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27 de novembro de 2016

Ainda Sobre o Físico e o Mental

   Caros leitores, após muita hesitação, muita ponderação e pouca certeza, achei por bem aproveitar uma vaga disponibilidade momentânea para fazer a prometida nova entrada. A questão era que me faltava um tema (ou melhor, um tema que pudesse abordar com suficiente profundidade para figurar aqui sem ter de despender grande tempo em pesquisas e preparações), e, nesse sentido, vi-me forçado a recuperar uma entrada que já esboçara antes, acerca de uma notícia de há meses, que se prendia com o facto de Educação Física vir a contar para a média do Secundário. Lamento pelo atraso, lamento pela relativa irrelevância, mas é precisamente sobre isto que queria falar hoje.

   O comentário imediato desta criaturazinha a que tenho o costume de chamar eu mesmo não pôde deixar de se prender com a total e absoluta indesejabilidade das médias, das notas e do actual sistema de ensino, como acho que podem adivinhar que não poderia deixar de ser, mas uma segunda reacção, garantidamente menos imediata, talvez um pouco mais pertinente, afigurou-se-me como suficientemente válida para aqui a replicar.

   De entradas passadas, já devem ter ficado a saber que não sou, pessoalmente, o maior dos adeptos de Educação Física, à semelhança de alguns de vós (e em contraste com outros, decerto). Porém, o tema e o contexto exigem de mim a menor parcialidade possível e, nesse sentido, vou tentar não me deixar levar por essas minhas perspectivas; ainda assim, dada a falibilidade e a eterna parcialidade intrínsecas a todos os seres humanos, fica a ressalva e a (fraca) justificação para qualquer injustiça que cometa a essa maravilhosa (não é preciso exagerar…) disciplina que é Educação Física.

   Começarei por dizer o seguinte: face a uma situação em si mesma indesejável, nenhuma das opções que podemos tomar será desejável. Bom, admito que este raciocínio não obedece estritamente a todas as regras da lógica, mas, pensando um pouco, creio que poderemos arranjar fortes razões para o considerarmos correcto. Por isso, e tendo em conta que podemos atribuir a muitos aspectos do actual sistema de ensino (eu diria mesmo que a todos…) precisamente esse epíteto de indesejável, torna-se bastante complicado discernir a melhor via de acção face a esta questão, e, por isso, toda e qualquer resposta será intrinsecamente insatisfatória. Ainda assim, creio que há duas questões, ou dois aspectos, cuja análise e discussão nos deixam mais próximos de uma resposta admissível: a importância geral e genérica de Educação Física para os alunos, e as eventuais consequências de se contabilizar a nota dessa disciplina para propósitos diversos de cálculos diversos de médias diversas.

   A resposta à primeira pergunta é, a meu ver, a mais difícil, tendo em conta a minha já mencionada parcialidade, mas, não obstante isso, estaria a faltar à verdade se não dissesse que, no fundo, o desporto e/ou a actividade física são componentes (medianamente…) importantes na formação geral e genérica dos cidadãos. Pronto. Custou dizer, mas está dito. Agora, a questão que se põe é se Educação Física é mesmo a melhor forma de assegurar essas componentes… À parte possíveis divagações sobre a ineficácia das aprendizagens forçadas (que até seriam relevantes, se não fosse o facto de anularem praticamente todo o assinto em análise), grande parte das situações de que, directa ou indirectamente, tenho conhecimento (e suspeito de que o mesmo se passe com a maioria dos leitores) levam-me a crer que a forma como a Educação Física é comummente dada faz pender a resposta para o lado do “não”. É certo que que a experiência empírica é sempre falível e que há sempre casos que se destacam pela positiva, mas, de uma maneira geral, o ensino de Educação Física costuma ter menos de Educação e mais de Física (e não estou a falar de forças ou electrões…): a maior ênfase é dada ao fazer bem as coisas, ao ter a capacidade física de desempenhar as tarefas prescritas, e não tanto ao saber que coisas têm de ser feitas e, dentro do género, como fazê-las (é certo que saber como encestar uma bola é bastante diferente de encestá-la de facto, mas, sendo isto Educação Física e não Disciplina de Desporto de Alta Competição ou qualquer coisa semelhante, será expectável que a ideia seja mais a primeira do que a segunda…), e, mais do que isto, o foco está mais na prática de modalidades desportivas em particular do que de actividade física em si (ou seja, pouco se abordam questões como a melhor forma de estruturar uma sessão de exercício, ou todo o processo de gasto de energia, recuperação e sobrecompensação que surge durante o esforço físico, e por aí fora, que, por toda a lógica, seriam conhecimentos mais ou menos relevantes para todas a prática de actividade física).

   E em que é que resulta isto tudo? Numa clivagem mais ou menos bem definida entre os alunos que sempre tiveram vaga (ou não tão vaga assim…) tendência para o desporto, e para quem quase nada do que é pedido representa um grande desafio, e os outros que, antes pelo contrário, pura e simplesmente não têm as aptidões necessárias e, por mais que se esforcem, nunca conseguirão chegar ao nível dos anteriores; claro está que há um vago contínuo entre estes dois grupos, mas o que importa destacar é que a forma como Educação Física é dada não contribui, na maioria dos casos (mais uma vez, tanto quanto sei, e com as expectáveis e previsíveis excepções), para alterar este estado de coisas. Assim sendo, poderemos dizer que, apesar da importância que a prática de exercício físico pode ter, a Educação Física (actual) não contribui significativamente para a melhoria das capacidades dos alunos para essa mesma prática, visto que quem já as tinha não as perde e quem não as tinha dificilmente as ganha (e, ainda por cima, adquire a desmotivação adicional constituída pelo insucesso a despeito de todo o seu esforço, o que, em muitos casos, pode até ser suficiente para gerar um ódio pessoal e particular a toda e qualquer actividade desportiva, o que contraria ainda mais o objectivo primordial de a fomentar).

   Passando à segunda questão, e tendo em conta a situação descrita nesse paragrafo aí acima, poderemos dizer que há um grupo que pode sair medianamente beneficiado e outro medianamente prejudicado desta ideia de se contabilizar a nota de Educação Física para a média: os naturalmente hábeis passam a ter (mais) uma disciplina à qual, à partida, terão notas razoáveis, mesmo sem grande esforço ou perda de tempo, e os naturalmente inábeis passam a ter (mais) uma disciplina à qual, com ou sem esforço, se torna quase impossível tirar boa nota. E isto, claro, leva a vagas injustiças, que é precisamente o que deveremos sempre tentar evitar.

   Então, finda esta exposição, que poderemos concluir? É razoavelmente óbvio que estas falhas apontadas decorrem não da natureza intrínseca de Educação Física, mas da forma como está implementada, pelo que poderão ser resolvidas; porém, para que ninguém saísse prejudicado, teria feito todo o sentido terem-nas resolvido antes de se ter posto Educação Física a contar para nota. Neste sentido, não posso fazer outra coisa que não opor-me directamente a esta medida.

   Mas há um aspecto, no qual talvez também já tenham pensado: as falhas de que acuso Educação Física, são, seguindo um raciocínio análogo, mais ou menos atribuíveis à grande maioria das disciplinas. E isso não nego, nem posso negar. Aliás, é precisamente isso que me permite chegar onde pretendo chegar, desde o início da entrada, que é a tal ideia, a tal reacção menos imediata que tive a esta notícia. Sabem o que é? Eu digo: para evitar confusões e reduzir qualquer tipo de injustiças, o aluno deveria ter o direito de anular uma qualquer disciplina do cálculo da média (em princípio, a mais baixa, como não poderia deixar de ser…), desde que essa disciplina não fosse relevante para o curso em que desejaria ingressar. Admito que esta proposta também possa ter algumas falhas e gerar, por si própria, alguns problemas e algumas injustiças (embora, muito provavelmente, facilite mais do que dificulta a vida aos estudantes, o que, diria eu, é sempre positivo e desejável…), e é precisamente por isso que saliento de novo a questão de “face a uma situação em si mesma indesejável, nenhuma das opções que podemos tomar será desejável”, posto que, neste caso, o desejável seria mesmo todo um outro sistema de ensino…

   E com esta habitual tirada me espeço, com toda a cordialidade possível, até à próxima entrada…

9 de fevereiro de 2016

Do Físico e do Mental

   Leitores, se me permitem que me dirija logo assim, de chofre, a todos vós (tenho sempre uma certa tendência a pensar que são mais do que o que são, pelo que talvez, para grande desgosto meu, nem sequer se qualifiquem para um “todos”…), tenho de vos pedir as costumadas desculpas pela costumada ausência. Espero que não tenham dado muito pela minha falta (e, ao mesmo tempo, espero que tenham dado pela minha falta, porque isso significa que ligam pelo menos minimamente às baboseiras que para aqui escrevo…); caso se queira saber, ou caso não se queira saber, fui retido pelos habituais afazeres escolares, sempre enfadonhos, sempre indesejáveis e sempre prolongados… Vá lá que, por agora, há esta pequena folga, que acaba por permitir pôr em dia os assuntos em atraso. No meu caso, será a escrita e a contestação ao actual sistema de ensino…

   Por falar nisso, hoje até que nem escolhi um tema assim tão bom nesse sentido… mas foi o que me surgiu… e a escrita tem, para mim, uma forte componente intuitiva, pelo que forçar outro tema daria ainda um pior resultado. Aliás, o tema, em si, até que possui uma mistura potencialmente útil de pertinência, incomunidade (desculpem-me o termo bastante obscuro e francamente inventado…), polemicidade e possível teor filosófico, mas é mais uma reflexão do que uma crítica. Espero que não se importem…

   Ora, talvez já saibam que me aproximo bastante do estereótipo do marrão. Não é desejável que haja tais generalizações, mas o que é certo é que as há e, no sentido de melhor contextualizar o que vos vou dizer, fica aqui a informação (que, por acaso, até só me ofenderia a mim, pelo que não há grandes problemas com isso…). Sendo eu, então, um marrão, também possuo a grande falta de aptidões motoras que caracteriza essa pretensa faixa da população estudante (um sub-grupo cultural estudantil? Um estrato educacional? Não sei como lhe hei-de chamar…), em mim exacerbada numa certa falta de apreço pela actividade física. Mas, como é óbvio, há quem se encontre no lado diametralmente oposto do espectro (será o caso do leitor que está a ler isto neste momento?) e que, por isso, defenda até ao último suspiro a causa da actividade física.

   Nem vale a pensa entrarmos por grandes discussões quanto a quem tem razão, porque são ambos e não é nenhum: se, por um lado, a prática desportiva é essencial para a saúde do indivíduo, é igualmente certo que faz pouco sentido exigir, por imposição do sistema educativo, a quem levará a sua vida toda a desempenhar tarefas mentais que adquira, contra a sua vontade, conhecimentos e capacidades físicos. Percebem onde quero chegar? Ambas as partes têm razão e, se há quem insista, justamente, para que a Educação Física ganhe maior importância, nomeadamente no que toca a médias diversas, outros há que amaldiçoam, justamente, a inclusão dessa disciplina nos programas do ensino secundário.

   Tradicionalmente, e por toda a lógica, eu pertenceria a este último grupo, mas, como espero que já saibam, tenho sempre uma tendência incontrolável para ser a favor do contra… Sendo que, este caso, isso se traduz na habitual defesa de um paradigma alternativo de ensino que, pela subdivisão das matérias em ciclos de leccionamento mais curtos, confere maior liberdade e flexibilidade na selecção dos conhecimentos a adquirir; sim, já sabem, falo dos Mini-Ciclos de Leccionamento. Ora, não querendo incorrer na lengalenga do costume no sentido de evidenciar a quase panaceia que este sistema de ensino seria, vou, em vez disso, dizer mesmo que este sistema seria quase uma panaceia, ajudando, inclusivamente, a resolver, ou melhor, a tornar desnecessária esta questão.

   Está-se mesmo a ver: consoante o seu desejo (e mediante a aquisição de eventuais conhecimentos anteriores…), qualquer aluno poderia (ou não) adquirir conhecimentos relativos à prática de actividades físicas. Mas, convenhamos, não seria exactamente saber as regrazinhas, ou andar a correr de um lado para o outro com a bola na mão/no pé/no stick/seja onde for, não: seria de uma forma mais sistematizada, mais profissional, do que é hoje, ensinando mais aprofundadamente tácticas e técnicas diversas, eventualmente dando umas bases do funcionamento anátomo-fisiológico do corpo dos atletas e afins, sempre no sentido de transmitir conhecimento (o que fazer, como fazer e por que raio se faz como se faz); em suma, seria manter a parte do Física e aumentar a parte da Educação, fazendo, também, uma eventual ligação à competição desportiva mais “oficial” ou “profissional”. Mas, claro, tudo isto sem nenhum grau de obrigatoriedade.

   É certo que isto pode ser a modos que um incentivo ao sedentarismo, mas, convenhamos de novo, por um lado, quem é verdadeiramente sedentário não faz muita coisa em Educação Física (leia-se, sem ofensa, arranja formas de se escapar a fazer as coisas…), por outro lado, não serão umas poucas horas semanais que restituirão a saúde (sobretudo quando, nessas aulas, há demasiados alunos para o professor os poder auxiliar e incentivar convenientemente, e quando também há erros crassos de planeamento e execução da parte do professor, como seja a omissão de aquecimentos…) e, por outro lado ainda, é das minhas mais profundas crenças que uma actividade desempenhada voluntariamente o é muito melhor do que se for forçada, pelo que talvez funcione melhor educar e sensibilizar as pessoas para a eventual necessidade da prática de exercício físico nos seus tempos livres do que obrigá-las a praticá-lo em tempos não livres (convém, também, garantir que têm tempo para o fazer sem prejuízo das suas restantes actividades, coisa que, para os alunos, os Mini-Ciclos de Leccionamento também garantiriam…).

   Além disto, e ainda no âmbito das eventuais actividades menos intelectuais e mais físicas, há um facto vagamente incoerente que não posso deixar de destacar: no ensino, à excepção dos aparentemente vilipendiados e desprestigiados (vá-se lá saber porquê… e isto não é, de modo algum, ironia, porque nenhum conhecimento é mais ou menos digno do que outro) cursos vocacionais (se não for bem esta a designação oficial, peço aos meus leitores que me perdoem o arcaísmo; há sempre a evolução linguístico-burocrática, que torna praticamente impossível estar minimamente actualizado), são quase literalmente ignoradas certas actividades físicas que, não sendo directamente do âmbito desportivo, têm, na mesma, uma complexidade inerente que lhes cria a necessidade de serem leccionadas. Falo, portanto, de coisas como a mecânica (não no sentido do estudo das leis físicas que regulam o comportamento macroscópico dos corpos, mas no sentido do termo mecânica em “mecânica automóvel”, ou seja, no sentido da construção, manipulação e reparação de objectos e maquinarias diversas), a electrónica, a própria actividade laboratorial, a cozinha, entre muitas outras. Mesmo que haja, de vez em quando, um projectozito aqui ou ali, um workshop, uma iniciativa, ou um curso mais ou menos dedicado numa instituição mais ou menos dedicada a esse âmbito, no cômputo geral (não gosto muito desta expressão, mas era a que mais aqui se adequava…), é-lhes dada uma relevância praticamente nula.

   E isso, a meu ver, não faz qualquer sentido. Não podemos excluir conhecimentos só porque sim, só porque calha. Há que garantir a maior oferta possível, para salvaguardar a liberdade de escolha e, em última análise, para não cortar metaforicamente as asas a ninguém. Aliás, estes conhecimentos, de um domínio manifestamente prático, até têm uma utilidade social mais imediata do que os mais teóricos, pelo que a sociedade (por mais que muitos dos seus aspectos não sejam assim tão desejáveis…) até que fica a ganhar com isto…

   Assim, a inclusão destes conhecimentos na árvore dos módulos será, então, recomendável. Tudo isto permite chegar a uma conclusão que não ficou propriamente muito explícita no texto dos Mini-Ciclos de Leccionamento e que é a de que, na globalidade das matérias leccionadas, os conhecimentos mais teóricos, os conhecimentos mais práticos e todos os outros pelo meio estariam dispostos em relativa igualdade de importância, consoante, claro, as dependências e os prosseguimentos possíveis de cada um. Em última análise, isto permite juntar o ensino agora dito regular e o outro (que, por exclusão de partes, seria irregular?), eliminando, assim, uma distinção afinal injusta entre aqueles que têm maior aptidão para o pensar e os que a têm para o fazer. É certo que certos âmbitos beneficiam mais uma do que outra e, nesse sentido, certos pontos de vista darão mais valor a uma do que a outra (sendo que o ponto de vista tendencialmente académico responsável pela produção de reflexões diversas sobre o valor do conhecimento tem exactamente tendência a valorizar aquela que mais se integra no domínio académico, isto é, a aptidão mental, pelo que é esta que acaba por ser mais comummente valorizada), mas, globalmente falando, não se pode dizer que a aptidão física valha menos ou mais do que a aptidão mental, pelo que ambas deverão ter igual destaque e igual acessibilidade.

   E pronto. É isto. Um bom Carnaval a todos, se o festejarem (eu não: prefiro fazer entradas no blog…), e até à próxima entrada…