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11 de julho de 2016

Breve Apontamento Sobre Ética Educativa (e o Funcionamento do Sistema de Ensino)

   Caros leitores, tenho de dizer que a minha entrada anterior talvez não tenha sido a mais correcta, nem a mais enquadrada no âmbito deste blog. Podia, de facto, apagá-la simplesmente, mas também não tenho coragem nem vontade para o fazer. Em vez disso, senti-me levado a escrever uma nova entrada, agora em prosa, agora mais conveniente, sobre um curto raciocínio filosófico que entretanto vim a efectuar, relativamente ao papel que alunos e professores deveriam ter no âmbito da Educação.

   Na Fundamentação Metafísica do Propósito da Escola, já expressei mais ou menos as minhas perspectivas de que o ensino serve, ou deveria servir, para transmitir conhecimentos racionais; em maior ou menor escala, todo e qualquer sistema de ensino acaba por seguir esse princípio, e naturalmente que o actual sistema de ensino também. Por outro lado, também não podemos ignorar que todo o sistema de ensino tem como elementos centrais, com o estatuto simultâneo de principal cliente e principal matéria-prima, os alunos. Então, tendo tudo isto em conta, não será necessária grande ginástica mental para concluirmos que os alunos acabam por estar incumbidos do dever (medianamente metafísico) de adquirir o conhecimento que lhes é transmitido. Por outro lado, acaba por ser igualmente óbvio que os professores têm a função oposta e complementar à dos alunos: a de garantir a transmissão dos conhecimentos, acabando por ser, portanto, os agentes mais relevantes de que o sistema de ensino dispõe para atingir a sua finalidade.

   Estão, assim, dispostos os dois fundamentos desta “ética educativa” (termo escolhido mais pela sua sonoridade que pela sua exactidão), por mais discutíveis que possam ser. Admito que possa não estar a ser inteiramente imparcial (dadas as minhas perspectivas… muito particulares… em relação ao ensino), mas creio que estes dois aspectos são suficientemente óbvios para serem pouco discutíveis. E partindo, então, destas duas premissas (mas sem ir construir silogismo algum…), onde podemos chegar? Ora bem, se os alunos devem aprender e os professores devem ensinar, os procedimentos no seio do sistema de ensino devem estar de acordo com esses propósitos: as coisas devem ser feitas da forma que possibilite aos alunos a aprendizagem mais fácil e rápida possível e aos professores a liberdade de ensinarem da forma que mais pareça adequar-se à maneira de ser e estar dos próprios professores e dos alunos. Isto, claro, será muito mais fácil de dizer do que de fazer, mas parece-me lógico admitir que a principal solução passaria por uma redução dos constrangimentos estruturais e burocráticos em prol da liberdade de acção dos professores e da liberdade de escolha dos alunos.

   Mas não é bem por aqui que me interessa ir. O que eu queria verdadeiramente dizer (enfim, já sabem mais ou menos porquê…) é que, no intuito de dar seguimento ao duplo propósito de os alunos aprenderem e os professores ensinarem, há um aspecto do ensino que não deveria, de modo algum, ser central: a avaliação. Independentemente do quão (in)desejável é a avaliação (e já sabem que, para mim, é mais do que muito…), independentemente de se é necessária ou não para garantir que os alunos estão de facto a adquirir o conhecimento que lhes está a ser transmitido, independentemente de se temos uma forma boa de aferir esse nível de conhecimento ou não, não podemos, de modo algum, admitir que avaliar ou aferir o conhecimento é essencial ao normal decorrer do processo de transmissão e aquisição de conhecimentos. Ou seja, independentemente de revoluções e ideologias diversas, não me parece fazer sentido a avaliação ocupar um lugar tão central, tão estruturante, no sistema de ensino como ocupa hoje.

   Era, em última análise, isto que eu tinha para dizer. Sei que não é grande coisa, sei que é apenas a reafirmação do anteriormente afirmado, mas fui levado a registar os resultados desta reflexão que, apesar de curta, enfim, acaba por ser minimamente pertinente para a temática do blog (mais do que o poema!). Ainda não é bem a entrada que eu queria, mas espero conseguir uma coisa mesmo bem-feita, mesmo à maneira, dentro em breve. De resto, se não vos estou a enfadar terrivelmente, se não vos afastei já daqui com a baixa qualidade dos meus textos, estejam, como sempre, à vontade para expressar as vossas opiniões e as vossas perspectivas sobre o que escrevo, e mesmo que seja sobre outras coisas…

   Enfim, pela segunda vez hoje, até à próxima entrada…

16 de junho de 2016

Sobre a Elitização do Conhecimento

   Caros leitores, nesta semana que marca o início da época do tormento ignóbil que são os exames nacionais (e contra os quais talvez valesse a pena, dentro do género, tentar lutar… não?), trago-vos uma entrada que, não sendo propriamente nada de muito inovador, constitui, na mesma, o que eu diria ser uma certa mudança de tom e de tema que talvez venha refrescar os ares aqui no blog. Está bem que não saímos das questões do ensino, mas vamos agora fazer uma análise um pouco mais reflectida e menos contestatária, de contornos (semi-)históricos e essência (semi-)filosófica. Espero que isso não vos incomode muito.

   Ora bem, o que é que eu quero dizer com isto da “elitização do conhecimento”, ainda para mais nesta época em que praticamente toda a informação do mundo pode facilmente ser acedida, premindo uns botõezinhos com letras em cima, ou arrastando os dedinhos por um ecrã? É (relativamente) simples: trata-se da tendência (já antiga, como vamos ver, mas ainda bem viva nos dias de hoje) de tornar o conhecimento, o verdadeiro conhecimento (portanto, não propriamente dados, mas a forma de os relacionar e interpretar), algo exclusivo de um grupo mais ou menos restrito de pessoas, grupo esse cuja maneira de ser e estar se consolida e perpetua com esse mesmo monopólio do conhecimento. Isto, no fundo, trata-se de mais uma manifestação da tendência conservativa e auto-perpetuante das sociedades (neste caso em particular, correspondentes aos grupos detentores do conhecimento, embora estes, por usa vez, também se encontrem subjugados aos interesses e intuitos da sociedade mais vasta, mais abrangente, que, naturalmente, engloba esses grupos e os restantes cidadãos…), e, nesse sentido, é algo vagamente expectável, pelo que não devemos ficar demasiado espantados por acontecer. Mas já sabem como sou e como penso: esse mesmo facto não nos pode levar a pura e simplesmente aceitar que as coisas sejam assim.

   Não vale a pena entrarmos nas questões dos segredos de estado, das informações confidenciais e da espionagem, porque, além de, no fundo, se tratar de informações e não de conhecimentos (que, sem filosofias transviadas, terão um carácter “operativo”, ou seja, de raciocínio e/ou noção de como fazer, e não um carácter meramente “indicatório”, de mera constatação de um estado de coisas, como têm as informações), introduz um nível de complexidade adicional, pela vasta gama de factores que os influencia e determina (e também pela sua génese e natureza maioritariamente extra-ensino, o que leva a que fujam quase completamente ao âmbito deste blog). Nesse sentido, a esmagadora maioria dos casos que restam para analisarmos (e descontando as situações de elitização de eventuais conhecimentos metafísicos e/ou transcendentais, que entra já no domínio das sociedades secretas, da religião, da fé – e, eventualmente, da charlatanice…) diz respeito, em maior ou menos escala, ao ensino, e aos vários tipos de estruturas académicas que formam construídas a partir dele ou em torno dele.

   O ensino, ou a transmissão de conhecimentos, remontará muito provavelmente às primeiras comunidades humanas. É mais do que óbvio: as gerações mais antigas, que mais experienciaram do mundo, transmitiam as suas experiências e as suas técnicas de sobrevivência às gerações mais novas, assim garantido que a comunidade continuaria activa – e viva. Neste sentido, mesmo que haja uma acumulação do conhecimento, total ou parcialmente, num grupo mais ou menos pequeno, não fará sentido falar-se de elitização do conhecimento, porque esse grupo estava tudo menos interessado em manter esse conhecimento só para si.

   Isto correu tudo muito bem enquanto as comunidades eram pequenas e a transmissão podia ser mais ou menos directa, mas, à medida que a densidade populacional aumentava e que as tarefas se tornavam cada vez mais específicas, passou a haver problemas: pela natureza simultaneamente gregária e facciosa do ser humano, os indivíduos que se dedicavam a uma tarefa específica acabaram por se juntar, gerando um grupo mais ou menos fechado e mais ou menos estanque, que mantinha em si os segredos do ofício em causa. Logicamente, só entraria nesse grupo aquele que fosse digno de representar a classe dos profissionais em causa, e essa dignidade só se atingia após alguns (bastantes…) anos de aprendizagem e experiência. E isto, com mais umas situaçõezinhas aqui e ali, com mais umas burocracias, umas formalizações e umas leis, originaria aquilo que viriam a ser, pelo menos cá na Europa, as guildas (passou bastante tempo entretanto, é claro; isto foi um processo gradual e não instantâneo…). Se este tipo de organização trazia a grande vantagem de consolidar e (eventualmente) estimular o melhoramento dos conhecimentos, também era francamente elitizado, já que subir na hierarquia da coisa (o que traria consigo aceso a conhecimentos cada vez mais “preciosos”) não era propriamente imediato…

   Só que falar disto assim é calar, entre outras coisas, um aspecto bastante relevante, num período, aliás, em dois períodos históricos bastante interligados, e de grande importância para o desenvolvimento desta sociedade dita ocidentalizada (terá certamente havido outros semelhantes para outras culturas, mas, quer pelo público-alvo de tudo isto, quer pela própria abrangência dos meus conhecimentos – ou falta dela –, vou resumir-me a estes dois aspectos, de modo a não cometer mais erros históricos do que os que já possa ter feito); acho que será mais ou menos óbvio do que é que falo: dos filósofos da Antiguidade Clássica e dos humanistas do Renascimento. Nestes dois períodos, como os leitores provavelmente saberão, houve literalmente dois picos na liberdade de acesso ao conhecimento, havendo, dentro do género, abertura para discutir livremente uma vasta gama de assuntos (um pouco menos, talvez, no caso de Renascimento, mas, ainda assim…). Bem, não obstante toda esta liberdade, também não podemos deixar de pensar que, no fundo, ainda se verificava uma certa elitização do conhecimento, no sentido em que, na maioria dos casos, acabava por ser necessário pertencer a um determinado grupo social e ter um determinado tipo de atitudes e mentalidades para verdadeiramente ter a possibilidade de procurar e adquirir os conhecimentos… sobretudo quanto temos em conta o analfabetismo mais do que frequente nos estratos menos privilegiados da sociedade… mas isto também já é ser maldizente…

   Historicamente falando, falta ainda falar do elefante na loja de porcelana (ou na sala, se formos mais anglo-saxónicos…): a questão da religião. Em maior ou menor escala, consoante a cultura e a sociedade em que se insere, a religião, com o seu papel aglutinador e estabilizador da estrutura social (no melhor e no pior sentido…), acaba sempre por desempenhar um papel relativamente determinante nestas questões da elitização do conhecimento (e da própria transmissão do conhecimento em si). Por um lado, se estimular (ou, pelo menos, não impedir) a inovação e a renovação do conhecimento, naturalmente que conduz a uma maior disponibilidade do conhecimento (com a eventual – e já abordada – particularidade de, mesmo assim, só alguns o poderem atingir), mas, por outro lado, se fizer a apologia da manutenção do conhecimento, da confirmação do anteriormente confirmado, enfim, da evolução da continuidade, será bastante expectável que, mais tarde ou mais cedo, o conhecimento acabe por ficar nas mãos de um grupo restrito de pessoas (para garantir que nenhuma – ou quase nenhuma – mente mais livre, menos disposta a manter a estabilidade, pega nesses conhecimentos e desata a desconstruí-los…), elitizando-se, portanto.

   Mas pronto, os leitores talvez já se estejam a perguntar, ou talvez já se tenham perguntado, “a que propósito é que vem esta porcaria toda?”. Pois bem, creio que não será preciso um grande esforço de raciocínio para nos fazer ver que o presente é consequência do passado, e, nesse sentido, de modo a melhor analisarmos (e, sim, pronto, criticarmos) esse presente, convém estarmos cientes do que foi esse passado.

   E, no caso particular do sistema de ensino português, e basicamente em toda a sociedade ocidentalizada, não podemos, de modo algum, ignorar aqueles que são as suas raízes, que residem precisamente nas tradições escolásticas medievais. E, como é sabido, estas tradições escolásticas inserem-se precisamente num contexto religioso que era profundamente conservativo (enfim, sem querer ofender ninguém… esta questão das religiões é sempre espinhosa, convém ter sempre muito cuidado e deixar sempre bem presente esta ressalva: a de que não pretendo, de modo algum, ofender, criticar ou desdourar a fé de ninguém…), gerando, por isto, este já tão repetidamente mencionado fenómeno da elitização do conhecimento. Eventualmente, esta tradição escolástica deu lugar à académica, com a fundação das primeiras universidades e tudo o mais, mas, durante um grande período de tempo (alvitraria eu que até ao século XVIII ou XIX, com o advento do iluminismo, do liberalismo ou de uma outra ideologia nessa veia mais aberta, mais transparente, mais progressiva), esteve sempre fortemente dependente de e fortemente condicionada por questões religiosas diversas, mantendo, portanto (e nem sei bem porque estou a repetir tanta vez esta mesma expressão…) o conhecimento elitizado. E, por mais que as alterações sociais (será sempre relativamente debatível se serão progressos ou não, pelo que não lhes atribuirei esse epíteto) possam ter intervindo entretanto no intuito de reverter essa elitização do conhecimento, nunca se deixou de verificar essa tendência, que, em última análise, se estende até aos dias de hoje.

   É claro que não é a religião a (única) culpada disto: como comecei por dizer, a elitização do conhecimento é consequência da própria natureza do ser humano e da sociedade; no entanto, e acho que também me estou a repetir aqui, não é por as suas origens serem perfeitamente compreensíveis que a elitização do conhecimento é desejável. O conhecimento é, em última análise, uma coisa imaterial, construída como que a partir do nada, e, nesse sentido, será muito pouco razoável reivindicar a posse ou o domínio desse mesmo conhecimento, até porque (questões experimentais diversas à parte…) acaba por não ser necessário despender recursos para o originar.

   Independentemente disto, ou melhor, paralelamente a isto, sou levado a admitir que tenho estado a ser dogmático ao afirmar pura e simplesmente que a elitização do conhecimento ainda se verifica na nossa sociedade, sem dizer como, onde e porquê. É claro que, no que toca ao ensino obrigatório (básico e secundário), só por má vontade se diria que elitizamos o conhecimento, já que até se obriga os alunos a adquirir esse conhecimento (quer o queiram, quer não…), e, de resto, sendo as coisas como estão e estando as coisas como estão, o autodidactismo está ao alcance de praticamente qualquer um. O problema está quando temos em conta questões científicas, ou, de outra forma, académicas, (vistas como) de maior profundidade; podemos admitir que é frequente a adopção de um vocabulário, de um discurso ou, genericamente, de uma forma de dizer as coisas que dificulta (quando não impossibilita mesmo) a total compreensão aos “não iniciados” no assunto em causa.

   É claro (acho eu… but one can never be too sure when it comes to human beings…) que isto não surge de um esforço consciente, voluntário, concertado, maquiavélico no sentido de minar a compreensão dos outros (aliás, diria mesmo que muitos tecnicismos e muitas questões formais aparentemente confusas até que têm uma razão muito lógica para existir… mesmo que pudessem ser, pelo menos nalguns casos, evitados…), mas temos de reconhecer que gera uma situação bastante análoga aos paradigmas de Kuhn: para se estar em condições de se adquirir os conhecimentos (eventualmente para os desconstruir e melhorar…), é quase que obrigatório passar-se por um processo de aprendizagem que, em grande medida, incute aos alunos a forma de ser e estar daqueles que, até então, eram os detentores desse conhecimento, o que conduz, em última análise, à estagnação dos conhecimentos (porque essa forma de ser e estar, na maioria dos casos, acaba por envolver a aceitação e defesa de conhecimentos que praticamente se passou a ter como absolutamente verdadeiros) e da sociedade (porque se continua a manter o grupo restrito de conhecedores, que conduz ao famigerado divide et impera que é tão responsável pela ausência de alterações…).

   Portanto, fazendo um ponto de situação: a elitização do conhecimento é má, e temos elitização do conhecimento. Logo, as coisas estão más, o que quer dizer que temos de as corrigir. Importará, então, saber como. A própria natureza dos conhecimentos que o ser humano tem vindo a adquirir, nas mais diversas áreas, e as limitações psico-fisiológicas de cada indivíduo ambas implicam que seja extremamente difícil atingir o conhecimento quase total no âmbito de uma dada área do conhecimento (pior ainda se for em várias…), e muito menos sem instrução prévia; nesse sentido, há sempre uma certa dose inevitável de elitização de conhecimento, que, sendo inevitável, não conseguiremos nunca eliminar. Mas há uma coisa ou outra que ainda podemos fazer: tentar diminuir (e eliminar) a questão das elitezinhas académicas, enfim, aquele síndroma do “ó’ p’ra nós que somos alunos universitários” (que passa também por aquela resposta estúpida e repetitiva do “não se queixem, que na universidade será pior” a tudo quanto seja contestação aos exames, não sei se sabem do que falo…). Por outras palavras, há que acabar com a abrupta clivagem entre aquele que é o mundo académico-científico, sempre intrinsecamente ligado ao ensino superior, e aquele outro que, por exclusão de partes, não posso dizer senão ligado ao ensino “inferior”. E como se faria isto? Com um progresso mais natural e contínuo do conhecimento, com as matérias separadas, etc. Já estão a ver onde quero chegar? Mini-Ciclos de Leccionamento!

   Não me interpretem mal em nada do que disse: tenho o máximo respeito pelo conhecimento, qualquer que ele seja (já que, e podem sempre aproveitar-se desta frase, o conhecimento é tudo e tudo é conhecimento), e não duvido do seu valor; semelhantemente, respeito e louvo inteiramente o a força de vontade e o espírito de sacrifício daqueles que se esforçam para o atingir; só não penso o mesmo dos seres humanos que fazem gosto em alardear que são seus detentores, ou das instituições que têm a pretensão de afirmam ter como missão, intuito e propósito transmiti-lo…

   Enfim, se isto foi ainda mais chato do que o costume, peço desculpa, mas apeteceu-me variar um pouco… Não sei, mas, pronto, se se sentirem metafisicamente inspirados a tal, podem sempre rebater todas as tretas coisas que eu para aqui disse, usando, com esse propósito, o espaço de comentários aí em baixo. Ou também podem não as rebater. É convosco.

   Eu, pela minha parte, pouco mais terei a acrescentar, (medianamente) concluído o raciocínio, (totalmente) concluída esta entrada… Direi, apenas, que vos dirijo os mais cordiais cumprimentos, e que é com essa mesma cordialidade que me despeço, até à próxima entrada…

26 de agosto de 2015

Da Fundamentação Metafísica do Propósito da Escola

   Peço desculpa aos meus leitores pela demora, mas fui acometido de um dos piores acessos de falta de inspiração que alguma vez experienciei. Todas as ideias me pareciam inconsequentes e insuficientes, todas as minhas palavras pareciam ocas e, por isso, não consegui propriamente encontrar nenhum bom tema para escrever, mas creio ser o meu dever fazer uma nova entrada. Por isso, e depois de muito esforço mental, decidi adoptar, à falta de melhor, este tema um pouco críptico, que não podia estar mais longe de mediático. Advirto já que a “fundamentação metafísica” se trata mais de uma expressão vagamente irónica do que propriamente de uma indicação do teor das reflexões filosóficas que se estabelecerão neste texto; não é este o lugar apropriado para reflexões dessa natureza.

   Começarei por colocar uma pergunta retórica: para que serve a escola? Numa abordagem mais paranóica, poder-se-ia dizer que constitui um importante órgão de controlo e condicionamento da população, submetendo-a aos interesses da sociedade, mas esta perspectiva é demasiado exagerada (ainda que não esteja completamente errada…) para que se a possa sustentar com sucesso. Então, qual é mesmo o propósito de um sistema de ensino? Que falta é que faz? Que necessidade é que há de haver uma coisa assim?

   Muitos diriam que o seu propósito seria contribuir para a completa formação do indivíduo, seja a nível intelectual, seja a nível social, seja a nível moral, mas sou forçado a discordar desta perspectiva principalmente por três motivos:

      1) Para que o sistema de ensino pudesse cumprir totalmente esse propósito, o indivíduo teria de estar, até terminada a sua formação, permanentemente nele incluído (para que as influências externas perturbem o menos possível), o que, além de ser impraticável, não é psicologicamente saudável (e incorre no motivo seguinte).

      2) A possibilidade de haver um aproveitamento dessa faceta profundamente formativa do actual sistema de ensino para condicionar (ainda mais…) os indivíduos, conforme melhor possa aprouver aos lobbies e aos poderes instituídos, além, claro, de abrir um caminho bastante fácil para uma situação huxleyana de subjugação do indivíduo à mecanização da sociedade através do condicionamento providenciado pela educação.

      3) A existência de uma pletora de competências (nos domínios sociais e morais, leia-se) que, pura e simplesmente, são quase impossíveis de ser ensinadas, tendo, em vez disso, de ser desenvolvidas pelo indivíduo.

   Ora, tendo tudo isto em conta, não posso, de modo algum, partilhar das opiniões que recentemente se têm vindo a popularizar acerca de avaliações formativas, valorizações de competências sócio-afectivas e outras teorias afins (sem ofensa para aqueles que as apoiam, e sem ofensa também para as teorias em si). Antes que me acusem de desvalorizar essa componente através destas minhas palavras, permitam-me que refira que, sem sombra de dúvida ou de hesitação, admito que o indivíduo só está verdadeiramente completo se possuir (em maior ou menor escala) essas componentes. Apenas defendo que a transmissão dessas competências não deve ser um dos principais propósitos do sistema de ensino.

   Então, qual será esse propósito? Permitam-me que responda laconicamente: transmitir conhecimento. Sim, claro, poder-se-ia argumentar que, em última análise, tudo é conhecimento, pelo que essas competências que refiro anteriormente também o são, e eu seria, inevitavelmente, forçado a concordar; no entanto, afigura-se-me que ainda há uma grande diferença entre saber somar e saber amar (no sentido mais poético do termo). Isto, claro, constitui um dos contrastes mais extremos, mas creio que é suficiente para ilustrar a questão: poder-se-ia dizer (se me permitem um dedinho de Filosofia) que, de uma maneira geral, há conhecimentos que surgem maioritariamente por uma via que podemos designar racional (sendo, por isso, de cariz mais exequível, além de mais facilmente transmissíveis, e possuindo maior objectividade e impessoalidade) e outros que provém de uma outra via mais psico-emocional e sensorial (embora tendo um impacto no dia-a-dia igual ou superior ao dos outros, acabam por possuir uma aplicabilidade mais pessoal e subjectiva, sendo, por isso, mais difíceis de transmitir).

   Tendo isto em conta, poder-se-á, então, reformular a resposta que dei anteriormente: o sistema de ensino deve tentar transmitir única e exclusivamente os conhecimentos racionais, sejam os do âmbito mais prático (actividades laboratoriais, culinária, mecânica…), sejam os do âmbito mais teórico (Matemática, outras ciências, línguas…).

   Mas não se pense, devido a estas palavras, que sobrevalorizo o racional e desvalorizo o psico-emocional; apenas considero que se deve separar bem as duas áreas, sem que estejam a cargo da mesma organização/entidade. Aliás, mesmo sem uma ênfase acrescida do actual sistema de ensino na área mais psico-emocional e sensorial, já considero que este se intromete demasiado nessas competências, ocupando, em consequência disso (e também das muitas outras falhas que se lhe podem apontar), demasiado tempo na vida dos alunos. Não, não faço nenhum apelo à borga ou à vida boémia que muitos adoptam nos seus tempos livres, apenas acho (e creio que, neste aspecto, já alguns psicólogos tentaram alertar para isto) que o sistema de ensino deveria providenciar mais oportunidades para que esse desenvolvimento de conhecimentos psico-emocionais e sensoriais pudesse ocorrer naturalmente, sem que houvesse trabalhos de grupo obrigatórios, sem que houvesse trabalhos de casa com o intuito de ensinar o que é um dever, sem coisas semelhantes que, muitas vezes, até têm efeitos adversos sobre as competências que visam desenvolver. Mas, da minha perspectiva, essas oportunidades não deveriam surgir no sistema de ensino em si, mas sim no tempo livre que este deixaria, mais do que o que deixa agora (e não falo de intervalos).

   É claro que não se pode deixar o desenvolvimento dessas competências exclusivamente a cargo do indivíduo, mais a mais porque muitas delas surgem e se definem em função do outro, mas, por isso, e para isso, serviria a unidade familiar (quando possível) ou uma qualquer outra entidade especializada na transmissão desses conhecimentos, que, mesmo podendo ficar situada num espaço partilhado com o sistema de ensino dos conhecimentos racionais, diferiria deste não só pelo âmbito, mas também pela abordagem, mais vocacionada, como seria de esperar, para que seja o aluno, por si, a desenvolver essas competências. E, a meu ver, este tipo de conhecimentos nunca deveria, de modo algum, ser utilizado para propósitos avaliativos ou selectivos, não possuindo, por isso, nenhum tipo de obrigatoriedade (não mais do que a normal convivência em sociedade exige), pois, conforme refiro, estes conhecimentos não podem, ou não devem, ser forçados, antes surgindo naturalmente, ao ritmo de cada um (mas, claro, podendo ser alvo de estímulo por parte de outrem), mais a mais porque a sua não aquisição não constitui, na maioria dos casos, um obstáculo inultrapassável ao normal desempenho das tarefas (o caso mais flagrante será, creio eu, o das aptidões sociais: a timidez, embora, em muitos casos, seja bastante prejudicial, não constitui, de uma maneira geral, um problema fatal para o afligido…) e porque a subjectividade inerente a este tipo de conhecimentos implica exactamente que não podem ser subjugados a um critério externo, imparcial, avaliativo.

   É, pois, aqui que divirjo grandemente das opiniões que acima referi: em vez de se englobar a transmissão dos conhecimentos psico-emocionais e sensoriais no sistema de ensino, como se tem feito, e se está a querer fazer ainda mais, face ao progressivo enfraquecimento do papel da família na formação do indivíduo (por motivos sócio-económicos diversos), proponho que, a estabelecer-se qualquer sistema de transmissão destes conhecimentos, este esteja desligado do sistema de transmissão dos conhecimentos racionais (que, de qualquer das formas, também não deve abarcar uma fatia tão alargada do dia-a-dia dos alunos e das famílias, cuja vida, de uma forma ou de outra, acaba por, hoje em dia, ser a modos que construída em torno dos condicionalismos que o sistema de ensino impõe) e, sobretudo, o mais independente possível dos interesses dos lobbies, sob pena de, se me permitem a metáfora, sermos nós próprios a entregar os fios que nos movem aos marionetistas.

   Bom, creio que concluí esta relativamente longa dissertação relativa às funções do sistema de ensino. Temo ter sido demasiado críptico e confuso na minha abordagem, ter-me imiscuído demasiado nas águas turvas da Filosofia e da Psicologia, mas são os condicionalismos que a falta de temas me impõe. As minhas desculpas a todos e quaisquer leitores que possam ficar melindrados pelas minhas palavras, mas têm a minha garantia de que a minha intenção não era, de modo algum, ofender ou magoar, apenas expressar uma ideia. Tenho, igualmente, de apresentar as minhas desculpas por quaisquer eventuais falhas e incongruências que aqui se possam eventualmente encontrar. Resta-me relembrar o facto de o espaço de comentários ficar à vossa disposição, seja para corrigir, seja para criticar, seja para (se assim o entenderem) elogiar…

23 de setembro de 2014

Sobre o Ensino da Filosofia

   Após uma ligeira pausa, por motivos simultaneamente anímicos e de falta de tempo livre, faço hoje uma nova entrada, sobretudo para garantir que este blog não está morto. Não tenho muito tempo nem grande assunto (nem em termos de críticas, nem em termos de sugestões), mas tentarei arranjar qualquer coisa. O quê? Bem, acho que vou buscar uma ideia de entrada na qual já tinha vindo a ruminar há algum tempo: o ensino da Filosofia. É um assunto que, apesar de tudo, ainda é importante e significativo, sobretudo se a ideia é desenvolver uma juventude (e futura sociedade) ideologicamente desenvolvida e activa. Que, muito provavelmente, não é, pelo menos para os poderes instituídos, para os lobbies e para as demais entidades parasíticas do bem comum que se têm vindo a acumular com a degeneração do propósito inicial do estabelecimento desta sociedade. Mas não é este o assunto.

   Hoje, quero falar da forma como é ensinada (e, talvez, percepcionada) a Filosofia. A organização do programa, regra geral, está feita de modo a recompensar a memorização, em detrimento do raciocínio e do conhecimento verdadeiro, coisa que já referi; esta disciplina não escapa a isto. A maioria do tempo é gasto (não apenas utilizado) na explanação de diversas teorias de diversos filósofos ao longo dos tempos; é, depois, essa matéria que acaba por ser avaliada através dos (indesejáveis) testes.

   Ora bem, de um ponto de vista conservador e (vamos ser sinceros) mesquinho, está tudo muito bem. Que mais é preciso? Já falámos de Platão, e Aristóteles, e Kant, e Descartes, e Nietzsche, e Stuart Mill, e outros que tais, já falámos do Determinismo, do Racionalismo, do Utilitarismo… Enfim, que mais se pode pedir?

   Para os que não se aperceberam, era uma tentativa de ser irónico. Obviamente que o conhecimento das teorias que outros desenvolveram permite melhor fundamentar e situar as nossas próprias ideologias, ou, então, permite-nos achar correspondências entre nossos pensamentos e os de pensadores influentes do passado (e do presente), mas não me parece que seja mesmo isso a Filosofia. Talvez eu esteja a ser demasiado influenciado por Sócrates (o filósofo), mas, quando penso em Filosofia, penso logo numa assembleia de livres-pensadores que se juntam numa área de lazer semi-florestada de algum tipo (um jardim, um parque, ou algo assim), de toga, para debater assuntos das mais diversas naturezas. Sem a parte da cicuta para quem lidera, modera e estimula a discussão, claro.



   Resumindo e concluindo tudo isto, até porque não tenho muito mais tempo, a Filosofia deveria ser quase inteiramente composta por debates e por uma reflexão mais ou menos liberta dos condicionalismos do que é politicamente correcto ou socialmente aceitável, sendo a avaliação efectuada através da "qualidade" da reflexão e da fluidez e validade da argumentação. Quem achar o contrário, que comente. Quem achar o mesmo, que comente também. Quem não achar nem uma coisa nem outra, comente ainda assim. Resto de um bom dia a todos.