Mostrar mensagens com a etiqueta Diversos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Diversos. Mostrar todas as mensagens

10 de maio de 2016

Do Público e do Privado

   As minhas mais calorosas saudações a todos vós, caros leitores. Espero que não tenham passado despercebidas a nenhum de vocês as notícias que ultimamente têm surgido relativamente às questões do ensino público versus ensino privado, e da cessação dos contratos de associação. Este é uma tema inerentemente muito politizado, e isso demoveu-me, durante algum tempo, de escrever sobre ele, mas ao ver que estava a ser tão falado, não resisti a fazer uma entrada sobre isto. Provavelmente, já venho um pouco tarde, porque o tema talvez já esteja a perder destaque nos media, estando a ser substituído por outros de maior relevância (ou talvez até nem tanto…), mas isso pouco me importa… Por isso, caros leitores, e se não vos incomodar muito o meu desfasamento, prosseguirei para uma (moderadamente superficial) reflexão sobre todas as questões em torno do ensino público e privado e das relações entre ambos.

   Antes de mais, convém destacar que a minha apolitização (voluntária) implica que me absterei de tecer quaisquer comentários relativamente à desejabilidade ou indesejabilidade da decisão de cessar os contratos de associação (ainda que seja sempre importante frisar que é de suprema importância que os alunos em nada saiam prejudicados, ou seja, que não vejam a continuidade da sua aprendizagem ser interrompida por uma mudança de escola forçada; é certo que também há outros factores que causam mudanças forçadas de escola, mas isso, sendo igualmente indesejável, não pode justificar mais indesejabilidades…), e, por outro lado, a temática específica deste blog (e o facto de ainda não ter elaborado nenhum paradigma social alternativo de uma forma suficientemente pormenorizada e sistematizada para o poder apresentar) também me obriga a não exprimir qualquer tipo de opinião relativamente à desejabilidade ou indesejabilidade da existência de coisas públicas e de coisas privadas per se, in abstractum (perdoem-me a vaga de latinismos…).

   Já antes aqui falei do Negócio do Ensino, ou seja, do facto de, em última análise, o actual sistema de ensino ter uns quantos aspectos que servem mais para alimentar determinados nichos económicos que para seguir aquele que é, ou deveria ser, o seu principal propósito, o tal de ensinar (eu sei que digo sempre o mesmo, mas nunca é de mais frisar aquilo que é óbvio, mas foi esquecido…). O ensino privado não foge a essa regra: a não ser nos casos em que estejam ligadas a iniciativas filantrópicas e/ou solidárias, parece-me lícito assumir que todas as escolas privadas têm como principal (não direi “único”, mas acho que anda lá perto…) propósito dar lucro. O que, convenhamos, no actual paradigma social, até que nem é mau: mais circulação de dinheiro faz, pelo menos em teoria, crescer a economia, o que gera mais circulação de dinheiro, e por aí fora, num ciclo mais ou menos positivo e benfazejo; o problema é que nem todo esse lucro retorna à economia (há bolsos que se enchem e contas em locais mais ou menos longínquos e exóticos que se alargam…), mas isso é outra história…

   Por outro lado, no ensino público, esse propósito lucrativo não é tão preponderante (poder-nos-íamos questionar acerca da questão do preço das folhas de teste, de impressos diversos com fins burocráticos diversos e dos pedidos de inscrição e de revisão de exames nacionais, mas nem vale a pena ir por aí…), mais que não seja porque o ensino público nada mais é que uma pseudo-divisão de uma pseudo-empresa mais abrangente, que é o Estado, que, esse sim, já pretenderá ter lucro (ou melhor, balanço positivo em termos de receita e despesa, o que não é exactamente o mesmo, mas é suficientemente parecido para ser quase igual…). Mas, claro, o ensino público (e também o privado) contribui indirectamente para outros lucros: das editoras, das papelarias, das áreas comerciais que possam vender material escolar…

   Pronto, tudo isto para dizer que é perfeitamente compreensível que, ao abrigo do actual paradigma social, os estabelecimentos de ensino privado sejam negócios e não instituições ao serviço da comunidade. Mas agora, será isso desejável? Eu… diria que nem por isso. É que, independentemente de questões legais diversas (a Constituição Portuguesa, a Declaração Universal dos Direitos do Homem e outros documentos de cariz e carácter semelhante), poderemos todos concordar que ensinar é benéfico não só para o ensinado (porque adquire conhecimento, o que é bom – o actual sistema de ensino é que tende a torná-lo mau, mas não vou por aí, porque já sabem onde é que isso vai dar…), mas também para a sociedade em que este se insere (porque cidadãos com mais conhecimentos podem, à partida, tomar decisões melhores e, eventualmente, desenvolver mais ideias para melhorar a sociedade, embora o conhecimento não seja condição necessária nem suficiente para nenhuma destas coisas), e isto implica que ensinar é um serviço que prestamos a todos. Portanto, pode-se dizer que o ensino privado acaba por ser, na maioria dos casos, fruto de uma atitude a priori (mais um latinismo; desculpem lá, mas parece que hoje embiquei para aí…) errada, que é a de ver o ensino como uma oportunidade de prestar um serviço a alguém (cobrando-lhe por isso) e não a todos (logicamente, sem lhes cobrar).

   Mas, enfim, não se pode propriamente dizer que venha grande mal ao mundo só por causa disso… Teoricamente falando, e tendo em conta o actual paradigma social de mercado livre (que me absterei de classificar como “certo” ou “errado”), faria sentido que qualquer um pudesse abrir as escolas que quisesse, desde que, para isso, cumprisse os requisitos legais, tivesse o pessoal necessário e dispusesse dos meios financeiros para manter tudo a rolar, garantindo-se, também, que os alunos dessas escolas estariam em pé de igualdade, em termos de conhecimentos e capacidades, entre si e relativamente aos alunos das escolas públicas. E é aqui que está o principal problema. Se os privados (não sei bem em que proporção, mas diria que de uma maneira geral) tendem a ter melhores condições, melhores professores e melhores apoios (o que, teoricamente, se traduziria em melhores resultados), isso é mais falha da escola pública (e, inerentemente, do Ministério da Educação e do Estado) do que culpa dos privados, mas, por outro lado, havendo dinheiro envolvido (e, por vezes, em quantias não tão insignificantes assim…), nunca se poderá descartar a hipótese de favorecimentos indevidos, o que, mesmo sendo, por vezes, mais estigma que facto (até porque deverá haver, algures, instituições idóneas…), não deixa de ser fonte de potenciais desigualdades de circunstâncias. Muitos diriam que é aqui que entram os exames, mas a esses direi que é (relativamente) fácil efectuar-se um treino específico para se ter melhores notas (não nos esqueçamos de que, na maioria dos casos, as escolas privadas terão mais facilidade em arranjar salas, professores e horários para apoios diversos, chegando a ter, segundo creio, segmentos do horário dos alunos pré-designados para isso), e também que há sempre a hipótese de fraudes e auxílios teoricamente ilegais durante o próprio exame (isto é mais especulativo que comprovado, mas talvez haja algum fogo por detrás deste fumo…). Mas pronto. Se não houvesse notas que se pudessem falsificar nem exames para defraudar, não haveria estes problemas, e estaria, assim, reposta a igualdade. E, se me perguntarem a mim, o melhor seria mesmo os Mini-Ciclos de Leccionamento (desculpem, mas, mais uma vez, não resisti…), e, aí, talvez se pudesse saltar mais ou menos livremente entre público e privado, ou talvez a relação entre ambas algo mais exótico, que agora não posso imaginar.

   Partindo, então, do pressuposto de que ensino público e privado estão em pé de igualdade (o que, ao fim e ao cabo, é um grande prossuposto de se partir…), só por muito má vontade diríamos que os alunos (e/ou respectivas famílias) não poderiam ser livres de escolher entre escolas públicas e privadas, desde que, claro, houvesse disponibilidade financeira para tal. Nesse sentido, se se der o caso de, numa dada região, a rede de escolas públicas não ser suficiente para suprir as necessidades locais (seja pela baixa oferta, seja pela elevada procura…), seria perfeitamente lícito que se recorresse à rede de escolas privadas para colmatar as falhas, desde que isso não representasse um encargo adicional para as famílias, até porque a educação deve ser tendencialmente gratuita e tal. E, ou muito me engano, ou isto correspondia aos contratos de associação.

   Mas a questão é que isto não deve ser visto como uma solução permanente, mas sim temporária, porque (precisamente por a educação dever ser tendencialmente gratuita e tal), acaba por ser o dever do estado garantir que todos os cidadãos têm acesso a uma escola, e, nesse sentido, a forma mais eficiente (economicamente falando) de o fazer deverá passar por ser o próprio governo a criar e suportar todas as infra-estruturas necessárias, o que corresponde a manter a rede de escolas públicas. Assim sendo, o que se fez, que foi fechar escolas públicas e depois pagar aos privados para terem os alunos, não é, de todo, o mais desejável, até porque, se não estou equivocado, ficou-se a pagar mais aos privados do que se pagaria pela mesma turma no público. Está bem que as escolas privadas, pelas suas especificidades intrínsecas, são capazes de ter mais custos de funcionamento, mas também não me posso impedir de perguntar até que ponto não houve abotoamentos, ou seja, presentes (e não falo daquilo que os cães fazem) a certas e determinadas pessoas, que ocupam certos e determinados cargos, para decidirem de uma certa e determinada forma… Mas isto já é política, e não vale a pena irmos por aí.

   Mas também não podemos ignorar uma potencial objecção, relativamente relevante, à inexistência do ensino privado, ou, pelo menos, de escolas independentes do Estado. É que, independentemente de teorias da conspiração diversas, não podemos descartar nunca a possibilidade de se utilizar o ensino como instrumento de manipulação e condicionamento mais ainda do que agora é, e, nesse sentido, deixar tudo nas mãos do Estado (que, nessa possível distopia, seria a fonte primária e o principal beneficiário dessa manipulação e desse condicionamento) é acelerar, se me permitem o exagero lírico, os seus nefastos planos. Mas não nos iludamos: também não é tão difícil assim chegar a um gentlemen’s agreement com os possíveis donos das possíveis escolas privadas no sentido de garantir que a manipulação e o condicionamento também aí ocorram…

   Outra questão que se torna difícil de evitar é a dos apoios estatais às famílias que, por opção, pretendam pôr os seus filhos a estudar nos privados, mas que, na mesma, são taxadas para (entre outras coisas, claro…) assegurar a educação dos filhos, e não recebem qualquer benefício disso. Uns colmatam as falhas dos outros, e tudo o mais, mas percebe-se que possam reclamar o direito de escolher a educação dos filhos e ser ressarcidas do que lhes foi indirectamente cobrado, para uma despesa que, para elas, é perfeitamente desnecessária. Eventualmente, poder-se-iam sugerir várias soluções, desde as mais simples, como seja o estado contribuir com o mesmo dinheiro que gastaria com os alunos em causa na pública para pagar, em parte, as mensalidades da privada, até às mais complexas, como criar um qualquer outro sistema de contribuições que também tenha em atenção o uso que se faz dos serviços públicos, mas isto já tem demasiado a ver com alterações do paradigma social e, como disse, isso é uma coisa que, pelo menos aqui, pelo menos por agora, não quero abordar.

   Então, depois de tudo isto, em que é que ficamos? Haver públicos e privados é bom ou mau? Diria, se me permitem a ambiguidade e inconclusividade, que depende muito das circunstâncias, mas também que essa distinção é, em última análise, marca e consequência da actual organização da sociedade, que, possivelmente, não será, por si só, inteiramente livre de erros, pelo que, à semelhança do actual sistema de ensino, talvez esteja a precisar de umas quantas alterações… Talvez um dia debateremos isso, mas não será hoje…

   Então, despeço-me, sem mais assunto, sem mais vontade, sem mais inspiração, até à próxima entrada…

30 de abril de 2016

Das Escolhas Mais ou Menos Atribuladas

   Saudações a todos meus leitores. Espero que estejam todos bem desde a última vez em que nos encontrámos (mesmo que eu, dessa vez, não soubesse se estavam, ou não, bem, tal como agora não sei…). É uma coisa vagamente importante de se manifestar, o desejo de que tudo esteja bem com as pessoas com quem contactamos (e com todas as outras também, mas, a essas, torna-se impossível manifestar esse desejo…), ainda que seja mais ou menos uma futilidade que nos desvia do assunto. Que, diga-se de passagem, hoje também não é nada de jeito. Como ultimamente tem sido costume… Perdoem-me a falta de inspiração e de temas, e, como já me fartei de dizer, estejam à vontade para me transmitir quaisquer sugestões ou críticas que possam ter no intuito de melhorar estas minhas entradas.

   Ora, hoje, por razões e perspectivas que nada interessam para aqui, senti-me levado a fazer algo um pouco diferente, num tom um pouco mais pessoal, mais íntimo, e não no estilo pseudo-filosófico, pseudo-argumentativo, que habitualmente adopto (e que, no fundo, é apenas chato…). Tenho, naturalmente, algumas reservas em derramar o conteúdo do meu interior para aqui, indiscriminadamente, pelo que também não será algo tão íntimo quanto isso, e também não sei até que ponto estarão interessados no que tenho para dizer (algo me leva a prensar que talvez um pouco mais do que nas habituais paredes de texto mais ou menos enormes, por vezes excessivamente confusas, outras vezes pouco relevantes, e espero que não esteja errado…). Em suma, não esperem daqui uma grande exposição filosófica da treta, mas também não esperem uma página de um diário. Será, se assim o quisermos ver, um desabafo, contido, é certo, mas um desabafo ainda assim. Sei, ou melhor, suspeito que alguns de vós se poderão relacionar com ele, e, em parte, é por isso (e, portanto, por vós) que o faço.

   Todos nós estamos, no nosso dia-a-dia, habituados a fazer escolhas. “Vou pela esquerda ou vou pela direita”, “visto a camisola verde ou a castanha”, “como um pastel de nata ou um bolo de arroz”, “marimbo-me para o teste e vou fazer outra coisa qualquer que mais me agrade ou vou empinar aquela porcaria toda”, e muitas outras mais, que enfrentamos com frequência no nosso quotidiano, muitas vezes sem sequer repararmos nisso. Se fosse outro que não eu, diria que é um facto inevitável da vida, mas há uma parte de mim que rejeita toda e qualquer inevitabilidade (e o que aqui direi transparece isso mesmo…), pelo que direi, apenas, que se trata de um facto muito recorrente e, de uma maneira geral, muito chato. É que, independentemente da questão de a decisão ter sido a mais acertada (porque isso, além de ser muito relativo, é muito difícil de se determinar a não ser algum tempo depois – e mesmo assim a causalidade natural e o inerente efeito borboleta poder-nos-iam pregar partidas…), optar por uma coisa tenda a impedir que se dê seguimento às outras, e isso é ainda mais chato. É claro que isto nem sempre é preocupante (se se levar a camisola verde hoje, pode-se levar a castanha amanhã, sem qualquer problema), mas há situações em que pode determinar toda uma vida, como é o caso do ensino.

   Da forma como hoje em dia estão organizadas as cosias, deparamo-nos frequentemente com essa obrigação inescapável de escolher uma via de futuro, um curso, uma área de especialização, o que tem como consequência precisamente o facto de impedir, ou, pelo menos, dificultar, que se sigam as restantes. É claro que, da forma como a sociedade está hoje organizada (e, num certo sentido, já deste das primeiras comunidades de hominídeos), a distribuição de tarefas é indispensável e, nesse sentido, o generalismo de pouco ou nada serve, e, aliás, a própria natureza do conhecimento humano dificulta bastante que se saiba tudo sobre todas as áreas, mas, se é inegável que todos os indivíduos têm uma tendência natural para certas matérias/tarefas, que os torna mais bem-sucedidos aí do que nas restantes, é igualmente inegável que essa tendência nem sempre é para uma área restrita e bem-determinada. Não é, de todo, impensável que alguém tenha, por exemplo, uma afinidade natural para com tudo quanto seja Química Orgânica e, ao mesmo tempo, também tenha igual queda para História (e não falo no sentido em que ambas podem estar relacionadas, falo mesmo delas enquanto áreas distintas). Assim sendo, faz pouco sentido que os indivíduos sejam, a dado ponto, forçados a abdicar de uma das suas facetas pura e simplesmente por causa de limitações/deficiências organizacionais de um qualquer aspecto da sociedade (que, neste caso em particular, é, mais uma vez, o ensino).

   Portanto, forçar a escolha é mau. Percebe-se que há recursos limitados, que um aluno não pode estar em dois sítios ao mesmo tempo (vamos, para propósitos de simplificação, ignorar as complexas questões do funcionamento quântico do Universo, está bem?), mas não podemos, prevendo essa possibilidade de haver uma impossibilidade técnica, impor constrangimentos a priori, que impedem que, havendo possibilidade de seguir as duas, o aluno tenha, na mesma, de optar por uma só via (e vemos isto um pouco por todo o lado: na escolha de línguas estrangeiras, já desde o 3.º ciclo, nas áreas e nos cursos do secundário, e em toda a pletora de divisõezinhas do superior…).

   Tenho estado a ser repetitivo, admito isso (ao mesmo tempo que também admito ser demasiado preguiçoso para voltar atrás e corrigir e reformular tudo… espero que tenham a capacidade de me perdoar por isso…), mas, com tudo o que disse, queria, apenas, frisar que, independentemente das condicionantes que levam à necessidade de se escolher, ter-se de o fazer é mau, é indesejável, porque, em última análise, nos obriga a abdicarmos mais um pouco de nós (e, se me permitem o lirismo, abdicarmos de nós é morrermos mais um pouco em vida). Mesmo que haja quem consiga ter uma boa ideia do que quer/pode/melhor consegue fazer, e, por isso, tenha a escolha facilitada, também há quem tenha o grande problema de não fazer a mínima ideia daquilo em que é competente, ou em que teria mais possibilidades de ter sucesso, e isso só dificulta mais ainda a escolha, porque voltar atrás, se não impossível, torna-se custoso (o mais provável é perder-se todo um ano…).

   E, se isto fosse uma entrada normal, seria este o momento indicado para promover os Mini-Ciclos de Leccionamento enquanto forma ideal de garantir a máxima liberdade e as mínimas perdas resultantes de qualquer escolha, mas, não sendo esta uma entrada normal, não o farei (ainda que, indirectamente, o tenha feito… irónico…). Aproveitarei, em vez disso, para vos pedir desculpa por esta entrada de porcaria, que nem é íntima, nem argumentativa, nem lógica, nem coerente, nem clara, nem perceptível, nem nada… Raios partam a minha inspiração transviada!

   Enfim, já escrevi de mais para apagar tudo… Assim sendo, espero que estas minhas faltas de inspiração não vos estejam a afastar, caros leitores, e a retirar de vós qualquer noção que pudessem ter da possibilidade de se mudar o actual sistema de ensino… Posso andar só a escrever porcaria, mas não desisti, e espero que vocês também não, de me esforçar para tornar o mundo melhor…

   Pronto, fiquem bem, olhem para os dois lados ao atravessar a estrada (e para baixo, não vá haver um buraco onde possam tropeçar…), desculpem-me esta entrada parva e até à próxima.

14 de março de 2016

Anúncio: Revisão do Texto dos Mini-Ciclos de Leccionamento Concluída!

   Boa noite a todos os leitores. Após algumas semanas de intenso esforço e dedicação, pude finalmente terminar a revisão do texto dos mini-ciclos de leccionamento, com que me comprometi numa entrada anterior. Caso estejam curiosos para saber do que se trata, poderão encontrar o texto no sítio do costume:

http://porumnovoensino.blogspot.pt/p/blog-page_27.html

   Agradeço a vossa compreensão pela minha ausência, mas reformular aquilo tudo demorou um pouco mais de tempo do que o que eu esperava… Enfim, cá estarei, cá andarei e espero fazer uma nova entrada, agora mesmo a sério, em breve. Assim, até à próxima e não se esqueçam de comentar, se assim o entenderem!

24 de fevereiro de 2016

Comunicação Actualizante (Ou Actualização Comunicante)

   Sei que já lá vai algum tempo desde que escrevi aqui alguma coisa. Admito que sim. Mas, felizmente, não tem sido por falta de inspiração (quando muito, por falta de tema… mas até nem por isso…). É que tenho andado mais ou menos ocupado a remodelar o texto principal dos Mini-Ciclos de Leccionamento (o tal que acaba por, em última análise, servir de base a todo este blog), de modo a torná-lo marginalmente mais compreensível. Porque, convenhamos, estava (e, aliás, ainda está) mais do que um pouco confuso…

   Só que, para grande desgosto meu, ainda não acabei essa revisão. Esperava que, por esta altura, já o tivesse feito, mas não. É pena… Enfim, só vos queria, caros leitores, deixar aqui esta informação, e a garantia de que a minha ausência não provém de qualquer desistência, doença, falecimento ou condicionamento (ou qualquer outro inconveniente mais ou menos desagradável de natureza semelhante) que me possa ter acometido nestes últimos tempos, mas sim dessa minha tentativa de rever o texto.

   Assim sendo, o propósito desta entrada está concluído… Resta-me desejar a todos um bom período de tempo até à próxima entrada (que não definirei com maior precisão: não me atreverei a definir uma data específica para o fim da minha revisão… ficará a vaga noção de que espero que seja em breve…), e uma boa contestação ao actual sistema de ensino, que é, como bem sabemos (ou como bem deveríamos saber), bem urgente, bem necessária, mesmo que bem difícil. Mas não fraquejemos e não paremos de lutar pelo melhoramento do que está errado!

9 de fevereiro de 2016

Do Físico e do Mental

   Leitores, se me permitem que me dirija logo assim, de chofre, a todos vós (tenho sempre uma certa tendência a pensar que são mais do que o que são, pelo que talvez, para grande desgosto meu, nem sequer se qualifiquem para um “todos”…), tenho de vos pedir as costumadas desculpas pela costumada ausência. Espero que não tenham dado muito pela minha falta (e, ao mesmo tempo, espero que tenham dado pela minha falta, porque isso significa que ligam pelo menos minimamente às baboseiras que para aqui escrevo…); caso se queira saber, ou caso não se queira saber, fui retido pelos habituais afazeres escolares, sempre enfadonhos, sempre indesejáveis e sempre prolongados… Vá lá que, por agora, há esta pequena folga, que acaba por permitir pôr em dia os assuntos em atraso. No meu caso, será a escrita e a contestação ao actual sistema de ensino…

   Por falar nisso, hoje até que nem escolhi um tema assim tão bom nesse sentido… mas foi o que me surgiu… e a escrita tem, para mim, uma forte componente intuitiva, pelo que forçar outro tema daria ainda um pior resultado. Aliás, o tema, em si, até que possui uma mistura potencialmente útil de pertinência, incomunidade (desculpem-me o termo bastante obscuro e francamente inventado…), polemicidade e possível teor filosófico, mas é mais uma reflexão do que uma crítica. Espero que não se importem…

   Ora, talvez já saibam que me aproximo bastante do estereótipo do marrão. Não é desejável que haja tais generalizações, mas o que é certo é que as há e, no sentido de melhor contextualizar o que vos vou dizer, fica aqui a informação (que, por acaso, até só me ofenderia a mim, pelo que não há grandes problemas com isso…). Sendo eu, então, um marrão, também possuo a grande falta de aptidões motoras que caracteriza essa pretensa faixa da população estudante (um sub-grupo cultural estudantil? Um estrato educacional? Não sei como lhe hei-de chamar…), em mim exacerbada numa certa falta de apreço pela actividade física. Mas, como é óbvio, há quem se encontre no lado diametralmente oposto do espectro (será o caso do leitor que está a ler isto neste momento?) e que, por isso, defenda até ao último suspiro a causa da actividade física.

   Nem vale a pensa entrarmos por grandes discussões quanto a quem tem razão, porque são ambos e não é nenhum: se, por um lado, a prática desportiva é essencial para a saúde do indivíduo, é igualmente certo que faz pouco sentido exigir, por imposição do sistema educativo, a quem levará a sua vida toda a desempenhar tarefas mentais que adquira, contra a sua vontade, conhecimentos e capacidades físicos. Percebem onde quero chegar? Ambas as partes têm razão e, se há quem insista, justamente, para que a Educação Física ganhe maior importância, nomeadamente no que toca a médias diversas, outros há que amaldiçoam, justamente, a inclusão dessa disciplina nos programas do ensino secundário.

   Tradicionalmente, e por toda a lógica, eu pertenceria a este último grupo, mas, como espero que já saibam, tenho sempre uma tendência incontrolável para ser a favor do contra… Sendo que, este caso, isso se traduz na habitual defesa de um paradigma alternativo de ensino que, pela subdivisão das matérias em ciclos de leccionamento mais curtos, confere maior liberdade e flexibilidade na selecção dos conhecimentos a adquirir; sim, já sabem, falo dos Mini-Ciclos de Leccionamento. Ora, não querendo incorrer na lengalenga do costume no sentido de evidenciar a quase panaceia que este sistema de ensino seria, vou, em vez disso, dizer mesmo que este sistema seria quase uma panaceia, ajudando, inclusivamente, a resolver, ou melhor, a tornar desnecessária esta questão.

   Está-se mesmo a ver: consoante o seu desejo (e mediante a aquisição de eventuais conhecimentos anteriores…), qualquer aluno poderia (ou não) adquirir conhecimentos relativos à prática de actividades físicas. Mas, convenhamos, não seria exactamente saber as regrazinhas, ou andar a correr de um lado para o outro com a bola na mão/no pé/no stick/seja onde for, não: seria de uma forma mais sistematizada, mais profissional, do que é hoje, ensinando mais aprofundadamente tácticas e técnicas diversas, eventualmente dando umas bases do funcionamento anátomo-fisiológico do corpo dos atletas e afins, sempre no sentido de transmitir conhecimento (o que fazer, como fazer e por que raio se faz como se faz); em suma, seria manter a parte do Física e aumentar a parte da Educação, fazendo, também, uma eventual ligação à competição desportiva mais “oficial” ou “profissional”. Mas, claro, tudo isto sem nenhum grau de obrigatoriedade.

   É certo que isto pode ser a modos que um incentivo ao sedentarismo, mas, convenhamos de novo, por um lado, quem é verdadeiramente sedentário não faz muita coisa em Educação Física (leia-se, sem ofensa, arranja formas de se escapar a fazer as coisas…), por outro lado, não serão umas poucas horas semanais que restituirão a saúde (sobretudo quando, nessas aulas, há demasiados alunos para o professor os poder auxiliar e incentivar convenientemente, e quando também há erros crassos de planeamento e execução da parte do professor, como seja a omissão de aquecimentos…) e, por outro lado ainda, é das minhas mais profundas crenças que uma actividade desempenhada voluntariamente o é muito melhor do que se for forçada, pelo que talvez funcione melhor educar e sensibilizar as pessoas para a eventual necessidade da prática de exercício físico nos seus tempos livres do que obrigá-las a praticá-lo em tempos não livres (convém, também, garantir que têm tempo para o fazer sem prejuízo das suas restantes actividades, coisa que, para os alunos, os Mini-Ciclos de Leccionamento também garantiriam…).

   Além disto, e ainda no âmbito das eventuais actividades menos intelectuais e mais físicas, há um facto vagamente incoerente que não posso deixar de destacar: no ensino, à excepção dos aparentemente vilipendiados e desprestigiados (vá-se lá saber porquê… e isto não é, de modo algum, ironia, porque nenhum conhecimento é mais ou menos digno do que outro) cursos vocacionais (se não for bem esta a designação oficial, peço aos meus leitores que me perdoem o arcaísmo; há sempre a evolução linguístico-burocrática, que torna praticamente impossível estar minimamente actualizado), são quase literalmente ignoradas certas actividades físicas que, não sendo directamente do âmbito desportivo, têm, na mesma, uma complexidade inerente que lhes cria a necessidade de serem leccionadas. Falo, portanto, de coisas como a mecânica (não no sentido do estudo das leis físicas que regulam o comportamento macroscópico dos corpos, mas no sentido do termo mecânica em “mecânica automóvel”, ou seja, no sentido da construção, manipulação e reparação de objectos e maquinarias diversas), a electrónica, a própria actividade laboratorial, a cozinha, entre muitas outras. Mesmo que haja, de vez em quando, um projectozito aqui ou ali, um workshop, uma iniciativa, ou um curso mais ou menos dedicado numa instituição mais ou menos dedicada a esse âmbito, no cômputo geral (não gosto muito desta expressão, mas era a que mais aqui se adequava…), é-lhes dada uma relevância praticamente nula.

   E isso, a meu ver, não faz qualquer sentido. Não podemos excluir conhecimentos só porque sim, só porque calha. Há que garantir a maior oferta possível, para salvaguardar a liberdade de escolha e, em última análise, para não cortar metaforicamente as asas a ninguém. Aliás, estes conhecimentos, de um domínio manifestamente prático, até têm uma utilidade social mais imediata do que os mais teóricos, pelo que a sociedade (por mais que muitos dos seus aspectos não sejam assim tão desejáveis…) até que fica a ganhar com isto…

   Assim, a inclusão destes conhecimentos na árvore dos módulos será, então, recomendável. Tudo isto permite chegar a uma conclusão que não ficou propriamente muito explícita no texto dos Mini-Ciclos de Leccionamento e que é a de que, na globalidade das matérias leccionadas, os conhecimentos mais teóricos, os conhecimentos mais práticos e todos os outros pelo meio estariam dispostos em relativa igualdade de importância, consoante, claro, as dependências e os prosseguimentos possíveis de cada um. Em última análise, isto permite juntar o ensino agora dito regular e o outro (que, por exclusão de partes, seria irregular?), eliminando, assim, uma distinção afinal injusta entre aqueles que têm maior aptidão para o pensar e os que a têm para o fazer. É certo que certos âmbitos beneficiam mais uma do que outra e, nesse sentido, certos pontos de vista darão mais valor a uma do que a outra (sendo que o ponto de vista tendencialmente académico responsável pela produção de reflexões diversas sobre o valor do conhecimento tem exactamente tendência a valorizar aquela que mais se integra no domínio académico, isto é, a aptidão mental, pelo que é esta que acaba por ser mais comummente valorizada), mas, globalmente falando, não se pode dizer que a aptidão física valha menos ou mais do que a aptidão mental, pelo que ambas deverão ter igual destaque e igual acessibilidade.

   E pronto. É isto. Um bom Carnaval a todos, se o festejarem (eu não: prefiro fazer entradas no blog…), e até à próxima entrada…

30 de janeiro de 2016

Das Greves (e) dos Estudantes

   Saúdo mais uma vez todos os leitores, a quem tenho de agradecer por se terem contido nos eventuais achincalhamentos que se poderiam ter seguido à minha entrada anterior, que acabou por ficar muito mais ridícula do que o que eu tinha esperado que fosse. Bom, independentemente disto, trago-vos hoje uma reflexão relativamente curtinha (o que, imagino, talvez apele mais a alguns leitores do que as paredes de texto que costumo fazer…) acerca de um tema que me surgiu espontaneamente no pensamento e que, por já reconhecer em mim um acesso de desinspiração em processo de formação, não posso deixar de aproveitar. Como sempre, o título estraga o suspense: decidi abordar as questões em torno das greves.

   Não quero ser arrastado para as questões político-sindicais diversas que envolvem intrinsecamente as greves, simultaneamente porque assumo (como talvez já saibam), sem qualquer vestígio de hesitação, o meu apartidarismo e porque não é, nem nunca foi, esse o âmbito deste blog e, por extensão, das reflexões que nele se podem encontrar. Ainda assim, a mais que ligeira desconfiança que tenho para com a sociedade (e os statūs quibus diversos que dela fazem parte) leva-me a questionar a utilidade, o potencial de mudança, que um método de contestação oficialmente sancionado pode ter. Mas, claro, isto é a parte mais paranóica e ligeiramente subversiva de mim a falar…

   Úteis ou não, oficialmente sancionadas ou não, as greves acabam por ser a forma mais utilizada de mostrar descontentamento. E, simultaneamente, quando se trata do caso específico da função pública (ou, mais especificamente ainda, daquela que pertence à área da educação), também são fonte de contentamento, por parte dos alunos cujas escolas foram encerradas e/ou cujas aulas não foram leccionadas por falta do pessoal necessário (o problema é que, mesmo celebrando essa balda temporária, não se importam de deixar andar as coisas como estão, com todo o sofrimento que lhes provoca essa vontade de se baldar, em vez de tentarem lutar para que as coisas sejam melhores e mais agradáveis…). Mas não é propriamente por isto que os alunos são para aqui chamados.

   O que interessa saber, ou melhor, debater, é o facto de os alunos não terem propriamente direito à greve, pelo menos tanto quanto a minha análise e a minha pesquisa, ambas pouco versadas nas minudências e nos preciosismos legais, puderam determinar. E isto, a bem dizer, não é justo. Se formos a pensar bem, os alunos têm um horário a cumprir, têm tarefas a desempenhar, têm deveres e direitos… têm, em suma, tudo o que um qualquer outro trabalhador acaba por ter (isto em relação aos trabalhadores por conta de outrem; no sector dos trabalhadores por contra própria, a história é outra, mas também me parece que este sector é um pouco falto de greves, já que tende a não haver propriamente superiores hierárquicos e decisões da chefia a contestar quando somos nós próprios esses superiores e essa chefia…), com a notável excepção do pagamento pelos seus esforços, bem como da existência de um vínculo contratual com uma entidade específica (no sentido em que os estudantes o são devido à legislação que estipula a escolaridade obrigatória ou, falando-se já do ensino pseudo-superior, por vontade ou iniciativa própria; isto leva a que, em última análise, as “entidades patronais” dos estudantes correspondam à totalidade da sociedade ou a eles mesmos). Neste sentido, os estudantes deveriam ter tanto direito quanto qualquer outra classe a manifestar-se e a mobilizar-se no sentido de alterar aquilo que, para eles, está mal.

   É certo que não há propriamente um sindicato de estudantes, e que as poucas entidades teoricamente representativas e aglutinantes dos estudantes, as associações de estudantes, estão mais ou menos dispersas e desligadas umas das outras, mas também não haveria grande dificuldade em se instituir uma organização assim, que pudesse convocar greves… ou será que haveria? Não me parece… mas, também, essa entidade acabaria por redundar no mesmo tipo de problemas e situações mais ou menos desagradáveis e mais ou menos indesejáveis de que as associações de estudantes já padecem (ver Crítica da Associação (de Estudantes Im)Pura), pelo que talvez fosse melhor não… Quer dizer… pois…

   Outra questão que também não podemos ignorar é que uma parte não tão insignificante assim dos estudantes é… como o posso dizer de uma forma legalmente correcta? Demasiado jovem para se poder convencer os senhores que pensam a reconhecer-lhes o direito de se manifestar por vontade e decisão próprias (falo, sobretudo, ao nível dos actuais 1.º e 2.º ciclos); pessoalmente, discordo desta visão, já que novos e não tão novos têm praticamente as mesmas hipóteses de tomar decisões acertadas, que são praticamente nulas (por também serem praticamente inexistentes as decisões acertadas…), mas, tratando-se, neste caso, de uma questão também legal (e não se estando aqui a falar de alterações sociais mais abrangentes do que as que se propõem no âmbito específico do ensino), teriam de ser as cabeças pensadoras a avaliar (sem trocadilhos, está bem?) e a decidir a partir de quando é que os alunos poderiam decidir com pleno direito a fazê-lo (ainda que talvez também fosse necessário avaliar e decidir se essas cabeças pensadoras teriam essa capacidade de avaliar e decidir… Nas palavras do poeta romano Juvenal, há que perguntar “quem guardará os guardas?”, ou melhor, “quem avaliará os avaliadores?”).

   Tudo isto (mais do que esperava e mais do que pretendia escrever) para dizer, apenas, que me parece vagamente ilógico que, sendo declaradas greves gerais diversas (não me estou, portanto, a referir à greve que ocorreu na passada sexta-feira, ao contrário do que questões diversas de calendário poderiam fazer pensar), os alunos nelas não possam tomar parte, bem como que não seja possível declarar uma greve especificamente para os alunos. Ou melhor, acaba sempre por poder haver uma iniciativa mais oficiosa, mais fora dos trâmites devidos, e talvez seja mesmo isso que tenha mais possibilidades de funcionar…

   Enfim. Desculpem-me a entrada estúpida e inconclusiva, bem como a argumentação de fraca qualidade, mas senti-me levado a escrever alguma coisa e isto foi o melhor que consegui. Um bom fim-de-semana a todos, fiquem bem, comentem (se quiserem) e até à próxima entrada!

22 de janeiro de 2016

Exortação da Juventude

   Em virtude de uma conversa que tive recentemente, houve quem fizesse uma pergunta muito pertinente (e, se essa pessoa estiver a ler isto, espero que aceite os meus agradecimentos, que na altura não lhe pude dar): mas, afinal, o que é que eu pretendo com tudo isto?

   Bom, a resposta é simples: melhorar as coisas, melhorar o ensino em Portugal, e, sendo ele a base de toda e qualquer sociedade, melhorá-la também, por extensão. Só que é algo easier said than done, como diriam os anglo-saxões. Nesse sentido, e visto que (para grande desprazer meu) o paradigma dos Mini-Ciclos de Leccionamento é, pelo menos por agora, menos que exequível (tendo em conta que ainda não foi possível, pela impossibilidade momentânea de ter acesso a todas as áreas do conhecimento humano e às relações entre elas, estabelecer-se a árvore dos módulos, central para a implementação deste paradigma), há que dirigir os esforços para uma luta também necessária, e bem difícil também, que é a contra os exames nacionais. Não, não vou argumentar tudo outra vez. Podem ficar descansados.

   Sei que, até agora, pouco se tem conseguido no sentido de angariar mais apoios e apoiantes nesta luta; divulgar o blog por si só, como até agora (e por falta de melhor via de acção) se tem feito, em nada contribui para divulgar a ideia, o conceito, a mensagem, a contestação. E, num certo sentido, escrever o que quer que seja aqui, pela relativa falta de tráfego e, intrinsecamente, de leitores novos, ainda eventualmente alheios à contestação, também não serve de nada, mas, pelo menos, ficarei com a noção (ilusão) de que estarei a fazer qualquer coisa de minimamente significativo. Então, e independentemente de quantos dos visados realmente lerão isto que escreverei de seguida, tenho de deixar aqui uma mensagem (não, não é essa…) a todos os jovens. Ignorem, claro, o facto de me dirigir a eles (a vocês) como se não fosse um deles (de vós), mas a segunda pessoa fica aqui melhor do que a primeira. Ignorem também a eventual demagogia, mas a minha intenção, garanto-vos, é esclarecer e não iludir (ao contrário da maioria dos exercícios demagógicos…). Ora bem, aqui vai…

Jovens, que esperais com a vossa vida? Sucesso? Emprego? Família? Uma vida perfeita, uma existência feliz, uma vivência quotidiana e agradável?

Pensai, pensai bem, pensai profundamente. Que vos aguarda o futuro? Que sortes, que oportunidades, que maravilhas vos guarda o futuro? Pensai, pensai bem…

Que esperais, que pretendeis com a vossa vida? Assegurar uma existência segura para vós e para os vossos descendentes? Mas, se calhar, essa existência segura pode deixar de o ser sem grande pré-aviso… e, de qualquer das formas, já pensastes que, ao agirdes assim, estais a perpetuar um ciclo por que já passaram os vossos pais, e os pais dos vossos pais, e, talvez, os pais dos pais dos vossos pais, e por aí fora, mantendo-vos, a vós e aos vossos presumíveis descendentes, numa situação praticamente idêntica àquela em que vos vistes pela primeira vez que observastes o Mundo, que é a da constante precaridade ditada pela existência e também pela convivência na sociedade actual (com eventuais variações de intensidade consoante a classe social)?

Pensai, pensai bem, pensai nisto… Que pretendeis com a vossa vida? Prazer e satisfação? Então, como os podeis ter ao vos subjugardes a imposições diversas (de ordem sócio-política, hierárquica, histórica, seja o que for…)? Por mais que isso possa parecer uma via para um bom emprego, talvez correspondendo, em grande medida, aos vossos interesses e aptidões, e que vos permitiria, dentro do género, fazer o que mais vos agradasse, nunca vos ocorreu que há sempre aspectos adversos a vós, a retirar-vos a possibilidade de obter esse prazer e essa satisfação que procurais (mais que não seja porque há sempre obrigações e deveres diversos, que, por definição, têm a particularidade de se sobrepor ao que seria a vossa vontade e ao que vos traria prazer e satisfação)?

Então, pensai, pensai bem, ou melhor, senti! Ignorai ethos, pathos e logos, ignorai todas as razões e critérios e noções que vos foram dadas, ignorai os vossos preconceitos e os vossos pós-conceitos, ignorai os vossos objectivos e propósitos, ignorai tudo isso, e senti, e deixai que seja o vosso interior, o vosso âmago, o vosso íntimo, o vosso subconsciente a responder-vos: estais contentes com o que tendes e com o rumo que levais?

Se a vossa resposta for um rotundo e inabalável “sim”, ignorai tudo o que acabastes de ler e saí imediatamente desta página. Mas, se há uma parte, mesmo que mínima, de vós que acha que a resposta não é tão incontestavelmente afirmativa, lede mais um pouco e ouvi mais um pedaço do que tenho para vos dizer.

É certo que o que vos tenho a propor não vos trará mais prazer ou mais segurança do que se levásseis uma vida normal, mas é igualmente certo que vos dará uma oportunidade de fazer a diferença, de mudar as coisas para melhor. A vida é curta, e os míseros segundos cósmicos que estão reservados à vossa existência não podem, ou não devem, ser desperdiçados em afazeres irrelevantes, em atitudes insignificantes cujo único contributo para a melhoria é tornar as coisas ainda mais solidamente como já eram antes (o que nem sempre corresponde a torná-las melhores…). Estais mesmo dispostos a efectuar tal desperdício, ou ansiais, como eu anseio, por fazer algo mais, por fazer algo mais significativo, por fazer algo melhor?

Se for esta a opção que fizerdes, olhai em volta, olhai em volta e vede o que está mal. Que injustiças se podem eliminar? Que erros se podem corrigir? Que tradições desajustadas, dogmaticamente mantidas pela tendência intrinsecamente conservadora da sociedade, se poderão suplantar? Tantos, sim, tantos! Tantos que dão ânsias de resolver logo todos os problemas!

Talvez não seja possível chegardes (chegarmos) todos a um consenso acerca do que está mal e de como estaria melhor. Talvez sim. Não me atrevo a tentar determiná-lo. Mas, seja como for, pergunto-vos: vedes que há coisas mal, e querei deixá-las assim?

Não! Cem vezes não! Mil vezes não! Vós, que o vedes, que o vistes, ou sabeis ou devíeis saber que os males que vistes só aumentam se os deixardes andar, se não os eliminardes. Oh! Mas é parca a força humana face à imutabilidade granítica das imposições hierárquicas e esclarecidas. Mas vós, que sois, que fostes, que agora vos tornastes minimamente esclarecidos, devíeis também saber que essa força só é limitada pelos limites que vós mesmos lhe impondes, e que a imutabilidade das instituições apenas provém da ausência de esforços para as mudar!

Assim, juntai-vos e mostrai-lhes, a todos eles, a todos esses indefinidos e sombrios eles que conspiram para manter as coisas como estão, que já estais fartos de pactuar com injustiças, que já estais fartos de suportar indesejabilidades! Juntai-vos, uni-vos e mostrai-lhes a vossa força, não para vos beneficiardes, não em prol de uma qualquer ideologia sócio-política, mas em prol daquilo que está certo, em prol daquilo que é devido, em prol daquilo que é mais desejável! Mostrai-lhes que a mudança, mais do que necessária, vem já atrasada! Mostrai-lhes, jovens, mostrai-lhes tudo isso e muito mais, mostrai-lhes, em suma, que sois mais, que sois muito mais, que os insignificantes números a que vos reduzem!

E, por mais insignificante (e, potencialmente, ridículo) que seja, gostava de vos propor, jovens, um alvo que não sendo, talvez, consensual, é, na mesma, simbólico de todas as imposições, de todos os controlos, de todos os domínios, de todas as manipulações: os exames nacionais. “A educação é a ferramenta mais poderosa que podemos usar para mudar o mundo”, como disse Nelson Mandela, e, nesse sentido, há que mudar a educação para que possamos mudar o mundo. É, pois, por aqui que devemos começar.

E, assim, junto a minha voz à vossa (e espero que vós junteis a vossa à minha) num grito, num apelo, num protesto, numa reivindicação: abaixo os exames nacionais!

   Bom, os meus leitores mais habituais que me desculpem o frenesi demagógico (preocupantemente próximo de certos discursos políticos… vade retro, politiquice aguda que me está a querer infectar!), mas deram-me ânsias e furores de escrita que não pude (ou não quis) controlar. Enfim. Se me quiserem dizer alguma coisa, aí fica o espaço de comentários; critiquem (se assim o entenderem) à vontade, porque eu próprio sou o primeiro a admitir que caí completamente no ridículo com esta minha entrada. Mas pronto. Até à próxima…

28 de dezembro de 2015

Sobre as Visitas

   Não, não se trata de uma reflexão vagamente anti-social e ressentida sobre as visitas mais ou menos inesperadas e mais ou menos indesejáveis que, quase inevitavelmente, surgem nesta época festiva. Coisa, que, de resto, ficaria assaz deslocada no meio de todas as coisas que digo sobre o ensino neste blog. Mas pronto. Poderia ter-me saltado a mola de vez e ter passado a escrever coisas (ainda mais) sem sentido e sem lógica… Mas não. Decidi hoje falar-vos das visitas de estudo e, mais especificamente, da efectuação das visitas de estudo no âmbito dos Mini-Ciclos de Leccionamento.

   Não posso, de modo algum, negar que as visitas de estudo podem contribuir de uma maneira significativamente positiva para as aprendizagens, ao permitirem que, dentro do género, se vejam postos em prática, em situações concretas e reais (a não ser que a visita de estudo incida sobre uma qualquer situação criada propositadamente para fins didácticos, caso em que se torna, apenas, uma situação concreta), os conhecimentos adquiridos, o que, em muitos e variados casos, contribui para a consolidação desses mesmos conhecimentos (a não ser que se seja um anti-empirista como eu, mas isso é outra história…). Nesse sentido, somos levados a concluir que as visitas de estudo são mais ou menos desejáveis. Só que também não podemos esquecer que há muitos casos em que as visitas de estudo constituem pouco mais do que uma desculpa para a borga, tendo, por vezes, quase nenhum sentido para além desse. E isto, meus meninos, não pode ser.

   Não estou propriamente a publicitar um estilo de vida monástico e espartano, desprovido de toda e qualquer alegria, de toda e qualquer diversão, nem tão pouco estou a incorrer no cliché de pedir borga, mas com calma (o que, por si só, constitui um contra-senso e uma contradição injustificáveis). Apensas não posso deixar de referir a incoerência da atitude da maioria, aproveitando toda e qualquer oportunidade para a folia, mas cedendo, quase imediatamente após esta acabar, aos apelos de “estudem para os testes!”, “façam os trabalhos de casa!”, “não se esqueçam das apresentações orais!”, “tenham cuidado com os exames!” e afins. Ora, não seria mais lógico se, em vez de tentarmos escapar sempre que pudermos ao enorme desconforto que estudar no actual sistema de ensino representa, nos esforçássemos para acabar com esse mesmo sistema de ensino e implementar um outro, em que os momentos de folia não tivessem de ser roubados, mas sim surgissem naturalmente (por estar ausente uma grande parte das tarefas – trabalhos de casa, pesquisas, estudos específicos para testes/exames… – que hoje em dia ocupam tanto tempo)? Bom, podia prosseguir para o apelo do costume relativamente à implementação dos Mini-Ciclos de Leccionamento, mas creio que seria vagamente repetitivo e, por isso, abster-me-ei de o fazer (ainda que, indirectamente, já o tenha feito ao dizer que o poderia fazer…).

   Independentemente deste meu aparte (bastante grande, diga-se de passagem), creio que já todos pudemos ver (como seria óbvio para alguns, um pouco menos, talvez, para mim) que as visitas de estudo, se apropriadamente seleccionadas de modo a estarem relacionadas com a matéria, até que são desejáveis, e isto é uma coisa que, excepcionalmente, o actual sistema de ensino até que tem a possibilidade de não fazer mal: tendo em conta a progressão de todos os alunos através de um programa pré-estabelecido, torna-se relativamente simples organizar, a nível escolar, do agrupamento ou da zona, uma visita de estudo precisamente na altura em que os conhecimentos que com ela se relacionam já foram leccionados (preferencialmente há pouco tempo, para estarem o mais frescos possível). Mas isto, apesar de ser uma vantagem do actual sistema de ensino, não elimina toda a montanha de desvantagens que ele tem. Nesse sentido, já sabem que considero mais desejável que se siga o paradigma dos Mini-Ciclos de Leccionamento, pelo que é no âmbito deste sistema, e dos seus condicionalismos organizacionais, que passarei a avaliar as visitas de estudo. Se não se importarem, claro.

   Bom, progredindo cada aluno de uma forma independente dos outros, torna-se bastante mais difícil conseguir coordenar as coisas de modo a que os conhecimentos dos alunos e as visitas de estudo estejam relacionados. Talvez isto possa ser conseguido se se organizar as visitas de modo a que os alunos só se possam inscrever (naturalmente, através da plataforma electrónica associada aos Mini-Ciclos) caso tenham adquirido os conhecimentos relacionados (numa forma vagamente reminiscente aos requisitos dos módulos, embora, para as visitas de estudo, os requisitos devam ser mais latos; por exemplo, faz sentido que, para uma visita a um qualquer aquário/oceanário/fluviário/et-caetera-ário, se tenha de ter aprendido qualquer coisa de Biologia, ainda que essa coisa, a meu ver, tanto possa ser Ictiologia, Oceanografia, Taxonomia, Ecologia, Zoologia ou, num certo sentido, até mesmo Botânica, pela parte do plâncton). Isto poderia muito provavelmente constituir um pesadelo logístico, pelo que seria lógico verificar-se, algum tempo antes da visita (três, quatro meses?), qual será o número de interessados, algo que, dentro do género, já se faz actualmente, por uma razão semelhante.

   No sentido de garantir igualmente que os alunos usufruem ao máximo das visitas de estudo, parece-me não ser má ideia tentar simultaneamente diversificar o âmbito das visitas o mais possível (para que se possa contactar com o máximo possível de realidades práticas) e realizar regularmente as mesmas visitas (para que todos os alunos possam ter, dentro do género, as mesmas experiências). Admito que estas duas práticas estejam fortemente condicionadas pela disponibilidade de meios (sobretudo financeiros), das escolas e das famílias, mas, exactamente nesse sentido de retirar pressão sobre esses meios, creio ser bem pensado realizar as visitas de estudo intervaladamente, num ciclo de alguns anos, que não deve ser nem muito grande, sob pena de um aluno que falhou por pouco uma visita não voltar a ter a hipótese de a efectuar, nem muito pequeno, para não enfadar os eventuais professores assistentes e para não sobrecarregar os alunos com visitas e as famílias e as escolas com gastos diversos (e além disso porque o facto de se estar a falar de ciclos de visitas de estudo no âmbito dos Mini-Ciclos não implica que haja mini-ciclos de visitas de estudo…). A propriedade adicional de os alunos se poderem inscrever em visitas de estudo de outras escolas pode vir a facilitar esta gestão.

   Bom, no fim de mais uma entrada inconclusiva e inútil (mas antes escrever coisas assim do que não escrever de todo…), tenho, apenas, a agradecer aos leitores que chegaram até aqui por terem suportado durante tanto tempo a minha prosa vagamente (por vezes, mais que vagamente…) enfadonha e confusa, bem como as que não conseguiram chegar até ao fim por terem tentado (embora esses fiquem alheios a este agradecimento…). Deixo o habitual convite para se servirem do espaço de comentários.

   Se não escrever mais nada até lá, um Próspero Ano Novo a todos (tirando àqueles que se possam reger por um outro calendário, cujo ano não acabe esta semana; a esses, desejo-lhes, apenas, uma boa semana, já que não é ainda altura do seu ano novo…).

22 de dezembro de 2015

Da Separação dos Poderes Educacionais

   Já por diversas vezes expressei a minha vontade de não trazer para este blog qualquer tipo de reflexão de ordem político-partidária, não só por ser plenamente apartidário, mas também por não ser esse o tema do blog. Porém, há certos assuntos da Educação com implicações políticas (mais significativas, leia-se, já que, em última análise, poderíamos afirmar que praticamente tudo o que fazemos tem uma qualquer implicação política) que não posso deixar de abordar só pelo facto de assim serem. O assunto que escolhi para esta entrada é um desses casos.

   A quem pertence o ensino? Pergunta vagamente estúpida, admito, e ainda mais confusa e irrelevante, mas, ainda assim, tentemos responder-lhe. Ora bem, se tivermos em conta aquela perspectiva de que o ensino deverá servir para transmitir conhecimentos racionais, poder-se-á dizer que que dirá respeito maioritariamente àqueles que transmitem os conhecimentos (professores) e aos que os recebem (alunos); juntamente com estes, teremos também de considerar todos os restantes que, embora não intervindo directamente nesse processo de transmissão e recepção, ainda assim acabam por ser essenciais para permitir que esse processo ocorra (pessoal não docente). Só que não podemos ignorar que todas estas pessoas estão inseridos num grupo mais vasto, o da sociedade, pelo que quaisquer coisas que os afectem irão, em última análise, afectar toda a sociedade; mais a mais, os conhecimentos transmitidos são, dentro do género, importantes para que os indivíduos desempenhem (ou não) funções futuras (e abster-me-ei, pelo menos por agora, de emitir juízos de valor relativamente a esse facto, decorrente da actual organização social…), pelo que, por esta perspectiva, também se acaba por concluir que o ensino diz respeito à sociedade no seu todo. Fica, assim, estabelecido que o ensino é de todos nós, e isto só nos pode levar a concluir que todos deveríamos poder ter algo a dizer relativamente a ele. Não, calma, ainda não vou para a pregação do costume…

   Bom, se todos deveríamos ter algum poder de decisão no âmbito do ensino, e se este, de facto, é relevante para a totalidade da população, parece fazer sentido que os processos decisivos estejam desligados de quaisquer interesses políticos, ficando, por isso, a cargo de uma entidade exterior ao governo, independente deste. Poder-se-ia objectar que, não tendo essa entidade fins lucrativos, estará sempre dependente do financiamento que o estado lhe poderia atribuir (o que levaria a que o estado a pudesse controlar na mesma), mas, mesmo sendo as coisas como são agora, já há essa particularidade, pelo que não estaríamos a originar novas indesejabilidades (ainda que estivéssemos a manter as que já existiam, o que, por si só, não é desejável, mas enfim…). Semelhantemente, também devido aos fins estritamente não lucrativos de qualquer entidade decisora no âmbito do ensino, a não intervenção política nessa entidade poderia levar a que os interesses puramente comerciais se tornassem mais preponderantes e pronunciados (em vez da forma sub-reptícia com que afecta a política), mas esta situação (além de, em parte, já ocorrer actualmente) será, em teoria, suplantada ao se fazer com que os eventuais cargos relevantes nessa entidade sejam desempenhados por pessoas escolhidas e não propriamente nomeadas (e isto tem a vantagem adicional de impedir que as nomeações variem consoante o panorama político, o que tornaria a entidade reguladora do ensino incrivelmente semelhante a um ministério, pelo menos nesse aspecto…).

   A questão será mesmo como se poderá efectuar essa escolha. Idealmente, dever-se-ia ter por base o mérito e a competência dos indivíduos, mas, sendo a aferição (sem trocadilhos, está bem?) destes aspectos extremamente difícil, sob diversos pontos de vista (e por diversos motivos), ter-se-á de recorrer, à falta de melhor, a algum tipo de sufrágio. Mas, para assim ser, teremos, também, de tentar definir, de uma forma que dê azo a limitada celeuma, quem deverão ser os eleitores. Logicamente, todos aqueles que fazem parte do funcionamento do sistema de ensino deveriam poder votar (falo, portanto, de alunos, encarregados de educação, pessoal não docente e professores, para os enunciar alfabeticamente ordenados). No entanto, tendo em conta que nem todos os alunos terão propriamente a capacidade de tomar essa decisão com pleno conhecimento de causa, há que, de alguma forma, estabelecer um limite mínimo de idade; não diria que fosse necessária a maioridade, apenas a maturidade, ainda que aferi-la seja muito subjectivo… talvez, não sei, 10 anos ou declaração de familiares ou psicólogos em como a pessoa em causa está apta? Bom, não interessa muito, é mais uma especificidadezinha organizacional, que não tentarei, pelo menos por agora, desenvolver. Voltando à questão dos votantes, creio ser importante deixar, também, a ressalva de que qualquer outro cidadão (que não esteja contemplado no grupo anterior, é claro) deverá poder, mediante um qualquer tipo de inscrição oficial, fazer também parte do grupo dos eleitores, já que, como comecei por dizer, o ensino diz respeito a todos.

   Mas estes votantes não deverão, a meu ver, desempenhar unicamente o papel de eleger pessoas para cargos diversos na entidade reguladora; deverão, também, participar em processos decisivos mais específicos, mediante alguma espécie de plataforma electrónica (eventualmente associada àquela que contém a matéria e os exercícios nos Mini-Ciclos de Leccionamento), que possibilite, de alguma forma, expressarem a sua opinião relativamente a assuntos de alguma importância. Não, não é propriamente para decidirem se se adquire um rolo adicional de papel higiénico para reabastecer as casas de banho da EB2,3 de Cascos de Rolha, mas também não lhes podemos negar a possibilidade de afectarem processos decisivos mesmo que apenas moderadamente importantes, ainda que esta classificação seja subjectiva, claro… Talvez o melhor fosse mesmo dar-lhes a possibilidade de se expressarem, de se manifestarem de uma maneira significativa, no sentido de afectar todas e quaisquer decisões que lhes possam interessar (em última análise, já o podemos fazer, mas… bom, não de uma forma que impacte directamente os processos decisivos…), exactamente através da plataforma informática de que antes falei.

   Bom, disse já tanta coisa, mas chego à conclusão de que o que disse é pouco menos que irrelevante, quando se tem em conta toda a infinidade de mudanças de que o actual sistema de ensino precisa tão desesperadamente. Mas, ainda assim, a criação de uma entidade reguladora do ensino exterior ao governo acaba por garantir escolhas (mesmo que marginalmente) melhores no âmbito da educação, por possibilitar uma maior constância das práticas positivas (por não ocorrer aquela situação, para alguns bastante negativa, para mim não mais que o resto do actual sistema de ensino, em que um ministro da Educação recentemente eleito desfaz, sem grande razão aparente, grande parte das medidas do seu antecessor), bem como, simultaneamente, uma mais rápida eliminação das práticas negativas (por não se ter de aguardar pela queda ou fim do mandato do governo para mudar as perspectivas das “cabeças pensadoras”, já que, e agora o acrescento, os votantes também poderiam, caso essa perspectiva fosse a maioritária, exigir a substituição de um qualquer membro da entidade por uma outra pessoa; além disto, e como já disse, também estaria na mão dos votantes intervir nos processos decisivos). Mas pronto. Esta reflexão tornou-se mais política, mais politizada e mais politizante do que pretendia, além de mais inútil e inconclusiva do que o que seria desejável, e, por isso, sou levado a apresentar-vos as minhas desculpas, caros leitores.

   De qualquer das formas, Boas Festas, caso considerem esta uma época festiva, Boas Férias, se as tiverem agora, ou Bom Dia (ou Tarde, ou Noite), se nenhuma das anteriores se aplicar. Eu por aqui me fico, deixando-vos, como de costume, o espaço de comentários, para fazerem o que bem entenderem com ele.

21 de novembro de 2015

Semi-Confirmação da Manutenção da Minha Existência

   É com grande insatisfação que faço esta entrada, apenas para informar quaisquer leitores do facto de eu não estar morto nem ter abdicado da luta contra o actual sistema de ensino. Apenas… tenho andado ultimamente sem inspiração. Ou melhor, sem sorte. Comecei já três a cinco entradas diferentes (sem contar com esta), todas elas abandonadas por serem repetidas (estupidez a minha!), irrelevantes ou inconclusivas. Enfim, não vale a pena maçar-vos com tantas explicações, mas achei por bem justificar esta minha ausência (ao mesmo tempo que, de alguma forma, a mitigo). Tinha a esperança de que o tempo de aulas me trouxesse maior facilidade na identificação de potenciais temas, mas não. Enfim. Se tiverem alguma sugestão, algum tema que gostariam de ver abordado, não hesitem em falar nisso. Eu andarei por cá, mas, até ver, um pouco mais silencioso do que o costume. Raios partam esta minha inspiração transviada!

   Tenham todos um bom fim-de-semana e uma boa semana, semanas, meses, ou seja que tempo for que eu demore. Espero que não seja muito, mas enfim… Em suma, até breve…

14 de setembro de 2015

(P)revisões para o Ano Lectivo

   Antes de mais, tenho de deixar bem claro que, ao contrário do que o título poderia fazer pensar, esta entrada não se prende, de forma alguma, com quaisquer actividades de revisão da matéria dada no ano lectivo passado como forma de preparação para o ano lectivo que agora se avizinha. Prende-se mais com algumas actividades proféticas e/ou divinatórias relativamente ao decorrer do próximo ano lectivo, resultantes de uma reflexão que, como aluno (e como aluno atento aos erros e às incongruências do actual sistema de ensino), não pude deixar de fazer.

   De qualquer das formas, terei de começar, como já se tornou um péssimo hábito, por apresentar as minhas desculpas por mais uma demora. Este início de ano lectivo tem-se mostrado relativamente pacífico e tranquilo, pelo menos quando comparado com outros anos (e isso, a meu ver, estará certamente relacionado com as eleições que se avizinham), e são poucos os acontecimentos que se me apresentam como dignos de ser comentados, razão por que não tenho produzido tantas entradas quanto gostaria. Referirei, antes que me esqueça de o fazer, e antes que perca a oportunidade de o fazer, o caso (não muito mediático) de uma aluna egípcia de topo que foi classificada com zero valores nos exames nacionais egípcios; é certo que o caso tem muitas matizes etno-político-religiosas, que são muito mais significativas do que as falhas do sistema de ensino, mas, ainda assim, isto acaba por ser uma boa chamada de atenção para o facto de os exames não serem assim tão objectivos, incontornáveis e impossíveis de falsificar quanto se pensa (é certo que, política e socialmente falando, ainda nos encontramos um pouco distantes do Egipto, mas nada invalida que haja outro tipo de fraudes nos nossos exames, atrever-me-ia a especular no sentido inverso, se é que me entendem…).

   Mas, isto à parte, gostaria de abordar, então, o assunto que me levou a escrever esta entrada. Ocorrendo as eleições cerca de meio mês depois do início do ano lectivo, numa altura em que tudo já foi organizado de acordo com as perspectivas do governo anterior, apresentam-se-me duas alternativas possíveis: ou o próximo governo (independentemente do partido – ou dos partidos – que estejam por detrás dele) não muda nada e deixa este ano decorrer como já foi planeado, ou então muda tudo a meio do jogo e força uma reorganização de acordo com as perspectivas do novo Ministério da Educação.

   Cada uma destas hipóteses traz consigo (como seria de esperar) os seus prós e os seus contras. Se, por um lado, não alterar nada evita que ocorram confusões potencialmente perturbadoras do normal decorrer do ano lectivo (e que perturbariam mais, como de costume, os que saem sempre prejudicados: os alunos…), também permite que se perpetuem os erros e as incongruências do actual sistema de ensino, agravados pela forte tendência avaliacionista (se me permitem o neologismo) que permeia o actual (pré-eleições) Ministério da Educação. Mas, por outro lado, implementar novas políticas na área da educação gera as tais “confusões potencialmente perturbadoras do normal decorrer do ano lectivo”, se me permitem citar-me a mim mesmo, e, de qualquer das formas, pela análise que efectuei relativamente aos programas eleitorais no âmbito da educação, não me parece que a maioria dos erros do actual sistema de ensino fossem corrigidos, nem que as mudanças fossem assim tão significativas…

   Mas, independentemente da acção que poderia ser tomada, ou não, no âmbito da educação, só o facto de irem decorrer eleições e uma mudança de governo (ainda que possivelmente chefiado pelos mesmos partidos políticos), o que sempre implica um certo transtorno burocrático-administrativo, é, por si só, potencialmente gerador de confusões. Isto ainda é piorado pelo facto de, de uma maneira geral, o ensino estar mais abaixo na lista de prioridades da maioria dos partidos do que outros aspectos sócio-económicos, de maior valor sócio-político (e, não me posso impedir de o acrescentar, demagógico), o que implica sempre que quaisquer problemas que surjam serão tratados com um pouco menos de urgência.

   O problema é que tudo isto não invalida que o sistema de ensino continue, com os mesmos problemas, com as mesmas maldades, incontestado e incontestável. E, infelizmente, não serão entradas como esta que contribuirão para o modificar. Peço, uma vez mais, desculpa a todos os meus leitores (quem quer que eles sejam, e onde quer que eles estejam!) por esta falta de ideias de que ultimamente tenho vindo a padecer, mas… enfim, não sei o que me deu, não sei o que me tem dado, mas escapam-se-me as palavras, quebra-se-me o fio do raciocínio, e todas as ideias me desertam do pensamento. Enfim. Se algum leitor tiver a vontade (e a gentileza) de tecer qualquer tipo de comentário relativo a esta minha curta e medíocre entrada, tem, como sempre, o espaço de comentários à sua disposição.

   Da minha parte, resta-me apenas desejar um bom ano lectivo a todos quantos intervenham, directa ou indirectamente, no ensino, sejam eles docentes, discentes ou qualquer outro tipo de intervenientes.

   P.S.: Faz hoje exactamente um ano que foi publicada a primeira entrada deste blog! Os meus maiores agradecimentos a todos os leitores que o fizeram chegar às mais de quatro mil visualizações que agora tem…

26 de agosto de 2015

Da Fundamentação Metafísica do Propósito da Escola

   Peço desculpa aos meus leitores pela demora, mas fui acometido de um dos piores acessos de falta de inspiração que alguma vez experienciei. Todas as ideias me pareciam inconsequentes e insuficientes, todas as minhas palavras pareciam ocas e, por isso, não consegui propriamente encontrar nenhum bom tema para escrever, mas creio ser o meu dever fazer uma nova entrada. Por isso, e depois de muito esforço mental, decidi adoptar, à falta de melhor, este tema um pouco críptico, que não podia estar mais longe de mediático. Advirto já que a “fundamentação metafísica” se trata mais de uma expressão vagamente irónica do que propriamente de uma indicação do teor das reflexões filosóficas que se estabelecerão neste texto; não é este o lugar apropriado para reflexões dessa natureza.

   Começarei por colocar uma pergunta retórica: para que serve a escola? Numa abordagem mais paranóica, poder-se-ia dizer que constitui um importante órgão de controlo e condicionamento da população, submetendo-a aos interesses da sociedade, mas esta perspectiva é demasiado exagerada (ainda que não esteja completamente errada…) para que se a possa sustentar com sucesso. Então, qual é mesmo o propósito de um sistema de ensino? Que falta é que faz? Que necessidade é que há de haver uma coisa assim?

   Muitos diriam que o seu propósito seria contribuir para a completa formação do indivíduo, seja a nível intelectual, seja a nível social, seja a nível moral, mas sou forçado a discordar desta perspectiva principalmente por três motivos:

      1) Para que o sistema de ensino pudesse cumprir totalmente esse propósito, o indivíduo teria de estar, até terminada a sua formação, permanentemente nele incluído (para que as influências externas perturbem o menos possível), o que, além de ser impraticável, não é psicologicamente saudável (e incorre no motivo seguinte).

      2) A possibilidade de haver um aproveitamento dessa faceta profundamente formativa do actual sistema de ensino para condicionar (ainda mais…) os indivíduos, conforme melhor possa aprouver aos lobbies e aos poderes instituídos, além, claro, de abrir um caminho bastante fácil para uma situação huxleyana de subjugação do indivíduo à mecanização da sociedade através do condicionamento providenciado pela educação.

      3) A existência de uma pletora de competências (nos domínios sociais e morais, leia-se) que, pura e simplesmente, são quase impossíveis de ser ensinadas, tendo, em vez disso, de ser desenvolvidas pelo indivíduo.

   Ora, tendo tudo isto em conta, não posso, de modo algum, partilhar das opiniões que recentemente se têm vindo a popularizar acerca de avaliações formativas, valorizações de competências sócio-afectivas e outras teorias afins (sem ofensa para aqueles que as apoiam, e sem ofensa também para as teorias em si). Antes que me acusem de desvalorizar essa componente através destas minhas palavras, permitam-me que refira que, sem sombra de dúvida ou de hesitação, admito que o indivíduo só está verdadeiramente completo se possuir (em maior ou menor escala) essas componentes. Apenas defendo que a transmissão dessas competências não deve ser um dos principais propósitos do sistema de ensino.

   Então, qual será esse propósito? Permitam-me que responda laconicamente: transmitir conhecimento. Sim, claro, poder-se-ia argumentar que, em última análise, tudo é conhecimento, pelo que essas competências que refiro anteriormente também o são, e eu seria, inevitavelmente, forçado a concordar; no entanto, afigura-se-me que ainda há uma grande diferença entre saber somar e saber amar (no sentido mais poético do termo). Isto, claro, constitui um dos contrastes mais extremos, mas creio que é suficiente para ilustrar a questão: poder-se-ia dizer (se me permitem um dedinho de Filosofia) que, de uma maneira geral, há conhecimentos que surgem maioritariamente por uma via que podemos designar racional (sendo, por isso, de cariz mais exequível, além de mais facilmente transmissíveis, e possuindo maior objectividade e impessoalidade) e outros que provém de uma outra via mais psico-emocional e sensorial (embora tendo um impacto no dia-a-dia igual ou superior ao dos outros, acabam por possuir uma aplicabilidade mais pessoal e subjectiva, sendo, por isso, mais difíceis de transmitir).

   Tendo isto em conta, poder-se-á, então, reformular a resposta que dei anteriormente: o sistema de ensino deve tentar transmitir única e exclusivamente os conhecimentos racionais, sejam os do âmbito mais prático (actividades laboratoriais, culinária, mecânica…), sejam os do âmbito mais teórico (Matemática, outras ciências, línguas…).

   Mas não se pense, devido a estas palavras, que sobrevalorizo o racional e desvalorizo o psico-emocional; apenas considero que se deve separar bem as duas áreas, sem que estejam a cargo da mesma organização/entidade. Aliás, mesmo sem uma ênfase acrescida do actual sistema de ensino na área mais psico-emocional e sensorial, já considero que este se intromete demasiado nessas competências, ocupando, em consequência disso (e também das muitas outras falhas que se lhe podem apontar), demasiado tempo na vida dos alunos. Não, não faço nenhum apelo à borga ou à vida boémia que muitos adoptam nos seus tempos livres, apenas acho (e creio que, neste aspecto, já alguns psicólogos tentaram alertar para isto) que o sistema de ensino deveria providenciar mais oportunidades para que esse desenvolvimento de conhecimentos psico-emocionais e sensoriais pudesse ocorrer naturalmente, sem que houvesse trabalhos de grupo obrigatórios, sem que houvesse trabalhos de casa com o intuito de ensinar o que é um dever, sem coisas semelhantes que, muitas vezes, até têm efeitos adversos sobre as competências que visam desenvolver. Mas, da minha perspectiva, essas oportunidades não deveriam surgir no sistema de ensino em si, mas sim no tempo livre que este deixaria, mais do que o que deixa agora (e não falo de intervalos).

   É claro que não se pode deixar o desenvolvimento dessas competências exclusivamente a cargo do indivíduo, mais a mais porque muitas delas surgem e se definem em função do outro, mas, por isso, e para isso, serviria a unidade familiar (quando possível) ou uma qualquer outra entidade especializada na transmissão desses conhecimentos, que, mesmo podendo ficar situada num espaço partilhado com o sistema de ensino dos conhecimentos racionais, diferiria deste não só pelo âmbito, mas também pela abordagem, mais vocacionada, como seria de esperar, para que seja o aluno, por si, a desenvolver essas competências. E, a meu ver, este tipo de conhecimentos nunca deveria, de modo algum, ser utilizado para propósitos avaliativos ou selectivos, não possuindo, por isso, nenhum tipo de obrigatoriedade (não mais do que a normal convivência em sociedade exige), pois, conforme refiro, estes conhecimentos não podem, ou não devem, ser forçados, antes surgindo naturalmente, ao ritmo de cada um (mas, claro, podendo ser alvo de estímulo por parte de outrem), mais a mais porque a sua não aquisição não constitui, na maioria dos casos, um obstáculo inultrapassável ao normal desempenho das tarefas (o caso mais flagrante será, creio eu, o das aptidões sociais: a timidez, embora, em muitos casos, seja bastante prejudicial, não constitui, de uma maneira geral, um problema fatal para o afligido…) e porque a subjectividade inerente a este tipo de conhecimentos implica exactamente que não podem ser subjugados a um critério externo, imparcial, avaliativo.

   É, pois, aqui que divirjo grandemente das opiniões que acima referi: em vez de se englobar a transmissão dos conhecimentos psico-emocionais e sensoriais no sistema de ensino, como se tem feito, e se está a querer fazer ainda mais, face ao progressivo enfraquecimento do papel da família na formação do indivíduo (por motivos sócio-económicos diversos), proponho que, a estabelecer-se qualquer sistema de transmissão destes conhecimentos, este esteja desligado do sistema de transmissão dos conhecimentos racionais (que, de qualquer das formas, também não deve abarcar uma fatia tão alargada do dia-a-dia dos alunos e das famílias, cuja vida, de uma forma ou de outra, acaba por, hoje em dia, ser a modos que construída em torno dos condicionalismos que o sistema de ensino impõe) e, sobretudo, o mais independente possível dos interesses dos lobbies, sob pena de, se me permitem a metáfora, sermos nós próprios a entregar os fios que nos movem aos marionetistas.

   Bom, creio que concluí esta relativamente longa dissertação relativa às funções do sistema de ensino. Temo ter sido demasiado críptico e confuso na minha abordagem, ter-me imiscuído demasiado nas águas turvas da Filosofia e da Psicologia, mas são os condicionalismos que a falta de temas me impõe. As minhas desculpas a todos e quaisquer leitores que possam ficar melindrados pelas minhas palavras, mas têm a minha garantia de que a minha intenção não era, de modo algum, ofender ou magoar, apenas expressar uma ideia. Tenho, igualmente, de apresentar as minhas desculpas por quaisquer eventuais falhas e incongruências que aqui se possam eventualmente encontrar. Resta-me relembrar o facto de o espaço de comentários ficar à vossa disposição, seja para corrigir, seja para criticar, seja para (se assim o entenderem) elogiar…

12 de agosto de 2015

Análise dos Programas Eleitorais das Legislativas (na Área da Educação)

   Tenho de pedir desculpa aos meus leitores por mais uma longa ausência, que se deve fundamentalmente à falta de um assunto sobre o qual escrever. Como, de resto, já seria de esperar nestes meses de Verão, quando o Ensino é praticamente a última coisa com que a opinião pública se preocupa.

   No entanto, este ano temos a sorte (ou o infortúnio…) de acolher umas eleições legislativas, e como, à parte moções de censura e quedas de governo diversas, este é um acontecimento que apenas se verifica de quatro em quatro anos, acho que devo aproveitar a oportunidade e efectuar uma análise aos programas eleitorais (pelo menos, àqueles que consegui encontrar nos sites dos partidos), incidindo especificamente sobre a temática da educação. Desde já digo (por menos significado que isso possa ter) que sou plenamente apartidário (aliás, até sou bastante céptico face à política e, sobretudo, aos políticos) e, por isso, esta análise não é motivada por nenhum fervor dessa natureza, apenas pelo meu interesse na área da educação e, em especial, nas mudanças que se poderiam efectuar nessa área.

   Começarei pelo Partido Socialista (PS), que, de acordo com as sondagens mais recentes, lidera as intenções de voto. Entre muito palavreado inútil, alguma demagogia e laivos de populismo, é apontado o insucesso escolar como principal alvo a abater, muito embora uma das soluções apresentadas (a maioria das quais, desde já o digo, são de natureza burocrática) passe por “(…) garantir a estabilidade do trabalho nas escolas, o que pressupõe reformas progressivas, planeadas, negociadas e avaliadas (…)”, algo que, a meu ver, se pode traduzir para deixar tudo na mesma. Consideram que é desejável combater o insucesso escolar logo na educação pré-escolar (um termo que, a mim, me parece vagamente um contra-senso: se se vai a um edifício específico, eventualmente até uma escola, e se, entre outras coisas, se aprende, porque é que essa educação é “pré-escolar”? Mas pronto).

   São feitas menções à flexibilização curricular e pedagógica e à “inovação na aprendizagem”, tudo integrado numa “(…) visão holística, que amplie a autonomia pedagógica e de gestão das escolas, que respeite as diferenças, as capacidades e os ritmos de aprendizagem dos alunos e que promova um maior alinhamento das políticas educativas com as dinâmicas sociais e económicas do nosso tempo (…)”, mas algo me diz que o farão sem romperem com o que se pratica agora… Enfim, também querem promover o ensino profissional (e eu pergunto: porquê considerar-se isto algo à parte do ensino dito “regular”?), melhorar a questão da formação de adultos e resolver uns quantos problemas no ensino superior, mas, no que toca a melhorar verdadeiramente as coisas… bem… não me parece. Mas também posso ser eu que sou demasiadamente desconfiado…

   Nas sondagens e, portanto, nesta minha análise, segue-se a Coligação Portugal à Frente, pseudónimo da coligação entre o Partido Social-Democrata (PSD) e o Centro Democrático e Social – Partido Popular (CDS-PP) e que, como os meus leitores decerto saberão, se encontra actualmente no governo. Bom, entre iguais níveis de palavreado tergiversatório, estes também falam de reduzir o insucesso escolar, através de uma outra série de medidas burocráticas (algumas não tão contrastantes assim com as do PS…), como “(…) integrar os diferentes programas de promoção do sucesso escolar e de combate ao abandono (…) num Plano Nacional de Combate ao Insucesso e Abandono Escolar (…)” e “(…) reforçar a autonomia das escolas na definição dos instrumentos e dos planos de redução do insucesso e abandono escolares (…)”, mas, sobretudo, “(…) promover o sucesso escolar (…)”, algo que achei uma óptima ideia: para que não haja insucesso, vamos promover o sucesso. Genial! Mas não é só isto. Também desejam valorizar o ensino profissional e vocacional, dignificar os profissionais da educação (sendo que me conforta muito a solução que passa por “(…) criar equipas multidisciplinares orientadas para o apoio social escolar, prevenção de comportamentos de risco e para a orientação escolar e profissional que, para além do apoio dire[c]to aos alunos, às escolas e às famílias, estabelecerão ligações privilegiadas com os serviços sociais públicos e as comissões de prote[c]ção de menores (…)”; dignifica imenso, sem dúvida…), descentralizar a educação, criar uma escola “livre de barreiras e amiga da diferença” (expressão eufemística que usam para abordar a vagamente controversa questão das necessidades educativas especiais…) e promover a qualificação de adultos (que não é o mesmo que a qualificação dos adultos; é parecida, mas é só de alguns e não de todos…).

   Mas o melhor ainda estava para vir: querem criar (maravilhoso!) “uma cultura de avaliação consequente”, coisa que passaria por “(…) um sistema de avaliação que exerça uma efe[c]tiva função reguladora da aprendizagem e do funcionamento das organizações escolares (…)”, havendo, claro, “(…) avaliações externas, de cará[c]ter sumativo, sob a forma de provas nacionais no final de cada ciclo de ensino (…)” e “(…) avaliações internas que deverão desempenhar uma função tendencialmente formativa e orientadora dos percursos escolares (…)”, além de se “(…) avaliar periodicamente o desenvolvimento curricular concretizado através de metas, de forma a aferir a sua adequação aos obje[c]tivos de aprendizagem (…)”; sobretudo, aprecio a promessa patente em “(…) pretende-se conferir estabilidade aos currículos o que não significa imobilismo (…)”, sobretudo se considerarmos que passar de um ano para outro será uma forma de movimento, não havendo, portanto, esse imobilismo que parecem desprezar… Enfim, ainda há tempo de “inovar para diferenciar”, coisa que abrangeria, entre outras coisas, “(…) a organização do sistema educativo orientado para o sucesso de todos os alunos e que valorize a liberdade de escolha e a diferenciação dos percursos escolares (…)” e “(…) a reorganização dos ciclos de ensino, de forma a eliminar a excessiva segmentação potenciadora do insucesso escolar (…)”. Hmmm… estão a pensar no mesmo que eu? Posso dizer? Posso? Mini-Ciclos de Leccionamento!

   De seguida, nas sondagens, vem a Coligação Democrática Unitária (CDU), a já conhecida associação entre o Partido Comunista Português (PCP) e o Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV). Principiam por defender “uma escola pública, gratuita, de qualidade e inclusiva”, falando de coisas como “(…) reorganização curricular, tendo em conta a necessidade de uma escola orientada para a formação da cultura integral dos jovens (…)” e “(…) aprovação de novos modelos de avaliação dos estudantes, assentes em princípios de valorização da avaliação contínua (…)” (não é que isto seja ideal, mas, pelo menos, não promovem a “avaliação consequente”…), mas também dando medidas tão vagas como “(…) contratação dos meios humanos e materiais que garantam uma escola pública inclusiva e o apoio a todas as crianças e jovens que necessitem (…)”, “(…) aprovação de um plano de educação e formação de adultos, bem como de um programa de formação ao longo da vida (…)” e “(…) valorização do Ensino do Português no Estrangeiro, através de uma profunda revisão do seu regime jurídico, incluindo a necessária valorização do seu corpo docente e a abolição de propinas impostas às famílias (…)”. E, claro, também pretendem resolver os problemas do ensino superior… Mas já alguém pensou em reformular verdadeiramente todo o sistema de ensino? Pois, também me pareceu que não.

   Seguir-se-iam, nas sondagens, uns lacónicos “outros”, mas, sendo estes uma mescla de partidos diversos e não associados, abordarei, em vez disso, o partido que se segue, que é o Bloco de Esquerda (BE). Começam por se apresentar chocados com todas as decisões ministeriais e, sobretudo, com os exames do 4.º ano, derivando daí para diversas medidas, a maioria das quais relativamente familiares, tais como promoção da formação de adultos, redução de número de alunos por turma, estabelecimento de uma educação verdadeiramente gratuita, “equipas multidisciplinares de combate ao abandono e insucesso escolar” (onde é que já ouvi isto…), entre outras. Mas a boa notícia é que têm um ponto exclusivamente dedicado à “Reforma Curricular”, que corresponde a “(…) uma reorganização curricular que reduza a carga horária imposta aos alunos e a excessiva compartimentação dos saberes em disciplinas; ultrapassar a debilidade do ensino das artes; educação sexual efe[c]tiva nas escolas; promoção de proje[c]tos científicos; pôr cobro à dicotomia ardilosa entre “saberes académicos” e “saberes práticos” (…)”; aparentemente, até vão no que me parece ser a direcção certa (aparte a eventual questão controversa da educação sexual…), se é que não se trata de mero palavreado demagógico… Claro, também pretendem acabar com a municipalização do ensino e resolver os problemas do ensino superior. Mas porque é que serei eu o único idiota a achar que se poderia muito bem englobar o ensino superior no “inferior”? Porquê a manutenção dessa clivagem? Enfim…

   Depois, teríamos o Partido Democrático Republicano (PDR), mas, para grande desapontamento meu, não consegui encontrar o seu programa legislativo, pelo que não poderei tecer comentário algum. Resta-nos, então, a Candidatura Cidadã Livre/Tempo de Avançar, mais conhecida apenas pelo nome de Livre. Das primeiras coisas que referem é que defendem “(…) alterações curriculares, em diálogo com todos os intervenientes ligados à educação e com a sociedade civil, que tornem o trabalho escolar mais inclusivo, estimulante e contextualizado, numa lógica integrada e humanista, valorizando a autonomia dos professores e dos estudantes, as múltiplas inteligências e os diferentes contextos [sócio-culturais] (…)”, mas talvez seja mais uma forma de nada dizer através de muitas palavras. Ainda assim, prometem “abolir os exames nacionais no 4º e no 6º anos”, algo, para mim, louvável, ainda que considere que falte abolir os do 9.º, 11.º e 12.º, conforme os meus leitores saberão por agora. De resto, redução do número de alunos por turma, educação de adultos (que inovador: já não é formação de adultos!), formação para a cidadania (a sério?), valorização dos profissionais da educação, promoção do ensino artístico e profissional, descentralização e resolução dos problemas do ensino superior. Praticamente igual a tudo o resto, apenas com uma ou outra inovação.

   Tomei, também, a liberdade de ler (na diagonal, admito) alguns programas dos partidos agrupados como “outros”, na sondagem. Pelo que vi, nada de novo, contrariar o abandono escolar, educação centrada no aluno, cidadania, melhorar o ensino superior e coisas afins; creio que os que não li (por não ter tido acesso) deverão ser relativamente semelhantes. Enfim, após esta minha (admito que pouco aprofundada) análise, chego a uma conclusão e uma só: acaba por ir dar tudo ao mesmo. Se comecei apartidário, acabei igualmente apartidário. Nada nas propostas se destacou tão visivelmente que me poderia alterar as intenções de voto.

   Resta-me apenas deixar a ressalva de que, caso algum leitor tenha ficado incomodado com as minhas avaliações, tal não era, de forma alguma, a minha intenção; apenas quis efectuar uma análise imparcial (leia-se relativamente às perspectivas políticas e ideológicas dos partidos, ou seja, apartidária) sobre as propostas para a área da educação. Mesmo que não me tenha coibido de expressar uma ou outra opinião relativamente ao ensino em si, não fui, de modo algum, afectado por qualquer opinião que pudesse ter relativamente aos partidos cujos programas eleitorais analisei. Como sempre, deixo à vossa disposição o espaço de comentários. 

10 de julho de 2015

Diversos Textos (Ou Textos Diversos) Que se Seguirão…

   Antes de mais, tenho de apresentar as minhas desculpas por mais uma longa ausência, mas motivos pessoais e escolares diversos (não fiquei a salvo dos sempre ignóbeis actos burocráticos que dão pelo nome de exames nacionais…) diminuíram o meu tempo livre de uma forma tal que, pura e simplesmente, não pude escrever uma entrada tão extensa quanto desejava. Em vez disso, tive de me contentar em ir alinhavando textos diversos, sobre assuntos diversos, muitos dos quais já mais ou menos ultrapassados.

   Mas, ainda assim, considero que seria um desperdício não publicar esses meus comentários (por menos valor que eles possam ter e por menos leitores que eu possa ter). Assim, dentro em breve (que é o mesmo que dizer ao longo destas próximas semanas), irei publicar, à medida que as finalizo, várias entradas, construídas a partir desses mesmos textos que fui escrevendo, e que, como sempre, pretendem abordar diversos aspectos do ensino português.

   É certo que esta entrada em particular pouco ou nenhum significado tem, mas achei por bem deixar aqui esta mensagem, sobretudo porque me permite justificar o facto de as entradas que aí se seguem não abordarem unicamente assuntos recentes, que, de qualquer forma, tendem sempre a escassear neste tempo que começa já a ser de férias… Tirando segundas fases, claro.

11 de abril de 2015

Esta É Para os Leitores...

   Não sei bem o que escrever. Não o tenho sabido desde a última entrada. Tenho tido uma ou outra ideia, uma ou outra queixa, mas nada suficientemente conexo para pôr aqui.

   Em todo o caso, devo-me (e devo-o a vocês, a todos os meus leitores, por menos que eles possam ser) uma nova entrada. Não sei bem o que dizer, por isso, tenho de pedir a vossa ajuda. Serão vocês a construir esta entrada. Atrevam-se a lançar as vossas críticas, as vossas queixas, as vossas ideias. A única coisa que eu posso fazer, e farei com gosto, se assim o desejarem, é dar-vos a minha opinião sobre elas, sempre e unicamente no intuito de as melhorar.

   Não sei que mais posso acrescentar além de vos informar que, agora (como sempre), o espaço de comentários fica à vossa disposição…

14 de janeiro de 2015

Comentando Comentários Alheios

   Sei que tenho estado ausente deste local a que se costuma chamar blogosfera. Nem sei bem porquê, se por falta de ânimo, se por falta de inspiração, se por falta de assunto. Certo é que o Sistema de Ensino lá continua no lugar, sem qualquer tipo de oposição, sem qualquer tipo de contestação, sem qualquer tipo de entrave. Mas hoje estou aqui para tecer um comentário a comentários alheios. Serei mais esclarecedor: na noite da terça-feira passada foi emitido o programa “Por Onde Vamos”, na SIC Notícias, dedicado ao estado do ensino em Portugal, e eu, sobretudo por saber que há muito tempo que devo uma entrada (não sei se a mim próprio se aos leitores, muitos ou poucos que sejam), tomei a liberdade de o ver para agora o comentar. Não poderia ter passado o serão de pior forma. Foi mais uma demonstração do Sistema, em prol do Sistema, para o Sistema e por causa do Sistema. Uma vergonha. Eis porquê.

   Ao longo do tempo, e sobretudo ao longo das minhas actividades bloguísticas, tenho vindo a verificar cada vez mais que, quando se fala do Ensino, os alunos vêm sempre em último lugar. Fala-se dos professores, fala-se das condições das escolas, fala-se das estatísticas, fala-se das disposições comunitárias da União Europeia, fala-se da colaboração com outros países, fala-se do abandono escolar, do insucesso escolar, disto e daquilo… mas não de alunos. Pois, tudo muito certo, são os adultos que têm maior influência no Sistema, logo são eles que importam, os jovens são demasiado imaturos para decidir por si mesmos, é mais do que óbvio, certo?

   Errado. Profundamente errado. Comecemos por isto: qual é a função do Ensino, esteja ele organizado como estiver? Ensinar parece-me a resposta mais evidente. Portanto, o Ensino serve para ensinar, isto é, para transmitir conhecimentos àqueles que não os têm de modo a que esses conhecimentos sejam adquiridos pelos seus destinatários. Estou a ser claro? Espero que sim.

   Ora bem, se a ideia é ensinar, é fundamental, para que se ensine, que haja quem aprenda. Um professor sozinho com as cadeiras e as mesas numa sala não pode ensinar nada a ninguém, como seria de esperar. Está, pois, estabelecido que não pode haver ensino sem alunos, pelo que são estes a componente fundamental de um qualquer Sistema de Ensino, são eles o “cliente final”, o derradeiro propósito da instituição escola. Então, se assim é, porque é que todos os envolvidos no Sistema de Ensino não agem como se assim fosse? Bom… talvez seja a minha lógica que é retorcida e interesseira, pelo que as minhas conclusões estão erradas, posso estar a ser tendencioso, a defender a minha classe e o meu posto… Sempre é menos prejudicial ser eu do que serem eles. O problema é que esta tendência se manifesta em praticamente todos os programas, notícias, blogs e artigos sobre o ensino, e quem sai prejudicado é quem não é mencionado: os alunos.

   Mas a culpa não é só dos que beneficiam mais com essa omissão (ou seja, os que fazem parte do sistema). O problema é que os próprios alunos tendem a amplificar esse efeito, com a sua passividade, com a sua aceitação, explícita ou implícita, de todas as determinações “superiores”, com a sua atitude colaboracionista, no sentido em que são muito poucos os que sequer pensam em mudar alguma coisa. Não sei o que temem, ou o que pensam ganhar com esse tipo de atitudes, mas parece-me, e é o que digo sempre, que têm mais potencial do que o que reconhecem em si mesmos, que podem verdadeiramente mudar. Para dar um exemplo em particular (não do que podem mudar, mas de que não fazem para mudar), como aluno, e como bom aluno, não me senti bem representado pelos dois alunos entrevistados no programa (pergunto-me se foram uma escolha arbitrária…), cuja declaração mais contestatária foi qualquer coisa como “isto até poderia ser considerado aborrecido, mas, como é bom para o meu futuro, até que é fixe”. Perfeito. Se estes são os adultos de amanhã…

   E, claro, há um outro elemento. Pais. Não, não é nenhum tipo de apelo à rebelião adolescente, estereótipo aliás útil para dirigir as energias dos jovens para contestar a autoridade directa dos pais em vez de procurar instituir mudanças sociais mais profundas, mas sim um apelo à consciência dos adultos feito por um jovem. Sem ofensa, claro. Bom, da minha perspectiva, o principal problema é que, falando na generalidade, a maioria dos pais apenas trava lutas que beneficiam directamente os seus educandos (gosto muito deste termo…), quando as travam; depois, o resto do tempo, vêem a escola como uma espécie de depósito para miúdos, pelo que, quanto mais tempo lá estiverem os alunos, melhor será. E isto, claro, quando não estão a afirmar, na generalidade, que todos os alunos, excepto, talvez, os seus filhos, são culpados de todos os males do mundo e arredores, e que só querem ter direitos e não ter deveres. Ou, talvez, seja eu que contacte com uma amostra pouco representativa dos pais de Portugal…

   Mas, para mim, o principal problema até nem é esse. O problema, e como as figuras presentes no “debate” expressaram (mais indirecta do que directamente), é que também se vê o acto de aprender andar na escola como algo cada vez mais exclusivamente burocrático (nenhum trocadilho propositado). Ou seja, há isto, isto e aquilo para fazer, nem se sabe porquê, mas, segundo o regulamento a e a directiva b e a alínea c do artigo d do decreto-lei e, está estabelecido que se deve fazer, ainda para mais porque o estudo f indica que o indicador da estatística g é melhorado por essa medida. Então e a tal história de aprender? Nada? Pois, já me esquecia, a portaria h é omissa quanto a isso. Desculpem-me o ridículo. Mas isto está, obviamente que numa menor escala, patente em belezas como as que referi na entrada anterior (Da Avaliação da Inutilidade), nomeadamente componentes mais ou menos inúteis da avaliação (como o título da entrada o indicia).

   Mas pronto, chega de generalidades gerais. Passemos a generalidades específicas. E, em particular, a uma coisa apontada pelo actual Ministro da Educação, Nuno Crato, que referiu algo do género de os professores se poderem formar mesmo não tendo aprendido algumas matérias de algumas áreas, ou melhor, mesmo tendo aproveitamento insuficiente nessas áreas. Não sei quanto aos leitores, mas eu acho que vejo mais uma oportunidade de impingir os meus Mini-Ciclos de Leccionamento. A sério, pensem nisso. Pelo menos, ninguém poderia progredir numa dada área sem saber a matéria essencial.

   Também achei curiosa a afirmação de Jorge Pedreira, que se prendia com a finalidade do ensino, que corresponderia a dar a todos os alunos a capacidade de aumentar o seu desenvolvimento pessoal, ou qualquer coisa semelhante a isso. Tudo bem, é uma ideia, mas creio que seria uma expressão mais aplicável num livro de auto-ajuda do que no contexto do ensino, que, como já referi, serviria para ensinar. Digo eu.

   Outra coisa que me captou o interesse, e curiosamente surge um pouco em oposição a uma minha afirmação no meu texto contra os Exames Nacionais, foi uma declaração de Nuno Crato no sentido de os exames não serem uma forma de duvidar da qualidade do ensino, mas sim de garantir a qualidade dos alunos que dele provêm. Então, se se for a pensar assim, de que servem os testes e a avaliação durante o ano lectivo? Deixo a pergunta no ar…

   E, para terminar com uma nota ligeiramente positiva, não posso deixar de referir que há, pelo menos, uma coisa em que concordo com as figuras presentes no debate: a falta de constância, a nível programático e de professores, prejudica os alunos. É verdade. Sem professores, é difícil aprender (mas, relembro, sem estudantes é impossível ensinar). Se bem que a inconstância seja consequência, também, dos actuais moldes do Sistema, que não posso considerar finais e irrepreensíveis.

   Não foi só isto, mas basta-me, por agora. Desejo um bom resto de semana a todos, e agradeço-vos por me terem lido. O espaço de comentários está à vossa disposição, como sempre.