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19 de junho de 2018

Abreviado Apontamento Acerca de Acções Alheias

   Caros leitores, tenho estado outra vez demasiadamente silencioso para o meu gosto. Se quero levar isto a bom porto – e, no fundo, sinto que tenho de levar isto a bom porto –, é absolutamente necessário que escreva mais, e mais frequentemente, do que o tenho feito nos últimos tempos. Chega de desculpas, chega de procrastinações, terei de o fazer e fá-lo-ei… assim que passe mais esta vaga avaliativa que me assola há já algum tempo.

   Há, no entanto, um assunto que tem vindo a ser muito falado nos últimos tempos, de tal forma que se me afigura como imperdoável nada dizer (ou, neste caso, escrever) acerca dele, com ou sem vaga avaliativa. Falo, muito naturalmente, da greve dos professores às avaliações. A sua fundamentação, ou a sua legitimidade, ou o seu propósito, são assuntos que entram demasiadamente no âmbito da política e da economia para que me sinta confortável em debatê-los aqui; a forma de luta escolhida, e os efeitos que ela pode ter, não o são, e é mesmo sobre isso que gostaria de reflectir um pouco.

   Não nego, jamais o faria, o direito a ninguém de contestar, mais a mais quando acha (e tem razões minimamente razoáveis para achar) que está a ser prejudicado. Nesse sentido, não posso, de forma alguma, dizer que esta luta não deveria ser feita, antes pelo contrário. No entanto, considero que possuo total liberdade para questionar se o meio escolhido para a efectuar é o mais desejável (nem me atreverei a discorrer acerca da sua eficácia…).

   Digo, muitas vezes e sem remorsos, que a avaliação não deveria existir, por toda aquela pletora de razões que me vou abster de enunciar novamente; no entanto, aquilo em que penso quando o digo é fundamentalmente distinto daquilo que está a ocorrer: proponho uma inexistência do conceito de avaliação, não a ausência da determinação dos seus resultados; por outras palavras, a minha intenção é a de que ninguém seja avaliado, não a de que ninguém saiba qual a sua avaliação… Nesse sentido, creio não estar a ser incoerente ao dizer que, estando as coisas estruturadas da maneira que estão (que, a meu ver, está bastante longe de ser a mais desejável…), e posto que os resultados das avaliações que agora estão pendentes contribuem muito significativamente para determinar, em conjunto com o desempenho do aluno num outro processo avaliativo que já amplas vezes escrutinei (e critiquei) aqui – os exames nacionais –, a vida futura de alguns dos alunos afectados (os do secundário), não me parece justo para com eles que se lhes negue o acesso a essa informação, mais que não seja porque a dúvida, a incerteza e a ansiedade daí decorrentes contribuem de uma maneira muito pouco positiva para o estado de (relativo) bem-estar psicológico que seria mais ou menos desejável que os alunos apresentassem no decurso dos exames, se é que pretendemos manter qualquer tipo de esperança de que estes podem aferir com um qualquer grau de precisão o nível de conhecimento dos alunos que a eles se submetem.

   E piora: tendo em conta a natureza obviamente voluntária da greve, nem todos os alunos terão sido afectados por ela, ou poderão não o ter sido da mesma forma, o que constitui uma fonte adicional de desigualdades, que, mais uma vez, prejudicam a capacidade de os exames nacionais representarem adequadamente os níveis de conhecimento dos alunos. Isto para nem falar do imbróglio burocrático-administrativo decorrente das distinções entre alunos internos, externos e auto-propostos, e das diferentes acessibilidades às diferentes fases que uns e outros possuem, o que, prevejo eu (e só espero estar errado), ainda poderá vir a gerar muita confusão; se, por um lado, se torna possível anular retroactivamente os exames daqueles que não os deveriam ter podido fazer uma vez concluídas as avaliações que ficaram pendentes, de modo a não conferir a alguns vantagem sobre outros que, por terem sido avaliados atempadamente, não tiveram acesso à primeira fase, é mais do que compreensível que uma tal medida não seja isenta de contestação, posto que estudar para um exame, chegar mesmo a fazê-lo e posteriormente descobrir que o esforço de nada valeu deverá ser, creio eu, mais do que decepcionante.

   O que, no meio disto tudo, não deixa de ser curioso (de uma forma particularmente desagradável) é que, devido a um desentendimento que surge unicamente entre professores e Ministério de Educação, ou entre professores e governo, e que em nada diz respeito aos alunos, tenha sido adoptada uma via de acção que, de uma forma ou de outra, só prejudica estes últimos. Claro, poder-se-á argumentar que atrás dos alunos vêm os pais, e que estes poderão fazer pressão sobre o Ministério, mas, convenhamos, parece-me praticamente o mesmo que tentar capturar um criminoso algemando o seu vizinho da frente… Um pouco menos metaforicamente, mas talvez mais ritmicamente, os do ministério podem ser os culpados, os professores podem sentir-se lesados, mas por que conturbada razão é que os alunos é que têm de ser os sacrificados?

   Deixo a pergunta pendurada, caros leitores, porque assim mo dita a retórica, e porque creio que não me devo alargar muito mais. Até à próxima entrada, que espero que aborde assuntos um pouco menos infelizes do que este…

12 de abril de 2018

Da Irreversibilidade do Falhanço, Dos Falhanços Irreversíveis

   Não, não é, caros leitores, qualquer intenção irónica ou auto-depreciativa que determina o título desta entrada. Poderia ser, dada a minha longuíssima ausência (mais de dois meses, será um recorde?), mas não é. Quero genuinamente oferecer-vos uma reflexão nova, ou, no mínimo, menos repetida do que as restantes que se me apresentavam como possíveis; não sei se o consegui, mas, pelo menos, tentei. Sempre escrevi: já é melhor do que não escrever… Pois em, quero trazer para a discussão a atitude que o sistema de ensino cultiva para com o falhanço, atitude essa que não posso deixar de considerar pouco razoável.

   Deixo uma ressalva importante: sou um daqueles seres intrinsecamente infelizes a quem, entre outras coisas, se pode apontar a falha do perfeccionismo. Nesse sentido, tenho de admitir que posso ser mais do que um bocadinho tendencioso na minha análise, uma vez que não posso deixar de ver o falhanço como algo indesejável, e, nesse sentido, como algo que deve ser evitado a todo o custo. Reconheço, naturalmente, a relevância do papel que ele pode desempenhar na descoberta (pela primeira vez ou só pelo indivíduo em causa) de novas coisas, mas em última análise, o que conduz a esses resultados mais ou menos positivos é a sua reparação.

   E isto introduz muito directamente a reflexão que quero fazer aqui; o falhanço só poderá ter qualquer utilidade (se é que a pode ter, de todo) se for reversível, e se a reversão desse falhanço for tida em conta na aferição do sucesso total, final, do que quer que seja que tenha originado esse falhanço. Fazendo uma metáfora muito óbvia e muito gratuita, no desenvolvimento de uma qualquer nova invenção ou engenhoca, o que conta é o modelo final, acabado, funcional, não a vasta gama de protótipos e modelos de teste que se tiveram de construir até se lá chegar. Mas o que é que faz o sistema de ensino? Toma em atenção todos os modelos, considera-os a todos um produto embalado e pronto a ser expedido; todos os momentos de avaliação contam, e, mesmo nos casos em que os conhecimentos e/ou técnicas avaliadas sejam cumulativas (que, de uma maneira ou de outra, acaba por ocorrer na grande maioria dos casos…), poucas ou nenhumas são as vezes em que melhoramentos posteriores podem reparar falhas anteriores. Por outras palavras, cada momento de avaliação é definitivo, cada eventual falha nele cometida, irreparável, e a perfeição, mais notoriamente inatingível do que no resto das coisas que acontecem neste já de si altamente imperfeito mundo.

   E isto, a curto, médio ou longo prazo (talvez suficientemente longo para que, na maioria dos casos, não seja muito aparente naqueles que mais depressa se libertam das vis amarras do ensino…), não pode senão ser prejudicial, por uma de duas razões: ou o aluno se ressente desse fracasso, tenta evitá-lo a todo o custo e, de uma maneira ou de outra, esgota todo e qualquer resquício de vontade e capacidade de fazer as coisas correctamente (digo resquício porque o depósito principal tende a ser esvaziado pelo simples facto de se frequentar o sistema de ensino…), ou se insensibiliza perante esse fracasso e, em menor ou maior escala, deixa de se preocupar, esforçando-se o mínimo indispensável para progredir (se não ainda menos…). E não creio ser necessário explicar que ambas as situações são indesejáveis, podendo chegar, sobretudo no primeiro caso, a ser pouco saudáveis.

   Digo muitas vezes que o principal propósito do sistema de ensino deve ser o de transmitir conhecimentos. No entanto, não podemos ignorar os eventuais efeitos secundários que possui ou acarreta, neste caso, em termos das atitudes e perspectivas dos que o frequentam. Queremos mesmo uma sociedade onde os cidadãos se preocupam demasiado com a possibilidade de falhar, a opto de entrar em pânico ou ter crises de ansiedade (que ironicamente, poderão facilitar precisamente o falhanço que se receava)? Queremos uma sociedade onde os cidadãos não são minimamente afectados pelos seus potenciais falhanços, cultivando uma mentalidade de “desde que funcione, desde que dê para se continuar assim, chega e sobra”? Ou queremos uma sociedade em que os cidadãos, cientes de que o ideal é não falhar, admitem que a natureza humana acarreta eternamente a possibilidade da falha, tendo, por isso, a plena noção de que o essencial é saber como, por um lado, desenvolver sistemas para a detectar e evitar atempadamente, e, por outro lado, minorar os seus eventuais efeitos adversos?

   Tenho de admitir a possibilidade de estar a incorrer na falácia conhecida por falsa dicotomia (ou, neste caso, falsa tricotomia), no sentido em que talvez existam mais possibilidades para além desta, mas, de momento, não me considero capacitado para discernir mais alguma. Em todo o caso, está já exposto o essencial: que os momentos de avaliação do sistema de ensino, que a própria estruturação intrínseca ao sistema de ensino, poderão não estar a cultivar a atitude mais desejável perante o falhanço, o que constitui, se me permitem a previsibilidade, mais uma razão por que se o deve (e se a deve) mudar.

   E, visto que o tempo se me encurta, se me perdoam a sucintez e a eventual incompletude dos raciocínios, ficarei por aqui, prometendo voltar assim que consiga, numa próxima entrada que espero que chegue mais depressa e seja mais abundante do que esta. Obrigado por me lerem (e mesmo por abrirem e fecharem a página logo a seguir, mas, se o fizerem, dificilmente saberão que vos agradeço por isso…) e não se acanhem, nunca se acanhem, no que toca a críticas, questões ou simples comentários relativamente ao que para aqui escrevo…

6 de fevereiro de 2018

Ruminando os Rankings

   Caríssimos leitores, sei que mais uma vez vos desapontei grandemente. Prometi escrever em breve, tentei cumpri-lo e… falhei. A culpa é, em parte, do sistema de ensino, mas devo ser honesto para convosco (e para comigo…) e dizer que, em grande medida, é também minha. Mas de pouco serve agora chorar sobre produtos lácteos que, de uma forma ou de outra, tenham encontrado o seu caminho para o solo, e, por isso, e também por querer compensar o tempo perdido, prosseguirei já para o assunto que me traz aqui.

   Como qualquer pessoa que tenha estado minimamente atenta aos meios de comunicação social provavelmente saberá, saíram na passada semana os rankings das escolas, quer básicas, quer secundárias, rankings esses que, entretanto, foram alvo de inúmeras análises e reflexões. Pela minha parte, tendendo a minha atitude perante assuntos maioritariamente do foro sócio-político-económico a ser caracterizada principalmente por um silêncio mais ou menos deliberado, terei de me abster de seguir essas sobrelotadas vias mais longe do que um singelo comentário: não deixa de ser curioso que o mesmo concelho contenha quer a escola que está no topo do ranking do 9.º ano, quer a que está no fundo do ranking do secundário… Posto isto, o que me resta para dizer acerca dos rankings? Acerca destes rankings em particular, creio que pouco ou nada; acerca dos rankings em geral… muita coisa.

   Antes de mais, como acho que deve ser sobejamente conhecido pelas (pouquíssimas?) pessoas que passam os olhos por estas linhas de texto, oponho-me total e terminantemente aos exames nacionais; como tal, se não concordo com o instrumento usado na sua elaboração, jamais poderia estar de acordo com a existência dos rankings nos moldes actuais. Poderia ser esta uma boa ocasião para reiterar todas as críticas que tenho para lhes apontar, mas redireccionarei os eventuais interessados para as entradas relevantes, por economia de espaço, tempo e paciência. Não será, no entanto, exagerado ou repetitivo destacar que o problema mais pertinente para esta questão é a possibilidade de os exames nacionais não reflectirem adequadamente o nível de conhecimento dos alunos, o que quer dizer que, em última análise, os rankings poderão estar a medir coisa nenhuma…

   Mesmo pondo (com muito custo meu…) de lado a eventual falta de significado dos rankings, isto é, admitindo que os resultados obtidos significam alguma coisa, não se pode dizer que o processo seja propriamente pacífico a partir daqui… Claro que é desejável que haja algum tipo de verificação da eficácia do sistema de ensino, precisamente o papel que se pode dizer que os rankings tentam desempenhar, e claro que, em função deles, as atitudes das escolas podem (e devem…) ser ajustadas ou alteradas; mesmo que os rankings não tenham influência no seu financiamento (coisa que já julguei ser mais verdadeira, mas, de momento, não me atreverei a afirmá-lo…), um bom resultado costuma levar a uma continuação das atitudes tomadas, enquanto um mau resultado tenderá a levar (se para tal a escola em causa tiver recursos…) a uma alteração das estratégias educativas e pedagógicas postas em prática, posto que será sempre do interesse dos intervenientes nesse tipo de processos decisivos ficar bem colocados… Isto, claro está, não é intrinsecamente negativo, antes pelo contrário, é mais do que se desejável que se corrijam as falhas no processo de ensino-aprendizagem, mas… de uma maneira ou de outra, essas correcções só fazem sentido se virmos a escola enquanto instrumento de educação que actua ao nível da população, no sentido em que os eventuais melhoramentos só se farão sentir nas “gerações” seguintes de alunos (e, eventualmente, naqueles que possam ter ficado retidos…), deixando uma quantidade (a meu ver não desprezável) de alunos e/ou ex-alunos com possíveis falhas no conhecimento, o que não deixa de ser problemático.

   Também neste âmbito das atitudes tomadas em resposta aos rankings, há mais dois aspectos que creio serem dignos de nota (sem trocadilhos…). Em primeiro lugar, posto que um outro ranking disponível tem, também, por base a evolução das médias internas dos alunos (o chamado Percurso de Sucesso, do qual já antes falei), poderá haver alguma tendência para, como suspeito que infelizmente ocorra, as inflacionar ou deflacionar conforme seja mais vantajoso para as estatísticas, o que, não querendo enveredar de novo pela questão das falhas da avaliação, põe muito naturalmente em causa a validade desta, além de (maioritariamente no caso da deflação, claro está) poder ser prejudicial para os alunos (não só pelas consequências directas das notas mais baixas em termos das médias, mas também pela frustração e desmotivação que é saber-se que se tem uma classificação mais baixa do que a que se merece). Em segundo lugar, devo destacar que a natureza dos exames nacionais, sem me alongar mais nas críticas a estes, se presta muito a que se tente assegurar um melhor desempenho dos alunos por via de uma preparação mais específica, aliada a formas de decoranço sistematização de conteúdos também mais específicas, que, naturalmente, pouco ou nada contribuirão para melhorar a eficácia dos processos de ensino-aprendizagem dos conteúdos, que, no fundo, é o que os rankings pretendem aferir.

   Paralelamente a esta questão das respostas estimuladas pelos rankings, surge uma pequena interrogação cujas respostas mais ou menos divergentes, confesso, me entretêm ligeiramente (só ligeiramente…): a quem atribuir as “culpas” dos resultados dos rankings? Alguns dedos, acusatórios, apontam logo para os alunos (acrescentaria eu que com comentários no espírito de “esta juventude de hoje em dia!”); outras vozes (normalmente um pouco mais monocórdicas, se não mesmo entediantes…) discorrem infinitamente sobre contextos sócio-económicos, escolaridades de familiares, localizações geográficas; algumas (talvez mais sábias?) atribuem as culpas não tanto aos alunos, mas mais às políticas tomadas pelos estabelecimentos de ensino; outros há que mencionam (não desprovidos de razão…) a falta de financiamento, a falta de meios, a falta de equipamentos, a falta de funcionários, a falta de professores (e, porventura, a falta de vontade…). Mas, no fim disto tudo, restam mais dúvidas do que certezas, e fica tudo (essencialmente) na mesma… que é, devo acrescentar, mal.

   Mas, em todos estes casos, em todas estas afirmações, verifica-se, por uma outra via, o mesmo problema da escola enquanto instrumento educativo populacional: os problemas são apontados (bem, talvez exceptuando no primeiro caso…), eventualmente são mencionadas formas de os corrigir, mas em momento algum (que eu saiba) é demonstrada qualquer preocupação pelos alunos que sofreram com eles. E essa visão quase heraclitiana do ensino, essa ideia de que os alunos pouco mais são do que gotas de água num rio, escorrendo infinita e incessantemente (helenisticamente, sentir-me-ia levado a dizer panta rei), e o que interessa é modificar o percurso desse rio para o que se julga ser mais conveniente é prejudicial, chega mesmo a ser extremamente prejudicial, para cada uma das gostas, posto que, por muitos melhoramentos que se façam, os alunos, perdão, as gotas originais já sofreram na pele as consequências dos erros que, em muitos casos, nem foram elas a cometer…

   E é com a metafórica esperança de que o rio se torne um dia um lago, onde cada gota pode ficar o tempo que quiser e percorrer o caminho que lhe parecer mais apropriado, que me despeço, até à próxima entrada, desta vez sem previsões temporais…

30 de junho de 2017

Respostas a Respostas Alheias

   Caros leitores, retomo a escrita com uma entrada num formato muito pouco usual, posto que corresponde a uma resposta, ou, talvez mais precisamente, uma reacção ao artigo publicado por Hélder de Sousa, director do IAVE, no jornal on-line Observador, no passado dia 16 deste mês (admito que venho vagamente atrasado, mas, agora, com a entrada já elaborada, não poderia voltar atrás…), por sua vez em resposta a um artigo anterior, da autoria de Alexandre Homem Cristo, tudo isto, como não poderia deixar de ser, no âmbito dos exames nacionais. Naturalmente, não tenho grande coisa a ver com toda a discussão, mas, como cidadão e como aluno que já realizou exames nacionais, creio estar no meu direito responder, ou reagir, às declarações do director da instituição responsável por eles. E é precisamente isso que aqui vim fazer hoje.

   Em primeiro lugar, no que toca à questão (abordada um pouco por toda a parte da análise daquele que é identificado como o primeiro problema dos exames) da memorização em vez da compreensão dos conteúdos, creio ser necessário frisar que, mesmo não sendo os exames nacionais originadores, por si só, dessa memorização, é a forma como todo o sistema de ensino está organizado que o é, posto que, por um lado, a natureza mais ou menos pontual dos momentos de avaliação potencia a mentalidade de estudar especificamente para a prova em causa e não compreender profundamente a matéria, e, por outro lado, devido à necessidade (ou, no mínimo, vontade…) de atingir bons resultados nos rankings, e também, convém dizê-lo, no intuito de tentar melhorar o desempenho dos alunos, não me parece improvável que haja professores que promovem a mecanização das resoluções dos exercícios e a sistematização dos conteúdos por intermédio da memorização, na ideia (talvez não completamente errada, mas seguramente que não inteiramente correcta) de que se trata da forma mais segura e imediata de garantir que esse conhecimento fica bem consolidado por parte dos alunos. E, se, em ambos estes aspectos, os exames não são o motivo mais directo para que as coisas assim se passem, certo é que, sobretudo neste último aspecto, também contribuem para isso.

   Em segundo lugar, devo destacar as múltiplas referências ao pormenor de ser possível elaborar os exames de modo a que se atinja uma determinada média, reconhecendo-se, portanto, que, em última análise, os seus resultados são manipuláveis. Mesmo que as médias – tal como é abundantemente argumentado no artigo – não sejam a forma mais apropriada para analisar os resultados dos exames, parece-me que a Matemática obriga um pouco a que, havendo, de uma maneira geral, uma quantidade bastante grande de alunos a realizar qualquer exame (o que leva a que haja um grande número de resultados, em princípio, mais ou menos dispersos pelas diversas classificações possíveis), haja uma fracção não desprezável desses resultados que terão de ser alvo de alterações para fazer variar significativamente a média. Como tal, seremos forçados a concluir (como, de qualquer dos modos, se me afigurava já como bastante evidente) que, em última análise, as notas dos alunos dependem, pelo menos em parte, da forma como o exame é elaborado, que é o mesmo que dizer, da vontade de quem os elabora, ou, no mínimo, dos “parceiros técnicos e científicos”, o que implica que, enquanto forma de aferir o nível de conhecimento de cada um dos alunos, não são tão absolutos, indubitáveis, como se poderia pensar. Visão que, diga-se de passagem, o próprio autor rejeita (surpreendentemente, no sentido mais positivo do termo) no encerramento do artigo.

   Em terceiro lugar, uma curta questão de pormenor: no decurso da argumentação no sentido de refutar o uso da média nacional como indicativo do nível de sucesso dos exames nacionais, é apresentada a justificação de que a existência de alunos autopropostos (e, portanto, em situação de retenção à disciplina em causa) introduz uma perturbação tão significativa das médias que contribui para a não-representatividade desse critério no que toca ao estado do ensino. Ora, mesmo admitindo que assim é (coisa que não creio estar em posição de debater, posto que dificilmente me poderei considerar versado na exigente arte de interpretar estatísticas e extrair-lhes o significado, a credibilidade e a adequação à realidade…), não deixa de ser verdade que, de uma maneira geral, esses alunos tiveram acesso às mesmas aulas que os restantes, sendo, em última análise, o seu nível de conhecimentos decorrente do ensino, razão por que me parece que o seu desempenho, mesmo que insatisfatório, também reflecte o estado do ensino; mais a mais, dificilmente se poderá considerar que os exames, por si só, existem fora da própria estruturação do sistema de ensino, e, nesse sentido, não creio que os possamos analisar sem ter em conta condicionantes provenientes dessa estruturação, sendo os alunos autopropostos uma dessas condicionantes…

   Em quarto lugar, a questão da validade dos exames nacionais. Se interpretei correctamente as palavras do autor (e não obstante o facto de a abordagem deste assunto ser admitidamente simplificada, para permitir abranger uma mais vasta gama de leitores), a validade dos exames, ou dos resultados que se obtêm a partir deles, decorre da aceitação, por um conjunto mais ou menos amplo de entidades (mais ou menos?) habilitadas a opinar sobre esses assuntos, de que os resultados apresentados são representativos do estado do sistema de ensino, o que, fundamentalmente, me parece incorrer numa petição de princípio mais ou menos encoberta, posto que, em última análise, se está a tomar uma coisa por válida se for vista como válida… Para além disto, se o propósito principal dos exames nacionais é mesmo ser um reflexo do estado do sistema de ensino, então por que razão têm tanto impacto e tanta influência no futuro dos alunos? (É certo que o próprio autor refere que o acesso ao ensino superior e a forma como se encara a avaliação estão longe de ser ideais, mas, a meu ver, não é por isso que a pergunta deixa de ser válida – ou necessária…)

   Em quinto lugar, um rápido comentário à crítica à aceitação dos elevados níveis de retenção de que padecemos. É certo que, em parte, até podem derivar da incapacidade, indiferença ou indisponibilidade intrínsecas aos próprios alunos, mas creio ser igualmente certo que o sistema de ensino, por um lado, e a sociedade no seu todo, por outro lado, são culpados muito maiores disso: no primeiro caso, porque as múltiplas tarefas associadas ao acto de aprender o tornam algo muito mais oneroso do que o que, naturalmente, é, e, no segundo caso, porque, infelizmente, ainda há casos em que a conjuntura socioeconómica, ou um qualquer problema de natureza pessoal ou familiar, remete para segundo (ou terceiro…) plano os estudos. Naturalmente, quando ao impacto que estas retenções têm nos testes internacionais, disso não há dúvida: alunos em níveis de ensino diferentes têm, em princípio, níveis de conhecimento (e de raciocínio) diferentes, e, nesse sentido, sou levado a dizer que a escolha dos alunos estados com base em critérios exclusivamente etários não será exactamente a melhor medida desses testes internacionais, constituindo, até, um potencial falha (entre outras, como alguns estudos, ou melhor, alguns estudiosos, têm vindo, mais ou menos discretamente, a sugerir…).

   Em sexto lugar, pegando no pormenor de, como é referido pelo menos duas vezes no artigo (para justificar a ausência de evolução nos resultados dos exames, contrastando com o que se verifica nos testes internacionais – embora, conforme também é argumentado, se possa ver esse contraste como apenas parcial, se não mesmo inexistente), os exames poderem sofrer alterações de ano para ano, na sequência de modificações nos programas, gostaria de frisar que é daqui que surge uma porção não despicienda da injustiça que atribuo aos exames nacionais, posto que alnos em anos lectivos diferentes (diria, até, que, em casos extremos, de um ano para o outro) podem ser avaliados à luz de critérios e metas (mesmo que ligeiramente) diferentes. Naturalmente, é mais do que desejável que haja progresso e melhoramentos no ensino, mas creio não ser tão desejável assim que, só pelo infeliz acaso de terem nascido em anos diferentes, alguns alunos tenham a vida facilitada e outros, dificultada. Claro está que este facto é mais ou menos inevitável (a não ser que se opte por aplicar todos os anos exactamente a mesma prova, o que seria, à partida, de uma utilidade bastante reduzida…), mas não deixa de ser, a meu ver, um bom argumento contra o pendor absoluto, incontornável, infalível que muitos atribuem aos exames nacionais (pendor esse que, a meu ver, é quase inteiramente falso, e que o próprio autor desvaloriza – e bem, devo acrescentar).

   Em sétimo lugar, a questão de o desempenho médio, geral e genérico, dos alunos, quer nos exames, quer nos testes internacionais, se estar a tornar mais negativo, mas não propriamente mais positivo, facto que podemos relacionar com a já abordada questão da memorização versus compreensão, não é, a meu ver, inteiramente descupabilizadora dos exames nacionais; mais uma vez me parece inteiramente plausível que os professores, num bem-intencionado, mas não necessariamente bem-sucedido, esforço para tentar garantir o melhor desempenho nos alunos (e as eventuais vantagens que daí possam advir para eles, ou para a escola…), apostem precisamente na consolidação dos conhecimentos mais básicos e essenciais (em parte, por intermédio da memorização…), prejudicando a capacidade, mais dificilmente estimulada e adquirida, de os relacionar entre si de formas mais elaboradas e, portanto, de resolver os exercícios mais complexos, que, segundo o texto, são precisamente a área onde os alunos portugueses apresentam maiores dificuldades. Mesmo que isto não advenha dos exames nacionais em si, é bastante potenciado pela sua existência, ou no mínimo, pela forma como são encarados por grande parte dos intervenientes do sistema de ensino, o que também decorre bastante da forma como são apresentados e implementados…

   Em oitavo lugar, no que toca ao problema de se ensinar especificamente para os exames (e, no fundo, um pouco na sequência do aspecto anteriormente abordado), não seria, mais uma vez, tão rápido a inocentar os exames e a culpabilizar professores (e pais e alunos). Correndo o risco de me repetir (mais ainda…), a própria natureza dos exames, porque as matérias testadas correspondem a (potencialmente) todo o programa de uma disciplina, porque o exame é aplicado com todo um ritual de entrega por agentes da polícia, abertura dos invólucros selados na hora e nem um segundo antes, preenchimento estrito e específico dos cabeçalhos, e um sem fim de outros aspectos que lhe atribuem um carácter intensamente formal, quase dramático, porque o exame pode ter grande influência na vida futura dos alunos, enfim, por uma panóplia de razões, os exames apresentam-se como algo a temer, ou, no mínimo, a recear, sentimento que é aumentado pela própria preocupação que os que rodeiam os alunos (a nível familiar e escolar, entenda-se) demonstram para com eles e para com esse evento que se aproxima, visto como de suprema importância para o seu futuro. Juntando a isto tudo a tendência natural de tudo quanto seja gestão ou administração (em particular, de uma escola…) para se centrar em números e resultados, e tendo em conta que os exames providenciam uma boa fonte de números e resultados, é mais do que natural que os exames nacionais adquiram uma importância desmedida, desnecessária e, diria eu, indesejável, no seio do sistema de ensino. Não são, seguramente, a única fonte de problemas no sistema de ensino (e isso tenho já dito por várias vezes), mas são, sem dúvida, uma testa-de-ferro bastante proeminente para as restantes, e não por isso menos condenáveis…

   Para terminar, gostaria de expressar o meu apoio ao apelo ao debate e à discussão relativamente aos exames, em particular, e ao ensino, em geral, mas, posto que me é praticamente psicologicamente impossível terminar sem deixar mais uma crítica, devo frisar que os exames nacionais também podem ser vistos como decorrentes de uma mentalidade educativa (pelo menos em parte) retrógrada, ou, no mínimo, estagnada, posto que são um conceito que tem estado a ser aplicado há já bastante tempo, diria que com vantagens sempre debatíveis…

   E assim termino, despedindo-me dos meus leitores, que receio ter maçado demasiadamente, e desejando ter mais em breve do que o costume uma nova entrada…

4 de junho de 2017

Das Greves (e dos Exames)

   Caríssimos leitores, já deixei, por mais do que uma vez, bem clara uma posição que sustento e tento defender perante vós (mesmo correndo o quixotesco risco de me encontrar a esgrimir contra moinhos de vento…), que é a minha total e completa oposição aos exames nacionais. Nesse sentido, e por mais que apreciasse remoer os argumentos todos mais uma vez, receei demasiadamente maçar-vos para elaborar uma entrada sobre este tema, mas eis que as circunstâncias, para variar, se conjugam favoravelmente, de tal forma que agora tenho uma boa desculpa para o fazer, desculpa essa que, como poderão ter adivinhado pelo título que escolhi, resulta precisamente da greve anunciada, ou ameaçada, para 21 de Junho, assaz convenientemente coincidente com os exames nacionais de Física e Química A, Geografia A e História e Cultura das Artes.

   Convenhamos, por toda uma panóplia de razões, sobretudo de ordem histórica e democrática, não creio que devamos pôr em causa o direito de quaisquer trabalhadores de lutar pela melhoria das suas condições de trabalho, e, nesse sentido, não me parece muito desejável que nos oponhamos, a priori, a esta greve. Podemos, sim, pôr em causa o sentido de oportunidade da mesma, ou, talvez mais precisamente, a falta dele, dado que o calendário comporta em si exactamente 21 outros dias sem exames (agora só 17, dado que podemos, com elevado grau de certeza, afirmar que não se fará a greve nos dias 1 a 4 de Junho…) que seriam tão bons para reivindicar quanto o próprio dia 21. Naturalmente, sendo em dia de exame, a greve tem mais impacto, serve melhor como meio de pressão, é mais disruptiva, mas… quem se prejudica é, mais uma vez, a vítima do costume: os alunos.

   Nem é preciso dizer que a possibilidade de algumas escolas terem professores disponíveis e outras não mina completamente o (suposto) nivelamento de que os exames nacionais costumam ser vistos como fomentadores, mais que não seja porque a aplicação de um exame diferente (àqueles que não tivessem podido fazê-lo no dia original) geraria, inevitavelmente, um grau de dificuldade diferente, juntando à habitual (mas não por isso menos indesejável!) variação de ano para ano e de fase para fase uma outra variação intra-fásica, se me permitem o palavrão supérfluo, o que, muito naturalmente, multiplica por dez ou cem o factor injustiça. Por outro lado, a marcação de uma nova data de exame (seja para todos, o que evitaria o problema acima descrito, seja só para aqueles que não o puderam fazer no dia 21, caso ele se verificasse), sobretudo se com reduzida antecedência e/ou para um período mais ou menos inusitado, tem o potencial de prejudicar os planos dos alunos, seja em termos de estudo, seja em termos de compromissos pessoais e familiares – sendo este último caso, também, extensível aos funcionários e professores que terão de estar em funções nesse dia, o que aumenta ainda mais o impacto negativo da greve.

   E isto, claro, é para não falar na ainda mais insidiosa questão da incerteza que esta grande incógnita quase shakespeariana de haver ou não haver exame faz surgir, e dos respectivos efeitos nefastos que tem sobre os alunos, e que, agravada pelo nervosismo, e agravando o nervosismo, contribui para aumentar ainda mais as infelizes hipóteses de se fazer asneira, tornando os exames nacionais ainda menos representativos do nível de conhecimentos dos alunos. Isto é, admitindo que sequer o podem ser…

   Tudo isto para dizer o quê? Para deixar, essencialmente, duas mensagens, que enumero com bolinhas para efeitos estéticos:

  • Aos alunos, para que sigam o exemplo dos professores e aproveitem para manifestar, algures, antes ou depois (diria eu que preferencialmente antes…) dos exames, o seu descontentamento – que, espero, não seja tão inexistente quanto, por vezes, parece – relativamente a essa enorme injustiça e essa gigantesca indesejabilidade que são os exames nacionais, e a todas as outras, tão ou mais graves do que ela, que permeiam o sistema de ensino.
  •  
  • Aos professores, para que se recordem de que, se é certo que a escola dificilmente funcionaria sem professores, é ainda mais certo que ela não existiria sem alunos, pelo que talvez não seja a melhor estratégia alheá-los e prejudicá-los, posto que se poderão estar a prejudicar a vós mesmos…

   E, com estas palavras de simultânea exortação e advertência (por menos efeitos que possam ter…), me despeço, até à próxima entrada, se é que ainda aí estão, caríssimos leitores…



Pequeno Post-Scriptum: Tudo o que foi escrito parte do princípio de que a greve virá a ocorrer de facto; no entanto, não me espantaria (antes pelo contrário) que fosse atingido algum tipo de acordo entre o ministério e a FENPROF, e que a greve, afinal, não se viesse a concretizar, caso em que o prejuízo dos alunos se resume ao infeliz facto de terem mesmo de realizar o exame. Se a intenção original sempre foi a de não se efectuar a greve, não me posso coibir de comentar que me parece que os exames são um assunto demasiado grave, que tem demasiada influência na vida de demasiados alunos, para se brincar com ele dessa maneira, por menos formas de reivindicar que os professores possam ver para além desta…

25 de dezembro de 2016

Dos Insucessos de Percurso do Percurso de Sucesso

   Caríssimos leitores, como se vos apresenta a vida, nesta que será para muitos uma época festiva (e, para outros, apenas mais uma época de observação da alegria e da simpatia, porventura com um não desprezável grau de hipocrisia à mistura, de pessoas alheias)? Pela minha parte, tenho a lamentar mais um relativamente longo período sem produzir nada de novo, mas podem considerar esta (se ligarem a isso) a minha prenda para vós: uma nova entrada. E que coisa melhor para fazer nesta época de (aparente) paz e tranquilidade que criticar? É certo que tenho procedido de igual modo nas outras épocas todas, mas… enfim, adiante. O tema que quero trazer para a mesa é o do Percurso de Sucesso, precisamente o tal parâmetro, ou indicador, ou seja lá o que seja, que em vago destaque esteve agora por causa dos rankings deste ano (ou melhor, do ano passado…).

   Antes de mais nada, a indispensável ferroada a priori no actual sistema de ensino: isto dos rankings é, na esmagadora maioria dos casos, mais prejudicial do que benéfico, no sentido em que leva as escolas a esforçarem-se ao máximo para se superarem mutuamente (porque, e corrijam-me se já estiver desactualizado, um melhor ranking acaba por acarretar melhor financiamento), o que seria positivo se não fosse o caso de essa mútua superação ser tentada com prejuízo dos alunos, seja por um aumento da exigência (na esperança de que tal acarrete uma melhor prestação nos exames nacionais, que, com ou sem percurso de sucesso, continuam a contar para o ranking), seja por um aumento da carga de trabalho (com preparações intensivas e treinos intensivos e torturas intensivas afins, igualmente com vista à melhoria dos resultados nos exames, mas que, apesar disso, podem constituir – e diria mesmo que constituem – fonte de desconforto para os alunos…). E isto, claro, para não falar da eventual falta de representatividade dos rankings, tendo em conta a vasta gama de manigâncias que se pode fazer em termos dos resultados dos alunos…

   E é precisamente este aspecto que permite introduzir na conversa do percurso de sucesso: se já antes se deflacionavam notas internas, para impedir descidas mais significativas nas notas dos exames nacionais (o que, se não me falha a informação, poderia prejudicar as estatísticas), agora essa deflação será ainda mais pronunciada, no sentido de garantir (ou, pelo menos, demonstrar) que há evolução do aluno, o que, se não estou em erro, é precisamente o que visa medir esta coisa do percurso de sucesso. É claro que, de um ponto de vista mais ou menos ideal, genérico e abstracto, faz pleno sentido tomar em consideração o desempenho do aluno ao longo do seu percurso escolar, no sentido de tentar aferir se uma escola está a desempenhar bem a sua tarefa de desenvolver as capacidades e conhecimentos dos alunos; o problema é que, como bem sabemos, ou bem deveríamos saber, os instrumentos utilizados para reflectir esse mesmo desempenho (as notas, isto é, aqueles numerozitos da treta que se escrevem naquele papelito da treta, com o devido respeito a todas as coisas oficiais em torno disso…) não são, nem de perto, nem de longe, nem infalíveis, nem inalteráveis. Por outras palavras, acaba por não ser tão impossível assim compor as coisas do modo que mais convenha, independentemente de como são na realidade… É claro que esta generalização peca por injusta; não serão (espero eu…) tão reduzidos assim os casos onde não há qualquer tipo de manipulação dos resultados, e, nesse sentido, nem com percurso de sucesso nem sem percurso de sucesso sairão os alunos prejudicados. Porém, há a tal questão de uma maçã podre estragar o conjunto (se os senhores anglo-saxónicos me perdoam o desavergonhado roubo de expressões idiomáticas), e, nesse sentido, será mais ou menos inegável que os alunos, ou que pelo menos alguns alunos, sairão (mais) prejudicados (ainda) com o percurso de sucesso.

   Que fazer, portanto? Um novo sistema de ensino! Agora a sério, um novo sistema de ensino, e um novo sistema de ensino muito particular, para ser mais específico. É que se acabavam logo com estras coisas, quer por o próprio conceito de escola como entidade independente que tem de se sustentar sozinha durante um ano lectivo desaparecer (mais que não seja porque não haveria propriamente anos lectivos, mas também porque toda a organização seria mais aberta e menos… compartimentalizada), quer por os instrumentos utilizados para construir os rankings das escolas deixarem de fazer sentido (visto que se baseiam em notas internas e externas, que não existiriam…). Portanto, deixariam de ser os alunos os prejudicados por isto, visto que não haveria um “isto” para os prejudicar…

   E era isto que tinha para dizer. Sei que não é nada de novo (sobretudo esta última parte, mas tenho a necessidade quase médica de dizer coisas parecidas pelo menos uma vez por mês…), sei que também não é nada de particularmente interessante, mas foi o que produzi… Estejam à vontade, como sempre, para se expressarem, e, se os celebrarem, um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo (se não escrever mais nada entretanto…) a todos.

   Até à próxima entrada…

10 de agosto de 2016

Dos Aspectos Organizacionais dos Exames

   As mais que habituais saudações a todos os leitores (e também aos que não o sejam, mas que, precisamente por isso, nunca saberão que lhas dei, que é o mesmo que nunca lhas ter dado…). Admito já que o tema, hoje, é pouco pertinente, mas, enfim, acaba por ser uma questão do actual sistema de ensino que ainda não abordei totalmente, pelo menos não neste sentido, e que acabou por ser a única coisa que consegui mais ou menos encontrar.

   Espero que, por esta altura, já seja sobejamente conhecida a minha total oposição aos exames nacionais; não voltarei a argumentar aqui, porque, convenhamos, nem sempre é exclusivamente pela fadiga que se vence, e muitas vezes a repetição excessiva desvirtua e desvaloriza os argumentos. Portanto, já sabem que, para mim, não haveria exames. Só que… há (chocante, não é? Acho que grande parte dos leitores não estava à espera de tal revelação…). E, nesse sentido, há algumas especificidades organizacionais que, não sendo directamente decorrentes dos exames, surgem, na mesma, da sua existência, e que, em parte devido à minha intensa oposição aos exames, ainda não tive a presença de espírito de abordar propriamente. É basicamente isso que espero vir para aqui fazer.

   Em primeiro lugar, as fases. Aqui, podemos dizer que até que é das partes menos mal pensadas disto tudo (não que isso seja dizer muito…). Afinal, dá-se aos alunos o direito de, se assim quiserem (ou se de tal necessitarem), repetir o exame, o que dissipa, em parte, aquela questão de haver um dia em que, por uma conjugação anormal de factores ambientais adversos, não se está na melhor das formas, e retira parcialmente o pendor definitivo do exame (ainda que, havendo só duas hipóteses, este ainda exista, e também não é, de todo, impossível que se tenha dois dias maus precisamente na altura mais inconveniente, ainda para mais porque o exame é um factor de stress, e o stress é um factor muito importante no que toca a ter dias maus…). O problema é que, havendo dois exames, haverá dois conjuntos diferentes de exercícios, o que implica que há diferentes graus de dificuldade, o que, num certo sentido, pode gerar injustiças (embora, diria eu, não mais do que os exames per se conseguem gerar…), e isso a modos que anula o tal propósito sagrado dos exames, o de assegurar a igualdade de circunstâncias entre alunos. Diriam alguns que é por estas e por outras que há, depois, fases diferentes de candidatura, mas não vale muito a pena irmos por aí porque, simultaneamente, tal não se aplica no caso do 9.º ano (onde há, na mesma, duas fases, embora a segunda só seja mesmo para aqueles que não passam na primeira, se não me falha a informação), e também a divisão entre o ensino superior e o restante, o tal a que sou levado, por exclusão de partes, a chamar “inferior”, não é, para mim, facto assente e assunto enterrado…

   Em segundo lugar, as inscrições. Isto, claro, diz respeito aos exames de 11.º e de 12.º e não tanto aos do 9.º, porque aí é automática (se não me equivoco), mas não deixa de ser mais um aspecto dos exames que poderemos abordar. Claro que, por toda e qualquer forma de lógica, faz mais do que sentido que, havendo uma vasta gama de exames, todos realizáveis independentemente da situação do aluno, tenha de haver algum tipo de aviso prévio em como se vai efectuar o A, o B e o C e não o D, o E ou o F; no entanto, sou levado a perguntar-me: num mundo onde já tanta coisa é efectuada por meios electrónicos, até mesmo no âmbito do ensino, por que razão se mantêm as inscrições em papel? É que, além de considerações ecológicas diversas, este estado de coisas só leva a que se estabeleçam filas enormes nas secretarias das escolas, como qualquer aluno prontamente poderá testemunhar (juntamente com o facto de as secretarias nem sempre serem pináculos da eficiência…), gerando atrasos que, mesmo que não impeçam a inscrição em si, sempre a tornam mais uma fonte de stress e de desagrado, algo que não se verificaria caso a inscrição se efectuasse por via electrónica (descontando eventuais problemas informáticos, que, por vezes, têm o desagradável costume de surgir em tudo quanto sejam sites, plataformas ou portais públicos…). E há, claro, uma outra vantagem, além deste maior conforto na inscrição, que é uma maior eficiência no processo de recolha e tratamento dos dados relativos às inscrições (no sentido em que a informação toda estaria mais ou menos centralizada no site da inscrição), o que resultaria na redução dos custos organizacionais disto tudo. E, por falar em custos, posso também referir que o custo desnecessário do próprio impresso de inscrição para os exames seria, assim, evitado (pode não ser tão exorbitante assim, mas é francamente desnecessário, face à velha história de o ensino dever ser “tendencialmente gratuito”, e afigura-se-me vagamente exagerado face ao custo dos materiais envolvidos na sua produção)…

   Em terceiro (e último) lugar, temos a questão das reapreciações de prova. Este acaba por ser outro aspecto medianamente positivo, no sentido em que reconhece que todo o ser humano é intrinsecamente falível e providencia uma forma de, dentro do género, contornarmos algumas situações provocadas por essa falibilidade; há é uns quantos problemas na sua execução. Acima de tudo, a impossibilidade de se contestar os critérios de correcção acaba por equivaler à admissão da infalibilidade dos responsáveis pela elaboração desses mesmos critérios, coisa que é, obviamente, falsa (está bem que as associações de professores da disciplina dão pareceres, mas parece-me que nunca nenhum desses pareceres teve grande efeito…). Por outro lado, os efeitos da reapreciação assumem uns contornos, a meu ver, demasiado punitivos, no sentido em que agem como um agente dissuasor tão intenso que transforma a reapreciação numa oportunidade apenas aparente, criada e concebida para fazer parecer que se tem em conta a falibilidade dos correctores, quando, na verdade, praticamente não se tem. Estou a falar precisamente do duplo facto de a reapreciação de prova incidir sempre sobre a totalidade do exame e de a nota dada ser final; a meu ver, ou se permitia ao aluno pedir a reapreciação apenas dos exercícios nos quais considerasse ter havido má aplicação dos critérios (para reduzir as possibilidades de ser prejudicado nos outros exercícios, onde a ambiguidade da resposta ou do critério poderia permitir essa margem de manobra por parte do corrector), ou se daria a garantia de que prevaleceria sempre a melhor das duas classificações, ou, se quisermos ser mesmo simpáticos, que ficaria a melhor das cotações em cada exercício (impedindo, assim, que o aluno fosse prejudicado só pelo facto de pedir a reapreciação de prova). E isto é para não falar no dissuasor ainda mais significativo que é o custo da reapreciação. Bem, posso vagamente tentar compreender – isto é um processo vagamente moroso, burocraticamente conturbado e causador de não pouco desconforto aos professores a quem calha a “batata quente” do trabalho adicional; nesse sentido, quanto menos pedidos de reapreciação houver, melhor para toda a organização disto tudo, mas, convenhamos, para quê darem a hipótese e depois tentarem levar as pessoas a não a efectuar? Não consigo encontrar uma resposta que permita manter uma visão positiva e elogiosa das instituições em causa e que, ao mesmo tempo, se afigure como minimamente satisfatória…

   Mas pronto, tudo isto são faits divers, críticas, contestações e sugestões perfeitamente supérfluas, porque o essencial é mesmo acabar com os exames e não corrigir pequenas questiúnculas que deles decorrem, porque eles próprios são uma abjecção tão grande que supera quaisquer esforços de melhorar as coisas sem os eliminar. O que quer dizer que mais valia não ter escrito isto tudo, mas agora já vou tarde…

   Enfim, espero que a próxima entrada já tenha um assunto mais relevante, e é por isso que me despeço de vós, caros leitores, aguardando já pela inspiração que me permita escrever essa entrada, na qual espero que nos reencontremos…

29 de junho de 2016

Assuntos Tripartidos

   Antes de mais nada, quero apresentar os meus mais sinceros pêsames a todos os alunos por aí e por aqui que tiveram o desprazer de realizar os exames nacionais; não poderia continuar a escrever se não o dissesse. Ora bem, pelo título, creio que já vos dei a entender, caros leitores, que esta não é uma entrada exactamente normal. Bom, no fundo, nenhuma o é, até porque a normalidade é um conceito unicamente artificial e arbitrário, mas esta segue um modelo completamente diferente das outras (o que não é, de modo algum, intrinsecamente negativo…), no sentido em que aborda em simultâneo (ou melhor, sequencialmente…) três temas que se revelaram relativamente relevantes no âmbito da educação nestes últimos tempos (e para os quais arranjei alguma treta para dizer, que é o mais importante…). Portanto, e se me permitem a heterodoxia estrutural (termo que, embora pareça, em nada está relacionado com questões religiosas diversas… é uma heterodoxia no sentido figurado…), teremos três subtextos de seguida, três análises que, admito, serão relativamente abreviadas, mas acabam por ser o melhor que se arranja. Ora aí vêm…



I – Da Ressalva do IAVE

   Pouco tempo antes de se iniciar oficialmente a época de exames, os mui nobres e gentis senhores do Instituto de Avaliação Educativa, vulgo IAVE, vieram tranquilizar as indubitavelmente inquietas multidões de estudantes prestes a realizar qualquer um dos exames com a muito preciosa ressalva de que não haveria surpresas e o grau de dificuldade iria ser o mesmo. Esta é precisamente a primeira coisa que quero abordar.

   Bom, num certo sentido, e se formos na já mais que velha cantiga de que os exames são bons e necessários et cætera, e que são um instrumento importantíssimo para avaliar o conhecimento dos alunos, é mais do que positivo que o grau de dificuldade se mantenha, para que a avaliação do conhecimento dos alunos seja mesmo o mais fiável possível, de modo a que, de ano para ano, não haja injustiças.

   Mas sejamos realistas: os exames não servem propriamente para aferir o nível de conhecimento dos alunos, conforme já aqui se provou inúmeras vezes, e vir o IAVE dizer que serão iguais aos anteriores é – como  me lembrei logo de dizer assim que vi esta comunicação – estarmos nós acorrentados numa cave, onde, de temos a tempos, uns loucos /sádicos/psicopatas/serial killers macabros/captores cruéis/seja o que for aparecem para nos torturar, e ter vindo um desses torturadores à porta, lá em cima, posto a cabeça de fora e anunciar-nos, num tom de voz simpático e relaxante: “calma, tenham calma, meninos, que a gente já vos vem torturar, mas são as torturas a que já estão habituados, está bem?” Completamente tranquilizador, não é?

   Esta minha metáfora (mais que) ligeiramente estúpida à parte, importa mesmo frisar que anúncios e informações destas… enfim… são dispensáveis. É que, por um lado, o grau de dificuldade de dois conjuntos de exercícios nunca é igual (a não ser que os exercícios sejam exactamente os mesmos e aqueles que os fazem também: a dificuldade resulta não só da tarefa efectuada, mas também de quem a efectua…), e, por outro lado, também se está, de certa forma, a condicionar previamente aquela que seria a apreciação, ou, mais correctamente falando, o parecer que as várias associações de professores viriam a fazer dos exames (que, diga-se de passagem, e sem ofensa para ninguém, tendem a não ser propriamente tão rígidos quanto o IAVE o é nos critérios de correcção… ainda que, por vezes, haja umas – bem necessárias, convém acrescentar – ferroadazitas!).

   Mas pronto. Já falaram eles, já fizemos nós, e dia 13 de Junho logo haverá mais gente a reflectir sobre o grau de dificuldade dos exames… O problema é que é sempre o mesmo: só contestamos, só nos mexemos, quando nos toca directamente a nós…



II – Da Defesa da Escola Pública

   Um pouco mais recentemente que isto, vários autores de blogs do âmbito da educação (eu não!) publicaram um manifesto que afirmava a sua luta, e pretendia exortar os leitores a lutarem também, em prol da escola pública, defendendo, também, a gratuitidade do ensino, a adaptação das escolas às necessidades dos alunos e das comunidades e outras coisas.

   Ora bem, já analisei anteriormente as questões do público e do privado, nomeadamente aqui, mas não me coibirei de dizer que esta questão, à parte politiquices e ideologias diversas, é mais um bom exemplo do divide et impera em acção, concentrando as energias de pais e professores (e, em menor escala, alunos) no confronto directo dos apoiantes da perspectiva oposta em termos de público e privado para mais facilmente se deixar passar os grandes erros, as grandes falhas do actual sistema de ensino.

   Todo o debate e toda a reflexão (e, logicamente, toda a controvérsia também…) acerca do ensino acaba por constituir mais uma oportunidade para que se detectem e corrijam os problemas de que padece o sistema de ensino, mas o problema é que esta questão rapidamente descamba num debate sobre política e/ou economia… É claro que cada um tem direito às suas reivindicações, e os que agem no intuito de melhorar as coisas (como provavelmente será o caso dos subscritores do manifesto) devem ser louvados, mas talvez não estejam a agir da forma mais adequada para o conseguirem…

   Assim sendo, diria eu que, mais do que defender a escola pública, há que melhorar a escola em geral. E já sabem como, não é? Mini-Ciclos de Leccionamento!



III – Dos Contestatários dos Calendários

   Chegámos ao tema final, que, por acaso, diz respeito a uma forma de contestação. Que novidade, não é? Mas, para variar, esta contestação é alheia e não minha: trata-se exactamente do facto de, assim que são divulgados os calendários de um novo ano lectivo, haver sempre gente que se manifesta negativamente.

   Não me interpretem mal: nada tenho contra qualquer forma de contestação (à parte aquelas que prejudiquem injustamente outros seres…), e, aliás, até acho que se deveria contestar mais, contestar mais coisas, contestar mais frequentemente… A minha única questão é mesmo o facto de, como também se passa no assunto anterior, essas energias contestatárias estarem, muito provavelmente (e, mais uma vez, sem ofensa para ninguém), a ser mal empregues. É claro que podemos – e devemos – sempre manifestar o nosso descontentamento para com qualquer decisão (sobretudo para com aquelas em cuja tomada não temos qualquer parte activa…), mas torna-se mais eficaz se lutarmos pelo direito de sermos nós a tomar essa decisão.

   Para isso, e neste caso em particular, creio haver essencialmente duas opções: ou se tenta tornar a elaboração do calendário do ano lectivo um processo mais democrático, em que os pais e encarregados de educação possam ter alguma coisa a dizer (juntamente com os professores e os alunos…), ou se tenta mudar o sistema de ensino para alguma coisa que que possibilite aos alunos e respectivos pais ou encarregados de educação uma muito mais flexível selecção dos períodos de férias. E, se este último caso traz consigo o inconveniente adicional (não me lixem… que raio de inconveniente é este?) de introduzir várias alterações (que tão bem sabemos serem necessárias) no status quo, o primeiro também não é propriamente ideal, porque, mesmo numa democracia, há sempre vozes discordantes, e, logicamente, não se acabaria com a contestação. Assim, acho que o caminho deve estar mais ou menos traçado, não? Mais uma vez, Mini-Ciclos de Leccionamento!

   Um pouco paralelamente a isto, surgiu, também, uma sugestão ou uma recomendação, por parte de associações diversas de professores ou de directores, se não me engano, para que se passasse a efectuar a avaliação semestralmente. E quase que poderia fazer todo um outro subtexto sobre isto, mas, tendo esta nova subdivisão proposta todo a ver com a estruturação temporal do ensino, enquadra-se bem aqui.

   Sinceramente falando, a minha primeira reacção quando soube disto foi: “Mas que raio?” Está bem, eu percebo que, matematicamente falando, e admitindo que se seguem, na íntegra, as fórmulas e as folhas de cálculo que tanta gente gosta de brandir como escudo e/ou arma de arremesso, o resultado final vai dar ao mesmo (porque a nota final terá, em princípio, em conta a totalidade do ano lectivo…), e também entendo a questão de alunos em vias de chumbo no segundo período ficarem desmotivados e não fazerem nada no terceiro, mas pergunto-me para que é que tal mudança serviria…

   Tudo bem que isto implica menos reuniões e menos burocracias, o que é sempre um aspecto positivo, mas, por outro lado, isto também pode reduzir o feedback professor-aluno, no sentido em que, não havendo notas do segundo período, pode ser mais difícil o aluno detectar se está a ter problemas em acompanhar a matéria, o que pode fazer piorar a sua nota final. Nota essa que, como digo várias vezes, não reflecte adequadamente o nível de conhecimento dos alunos, pelo que isto tudo se torna uma não questão, já que qualquer divisão da avaliação é estúpida, por também ser estúpida a própria avaliação, e o sistema de ensino ideal seria (pelo menos, para mim…) os (já muito falados nesta entrada, como em quase todas as outras…) Mini-Ciclos de Leccionamento, onde a desmotivação seria mínima e os anos lectivos se tornariam um conceito do passado…



   E pronto, é isto, é esta a heterodoxia estrutural que eu tinha prometido. Sei que não é nada de espectacular, mas dêem-me um bocadinho de tolerância… ou, se assim o preferirem, sugiram-me temas bons e interessantes para abordar…

   Seja como for, obrigado por terem passado por cá, fiquem bem, contestem sempre o mais que possam, e até à próxima entrada…

24 de maio de 2016

Apelo Novo Apesar de Repetido

   Jovens de todo o país, sei que não me ouvem, sei que não me têm ouvido, mas dirijo-me a vós na mesma, outra vez.

   Está a aproximar-se, não é? Está a aproximar-se mais uma época de exames, mais um ano, mais uma tortura. E vocês, mesmo que resmungando, encaminham-se para essa tortura, como se fosse prazer e não suplício, sorrindo alegremente e encolhendo os ombros face ao inevitável.

   Mas será esse inevitável mesmo inevitável? Não, raios, mil vezes não! Não há leis universais que ditem a obrigatoriedade de um exame, só há a tradição, o hábito, o costume, o paradigma, e nada disso é inevitável!

   Jovens, sei que estão todos ansiosos pelo futuro que querem, ou que pensam que querem, ter, sei que estão todos ansiosos por se livrarem de mais um sofrimento, o mais rápida e indolormente possível, mas eu, que olho e olhei talvez um pouco mais em frente, digo-vos, aviso-vos, que não será este o último sofrimento. Atrás dele vêm outros, e outros, e outros, e o futuro que (vos) pintam de cor-de-rosa tem mais espinhos que pétalas…

  Então, jovens, querem mesmo esse futuro? Querem mesmo chegar a um dia em que definham numa cama de hospital, e olham para trás, para a vossa vida, e vêem que, do início ao fim, o mundo manteve-se tal e qual, a mesma porcaria de sempre?

   Ou querem deixar a vossa marca sobre este planeta, sobre este Universo, e fazer alguma coisa com significado? Fazer algo que melhore as coisas para vocês e para todos, sem “mas”, sem “senão”, sem “e se”?

   Está nas vossas mãos: suportarem cada um individualmente e todos em geral um tormento injustificável, ou mobilizarem-se e agirem no sentido de demonstrar às tradições, e aos lobbies, e aos poderes instituídos, que já não toleram mais torturas, que já não suportam mais sofrimentos. Está nas vossas mãos: deixar as coisas como estão, ou mudar o ensino em Portugal para uma coisa melhor.

   Então, jovens, escolham bem: porque, independentemente de tudo o resto, o melhor momento para a mudança é sempre o agora.

   Abaixo os exames nacionais!

   (P.S.: As minhas desculpas aos leitores que esperavam uma entrada com mais pés e cabeça, sobretudo depois desta interrupção… Se serve de desculpa, ou de atenuante, aproxima-se a famigerada, ignóbil e execrável época dos famigerados, ignóbeis e execráveis exames nacionais, e, nesse sentido, foi em mim reavivada a urgência de combater este marco tão simbólico do actual paradigma de ensino e das cruéis imposições que dele advêm; além disso, além de sem tempo – já se sabe o que acontece normalmente nestas últimas semanas de aulas –, também tenho andado sem temas, pelo que, tendo-me lembrado disto, aproveitei. Em todo o caso, espero que voltem algures para a semana, quando espero já ter preparado uma entrada mais apresentável… Então, até à próxima, se me derem o enorme privilégio de me continuarem a ler…)

22 de janeiro de 2016

Exortação da Juventude

   Em virtude de uma conversa que tive recentemente, houve quem fizesse uma pergunta muito pertinente (e, se essa pessoa estiver a ler isto, espero que aceite os meus agradecimentos, que na altura não lhe pude dar): mas, afinal, o que é que eu pretendo com tudo isto?

   Bom, a resposta é simples: melhorar as coisas, melhorar o ensino em Portugal, e, sendo ele a base de toda e qualquer sociedade, melhorá-la também, por extensão. Só que é algo easier said than done, como diriam os anglo-saxões. Nesse sentido, e visto que (para grande desprazer meu) o paradigma dos Mini-Ciclos de Leccionamento é, pelo menos por agora, menos que exequível (tendo em conta que ainda não foi possível, pela impossibilidade momentânea de ter acesso a todas as áreas do conhecimento humano e às relações entre elas, estabelecer-se a árvore dos módulos, central para a implementação deste paradigma), há que dirigir os esforços para uma luta também necessária, e bem difícil também, que é a contra os exames nacionais. Não, não vou argumentar tudo outra vez. Podem ficar descansados.

   Sei que, até agora, pouco se tem conseguido no sentido de angariar mais apoios e apoiantes nesta luta; divulgar o blog por si só, como até agora (e por falta de melhor via de acção) se tem feito, em nada contribui para divulgar a ideia, o conceito, a mensagem, a contestação. E, num certo sentido, escrever o que quer que seja aqui, pela relativa falta de tráfego e, intrinsecamente, de leitores novos, ainda eventualmente alheios à contestação, também não serve de nada, mas, pelo menos, ficarei com a noção (ilusão) de que estarei a fazer qualquer coisa de minimamente significativo. Então, e independentemente de quantos dos visados realmente lerão isto que escreverei de seguida, tenho de deixar aqui uma mensagem (não, não é essa…) a todos os jovens. Ignorem, claro, o facto de me dirigir a eles (a vocês) como se não fosse um deles (de vós), mas a segunda pessoa fica aqui melhor do que a primeira. Ignorem também a eventual demagogia, mas a minha intenção, garanto-vos, é esclarecer e não iludir (ao contrário da maioria dos exercícios demagógicos…). Ora bem, aqui vai…

Jovens, que esperais com a vossa vida? Sucesso? Emprego? Família? Uma vida perfeita, uma existência feliz, uma vivência quotidiana e agradável?

Pensai, pensai bem, pensai profundamente. Que vos aguarda o futuro? Que sortes, que oportunidades, que maravilhas vos guarda o futuro? Pensai, pensai bem…

Que esperais, que pretendeis com a vossa vida? Assegurar uma existência segura para vós e para os vossos descendentes? Mas, se calhar, essa existência segura pode deixar de o ser sem grande pré-aviso… e, de qualquer das formas, já pensastes que, ao agirdes assim, estais a perpetuar um ciclo por que já passaram os vossos pais, e os pais dos vossos pais, e, talvez, os pais dos pais dos vossos pais, e por aí fora, mantendo-vos, a vós e aos vossos presumíveis descendentes, numa situação praticamente idêntica àquela em que vos vistes pela primeira vez que observastes o Mundo, que é a da constante precaridade ditada pela existência e também pela convivência na sociedade actual (com eventuais variações de intensidade consoante a classe social)?

Pensai, pensai bem, pensai nisto… Que pretendeis com a vossa vida? Prazer e satisfação? Então, como os podeis ter ao vos subjugardes a imposições diversas (de ordem sócio-política, hierárquica, histórica, seja o que for…)? Por mais que isso possa parecer uma via para um bom emprego, talvez correspondendo, em grande medida, aos vossos interesses e aptidões, e que vos permitiria, dentro do género, fazer o que mais vos agradasse, nunca vos ocorreu que há sempre aspectos adversos a vós, a retirar-vos a possibilidade de obter esse prazer e essa satisfação que procurais (mais que não seja porque há sempre obrigações e deveres diversos, que, por definição, têm a particularidade de se sobrepor ao que seria a vossa vontade e ao que vos traria prazer e satisfação)?

Então, pensai, pensai bem, ou melhor, senti! Ignorai ethos, pathos e logos, ignorai todas as razões e critérios e noções que vos foram dadas, ignorai os vossos preconceitos e os vossos pós-conceitos, ignorai os vossos objectivos e propósitos, ignorai tudo isso, e senti, e deixai que seja o vosso interior, o vosso âmago, o vosso íntimo, o vosso subconsciente a responder-vos: estais contentes com o que tendes e com o rumo que levais?

Se a vossa resposta for um rotundo e inabalável “sim”, ignorai tudo o que acabastes de ler e saí imediatamente desta página. Mas, se há uma parte, mesmo que mínima, de vós que acha que a resposta não é tão incontestavelmente afirmativa, lede mais um pouco e ouvi mais um pedaço do que tenho para vos dizer.

É certo que o que vos tenho a propor não vos trará mais prazer ou mais segurança do que se levásseis uma vida normal, mas é igualmente certo que vos dará uma oportunidade de fazer a diferença, de mudar as coisas para melhor. A vida é curta, e os míseros segundos cósmicos que estão reservados à vossa existência não podem, ou não devem, ser desperdiçados em afazeres irrelevantes, em atitudes insignificantes cujo único contributo para a melhoria é tornar as coisas ainda mais solidamente como já eram antes (o que nem sempre corresponde a torná-las melhores…). Estais mesmo dispostos a efectuar tal desperdício, ou ansiais, como eu anseio, por fazer algo mais, por fazer algo mais significativo, por fazer algo melhor?

Se for esta a opção que fizerdes, olhai em volta, olhai em volta e vede o que está mal. Que injustiças se podem eliminar? Que erros se podem corrigir? Que tradições desajustadas, dogmaticamente mantidas pela tendência intrinsecamente conservadora da sociedade, se poderão suplantar? Tantos, sim, tantos! Tantos que dão ânsias de resolver logo todos os problemas!

Talvez não seja possível chegardes (chegarmos) todos a um consenso acerca do que está mal e de como estaria melhor. Talvez sim. Não me atrevo a tentar determiná-lo. Mas, seja como for, pergunto-vos: vedes que há coisas mal, e querei deixá-las assim?

Não! Cem vezes não! Mil vezes não! Vós, que o vedes, que o vistes, ou sabeis ou devíeis saber que os males que vistes só aumentam se os deixardes andar, se não os eliminardes. Oh! Mas é parca a força humana face à imutabilidade granítica das imposições hierárquicas e esclarecidas. Mas vós, que sois, que fostes, que agora vos tornastes minimamente esclarecidos, devíeis também saber que essa força só é limitada pelos limites que vós mesmos lhe impondes, e que a imutabilidade das instituições apenas provém da ausência de esforços para as mudar!

Assim, juntai-vos e mostrai-lhes, a todos eles, a todos esses indefinidos e sombrios eles que conspiram para manter as coisas como estão, que já estais fartos de pactuar com injustiças, que já estais fartos de suportar indesejabilidades! Juntai-vos, uni-vos e mostrai-lhes a vossa força, não para vos beneficiardes, não em prol de uma qualquer ideologia sócio-política, mas em prol daquilo que está certo, em prol daquilo que é devido, em prol daquilo que é mais desejável! Mostrai-lhes que a mudança, mais do que necessária, vem já atrasada! Mostrai-lhes, jovens, mostrai-lhes tudo isso e muito mais, mostrai-lhes, em suma, que sois mais, que sois muito mais, que os insignificantes números a que vos reduzem!

E, por mais insignificante (e, potencialmente, ridículo) que seja, gostava de vos propor, jovens, um alvo que não sendo, talvez, consensual, é, na mesma, simbólico de todas as imposições, de todos os controlos, de todos os domínios, de todas as manipulações: os exames nacionais. “A educação é a ferramenta mais poderosa que podemos usar para mudar o mundo”, como disse Nelson Mandela, e, nesse sentido, há que mudar a educação para que possamos mudar o mundo. É, pois, por aqui que devemos começar.

E, assim, junto a minha voz à vossa (e espero que vós junteis a vossa à minha) num grito, num apelo, num protesto, numa reivindicação: abaixo os exames nacionais!

   Bom, os meus leitores mais habituais que me desculpem o frenesi demagógico (preocupantemente próximo de certos discursos políticos… vade retro, politiquice aguda que me está a querer infectar!), mas deram-me ânsias e furores de escrita que não pude (ou não quis) controlar. Enfim. Se me quiserem dizer alguma coisa, aí fica o espaço de comentários; critiquem (se assim o entenderem) à vontade, porque eu próprio sou o primeiro a admitir que caí completamente no ridículo com esta minha entrada. Mas pronto. Até à próxima…

9 de janeiro de 2016

Mais Aferição da Aferição e Avaliação da Avaliação

   Não me posso impedir de começar esta entrada de uma maneira um pouco excêntrica: mas para que raio é que eu fui falar? Caso esteja a ser demasiado críptico, estou-me a referir ao facto de, antes sequer de estas… erm… maravilhosas notícias acerca das mudanças na educação terem saído, ter aqui efectuado uma reflexão sobre as provas de aferição. Tivesse eu ficado calado e, talvez, os brilhantes senhores do Ministério da Educação não teriam tido a brilhante ideia de reimplementar as provas de aferição, ainda por cima em mais anos do que os exames, e ainda mais por cima a mais disciplinas! Pronto, é certo que o Universo não funciona exactamente assim, mas não é a primeira vez que expresso a minha convicção de que algo não deve acontecer e é exactamente isso que acaba por acontecer… Nesse sentido, sinto-me levado a apresentar as minhas desculpas aos alunos do 2.º, 5.º e 8.º ano que passaram a ser afectados por estas provas…

   Bom, coincidência, acaso ou trama maquiavélica do Universo, o que é certo é que as provas de aferição cá estão, mais numerosas e mais abrangentes do que nunca. Se trocar os exames por provas de aferição já não era assim tão desejável, visto que correspondia a trocar um mal por um mal menor (ou, conforme digo na entrada anterior acerca das provas de aferição, trocar uma tortura prejudicial por uma tortura inócua), implementar ainda mais provas de aferição só vem tornar esta troca ainda menos desejável (tornando a tortura mais frequente, mesmo que se mantenha inócua).

   E, para piorar as coisas, parece que o Conselho Nacional de Educação veio fazer a modos que uma surtida em defesa dos exames nacionais (pelo menos no 9.º ano), propondo até efectuar-se mais um, o que, juntamente com uma outra notícia que por aí anda a circular e que afirma que os exames no Ensino Básico apenas são responsáveis por uma percentagem reduzida dos chumbos (por não haver, segundo parece, muitos casos em que as notas dos alunos sejam significativamente alteradas), vem fortalecer um pouco mais (ainda) a posição dos que defendem os exames.

   Mas não vou recair numa argumentação, que agora se tornaria mais do que repetitiva, acerca dos exames, das provas de aferição e indesejabilidades anexas e do quão necessário é que se abula esse tipo de instrumentos. Mas também não me posso coibir de frisar mais uma vez que a introdução anunciada de provas de aferição a mais disciplinas vem aumentar significativamente o factor stress dos alunos, com potenciais efeitos adversos na sua saúde mental, o que afecta negativamente as suas capacidades de adquirir conhecimentos, prejudicando, assim, o ensino no seu todo.

   Em todo o caso, quero deixar aqui umas perguntas a todos aqueles que concordem com exames nacionais e/ou provas de aferição (e que se encontrem a ler este texto): em que argumentos se baseiam para justificar a necessidade da existência desses métodos de avaliação? Ou seja, por que razão devem existir exames e/ou provas de aferição? Porque é que temos de avaliar/aferir o nível de conhecimento dos alunos?

   Responder-me-ão com o sempre comum (e sempre falacioso) “todos somos avaliados ao longo da nossa vida”?

   Pois, mas esse facto, por si só, não me parece suficiente para justificar que se efectue mais uma avaliação, ou várias (se quiserem, a existência de uma avaliação não pode ser usada para justificar uma outra avaliação, mesmo que uma seja vitalícia e a outra escolar; fazê-lo é incorrer num raciocínio circular, numa petição de princípio que torna toda esta argumentação inconsequente e inválida).

   Dir-me-ão que é necessário um critério de avaliação exterior, objectivo e imparcial, de modo a eliminar quaisquer desigualdades que o facto de os alunos partirem todos de condições iniciais gera?

   Bom, nem querendo contestar a objectividade e a imparcialidade das provas e exames (ainda que me apeteça muito fazê-lo…), e também não indo pela questão da injustiça, gostaria que me explicassem como é que realizar uma qualquer prova, conte ou não para avaliação, vai restabelecer essa igualdade de circunstâncias (já que, entre outras coisas, os alunos a quem não foi leccionada matéria não a aprendem subitamente só por fazerem a prova).

   Argumentarão que é necessário que o sistema de ensino possua algum instrumento para avaliar se os conhecimentos foram bem adquiridos?

   Sem sequer começar a questionar se exames e provas de aferição reflectem adequadamente o nível de conhecimentos dos alunos, creio que considerar que os resultados desses instrumentos levarão a alterações significativas e/ou a melhoramentos no sistema de ensino é partir de um pressuposto tão ou mais utópico e idealista que os próprios Mini-Ciclos de Leccionamento; por outro lado, também não vejo que lógica pode haver em deixarmos que essa avaliação do sistema de ensino tenha impactos no percurso escolar do aluno, penalizando-o injustamente por falhas que ele não cometeu (isto talvez seja um pouco menos significativo se houver provas de aferição, mas acaba sempre por haver subidas e descidas na consideração do professor, que podem beneficiar ou prejudicar o aluno…).

   Atirar-me-ão em cara que, se o ensino tem como função transmitir conhecimento (coisa que já tenho referido múltiplas vezes como sendo o seu principal propósito), então devermos determinar se aluno, de facto, adquiriu esses conhecimentos?

   Mas, então, expliquem-me como é que isso é conseguido numa prova que engloba uma miríade de matérias, podendo-se errar umas e acertar outras, sem que isso tenha qualquer efeito no sentido de permitir reaprender o que não se sabe e/ou não ter de repetir o que se aprendeu (por outras palavras, expliquem-me como se afere o conhecimento numa prova que testa as matérias como um todo, e ou se sabe uma percentagem suficiente desse todo para passar e se progride, mesmo que se deixe para trás algumas matérias que não se aprendeu, mas que, tendo-se passado, é como se se tivesse aprendido, ou não se sabe o suficiente para passar e não se progride, mesmo que haja algumas que se saiba, mas que, não se tendo passado, é como se não se tivesse aprendido).

   No meio de tanta contra-argumentação, não sei se deixei margem para os apoiantes de exames e provas de aferição que por aí andarem me responderem. Espero que ainda tenham coisas para me dizer, mais que não seja para que eu possa, finalmente, descobrir um qualquer argumento válido e significativo a favor das avaliações e/ou aferições diversas, e, através disso, atingir a maravilhosa iluminação que vós, apoiantes desses métodos, há muito que possuem… ou não.

   Seja como for, e antes de me despedir, não posso deixar de expressar o meu ligeiro espanto e o meu não tão ligeiro desagrado ante o facto de nem sequer ser considerada a abolição dos exames do Ensino Secundário. Sim, admito que falo parcialmente em proveito próprio, porque não vejo com bons olhos a possibilidade de ter de os fazer mais uma vez, mas sei que não sou o único a pensar desta forma. E, então, a todos os outros que também assim pensem, sim, a todos vocês que por aí andam, deixo o convite para a luta, para a manifestação, para a acção em prol de uma mudança que só poderá ser positiva! Abaixo os exames nacionais!

   E com estas palavras vagamente demagógicas me despeço, deixando-vos os meus votos de um bom fim-de-semana e a habitual ressalva acerca da plena disponibilidade do espaço de comentários…

P.S.: Tenho vagamente na ideia fazer uma certa renovação e revitalização do texto que descreve em pormenor os Mini-Ciclos de Leccionamento. Não será propriamente para agora, mas… para breve. Isto, claro, se entendermos “breve” como uma indicação genérica de um qualquer momento algures nas próximas semanas. Há trabalhos e testes diversos que me podem atrasar, mas espero acabar a revisão antes disso…

18 de dezembro de 2015

Da Verificação do (Des)Conhecimento

   Está já definido em entradas passadas que o propósito do ensino é, ou deveria ser, transmitir conhecimentos, especificamente conhecimentos racionais, preferencialmente raciocínios (por oposição à, e em detrimento da, memorização). Creio que isto é uma coisa em que poderemos todos concordar, sem grande margem para dúvidas.

   Ora, se o objectivo do ensino é transmitir esses conhecimentos, é em torno disto que todo o sistema de ensino deveria estar estruturado. Só que, actualmente, está mais centrado no cumprimento de requisitozinhos burocráticos e no seguimento de práticas e decisões que o passado, a tradição ou entidades hierarquicamente superiores (vistas quase como metafisicamente superiores, mas isso é outra história…) lhe conferiram. Mas isto, por palavras mais ou menos diferentes, já foi dito antes, e não é propriamente para ruminar a tendência conservadora do actual sistema de ensino que aqui estou hoje. Decidi, em vez disso (e também para, de alguma forma, celebrar este curto período de férias escolares que se iniciou ontem), focalizar-me um pouco mais (e mais uma vez) na questão específica da avaliação e dos métodos adoptados para a efectuar.

   Diga-se o que se disser, avaliar é sempre duvidar da eficácia do sistema de ensino. Se este funcionasse bem, e se tivéssemos essa certeza, poderíamos, sem problemas, dizer que todos os alunos adquiriram todo o conhecimento que lhes foi leccionado, sendo, por isso, desnecessário verificar se tal ocorreu. Só que, por motivos diversos (radicados maioritariamente na falibilidade humana e, por extensão, na falibilidade de todo e qualquer empreendimento humano), não podemos ter essa certeza. Nesse sentido, somos levados a adoptar um qualquer instrumento que nos permita aferir se o aluno adquiriu, de facto, o conhecimento que lhe foi leccionado. Mas, para tal, há que dar resposta a duas questões bastante revelantes: “Como se procederá a essa avaliação?” e “Que consequências deve ter essa avaliação?”.

   Começarei por abordar a primeira. Idealmente (e se me permitem um dedinho de Ficção Científica, que não está, de modo algum, relacionada com eventuais estreias de cinema que possam ter ocorrido recentemente…), dever-se-ia analisar a estrutura cerebral do aluno, de modo a determinar se as informações correspondentes ao conhecimento leccionado se encontram já adquiridas, algures na região cerebral correspondente à memória a longo prazo e/ou na região do cérebro dedicada ao tipo de actividade (motora, linguística, matemática, visual…) a que os conhecimentos em causa dizem respeito. No entanto, tendo em conta que (ainda) não temos nem os meios técnicos nem o conhecimento profundo do funcionamento do cérebro humano necessários para tornar esta visão possível, teremos sempre (ou melhor, por agora…) de recorrer a soluções um pouco mais convencionais (e um pouco mais deselegantes também, devo dizê-lo).

   Falo, portanto, da resolução de exercícios relativos aos conhecimentos leccionados. Tradicionalmente, isso seria feito sob a forma de testes, que, além de dizerem respeito a mais do que uma matéria (desvirtuando parcialmente o propósito de determinar se o aluno adquiriu um determinado conhecimento), acabam por não reflectir adequadamente, por motivos diversos (e como repito incessantemente, sempre que o possa fazer), aquilo que o aluno verdadeiramente sabe (falhando, então, inteiramente o pretenso propósito de avaliar o conhecimento do aluno).

   Assim, os testes não são a solução ideal. Aliás, incorrem, ainda, numa outra falha, que ainda não tinha apontado (e que me foi revelada por uma pessoa que espero que esteja a ler isto, e à qual não posso deixar de agradecer mais uma vez por essa ideia e pelo apoio…), e que é mais ou menos a seguinte: baralharem a existência com a recorrência dos erros. Permitam-me que me explique melhor. Ao efectuar um teste, enfim, acontece cometer-se, por vezes, certas estupidezes (por exemplo, estar tão embrenhado no processo de escrita que, inadvertidamente, se troca uma letra por outra, ou, no seguimento da frase, se esquece de um acento; ou, por outro lado, pela força do hábito, designar uma variável matemática por uma letra que não a que é indicada no enunciado…), que resultam não de um desconhecimento total ou parcial do assunto em causa, mas de uma distracção mais ou menos pontual; ora, penalizar os alunos por isto é injusto e, logo, indesejável. Admito que talvez seja difícil, em muitos casos, fazer a distinção entre o que foi um erro pontual e o que é prova de desconhecimento, mas não creio que essa incapacidade seja suficiente para justificar a penalização injusta dos que sabem…

   Então, depois disto tudo, poderiam ser levados a perguntar-me “Então e como raio é que se avalia?”; bom, mesmo não querendo ser repetitivo, creio que terei de descrever uma coisa bastante coincidente com os Mini-Ciclos de Leccionamento: à medida que se vai leccionando a matéria, os alunos vão fazendo exercícios e, quando passarem a realizá-los todos correctamente, consistentemente, deverão ter demonstrado, dentro do género, que adquiriram esse conhecimento. E, neste sentido, também os erros pontuais teriam um efeito mínimo, tendo em conta que se resolvem vários exercícios ao longo da(s) semana(s) em que a matéria é leccionada, pelo que esses erros, sendo pontuais, não ocorrerão em todos os casos. Creio, então, que fica respondida a primeira questão. Rimei, não?

   Pois bem, no que toca às consequências da avaliação, podemos dizer que, no actual sistema de ensino, são pouco mais que nulas. Sim, é verdade que, se um aluno tiver negativa nos testes e/ou exames, muito provavelmente chumbará (e o contrário também é válido). No entanto, isto em nada diz respeito ao conhecimento do aluno, porque qualquer um desses instrumentos engloba em si várias matérias, nem sempre todas encadeadas, e, por isso, o passar ou falhar essa avaliação não implica que, respectivamente, se tenha ou não se tenha adquirido os conhecimentos testados. Também nesse sentido, se um aluno chumbar, pode haver matérias que aprendeu e que é obrigado a “aprender” outra vez, ou, se passar, matérias que não aprendeu e que nunca mais irá aprender.

   Já devem ter percebido mais ou menos para onde é que eu vou levar isto outra vez, não é? Enfim, não o vou atrasar nem retardar, vou dizê-lo já: seria mais lógico se a matéria não viesse em “pacotes” de um ano, mas sim individualmente (matéria avulso, se assim quiserem), sendo cada matéria leccionada e avaliada em separado. Assim, caso um aluno não tivesse aprendido um dado conhecimento (ou seja, acabasse por não conseguir resolver acertadamente os exercícios com regularidade), poderia simplesmente (se assim o desejasse) voltar a frequentá-lo. E isto, meus caros, chama-se Mini-Ciclos de Leccionamento, como espero que por esta altura já saibam.
  
   Mas, ainda neste âmbito das consequências da avaliação, creio que também seria lógico implementar algum tipo de mecanismo segundo o qual uma grande quantidade de alunos a não conseguir adquirir uma dada matéria implicaria automaticamente algum tipo de averiguação no que toca aos motivos de tal acontecer e nas formas de se impedir que isso volte a ocorrer. Não falo exactamente de se penalizar a escola ou os professores, porque isso não resolve nada, agravando, até os problemas (os rankings são exemplo disso, levando a que escolas com piores resultados sejam menos financiadas, gerando uma degradação ainda maior das condições, o que só prejudica a aquisição de conhecimentos); falo, sim, de se tentar identificar os erros da organização e da pedagogia adoptadas e, se possível, corrigi-los. Mas pronto, isto são especificidades organizacionais de relevância reduzida, pelo menos, enquanto ainda não se implementou o novo sistema de ensino.

   Enfim. Relendo tudo isto que escrevi, creio que talvez tivesse sido mais simples pura e simplesmente escrever “Mini-Ciclos de Leccionamento!”, já que acabei por chegar (outra vez) à conclusão de que esse seria um sistema de ensino muito melhor do que o que o actual. Mas, como acabei por escrever este texto todo, considero que seria uma pena se o apagasse… Assim, e não obstante o teor vagamente repetitivo (e a relativa irrelevância) do texto, deixá-lo-ei ficar aqui, para que o leiam e (se quiserem) comentem. Um bom fim-de-semana a todos (e boas férias, para quem as tenha…).

12 de dezembro de 2015

Aferindo Aferições Diversas

   Antes de mais nada, tenho de apresentar as minhas desculpas por mais uma ausência, facto que, infelizmente, já se tornou um hábito. Eu gostaria, sinceramente gostaria, de escrever todos os dias, mas nem sempre consigo achar a inspiração necessária, ou um tema apropriado, ou argumentos minimamente válidos… e também me deparo, com a frequência a que o actual sistema de ensino já habituou os pobres daqueles que o frequentam, com todas essas ignobilidades de testes, e trabalhos, e trabalhos de casa… Enfim. Não interessa.

   Trago-vos hoje, com relativa frescura, uma temática que foi, se não estou equivocado, vagamente abordada na Assembleia da República recentemente, embora não exactamente pelas mesmas razões que me levam a abordá-la… Bom, em virtude da abolição dos exames do 4.º ano (Viva! Mas… e os outros? Não serão também para abolir? Não? Sou eu o único maluco que pensa assim?), e no âmbito de umas declarações do actual Primeiro-Ministro acerca disso, que estabelecia algum tipo de distinção entre a avaliação dos alunos e a aferição da escola, a bancada parlamentar do CDS-PP questionou o Ministro da Educação acerca da possível reimplementação das antigas (e parcialmente famigeradas) Provas de Aferição. E eu, como não poderia deixar de ser, vou aproveitar para criticar um pouco mais o actual sistema de ensino. Já sabem como sou, não é?

   Basicamente, a questão é: exames versus provas de aferição versus nada. Creio que se consegue mais ou menos adivinhar qual será a minha resposta, mas, mesmo correndo o risco de me tornar vagamente repetitivo, não me posso impedir de realizar uma análise crítica (e, mais do que isso, céptica) daquilo que são as provas de aferição. Dos exames, não vale a pena falar: remeter-vos-ei, em vez disso, para uma entrada anterior, onde me centro especificamente nessa questão. Aqui está.

   Bom, de uma maneira geral, as provas de aferição sofrem do mesmo tipo de problemas que os exames, testes e momentos formais de avaliação afins: não reflectirem adequadamente os níveis de conhecimento do aluno (já que constituem um momento pontual de avaliação, cujos resultados podem ser adulterados por uma vasta gama de factores, conforme não me canso de repetir), ajudarem a consolidar a noção de que o ensino deve actuar como elemento diferenciador de alunos (através das notas) e/ou corresponder a um mero cumprimento de requisitos mais ou menos burocráticos (leia-se programas), em detrimento da transmissão de conhecimentos que é, ou deveria ser, o verdadeiro propósito de qualquer sistema de ensino (conforme defendo na minha Fundamentação Metafísica do Propósito da Escola), e, de uma maneira geral, constituírem uma fonte de interpretações injustas e inadequadas à realidade, ao subjugar um conjunto de situações pedagógicas diversas a um mesmo critério geral, normalizado e normalizante, que, exactamente por ser assim, não tem em conta toda uma gama de possíveis situações adversas que escapam ao controlo dos alunos, penalizando-os injustamente (e, em parte, às escolas).

   Em suma, as provas de aferição constituem, ao fim e ao cabo, mais um momento de avaliação; mesmo que não seja esse o objectivo oficial das provas de aferição, não me parece improvável que, face ao eventual contributo das provas para os rankings das escolas (e, intrinsecamente, para o seu financiamento), elas sejam apresentadas aos alunos como algo de grande importância, para o qual se devem preparar afincadamente, conferindo-lhes, por isso, o mesmo tipo de efeitos psicológicos adversos que os exames (mesmo que os efeitos das provas nas notas sejam menores; ainda assim, afigura-se-me que haverá sempre aqueles casos em que um aluno entre a positiva e a negativa acaba por ser ajudado por ter tido mais ou menos boa nota nas provas de aferição, mas isso é outra história…).

   Nesse sentido, estaremos a trocar uma tortura prejudicial (exames) por uma tortura mais ou menos inócua (provas de aferição), mas uma tortura ainda assim. De qualquer das formas, entre os dois, tenho de concordar que as provas de aferição são a opção menos má. A questão é que a existência de provas de aferição deixa ainda em aberto a possibilidade da reimplementação dos exames nacionais, e isso é tudo menos desejável. Ah, claro, e também não posso deixar de frisar que as provas de aferição, não reflectindo o verdadeiro conhecimento dos alunos (como já disse e como continuarei a dizer), podem não ser um instrumento assim tão preciso para aferir a qualidade do ensino. Isto, claro, partindo do princípio que essa aferição da qualidade do ensino levaria, de facto, a algum tipo de mudanças, coisa que, pelo andar da carruagem, não me parece muito provável…

   Enfim. Mesmo que as provas de aferição sejam preferíveis aos exames, não são um bem, são apenas um mal menor. E eu não sou propriamente fã de males menores… acho, em vez disso, que não deve haver males nenhuns. Então, se me permitem que meta aqui a colherada habitual, parece-me que a solução mesmo, mesmo melhor seria não haver provas nem exames, e implementarmos, em vez disso, um novo paradigma de ensino: Mini-Ciclos de Leccionamento. Pronto. Já disse. Já se sabia que eu ia chegar aqui. Sou repetitivo, é certo, mas não posso deixar de tentar ao máximo promover esta perspectiva que, mais do que nova, creio ser melhor e, logo, mais desejável. Por isso, não me calarei e continuarei, sempre que puder, a apregoá-la o máximo possível.

   Para terminar, desejo um bom fim-de-semana a todos os meus leitores… ou um bom dia, ou seja o que for, já que poderão estar a ler isto não exactamente durante um fim-de-semana. Até à próxima, e não se esqueçam de que o espaço de comentários está aí em baixo, à espera do que possam ter para dizer…

28 de novembro de 2015

Da Limitação de Textos (e da Criatividade)

   Tive recentemente a epifania por que aguardava ansiosamente. Finalmente, e no decurso de uma conversa, apercebi-me de que havia um aspecto relativamente relevante do actual sistema de ensino (e, em particular, nas ignóbeis avaliações que este contém) que ainda não tinha comentado. Sim, alguns diriam que é insignificante, outros diriam que está bom e faz sentido, mas eu, como de costume, sinto-me levado a dizer que está mal. Perdoem-me esta mania de ser do contra, mas asseguro-vos de que não surge de nenhuma vontade abjecta de criticar, mas sim de uma intenção de melhorar. Mas enfim. Vamos a isto…

   Creio ser do conhecimento geral que, na maioria das disciplinas que se prendem com a expressão escrita (sobretudo as linguagens, e creio que também, em certos casos, a Filosofia), há, nos textos de maior desenvolvimento, a imposição de um limite de palavras. Sim, é neste momento que me apercebo de que o que tenho para dizer é bastante picuinhas, se me permitem o termo, mas, agora que encontrei este tema, não o vou deixar escapar… Não estou exactamente com a disponibilidade criativa para rejeitar temas, como referi na minha entrada anterior. Mas pronto. Dizia eu que há a imposição de um limite de palavras, tanto para o mínimo como para o máximo. Nesse sentido (e falando mais ou menos matematicamente), estamos perante um intervalo de palavras. Só que talvez não seja assim tão desejável que esse intervalo tenha dois extremos reais, se me permitem mais uma metáfora matemática…

   Convenhamos, faz vago sentido que se exija um mínimo de palavras. Pretende-se aferir se os alunos se conseguem expressar numa dada língua, e, para tal, deverão conseguir construir um texto com uma certa extensão. Poderíamos pôr em causa se a extensão pedida é adequada, mas, por agora… creio ser melhor abstermo-nos disso. Da mesma forma, também vamos deixar de parte se a construção de um texto acaba mesmo por ser indício do conhecimento dessa língua. Só para não criar (mais) polémica aqui…

   Mas, por outro lado, não me posso conter de contestar os limites máximos. Consigo ver uma razão mais ou menos lógica para existirem; afinal, não se pretende que os alunos escrevam, nesse teste ou exame ou seja o que for, uma obra-prima literária… e também não convém muito aos professores correctores que haja grandes textos para ler, porque, se assim fosse, demorariam (ainda) mais tempo a corrigir os testes. Mas será mesmo necessário relembrar o facto de todos esses momentos de avaliação estarem, de uma forma ou de outra, condicionados pelo factor tempo? Nesse sentido, acaba por haver uma certa limitação da extensão do texto; mesmo que o aluno levasse o teste (ou qualquer outra coisa que fosse) inteiro a fazer o texto (além de isso trazer, como seria de esperar, consequências negativas ao nível da nota), não me parece plausível que atingisse uma extensão assim tão incomportável (mais a mais porque não havia mais respostas a ler…).

   Fica, assim, mais ou menos explicado que a não imposição de um limite máximo não traz grandes problemas. Mas falta falar do aspecto mais essencial: e quais são as consequências que essa imposição traz? A mais flagrante, e a mais imperdoável, é a perda de tempo acrescida representada pelos cuidados que cumprir o limite exige, sobretudo para aqueles que, tal como eu (sim, admito, esta entrada é parcialmente um queixume), têm uma grande tendência para usar mais palavras e dizer mais coisas do que o necessário; tem-se de contar as palavras, de tentar resumir, de ler e reler e ver o que está a mais e pode ser retirado… enfim, um martírio. Alguns dos leitores poderão, muito provavelmente, compreender este sofrimento. Ou talvez não. Não interessa.

   Diriam alguns que é também importante a capacidade de síntese. Enfim, não tenho grande modo de o contestar. Mas será mesmo desejável que se considere que escrever trezentas e uma palavras é uma imperfeição (implicando, por isso, um desconto na cotação) face a escrever trezentas? É por escrever mais umas quantas palavras que se deixa de saber utilizar a língua? Percebo que se exija um mínimo de desvios ao tema (com eventuais penalizações no caso de os cometer), mas agora, impor um limite fechado, estrito, totalitário, das palavras? Não me parece boa ideia. Sobretudo porque um texto, opinativo, narrativo, seja o que for, só consegue adquirir naturalidade e boa legibilidade quando é espontâneo, natural, livre, instintivo (pelo menos, é esta a minha experiência pessoal, e também a minha perspectiva artística), e essa expressão espontânea, natural, livre, instintiva, muito dificilmente será subjugada a um limite de palavras. Em suma, limitar as palavras limita a criatividade e, em última análise, a qualidade do texto produzido. Sendo assim, acaba por defraudar a aferição das capacidades linguísticas do aluno, contrariando, assim, aquilo que seria o propósito do teste. E esta é a segunda razão por que não se deveriam impor limites máximos de palavras.

   Então, depois de toda esta argumentação, o que podemos concluir? Parece-me que seja o seguinte: se vamos impor algum tipo de condição à extensão dos textos que se exigem aos alunos, devemos apenas estabelecer um valor mínimo de palavras a escrever. Desde que, claro, se trate de um valor razoável para o tema escolhido (não fará sentido exigir-se um mínimo de 5000 palavras para falar acerca do fim-de-semana que se teve…) e para o nível de conhecimento dos autores dos textos (exigir um relato de 1000 palavras a um aluno que está no início da aprendizagem de uma língua é descabido…).

   Poderia, ainda, levantar questões acerca das temáticas escolhidas, mas ficarei por aqui, sob pena de ultrapassar os limites deste texto e ser penalizado por isso, se me permitem a piada forçada e francamente idiótica. Enfim. Um bom fim-de-semana a todos, e não se esqueçam de que têm à vossa disposição o espaço de comentários, para o que quer que seja que queiram dizer.