefa mais complexa, para a qual será necessária maior dose de conhecimento prévio, embora nem sempre…) e tudo o que daí advém, se teria de ter mais conhecimento.

   Com estes três aspectos, creio que poderemos, mais ou menos, concluir que, ao abrigo dos Mini-Ciclos de Leccionamento, haveria tantos ou mais incentivos para se estudar, com a vantagem adicional de a flexibilidade e ausência de obrigatoriedade permitirem que tudo corra de uma maneira mais fácil e natural. No entanto, não podemos negar que os alunos não são perfeitos e, sendo humanos, poderão sempre deixar-se levar pela preguiça, o que implica que nunca poderemos eliminar totalmente a possibilidade de escolherem não aprender (e, como disse antes, nem mesmo a imposição de uma obrigação de aprender o consegue fazer); isto é uma falha que, a meu ver, muito dificilmente se contorna, só se mitiga, e, nesse intuito de a mitigar, creio que os Mini-Ciclos de Leccionamento também se comportariam muito bem. Afinal, a flexibilidade que dão é também etária, o que implica que qualquer pessoa, em praticamente qualquer momento da sua vida, possa, se para tal tiver tempo e vontade, (re)aprender, assim permitindo-lhe colmatar eventuais falhas nas suas aprendizagens, o que reduziria o pendor definitivo das escolhas dos alunos, no sentido em que poderiam sempre voltar atrás e aprender o que antes não aprenderam, mas agora precisam de saber.

   Além disto tudo, há uma questão adicional que devo referir. É mais ou menos inegável que, sobretudo nas faixas etárias mais baixas, os alunos podem não estar propriamente capacitados para tomar as melhores decisões por si próprios (ainda que se possa pôr em causa se alguma vez alguém está verdadeiramente em condições de fazer tal coisa…); nesse sentido, esta flexibilidade, esta não obrigatoriedade de aprender, esta liberdade toda até que pode dar origem a uns quantos problemas. Porém, com uma rede de apoio suficientemente coesa (e competente…), entre familiares, professores e equipas de psicólogos especializados, creio que se conseguirá providenciar uma aconselhamento suficiente para se garantir que os alunos estão totalmente capacitados para agir da forma que lhes seja mais benéfica, independentemente de qual forma seja essa.

   Assim, tendo todas estas coisas que eu disse em consideração, acho que consegui justificar, espero que de forma minimamente satisfatória, aquela que, possivelmente, seria uma das principais questões em torno dos Mini-Ciclos de Leccionamento. Se, ainda assim, tiverem mais coisas a dizer, estejam à vontade para usar o espaço de comentários.

   Pela minha parte, nada mais tenho a dizer senão “adeus” e “até à próxima entrada”, pelo que… enfim… Adeus e até à próxima entrada!

30 de julho de 2016

Movimento Pela Dupla Ortografia do Português

   Caros leitores, saudações mais uma vez. Escrevo, por fim, após mais uma pausa essencialmente involuntária, provocada por um daqueles acessos de falta de inspiração que já tanto injuriei aqui. Mas, agora, felizmente, já não é assim, e retomo um tema fracturante da nossa sociedade e que está, como não podia deixar de ser, bastante ligado ao ensino: a (já velha) questão do novo acordo ortográfico.

   Já deve ser relativamente óbvio para todos vocês que não estou propriamente de acordo com o acordo, antes pelo contrário, e sei que, como é óbvio, não estou sozinho nesta opinião; por outro lado, não podemos negar que há gente do outro lado da barricada, que defende (abster-me-ei de dizer se com ou sem razão…) a manutenção do acordo ortográfico. Um pouco neste sentido, e também porque a (triste) realidade é que o divide et impera funciona e é usado mais vezes do que o que talvez se possa pensar à primeira vista, cheguei recentemente à conclusão de que talvez esta luta esteja a desviar energias de outras possíveis lutas, talvez mais relevantes para o melhoramento das condições de vida de todos (nomeadamente aquelas que passassem por alterar statūs quibus nefastos diversos…), e então senti-me levado a desenvolver uma estratégia que, permitindo, dentro do género, reaver a tão delapidada identidade linguística do Português, não nos deixasse à beira de uma guerra civil entre acordistas e anti-acordistas.

   Não me interpretem mal: discordo profundamente do acordo ortográfico (e já aqui o disse antes…), acho que desvirtua o Português, quer a nível estético, quer a nível etimológico, acho que tem o potencial de gerar mais erros do que os que pretendia corrigir e, sobretudo, considero que a sua aplicação deixa muito a desejar, em particular no sentido em que o período dito de transição, desde a sua implementação (não criação, que foi, como a própria designação do acordo o indica, em 1990, mas adopção como ortografia oficial, o que ocorreu, se não me equivoco, em 2009) até ao momento em que se tornou completamente inadmissível (e penalizável em exame…) a utilização da antiga grafia, foi demasiado curto, não permitindo que as gerações que aprenderam a antiga ortografia pudessem ser totalmente substituídas (sim, estou a falar dessa actividade indesejável que é o falecimento…) pelas que só conheceram a nova (o que é ainda mais grave e inadmissível no caso dos estudantes…). Porém, e por mais que isso me agradasse, pedir a total e completa reversão do acordo ortográfico neste momento, quando já há todo um conjunto de indivíduos que não conheceram outra grafia senão a nova, seria incorrer precisamente no mesmo erro e no mesmo totalitarismo que, para mim, tornam o acordo ortográfico ainda pior do que o que ele seria se apenas se tivesse em conta o seu conteúdo.

   Então, que fazer? Sei que muitos anti-acordistas mais ferrenhos já se estarão provavelmente a preparar para me chamarem “herege”, “traidor” ou algo de conteúdo semelhante (e, sinceramente falando, também me sinto vagamente inclinado a fazer o mesmo a mim mesmo…), mas di-lo-ei na mesma, porque considero ser a melhor via de acção para todos. O que temos de fazer é, pois, pugnar pela adopção simultânea das duas grafias.

   Sim, eu sei o que vão dizer. Vão dizer que isto gera uma desvirtuação adicional da nossa língua, vão dizer que se vai anular os benefícios de se regulamentar a ortografia (que seria mesmo haver um consenso na forma de escrever), vão dizer que se vai complicar a vida a professores e alunos, ao haver grafias alternativas para as palavras (mas, de certa forma, já havia: por exemplo, “imundice” e “imundície” são igualmente aceites, tendo o mesmo significado e praticamente o mesmo som, mas sendo ortograficamente distintas…), vão dizer que se abre um precedente grave no sentido de termos tantas ortografias alternativas quanto, enfim, nos dê na cabeça, vão dizer seja o que for; admito que esta solução não seja ideal, não tenho dúvidas em afirmar que não o é. Porém, não posso deixar de frisar que esta opção, como espero que seja relativamente óbvio para os meus leitores, traz paz e harmonia a todos, porque os acordistas poderão continuar com o seu (abjecto) acordo ortográfico e os anti-acordistas, como eu, poderão manter a sua (maravilhosa) escrita antiga, permitindo, ao mesmo tempo, que qualquer mudança de posição, para qualquer dos lados, possa gradualmente ser efectuada, sem que isso afecte grandemente os utilizadores da Língua Portuguesa (afinal, a própria língua vai evoluindo lentamente…). E, para além disto tudo, também será medianamente importante referir que esta dualidade de grafias não seria propriamente um caso único no mundo: se não me falha o exemplo, a Noruega possui (entre outras formas não inteiramente oficiais) dois sistemas de escrita, o Nynorsk e o Norsk Bokmål, e acho que se entendem todos relativamente bem (à parte uns conflitos mais antigos que modernos…). É certo que as diferenças entre os dois não são exclusivamente ortográficas, há questões gramaticais também, e é igualmente certo que o contexto linguístico e cultural da Noruega é diferente do dos países de língua oficial portuguesa, mas isto não deixa de demonstrar que é, de facto, possível a coexistência de grafias diferentes numa mesma língua. Claro, teria de haver uma certa adaptação do ensino a esse pormenor, mas, tendo em conta que o ensino da ortografia ocorre maioritariamente nas fases iniciais e que, posteriormente, o foco está na gramática (e esta, tretas da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário e do Dicionário Terminológico à parte, permaneceria inalterada), essa adaptação não seria muito significativa (talvez, até, pudesse haver a hipótese de indicar logo nas matrículas a grafia escolhida, e, com base nisso, seria tudo normal, sendo leccionadas as palavras com a ortografia escolhida); na pior das hipóteses, e por mais que me custe escrever isto, sendo o novo acordo a norma oficial agora, seria apenas leccionado este, podendo os alunos utilizar a antiga ortografia sem problemas, embora não lhes fosse directamente leccionada.

   Por isso, parece-me que a via de acção melhor, mais vantajosa e menos prejudicial será mesmo esta: em vez de se fazer movimentos e petições para se anular totalmente o acordo ortográfico e/ou para se consultar a vontade da população relativamente ao mesmo, devemos, todos, acordistas e anti-acordistas (e indecisos e indiferentes também), pedir para que ambas as grafias sejam oficialmente admissíveis. É certo que os acordistas não terão razão absolutamente alguma para lutar por isto, visto que a sua ortografia é a oficialmente sancionada, mas, peço-vos, consideram só este aspecto: seria uma alteração que em nada vos afectaria e que, ainda por cima, melhoraria a vida a todos os falantes da Língua Portuguesa que, ao contrário de vós, preferem a ortografia antiga; por outras palavras, ninguém sairia prejudicado. Por outo lado, os anti-acordistas poderão ver com maus olhos esta iniciativa, no sentido em que em pouco ou nada contribuiria para acabar com o acordo ortográfico de 1990, mas peço-vos, considerem este outro aspecto: desta forma, deixariam (deixaríamos) de ser párias e renegados, e poderiam (poderíamos) escrever, com toda a confiança, com todo o reconhecimento oficial, sem qualquer penalização, ao abrigo do anterior acordo, sem, para isso, mudar à força a grafia dos outros, tal como vos (nos) mudaram a grafia à força. Então, parece-me que só por má vontade é que não se fará isto…

   Assim, termino esta entrada com um apelo a todos os leitores, para que se crie e leve a bom porto um Movimento Pela Dupla Ortografia do Português.

   Até à próxima entrada…

20 de julho de 2016

O Fantasma da Preparação Para o Futuro

   Mui nobres e gentis senhores leitores, não é com grande satisfação que vos comunico que não será propriamente esta a entrada filosófico-argumentativa que pretendia fazer na sequência das minhas duas entradas da semana passada; é, ainda assim, um comentário, ou uma reflexão, ou uma constatação, que eu, enfim, considero minimamente relevante para aqui figurar.

   Todos nós que somos alunos (e, talvez em menor escala, mesmo aqueles de nos que já não o são) já nos defrontámos, de uma forma ou de outra, com o fenómeno que pretendo aqui abordar, e por isso não são necessárias grandes apresentações. Mas eu, verborreico como sempre, fá-las-ei na mesma.

   É mais do que frequente, durante o normal decorrer dos processos lectivos, haver um qualquer aluno que se queixa, por uma ou outra razão, da dificuldade das aulas em geral, ou de um seu aspecto em particular (não nos interessa, para agora, se com ou sem razão). E então, em consequência disso, o professor ou professora a quem a crítica fosse destinada, ou que acabasse por a escutar, não toma outra atitude senão a de responder, com toda a naturalidade: “Prepara-te, que quando chegares [ao próximo nível de ensino] vai ser pior!” E isto, se para alguma coisa conta a minha experiência pessoal, acontece em praticamente todos os níveis de ensino, o primeiro ciclo em relação ao segundo, o segundo em relação ao terceiro, o terceiro em relação ao secundário, o secundário em relação ao superior (e só não sei se dentro do superior há tais situações, mas isso dever-se-á muito provavelmente ao triplo facto de os alunos se queixarem menos abertamente, de os professores prestarem muito menos atenção a essas queixas e de os testemunhos a que até agora pude ter acesso não provirem, muito provavelmente, de alguém que tenha o mindset mais propício a dar tanto destaque a uma ninharia como esta quanto eu estou a dar agora…). O caso torna-se mais desagradável quando algum colega “bem-intencionado” reforça o aviso e/ou a ameaça por intermédio da narração de um qualquer episódio que tenha ocorrido a uma familiar ou amigo no nível de ensino em causa, mas deixemos isso de lado. Será, pois, este o tal “Fantasma da Preparação Para o Futuro” de que para aqui vim falar, e será precisamente este o objecto central das minhas reflexões.

   Independentemente da reacção natural de cada aluno a afirmações deste tipo, que poderá oscilar entre um nervosismo extremo e uma apatia voluntária (englobando, também, aquela rara – mas, para mim, deveras valiosa – atitude de criticar o sistema de ensino…), importará aferir, ou melhor, debater em que medida é que isto é vantajoso. Claro que constitui um aviso, potencialmente útil, para eventuais dificuldades futuras, mas, por outro lado, também acaba por ser uma justificação bastante conveniente para erros e injustiças. E já sabem já sabem o quanto gosto de erros e injustiças, não sabem? Enfim, há sempre aqueles casos em que uma acumulação excessiva (e decorrente mais de desatenção ou negligência por parte de quem os marca do que da necessidade absoluta de as coisas serem assim) de momentos de avaliação e trabalhos para entrega mais que urgente é, de uma maneria geral, branqueada pela afirmação de que, em fases posteriores do ensino, a acumulação é ainda mais intensa (mas ninguém se lembra nunca de destacar que o estado dos alunos, em termos mentais e sociais, é já diferente…).

   Por outras palavras, é pouco menos que idiótico expor os alunos às torturas e aos tormentos do futuro no presente; mesmo que a intenção seja a de os preparar para essas torturas e para esses tormentos, ou seja, mesmo que a intenção seja boa (e nem vale a pena complicarmos as coisas e dizermos que nem sempre o é…), não deixamos de estar, em essência, a antecipar as torturas e os tormentos do futuro para o presente, e, especificamente, para um presente no qual os alunos poderão não estar (tão) capacitados para os suportar.

   Mas, mais do que isto, este “Fantasma da Preparação Para o Futuro” acaba por traduzir, mais directa que indirectamente, a noção de que o ensino tem como propósito e/ou missão preparar os alunos para o futuro (bem… estava-se mesmo a ver, não se estava?). E isso, para mim, nem sequer está em causa: é indubitavelmente falso. Conforme a Fundamentação Metafísica do Propósito da Escola, o ensino deve ensinar (pois… eu sei…), ou seja, transmitir conhecimentos racionais, e isso não passa, de modo algum, por expor preparatoriamente os alunos aos seus potenciais sofrimentos futuros. Que o ensino, nos níveis mais baixos, transmita conhecimentos que possam servir de base a outros futuros, isso é consequência da própria estruturação do conhecimento (que talvez devesse ser revista, mas pronto…); agora, isso em nada contempla essa preparação para o futuro, que, por sua vez, em nada contribui para a transmissão de conhecimentos, que podemos admitir ser – e que eu considero convictamente ser – o propósito final do ensino. Mas irmos por aqui levar-nos-á a debater o próprio funcionamento do ensino, e isso só me levaria a apresentar uma certa e determinada proposta de sistema de ensino alternativo, que não é, de modo algum, para aqui chamada, e, então, para não nos desviarmos mais ainda do assunto, não vou prolongar esta linha argumentativa.

   Direi, em vez disso, que, se dúvidas houvesse relativamente à indesejabilidade deste “Fantasma da Preparação Para o Futuro”, e da inerente perspectiva de que o ensino tem como propósito preparar os alunos para o futuro, creio que essas dúvidas serão facilmente anuladas se considerarmos duas coisas, que apresentarei de seguida. Por um lado, se encararmos todas as fases do ensino como preparação para a(s) seguinte(s), só poderemos concluir que a penúltima será a preparação para a última, a antepenúltima será a preparação para a preparação para a última, a ante-antepenúltima será a preparação para a preparação para a preparação para a última, e por aí fora, numa matryoshka deveras ridícula de preparações (o que, em última análise, acaba por implicar que esta perspectiva é igualmente ridícula…); por outro lado, se atribuirmos ao ensino o dever de preparar os alunos para o futuro, idealmente, cada instante seria dedicado a essa mesma preparação para o futuro, e podemos facilmente verificar, sem grandes divagações filosóficas e/ou metafísicas, que esse tipo de focalização tende a desvalorizar bastante o presente, o que acaba por nos tornar infelizes e prejudica ligeiramente (só ligeiramente…) esse mesmo futuro para o qual tão ardentemente nos preparámos (o que nos levará a concluir que as consequências desta perspectiva não são tão positivas assim). Portanto, creio que isto demonstra medianamente bem que o “Fantasma da Preparação Para o Futuro” é um problema real que convém, se possível, eliminar.

   E era isto que tinha para dizer. Sei que não será exactamente um pináculo de eficácia argumentativa, ou o supra-sumo da profundidade das reflexões filosóficas, mas não deixa de ser um comentário relativamente útil para destacar mais um errozito, mais um problemazito, deste maravilhoso (pois, pois…) actual sistema de ensino.

   Enfim, se ainda andarem por cá, e ainda tiverem vontade de ler, até à próxima entrada…

11 de julho de 2016

Breve Apontamento Sobre Ética Educativa (e o Funcionamento do Sistema de Ensino)

   Caros leitores, tenho de dizer que a minha entrada anterior talvez não tenha sido a mais correcta, nem a mais enquadrada no âmbito deste blog. Podia, de facto, apagá-la simplesmente, mas também não tenho coragem nem vontade para o fazer. Em vez disso, senti-me levado a escrever uma nova entrada, agora em prosa, agora mais conveniente, sobre um curto raciocínio filosófico que entretanto vim a efectuar, relativamente ao papel que alunos e professores deveriam ter no âmbito da Educação.

   Na Fundamentação Metafísica do Propósito da Escola, já expressei mais ou menos as minhas perspectivas de que o ensino serve, ou deveria servir, para transmitir conhecimentos racionais; em maior ou menor escala, todo e qualquer sistema de ensino acaba por seguir esse princípio, e naturalmente que o actual sistema de ensino também. Por outro lado, também não podemos ignorar que todo o sistema de ensino tem como elementos centrais, com o estatuto simultâneo de principal cliente e principal matéria-prima, os alunos. Então, tendo tudo isto em conta, não será necessária grande ginástica mental para concluirmos que os alunos acabam por estar incumbidos do dever (medianamente metafísico) de adquirir o conhecimento que lhes é transmitido. Por outro lado, acaba por ser igualmente óbvio que os professores têm a função oposta e complementar à dos alunos: a de garantir a transmissão dos conhecimentos, acabando por ser, portanto, os agentes mais relevantes de que o sistema de ensino dispõe para atingir a sua finalidade.

   Estão, assim, dispostos os dois fundamentos desta “ética educativa” (termo escolhido mais pela sua sonoridade que pela sua exactidão), por mais discutíveis que possam ser. Admito que possa não estar a ser inteiramente imparcial (dadas as minhas perspectivas… muito particulares… em relação ao ensino), mas creio que estes dois aspectos são suficientemente óbvios para serem pouco discutíveis. E partindo, então, destas duas premissas (mas sem ir construir silogismo algum…), onde podemos chegar? Ora bem, se os alunos devem aprender e os professores devem ensinar, os procedimentos no seio do sistema de ensino devem estar de acordo com esses propósitos: as coisas devem ser feitas da forma que possibilite aos alunos a aprendizagem mais fácil e rápida possível e aos professores a liberdade de ensinarem da forma que mais pareça adequar-se à maneira de ser e estar dos próprios professores e dos alunos. Isto, claro, será muito mais fácil de dizer do que de fazer, mas parece-me lógico admitir que a principal solução passaria por uma redução dos constrangimentos estruturais e burocráticos em prol da liberdade de acção dos professores e da liberdade de escolha dos alunos.

   Mas não é bem por aqui que me interessa ir. O que eu queria verdadeiramente dizer (enfim, já sabem mais ou menos porquê…) é que, no intuito de dar seguimento ao duplo propósito de os alunos aprenderem e os professores ensinarem, há um aspecto do ensino que não deveria, de modo algum, ser central: a avaliação. Independentemente do quão (in)desejável é a avaliação (e já sabem que, para mim, é mais do que muito…), independentemente de se é necessária ou não para garantir que os alunos estão de facto a adquirir o conhecimento que lhes está a ser transmitido, independentemente de se temos uma forma boa de aferir esse nível de conhecimento ou não, não podemos, de modo algum, admitir que avaliar ou aferir o conhecimento é essencial ao normal decorrer do processo de transmissão e aquisição de conhecimentos. Ou seja, independentemente de revoluções e ideologias diversas, não me parece fazer sentido a avaliação ocupar um lugar tão central, tão estruturante, no sistema de ensino como ocupa hoje.

   Era, em última análise, isto que eu tinha para dizer. Sei que não é grande coisa, sei que é apenas a reafirmação do anteriormente afirmado, mas fui levado a registar os resultados desta reflexão que, apesar de curta, enfim, acaba por ser minimamente pertinente para a temática do blog (mais do que o poema!). Ainda não é bem a entrada que eu queria, mas espero conseguir uma coisa mesmo bem-feita, mesmo à maneira, dentro em breve. De resto, se não vos estou a enfadar terrivelmente, se não vos afastei já daqui com a baixa qualidade dos meus textos, estejam, como sempre, à vontade para expressar as vossas opiniões e as vossas perspectivas sobre o que escrevo, e mesmo que seja sobre outras coisas…

   Enfim, pela segunda vez hoje, até à próxima entrada…

Poesia Contestatária

   Cumprimento hoje os meus caros leitores com a plena noção de que estou, falando muito coloquialmente, a fazer porcaria. “A fazer porcaria porquê?”, poderão perguntar-se, e eu diria “Olhem para o título.” Este é, como espero que saibam, um blog sobre Educação, sobre mudanças no actual sistema de ensino, sobre, enfim, sobre os Mini-Ciclos de Leccionamento, não é para andarmos para aqui com tretas poéticas… Mas enfim, não tinha assim nenhum tema que me apetecesse mesmo abordar, e a minha consciência já me ditava há algum tempo que fizesse uma nova entrada, pelo que fui levado a ir buscar um poema que fiz há algum tempo (sim, admito, sou daqueles infelizes que também fazem poemas…), e que se chama, muito apropriadamente, Educação. Espero que vos apele minimamente, por mais discordante que seja das habituais convenções poéticas (mas isso é o meu estilo… já sabem que gosto de discordar de convenções, não sabem?), e por menos valor artístico que nele possam detectar (valor artístico esse que é francamente subjectivo, mas pronto). Ora aqui vem ele.

Educação
E pensar
Que entrei
Numa quase perfeita
Inconsciência
Nessas portas escondidas,
Não das ilícitas e carnais,
Mas das metafísicas e transcendentais,
Onde residiam o que julgava serem segredos ancestrais,
Mas que se revelaram como pouco mais
Do que meras mentiras originais,
Ensinando-me a esquecer,
Esquecendo-se de me ensinar,
Enquanto pretendiam ser
A melhor forma de se estar,
A melhor forma de se viver,
A melhor forma de se levar,
A melhor forma de acabar
Esta curta, tão curta, vida
Que, sendo nossa para dispor,
Fazemos de outros,
Fazemos voluntariamente de outros,
Só por lhes darmos a primazia
De definir a ilegítima regulamentação
Que comprime e constrange
E condiciona e conspurca
A nossa própria essência,
Mas a que todos chamamos
Educação…
Sim, como rebanhos, entramos,
Em turmas, em salas, em aulas,
Em trabalhos, em testes, em tormentos,
Tornando-nos instrumentos,
Tornando-nos meros instrumentos,
De planos e vontades e conluios alheios,
Aceitando, com a placidez resignada
Que só psicoactivos diversos nos concederiam,
Que nos moldem as mentes,
Que nos moldem as convicções,
Que nos moldem as impressões,
Que nos moldem os corações,
Para o que mais lhes convém,
Para o que mais lhes agrada,
Para o que mais nos reduz
Ao mero papel de servos,
De engrenagens partidas
Nesta maquinaria infernal,
Corroída até ao osso
Por séculos e séculos de ferrugem,
Aceitando, por isso,
Reduzir-nos a uma insignificância
Que nos atribuem mais do que nos atribuímos,
E recusando,  
Recusando terminantemente,
Reconhecer o nosso potencial de mudança.
Mas avançamos.
{Como soldados intrépidos
(Ou intensamente manipulados),
Marchamos, corajosos, contra o inimigo,
Contra um inimigo que, em vez de invisível,
Opta por ser inatingível,
Tornando-se todos os que vemos,
Tornando-nos todos ele,
Mas que nós vemos
Como o amigo simpático e bondoso
Que, de mão estendida,
Nos vem ajudar a levantar
Dos carris de comboio onde caímos
(Só para depois nos colocar no chão
E fazer de nós seu tapete),
Levando-nos para longe dessa morte
(Mas para mais perto de uma outra,
Morte de honra,
Morte de ideia,
Morte de pensamento,
Mais grave que a mera
Morte de corpo e alma
Que o comboio,
Que afinal é Destino e Natureza,
Guardava para nós),
Para um sítio quente e confortável
(Que afinal é só a sala dos fornos
Onde nos cozinhará, na grelha,
Para nos servir, como banquete,
Aos subalternos que traz para casa,
Subalternos que mandam quase tanto nele
Que parece que são eles que mandam nele,
Ainda que tudo isso
Seja só um mero estratagema
Para assegurar que é mesmo ele
Que manda nele,
E que manda neles),
Como um abraço maternal e carinhoso
(Só que a mãe dele não era mãe,
Era uma coisa muito pior que isso,
Rapariga latina,
Meretriz por gosto e lucro,
Sim, a mãe dele,
Dele, ou melhor, dela,
Sim, dela,
Porque o ele era ela,
Porque o ele era a sociedade,
A mãe dela,
A mãe da sociedade,
Era uma meretriz,
Uma vulgívaga,
Uma prostituta,
Uma pega,
Uma vaca,
Uma rameira,
Uma… Sim,
Todos sabem do que é que falo,
A sociedade é filha disso mesmo).
Então,
Avançamos,}
Suportamos,
Aguentamos,
Traçamos um rumo de futuro,
Um futuro arrumado,
Porque arrumados estamos todos nós
Por apenas seguirmos o mesmo rumo
Que todos nós,
E que todos os outros antes de nós,
Tiveram a ausência de espírito de seguir,
E suportamos as imposições que nos fazem
Como se de gentilezas se tratasse.
E não acordamos.
E não mudamos.
Mas alguém gosta disto?
Serei eu o único que olha,
Que olha em volta e vê
Que tudo está mal,
Que tudo deve ser mudado?
Sou eu o único que, dormindo,
Estou acordado?
Será esta minha
Quase perfeita
Inconsciência
Muito mais atenta
Que a vossa
Mal sustentada
Consciência?
Ou não?
Não sei.
Por enquanto,
Deambulo,
Deambulo no pensamento,
Porque não o posso fazer em mais lado algum,
Deambulo no pensamento,
Para me mostrar
(E, sub-repticiamente,
Para lhes mostrar,
E para vos mostrar)
Que sou diferente,
Que não me ajeito,
Que não aceito
Essa vossa maravilha,
Esta minha porcaria,
Essa vossa perfeição,
Esta minha ignóbil convenção,
Esse vosso paradigma,
Esta minha revolução,
A que vocês
(Eu é que não)
Chamam educação.

Nota: Caso se venha a dar alguma forma de declamação pública deste poema (pela parte da minha pessoa ou de qualquer outra), sugiro que, para melhor compreensão dos ouvintes, se omita o excerto delimitado entre chavetas, porque o seu sentido só é verdadeiramente apreendido quando lido e não quando ouvido…



   Sei que isto não agradará a todos os leitores (aliás, provavelmente até desagradará a muitos!), mas foi para aqui que estava virado. Enfim… critiquem à vontade, já sabem, e, se puderem e quiserem, sugiram-me novos temas, que isto está difícil…

   Bom, até à próxima entrada, que espero que seja já em prosa…

29 de junho de 2016

Assuntos Tripartidos

   Antes de mais nada, quero apresentar os meus mais sinceros pêsames a todos os alunos por aí e por aqui que tiveram o desprazer de realizar os exames nacionais; não poderia continuar a escrever se não o dissesse. Ora bem, pelo título, creio que já vos dei a entender, caros leitores, que esta não é uma entrada exactamente normal. Bom, no fundo, nenhuma o é, até porque a normalidade é um conceito unicamente artificial e arbitrário, mas esta segue um modelo completamente diferente das outras (o que não é, de modo algum, intrinsecamente negativo…), no sentido em que aborda em simultâneo (ou melhor, sequencialmente…) três temas que se revelaram relativamente relevantes no âmbito da educação nestes últimos tempos (e para os quais arranjei alguma treta para dizer, que é o mais importante…). Portanto, e se me permitem a heterodoxia estrutural (termo que, embora pareça, em nada está relacionado com questões religiosas diversas… é uma heterodoxia no sentido figurado…), teremos três subtextos de seguida, três análises que, admito, serão relativamente abreviadas, mas acabam por ser o melhor que se arranja. Ora aí vêm…



I – Da Ressalva do IAVE

   Pouco tempo antes de se iniciar oficialmente a época de exames, os mui nobres e gentis senhores do Instituto de Avaliação Educativa, vulgo IAVE, vieram tranquilizar as indubitavelmente inquietas multidões de estudantes prestes a realizar qualquer um dos exames com a muito preciosa ressalva de que não haveria surpresas e o grau de dificuldade iria ser o mesmo. Esta é precisamente a primeira coisa que quero abordar.

   Bom, num certo sentido, e se formos na já mais que velha cantiga de que os exames são bons e necessários et cætera, e que são um instrumento importantíssimo para avaliar o conhecimento dos alunos, é mais do que positivo que o grau de dificuldade se mantenha, para que a avaliação do conhecimento dos alunos seja mesmo o mais fiável possível, de modo a que, de ano para ano, não haja injustiças.

   Mas sejamos realistas: os exames não servem propriamente para aferir o nível de conhecimento dos alunos, conforme já aqui se provou inúmeras vezes, e vir o IAVE dizer que serão iguais aos anteriores é – como  me lembrei logo de dizer assim que vi esta comunicação – estarmos nós acorrentados numa cave, onde, de temos a tempos, uns loucos /sádicos/psicopatas/serial killers macabros/captores cruéis/seja o que for aparecem para nos torturar, e ter vindo um desses torturadores à porta, lá em cima, posto a cabeça de fora e anunciar-nos, num tom de voz simpático e relaxante: “calma, tenham calma, meninos, que a gente já vos vem torturar, mas são as torturas a que já estão habituados, está bem?” Completamente tranquilizador, não é?

   Esta minha metáfora (mais que) ligeiramente estúpida à parte, importa mesmo frisar que anúncios e informações destas… enfim… são dispensáveis. É que, por um lado, o grau de dificuldade de dois conjuntos de exercícios nunca é igual (a não ser que os exercícios sejam exactamente os mesmos e aqueles que os fazem também: a dificuldade resulta não só da tarefa efectuada, mas também de quem a efectua…), e, por outro lado, também se está, de certa forma, a condicionar previamente aquela que seria a apreciação, ou, mais correctamente falando, o parecer que as várias associações de professores viriam a fazer dos exames (que, diga-se de passagem, e sem ofensa para ninguém, tendem a não ser propriamente tão rígidos quanto o IAVE o é nos critérios de correcção… ainda que, por vezes, haja umas – bem necessárias, convém acrescentar – ferroadazitas!).

   Mas pronto. Já falaram eles, já fizemos nós, e dia 13 de Junho logo haverá mais gente a reflectir sobre o grau de dificuldade dos exames… O problema é que é sempre o mesmo: só contestamos, só nos mexemos, quando nos toca directamente a nós…



II – Da Defesa da Escola Pública

   Um pouco mais recentemente que isto, vários autores de blogs do âmbito da educação (eu não!) publicaram um manifesto que afirmava a sua luta, e pretendia exortar os leitores a lutarem também, em prol da escola pública, defendendo, também, a gratuitidade do ensino, a adaptação das escolas às necessidades dos alunos e das comunidades e outras coisas.

   Ora bem, já analisei anteriormente as questões do público e do privado, nomeadamente aqui, mas não me coibirei de dizer que esta questão, à parte politiquices e ideologias diversas, é mais um bom exemplo do divide et impera em acção, concentrando as energias de pais e professores (e, em menor escala, alunos) no confronto directo dos apoiantes da perspectiva oposta em termos de público e privado para mais facilmente se deixar passar os grandes erros, as grandes falhas do actual sistema de ensino.

   Todo o debate e toda a reflexão (e, logicamente, toda a controvérsia também…) acerca do ensino acaba por constituir mais uma oportunidade para que se detectem e corrijam os problemas de que padece o sistema de ensino, mas o problema é que esta questão rapidamente descamba num debate sobre política e/ou economia… É claro que cada um tem direito às suas reivindicações, e os que agem no intuito de melhorar as coisas (como provavelmente será o caso dos subscritores do manifesto) devem ser louvados, mas talvez não estejam a agir da forma mais adequada para o conseguirem…

   Assim sendo, diria eu que, mais do que defender a escola pública, há que melhorar a escola em geral. E já sabem como, não é? Mini-Ciclos de Leccionamento!



III – Dos Contestatários dos Calendários

   Chegámos ao tema final, que, por acaso, diz respeito a uma forma de contestação. Que novidade, não é? Mas, para variar, esta contestação é alheia e não minha: trata-se exactamente do facto de, assim que são divulgados os calendários de um novo ano lectivo, haver sempre gente que se manifesta negativamente.

   Não me interpretem mal: nada tenho contra qualquer forma de contestação (à parte aquelas que prejudiquem injustamente outros seres…), e, aliás, até acho que se deveria contestar mais, contestar mais coisas, contestar mais frequentemente… A minha única questão é mesmo o facto de, como também se passa no assunto anterior, essas energias contestatárias estarem, muito provavelmente (e, mais uma vez, sem ofensa para ninguém), a ser mal empregues. É claro que podemos – e devemos – sempre manifestar o nosso descontentamento para com qualquer decisão (sobretudo para com aquelas em cuja tomada não temos qualquer parte activa…), mas torna-se mais eficaz se lutarmos pelo direito de sermos nós a tomar essa decisão.

   Para isso, e neste caso em particular, creio haver essencialmente duas opções: ou se tenta tornar a elaboração do calendário do ano lectivo um processo mais democrático, em que os pais e encarregados de educação possam ter alguma coisa a dizer (juntamente com os professores e os alunos…), ou se tenta mudar o sistema de ensino para alguma coisa que que possibilite aos alunos e respectivos pais ou encarregados de educação uma muito mais flexível selecção dos períodos de férias. E, se este último caso traz consigo o inconveniente adicional (não me lixem… que raio de inconveniente é este?) de introduzir várias alterações (que tão bem sabemos serem necessárias) no status quo, o primeiro também não é propriamente ideal, porque, mesmo numa democracia, há sempre vozes discordantes, e, logicamente, não se acabaria com a contestação. Assim, acho que o caminho deve estar mais ou menos traçado, não? Mais uma vez, Mini-Ciclos de Leccionamento!

   Um pouco paralelamente a isto, surgiu, também, uma sugestão ou uma recomendação, por parte de associações diversas de professores ou de directores, se não me engano, para que se passasse a efectuar a avaliação semestralmente. E quase que poderia fazer todo um outro subtexto sobre isto, mas, tendo esta nova subdivisão proposta todo a ver com a estruturação temporal do ensino, enquadra-se bem aqui.

   Sinceramente falando, a minha primeira reacção quando soube disto foi: “Mas que raio?” Está bem, eu percebo que, matematicamente falando, e admitindo que se seguem, na íntegra, as fórmulas e as folhas de cálculo que tanta gente gosta de brandir como escudo e/ou arma de arremesso, o resultado final vai dar ao mesmo (porque a nota final terá, em princípio, em conta a totalidade do ano lectivo…), e também entendo a questão de alunos em vias de chumbo no segundo período ficarem desmotivados e não fazerem nada no terceiro, mas pergunto-me para que é que tal mudança serviria…

   Tudo bem que isto implica menos reuniões e menos burocracias, o que é sempre um aspecto positivo, mas, por outro lado, isto também pode reduzir o feedback professor-aluno, no sentido em que, não havendo notas do segundo período, pode ser mais difícil o aluno detectar se está a ter problemas em acompanhar a matéria, o que pode fazer piorar a sua nota final. Nota essa que, como digo várias vezes, não reflecte adequadamente o nível de conhecimento dos alunos, pelo que isto tudo se torna uma não questão, já que qualquer divisão da avaliação é estúpida, por também ser estúpida a própria avaliação, e o sistema de ensino ideal seria (pelo menos, para mim…) os (já muito falados nesta entrada, como em quase todas as outras…) Mini-Ciclos de Leccionamento, onde a desmotivação seria mínima e os anos lectivos se tornariam um conceito do passado…



   E pronto, é isto, é esta a heterodoxia estrutural que eu tinha prometido. Sei que não é nada de espectacular, mas dêem-me um bocadinho de tolerância… ou, se assim o preferirem, sugiram-me temas bons e interessantes para abordar…

   Seja como for, obrigado por terem passado por cá, fiquem bem, contestem sempre o mais que possam, e até à próxima entrada…

16 de junho de 2016

Sobre a Elitização do Conhecimento

   Caros leitores, nesta semana que marca o início da época do tormento ignóbil que são os exames nacionais (e contra os quais talvez valesse a pena, dentro do género, tentar lutar… não?), trago-vos uma entrada que, não sendo propriamente nada de muito inovador, constitui, na mesma, o que eu diria ser uma certa mudança de tom e de tema que talvez venha refrescar os ares aqui no blog. Está bem que não saímos das questões do ensino, mas vamos agora fazer uma análise um pouco mais reflectida e menos contestatária, de contornos (semi-)históricos e essência (semi-)filosófica. Espero que isso não vos incomode muito.

   Ora bem, o que é que eu quero dizer com isto da “elitização do conhecimento”, ainda para mais nesta época em que praticamente toda a informação do mundo pode facilmente ser acedida, premindo uns botõezinhos com letras em cima, ou arrastando os dedinhos por um ecrã? É (relativamente) simples: trata-se da tendência (já antiga, como vamos ver, mas ainda bem viva nos dias de hoje) de tornar o conhecimento, o verdadeiro conhecimento (portanto, não propriamente dados, mas a forma de os relacionar e interpretar), algo exclusivo de um grupo mais ou menos restrito de pessoas, grupo esse cuja maneira de ser e estar se consolida e perpetua com esse mesmo monopólio do conhecimento. Isto, no fundo, trata-se de mais uma manifestação da tendência conservativa e auto-perpetuante das sociedades (neste caso em particular, correspondentes aos grupos detentores do conhecimento, embora estes, por usa vez, também se encontrem subjugados aos interesses e intuitos da sociedade mais vasta, mais abrangente, que, naturalmente, engloba esses grupos e os restantes cidadãos…), e, nesse sentido, é algo vagamente expectável, pelo que não devemos ficar demasiado espantados por acontecer. Mas já sabem como sou e como penso: esse mesmo facto não nos pode levar a pura e simplesmente aceitar que as coisas sejam assim.

   Não vale a pena entrarmos nas questões dos segredos de estado, das informações confidenciais e da espionagem, porque, além de, no fundo, se tratar de informações e não de conhecimentos (que, sem filosofias transviadas, terão um carácter “operativo”, ou seja, de raciocínio e/ou noção de como fazer, e não um carácter meramente “indicatório”, de mera constatação de um estado de coisas, como têm as informações), introduz um nível de complexidade adicional, pela vasta gama de factores que os influencia e determina (e também pela sua génese e natureza maioritariamente extra-ensino, o que leva a que fujam quase completamente ao âmbito deste blog). Nesse sentido, a esmagadora maioria dos casos que restam para analisarmos (e descontando as situações de elitização de eventuais conhecimentos metafísicos e/ou transcendentais, que entra já no domínio das sociedades secretas, da religião, da fé – e, eventualmente, da charlatanice…) diz respeito, em maior ou menos escala, ao ensino, e aos vários tipos de estruturas académicas que formam construídas a partir dele ou em torno dele.

   O ensino, ou a transmissão de conhecimentos, remontará muito provavelmente às primeiras comunidades humanas. É mais do que óbvio: as gerações mais antigas, que mais experienciaram do mundo, transmitiam as suas experiências e as suas técnicas de sobrevivência às gerações mais novas, assim garantido que a comunidade continuaria activa – e viva. Neste sentido, mesmo que haja uma acumulação do conhecimento, total ou parcialmente, num grupo mais ou menos pequeno, não fará sentido falar-se de elitização do conhecimento, porque esse grupo estava tudo menos interessado em manter esse conhecimento só para si.

   Isto correu tudo muito bem enquanto as comunidades eram pequenas e a transmissão podia ser mais ou menos directa, mas, à medida que a densidade populacional aumentava e que as tarefas se tornavam cada vez mais específicas, passou a haver problemas: pela natureza simultaneamente gregária e facciosa do ser humano, os indivíduos que se dedicavam a uma tarefa específica acabaram por se juntar, gerando um grupo mais ou menos fechado e mais ou menos estanque, que mantinha em si os segredos do ofício em causa. Logicamente, só entraria nesse grupo aquele que fosse digno de representar a classe dos profissionais em causa, e essa dignidade só se atingia após alguns (bastantes…) anos de aprendizagem e experiência. E isto, com mais umas situaçõezinhas aqui e ali, com mais umas burocracias, umas formalizações e umas leis, originaria aquilo que viriam a ser, pelo menos cá na Europa, as guildas (passou bastante tempo entretanto, é claro; isto foi um processo gradual e não instantâneo…). Se este tipo de organização trazia a grande vantagem de consolidar e (eventualmente) estimular o melhoramento dos conhecimentos, também era francamente elitizado, já que subir na hierarquia da coisa (o que traria consigo aceso a conhecimentos cada vez mais “preciosos”) não era propriamente imediato…

   Só que falar disto assim é calar, entre outras coisas, um aspecto bastante relevante, num período, aliás, em dois períodos históricos bastante interligados, e de grande importância para o desenvolvimento desta sociedade dita ocidentalizada (terá certamente havido outros semelhantes para outras culturas, mas, quer pelo público-alvo de tudo isto, quer pela própria abrangência dos meus conhecimentos – ou falta dela –, vou resumir-me a estes dois aspectos, de modo a não cometer mais erros históricos do que os que já possa ter feito); acho que será mais ou menos óbvio do que é que falo: dos filósofos da Antiguidade Clássica e dos humanistas do Renascimento. Nestes dois períodos, como os leitores provavelmente saberão, houve literalmente dois picos na liberdade de acesso ao conhecimento, havendo, dentro do género, abertura para discutir livremente uma vasta gama de assuntos (um pouco menos, talvez, no caso de Renascimento, mas, ainda assim…). Bem, não obstante toda esta liberdade, também não podemos deixar de pensar que, no fundo, ainda se verificava uma certa elitização do conhecimento, no sentido em que, na maioria dos casos, acabava por ser necessário pertencer a um determinado grupo social e ter um determinado tipo de atitudes e mentalidades para verdadeiramente ter a possibilidade de procurar e adquirir os conhecimentos… sobretudo quanto temos em conta o analfabetismo mais do que frequente nos estratos menos privilegiados da sociedade… mas isto também já é ser maldizente…

   Historicamente falando, falta ainda falar do elefante na loja de porcelana (ou na sala, se formos mais anglo-saxónicos…): a questão da religião. Em maior ou menor escala, consoante a cultura e a sociedade em que se insere, a religião, com o seu papel aglutinador e estabilizador da estrutura social (no melhor e no pior sentido…), acaba sempre por desempenhar um papel relativamente determinante nestas questões da elitização do conhecimento (e da própria transmissão do conhecimento em si). Por um lado, se estimular (ou, pelo menos, não impedir) a inovação e a renovação do conhecimento, naturalmente que conduz a uma maior disponibilidade do conhecimento (com a eventual – e já abordada – particularidade de, mesmo assim, só alguns o poderem atingir), mas, por outro lado, se fizer a apologia da manutenção do conhecimento, da confirmação do anteriormente confirmado, enfim, da evolução da continuidade, será bastante expectável que, mais tarde ou mais cedo, o conhecimento acabe por ficar nas mãos de um grupo restrito de pessoas (para garantir que nenhuma – ou quase nenhuma – mente mais livre, menos disposta a manter a estabilidade, pega nesses conhecimentos e desata a desconstruí-los…), elitizando-se, portanto.

   Mas pronto, os leitores talvez já se estejam a perguntar, ou talvez já se tenham perguntado, “a que propósito é que vem esta porcaria toda?”. Pois bem, creio que não será preciso um grande esforço de raciocínio para nos fazer ver que o presente é consequência do passado, e, nesse sentido, de modo a melhor analisarmos (e, sim, pronto, criticarmos) esse presente, convém estarmos cientes do que foi esse passado.

   E, no caso particular do sistema de ensino português, e basicamente em toda a sociedade ocidentalizada, não podemos, de modo algum, ignorar aqueles que são as suas raízes, que residem precisamente nas tradições escolásticas medievais. E, como é sabido, estas tradições escolásticas inserem-se precisamente num contexto religioso que era profundamente conservativo (enfim, sem querer ofender ninguém… esta questão das religiões é sempre espinhosa, convém ter sempre muito cuidado e deixar sempre bem presente esta ressalva: a de que não pretendo, de modo algum, ofender, criticar ou desdourar a fé de ninguém…), gerando, por isto, este já tão repetidamente mencionado fenómeno da elitização do conhecimento. Eventualmente, esta tradição escolástica deu lugar à académica, com a fundação das primeiras universidades e tudo o mais, mas, durante um grande período de tempo (alvitraria eu que até ao século XVIII ou XIX, com o advento do iluminismo, do liberalismo ou de uma outra ideologia nessa veia mais aberta, mais transparente, mais progressiva), esteve sempre fortemente dependente de e fortemente condicionada por questões religiosas diversas, mantendo, portanto (e nem sei bem porque estou a repetir tanta vez esta mesma expressão…) o conhecimento elitizado. E, por mais que as alterações sociais (será sempre relativamente debatível se serão progressos ou não, pelo que não lhes atribuirei esse epíteto) possam ter intervindo entretanto no intuito de reverter essa elitização do conhecimento, nunca se deixou de verificar essa tendência, que, em última análise, se estende até aos dias de hoje.

   É claro que não é a religião a (única) culpada disto: como comecei por dizer, a elitização do conhecimento é consequência da própria natureza do ser humano e da sociedade; no entanto, e acho que também me estou a repetir aqui, não é por as suas origens serem perfeitamente compreensíveis que a elitização do conhecimento é desejável. O conhecimento é, em última análise, uma coisa imaterial, construída como que a partir do nada, e, nesse sentido, será muito pouco razoável reivindicar a posse ou o domínio desse mesmo conhecimento, até porque (questões experimentais diversas à parte…) acaba por não ser necessário despender recursos para o originar.

   Independentemente disto, ou melhor, paralelamente a isto, sou levado a admitir que tenho estado a ser dogmático ao afirmar pura e simplesmente que a elitização do conhecimento ainda se verifica na nossa sociedade, sem dizer como, onde e porquê. É claro que, no que toca ao ensino obrigatório (básico e secundário), só por má vontade se diria que elitizamos o conhecimento, já que até se obriga os alunos a adquirir esse conhecimento (quer o queiram, quer não…), e, de resto, sendo as coisas como estão e estando as coisas como estão, o autodidactismo está ao alcance de praticamente qualquer um. O problema está quando temos em conta questões científicas, ou, de outra forma, académicas, (vistas como) de maior profundidade; podemos admitir que é frequente a adopção de um vocabulário, de um discurso ou, genericamente, de uma forma de dizer as coisas que dificulta (quando não impossibilita mesmo) a total compreensão aos “não iniciados” no assunto em causa.

   É claro (acho eu… but one can never be too sure when it comes to human beings…) que isto não surge de um esforço consciente, voluntário, concertado, maquiavélico no sentido de minar a compreensão dos outros (aliás, diria mesmo que muitos tecnicismos e muitas questões formais aparentemente confusas até que têm uma razão muito lógica para existir… mesmo que pudessem ser, pelo menos nalguns casos, evitados…), mas temos de reconhecer que gera uma situação bastante análoga aos paradigmas de Kuhn: para se estar em condições de se adquirir os conhecimentos (eventualmente para os desconstruir e melhorar…), é quase que obrigatório passar-se por um processo de aprendizagem que, em grande medida, incute aos alunos a forma de ser e estar daqueles que, até então, eram os detentores desse conhecimento, o que conduz, em última análise, à estagnação dos conhecimentos (porque essa forma de ser e estar, na maioria dos casos, acaba por envolver a aceitação e defesa de conhecimentos que praticamente se passou a ter como absolutamente verdadeiros) e da sociedade (porque se continua a manter o grupo restrito de conhecedores, que conduz ao famigerado divide et impera que é tão responsável pela ausência de alterações…).

   Portanto, fazendo um ponto de situação: a elitização do conhecimento é má, e temos elitização do conhecimento. Logo, as coisas estão más, o que quer dizer que temos de as corrigir. Importará, então, saber como. A própria natureza dos conhecimentos que o ser humano tem vindo a adquirir, nas mais diversas áreas, e as limitações psico-fisiológicas de cada indivíduo ambas implicam que seja extremamente difícil atingir o conhecimento quase total no âmbito de uma dada área do conhecimento (pior ainda se for em várias…), e muito menos sem instrução prévia; nesse sentido, há sempre uma certa dose inevitável de elitização de conhecimento, que, sendo inevitável, não conseguiremos nunca eliminar. Mas há uma coisa ou outra que ainda podemos fazer: tentar diminuir (e eliminar) a questão das elitezinhas académicas, enfim, aquele síndroma do “ó’ p’ra nós que somos alunos universitários” (que passa também por aquela resposta estúpida e repetitiva do “não se queixem, que na universidade será pior” a tudo quanto seja contestação aos exames, não sei se sabem do que falo…). Por outras palavras, há que acabar com a abrupta clivagem entre aquele que é o mundo académico-científico, sempre intrinsecamente ligado ao ensino superior, e aquele outro que, por exclusão de partes, não posso dizer senão ligado ao ensino “inferior”. E como se faria isto? Com um progresso mais natural e contínuo do conhecimento, com as matérias separadas, etc. Já estão a ver onde quero chegar? Mini-Ciclos de Leccionamento!

   Não me interpretem mal em nada do que disse: tenho o máximo respeito pelo conhecimento, qualquer que ele seja (já que, e podem sempre aproveitar-se desta frase, o conhecimento é tudo e tudo é conhecimento), e não duvido do seu valor; semelhantemente, respeito e louvo inteiramente o a força de vontade e o espírito de sacrifício daqueles que se esforçam para o atingir; só não penso o mesmo dos seres humanos que fazem gosto em alardear que são seus detentores, ou das instituições que têm a pretensão de afirmam ter como missão, intuito e propósito transmiti-lo…

   Enfim, se isto foi ainda mais chato do que o costume, peço desculpa, mas apeteceu-me variar um pouco… Não sei, mas, pronto, se se sentirem metafisicamente inspirados a tal, podem sempre rebater todas as tretas coisas que eu para aqui disse, usando, com esse propósito, o espaço de comentários aí em baixo. Ou também podem não as rebater. É convosco.

   Eu, pela minha parte, pouco mais terei a acrescentar, (medianamente) concluído o raciocínio, (totalmente) concluída esta entrada… Direi, apenas, que vos dirijo os mais cordiais cumprimentos, e que é com essa mesma cordialidade que me despeço, até à próxima entrada…

7 de junho de 2016

Das Perspectivas Educativas

   As minhas mais cordiais saudações a todos os leitores. Como talvez tenham mais ou menos adivinhado, ou assim não tanto, enfim, apesar das duas entradas de há duas semanas, tenho andado um pouco falto de temas. Já conhecem bem o fenómeno, a inspiração transviada, a mistura pouco explosiva mas muito nociva de excesso de vontade de mudar o actual sistema de ensino e de falta de vias de acção imediatas para mudar o actual sistema de ensino, e tudo o mais, e tudo isto a resultar em entradas… da treta. Como esta. Enfim, no meio das nenhumas opções que tinha, esta que me surgiu pareceu ser a menos má: vou falar-vos de uma certa tendência que desde há algum tempo tenho vindo a verificar, em tudo quanto seja debate ou reflexão sobre o ensino, e que é a de se estabelecerem duas facções, ou duas correntes de pensamento, com ideias e tendências aproximadamente opostas.

   De um lado, temos aqueles a que, sem ofensa para os referidos ou para os referentes, gosto de chamar (semi-)humoristicamente “hippies educativos”. É aquele grupo de pessoas que defende uma visão holística para o ensino, ao abrigo da qual se deveria dar primazia à cidadania, às preocupações ambientais, ao trabalho em equipa, à criatividade, à aquisição e/ou ao desenvolvimento de competências pessoais, à resolução de problemas e a coisas afins, tudo isto com aulas mais livres, com uma relação aluno-professor mais directa, tendo o aluno tendencialmente maior autonomia para definir o seu currículo em consonância com o professor e/ou havendo grupos de trabalho mais ou menos individualizados, em que vários alunos com interesses/tendências/capacidades semelhantes trabalham uns com os outros para aprender. Será, pois, algo mais ou menos no seguimento da Escola da Ponte.

   Do outro lado da barricada, estão aqueles a que, com espírito e intenção semelhantes (e, portanto, também sem querer ofender), tenho por hábito chamar “burocratas totalitários”. De uma maneira geral, são aqueles que insistem na santidade dos valores do trabalho, do empenho e da dedicação dos alunos, bem como no valor inalienável, absoluto e absolutamente obrigatório do rigor, da rectidão, da exigência e da objectividade, defendendo, por isso, um sistema de ensino bastante semelhante ao actual, em que tudo são notas, testes, exames, avaliações, medidas, números, cobrindo todas as eventuais falhas na argumentação ou na própria ideia com a sempre falaciosa (mas sempre utilizada) referência ao (aparentemente incontornável) facto de todos sermos avaliados ao longo da vida, ou uma qualquer barbaridade semelhante.

   Os leitores que me perdoem por não ter tido a imparcialidade necessária para não deixar transparecer o facto de esta última corrente me parecer muito mais errada, ou, no mínimo dos mínimos, muito mais prejudicial do que a primeira, mas também devo dizer que, como sempre, não me enquadro propriamente em nenhuma delas. Já sabem porquê, não é? Ou não? Enfim, não sei se vos interessa, mas, pronto, vou partir do princípio que vos interessará minimamente, porque, caso contrário, faria pouco sentido ter escrito isto tudo…

   Bom, antes que deambule demasiado por estas vias do pensamento negativo, vou retomar o tema. Independentemente dos possíveis argumentos a favor de cada uma das perspectivas (que eu até poderia tentar dar, se não se desse o caso de sofrer da grande falha que é não conseguir argumentar em prol daquilo em que não acredito), não podemos negar que, em ambos os casos, há um fundamento muito lógico para ambas as atitudes. Por um lado, para que todos possamos conviver em sociedade, torna-se mais ou menos essencial que sigamos um certo conjunto de regras e princípios, e, nesse sentido, percebe-se que se os queira transmitir de uma forma mais ou menos garantida e sistematizada, via sistema de ensino; o problema é que há uma linha muito, muito fina entre instrução benfazeja e condicionamento quase orwelliano… e também não nos podemos esquecer de que, no fundo, o propósito do ensino é a tal história de ensinar, leia-se transmitir conhecimentos racionais, e não propriamente o de educar, isto é, transmitir valores e conhecimentos/capacidades mais subjectivos. Por outro lado, também se percebe que se queira garantir que todos os alunos efectuaram as aprendizagens que deveriam ter efectuado, para que não haja falhas de conhecimento que os possam prejudicar em aprendizagens e/ou tarefas futuras; o problema é que, conforme já disse mais vezes do que as que me apetece contar, os testes e os exames e essas tretas todas não reflectem adequadamente o nível de conhecimento dos alunos, e, além disso, avaliar umas matérias em particular em nada contribui para as ensinar melhor, já que o ano continua e vêm mais matérias pela frente. Assim, em ambos os casos, podermos dizer, ou direi só eu porque sou só eu que estou a escrever isto, que se está a tentar fazer uma coisa boa, mas não pelos meios mais apropriados. Então, o que poderemos, ou deveremos, fazer?

   Para mim, a resposta é clara: simultaneamente alterar radicalmente o actual sistema de ensino de modo a implementar os nossos amigos Mini-Ciclos de Leccionamento, ao abrigo dos quais só se veria reconhecido que se aprendeu uma matéria se, de facto, se a tiver aprendido na sua totalidade (assim seguindo a intenção original dos “burocratas totalitários”), e, com base nisso, fazer com que o sistema de ensino ocupe uma menor porção do tempo dos alunos, levando a que tenham mais tempo de convívio e de interacção com os mais diversos elementos da sociedade, assim potenciando a transmissão – até de uma forma mais natural – dos valores e dos princípios essenciais à coexistência pacífica com os restantes seres humanos, bem como as competências de socialização, de cidadania, de criatividade e tudo o mais (satisfazendo, assim, as preocupações dos “hippies educativos”). E isto, pelo menos, para mim, afigura-se-me como uma terceira corrente, uma terceira postura, que, na mesma veia pouco cómica dos nomes anteriores, poderei dizer ser a dos “revolucionários de bolso”, porque, no fundo, será isso que somos, todos nós (sejamos quantos formos…) que acreditamos nesta questão dos Mini-Ciclos. Mas nada melhor que uma revolução de bolso para melhorar o mundo!

   Pronto, já sei o que vão dizer. “Tanta coisa para ir dar ao mesmo. Mini-Ciclos de Leccionamento para aqui, Mini-Ciclos de Leccionamento para ali, este gajo não sabe falar de mais nada!” Bom, não vos posso contradizer: vou sempre parar aos Mini-Ciclos de Leccionamento, de facto, e reconheço que até parece que não sei falar de mais nada. E, se calhar, até nem sei. É que, se me perdoam a convicção, não encontrei, até agora, uma alternativa melhor, ou mais agradável, ou mais funcional (pelo menos, na minha projecção mental das coisas) que os Mini-Ciclos de Leccionamento, e, nesse sentido, sou levado a defendê-los e a promovê-los sempre que posso. Se, algum dia, chegar à conclusão de que há uma alternativa melhor, então, passarei a defendê-la tão acerrimamente quanto defendo os Mini-Ciclos, mas, até ver, não desistirei deste esforço de mudança. E peço-vos a vós, leitores, que também não desistam de tentar mudar o mundo para melhor!

   Até à próxima entrada…

27 de maio de 2016

Alterações e Inovações nos Mini-Ciclos de Leccionamento

   Os habituais cumprimentos a todos os leitores, sejam eles também habituais ou assim não tanto. Um pouco para contrastar com o tom excessivamente demagógico e superficial da minha entrada anterior, estamos aqui reunidos não para celebrar um qualquer matrimónio, mas para debater, se não se importarem de o fazer, eventuais alterações ao paradigma dos Mini-Ciclos de Leccionamento, nomeadamente umas que surgiram em debate com alguém que talvez esteja a ler isto, ou talvez não, não sei, bom, enfim, alterações que dizem respeito às questões dos exercícios na plataforma.

   Para aqueles que não leram, ou que, enfim, não têm tão bem presente, o texto dos Mini-Ciclos, há a tal questão de, idealmente, a verificação do conhecimento dos alunos (não é uma avaliação) ser efectuada por intermédio de uma plataforma on-line, que verificaria as respostas logo ali et cætera. Ora, a questão é que, conforme a pessoa que despoletou toda esta questão me fez ver com o que disse, impor um conjunto fechado de exercícios seria bastante limitativo para a liberdade pedagógica dos professores (e, acrescentaria eu agora, geraria um ensino ainda mais maquinizado do que o que temos hoje, no sentido em que a forma de pensar dos alunos seria ainda mais moldada para o tipo de raciocínios exigidos pelos exercícios “oficiais”). Então, temos de acrescentar mais um grau de complexidade a esta questão (por si só, já complexa) da plataforma.

   A ideia seria que cada professor pudesse propor os seus exercícios, sem mais dificuldade que a de os escrever ou criar e depois submeter. Esses exercícios ficariam, então, numa “zona de testes” (trocadilho não intencional…), à qual só os professores poderiam aceder, para serem sujeitos a modos que a um peer review, ou seja a uma revisão pelos pares. Por outras palavras: os professores com conhecimentos para isso iriam verificar se os exercícios em causa se coadunam com o que seria suposto testarem. Depois, uma vez revistos e aprovados um número suficiente de vezes (será discutível quantas, mas, não sei, 5? 10?), passariam a poder ser utilizados em contexto de aula, consoante o professor que a desse os seleccionasse (já agora, a revisão pelos pares mais ou menos impede que um professor menos bem intencionado lixe os alunos ao seleccionar apenas exercícios com um grau de dificuldade exagerada e cruelmente elevado). Claro, haveria sempre a hipótese de professores e/ou alunos reportarem exercícios que lhes pareçam desadequados, e esses exercícios reportados regressariam à “zona de testes” para serem revistos e, se necessário, corrigidos.

   Adicionalmente, faria todo o sentido se se dedicasse uma parte do horário dos professores (digamos, meia hora, ou uma hora, ou coisa que o valha) precisamente à revisão de exercícios, no sentido de garantir a maior quantidade possível de exercícios disponíveis, com a maior qualidade possível. Outro aspecto que talvez não seja, de todo, descabido é a hipótese de se propor os exercícios sob a forma de um framework, de uma template, de um (raios partam estes estrangeirismos!) modelo que indicasse à plataforma, através de condições, listas, fórmulas ou quaisquer outras artimanhas de programação, várias hipóteses de valores, opções ou situações (ou seja o que for que seja necessário) para se construir o exercício (bem como, claro, chegar à sua solução…). Por exemplo, para um exercício que pretendesse aferir a capacidade de resolver equações do 2.º grau, seriam dadas indicações no sentido de escolher a, b e c (em ax²+bx+c) de modo que b²–4ac não fosse negativo (isto, claro, se se pretendesse trabalhar exclusivamente com números reais…).

   Seria, então, isto. Como sempre, estejam à vontade de dizer o que acham e o que pensam, no espaço de comentários aí em baixo, e, se a isso estiverem dispostos, podem até dar mais sugestões, quer nesse mesmo espaço de comentários, quer através dos meios indicados nos Contactos.

   De resto, daqui me despeço, até à próxima entrada, se conseguir achar um tema conveniente (espero que sim!)…