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23 de outubro de 2017

Novas Respostas a Comentários Alheios

   Caros leitores, saúdo-vos mais uma vez após uma extensa ausência, no decurso da qual tentei incansavelmente discernir um tema, sempre, lamento dizê-lo, sem sucesso. Eis, porém, que as idiossincrasias da programação televisiva me fizeram descobrir o ciclo de conferências Fronteiras XXI, resultantes de uma parceria entre a RTP e a Fundação Francisco Manuel dos Santos (preferiria não fazer qualquer tipo de publicidade ou referência eventualmente puco recomendável do ponto de vista judicial, mas, tratando-se de um ciclo de debates, espero não haver grandes problemas…), ao abrigo do qual, no passado dia 4 de Outubro, foi emitido o programa “De Que Escola Precisamos”, que tomei a liberdade de visionar para o poder comentar aqui. Todo o intervalo entre o momento da emissão e o da publicação desta entrada se deve, em grande medida, às vicissitudes do falecimento de corpo e mente a que, já nem sei bem com que ironia, se costuma chamar vida académica, intervalo esse que lamento profundamente e que espero que os meus leitores possam compreender.

   Em primeiro lugar, uma inevitável (e, aparentemente, frequentemente ignorada…) crítica: trata-se de um programa onde se irá debater o ensino, o estado do ensino, possíveis melhoramentos do sistema de ensino, possíveis organizações alternativas do sistema de ensino, mas quem são os intervenientes no debate? Professores. Apenas professores. Da última vez que o verifiquei, havia pelo menos mais dois grupos que, por serem tão ou mais implicados em quaisquer questões do âmbito do ensino do que os professores, deveriam estar presentes: os alunos e os funcionários (além, claro, de pais e encarregados de educação, mas estes, diria, só são chamados à questão por intermédio dos alunos – se descontarmos o facto de todos os elementos da sociedade a ela deverem ser chamados…). Admito que desconheço se houve alguma espécie de convite não aceite para com algum membro dos grupos referidos (se, de facto, houve, podem considerar esta crítica como produto da minha ignorância e incompetência), mas, tanto quanto tenho vindo a verificar em programas que partilham a temática com este, não são tão frequentes quanto isso participações em sua representação, o que, para mim, indicia fortemente que, na maioria das vezes, são pura e simplesmente ignorados (como poderia suspeitar que, de algum modo, foram aqui).

   Esta queixa à parte, mais ou menos no início do programa, é abordada a temática do ensino doméstico. Devo admitir que, pela minha parte, se trata de um assunto que nunca abordei de uma forma individual, tendi sempre a aglomerá-lo na questão mais ou menos genérica das aulas à distância, e creio que por uma boa razão: é um sinal extremamente preocupante que haja pais/encarregados de educação que optam (diria que não sem razão) por tomar a seu cargo a transmissão de conhecimentos aos alunos, posto que tal acontece maioritariamente porque se reconhece, ou se crê, ou se conclui (mais uma vez, diria que não sem razão…) que o sistema de ensino não tem capacidades para o fazer. De qualquer das formas, falando dos inescapáveis Mini-Ciclos de Leccionamento, diria que seriam precisamente os mecanismos das aulas à distância que possibilitariam esta escolha, que, de resto, tenho a esperança de ser reduzida, por ser reduzida também essa incapacidade, mais real do que imputada, de o sistema de ensino ensinar…

   Depois, foi, como dificilmente poderia ter deixado de ser, mencionada a recente introdução da “flexibilidade curricular” (destaco as aspas assaz propositadas…), ao abrigo da qual as escolas vão poder decidir 25% do currículo. Sendo este um tema que já abordei especificamente, tentarei não me repetir demasiado, mas creio que nunca é de mais frisar outra vez que, do ponto de vista dos alunos, fica tudo absolutamente igual, posto que lhes continua a ser exigido que saibam estudem 100% de matéria decidida por outros. Mesmo que a decisão seja, agora, feita também a nível local, deixando em aberto a possibilidade de os alunos nela intervirem, tenho fortes suspeitas de que não serão avassaladoramente numerosos os casos em que dessa intervenção resulte verdadeiramente qualquer alteração que não se enquadrasse no que já havia sido ponderado pelos decisores burocrática e hierarquicamente vistos e tidos como mais importantes…

   Adicionalmente a isto, um pouco por todo o programa, foi amplamente abordada a velha questão do ensino para a cidadania da escola como transmissora de valores, et cætera. Já me pronunciei sobre isto antes, tal como o aspecto anterior, e, nesse sentido, preferirei remeter para a entrada em causa, mas não me custa, nem é despiciendo, destacar que, para mim, há duas componentes bastante distintas nesta questão: “em que medida é que a escola, enquanto parte integrante da sociedade, enquanto instituição formada por pessoas, deve contribuir para a formação, ética e/ou moral, dos futuros cidadãos?” e “em que medida é que a escola, enquanto local de transmissão de conhecimentos, deve contribuir para a formação, ética e/ou moral, dos futuros cidadãos?”. Se a resposta à primeira é, mais ou menos inegavelmente, positiva, a resposta à segunda, pelo menos, para mim, já não é tão clara, embora a minha análise tenha sempre tendido mais para uma resposta negativa; não defendo, de modo algum, que nos tornemos selvagens e abandonemos mais ainda quaisquer noções de ética, de moralidade, de comportamento correcto e aceitável, antes pelo contrário, mas estou em crer que a escola, enquanto escola, não deve ser o sítio principal de transmissão desse tipo de noções, também sob pena de deixarmos as portas abertas a um número ainda mais significativo de manipulações e condicionamentos, que só por lógicas e retóricas enviesadas poderíamos ver como desejáveis.

   Um outro tema mais ou menos abrangente que foi abordado (embora talvez com menor detalhe) foi o da interdisciplinaridade, apresentado um pouco no seguimento do incontornável exemplo finlandês. Dada a ideia que defendo, creio ser mais ou menos óbvio que albergo a opinião de que a divisão em disciplinas é largamente arbitrária, insuficiente para representar correctamente o conhecimento humano, e, por vezes, contraproducente para a sua compreensão; porém, a noção da interdisciplinaridade defendida (que passa, em grande medida, pela criação de projectos que se enquadrassem em mais do que uma disciplina, mantendo elas, para todos os efeitos excepto esses, as suas existências e essências separadas) não me parece imensamente coerente… A inclusão dos projectos até pode ajudar a potenciar o interesse dos alunos (admitindo que a carga horária não dificulta imensamente a sua realização e que a forma como são apresentados não corresponde ao “aqui têm mais uma coisa para fazerem” genérico que surgia, com maior frequência do que o que deveria, nas antigas disciplinas que pretendiam fomentar essa mesma interdisciplinaridade, como Formação Cívica ou Área de Projecto), e, consoante os temas, até poderia vir mesmo a ser necessário compreender as ligações entre as áreas do conhecimento em causa, mas a visão fragmentada, segmentada, seccionada do conhecimento não deixaria de se aplicar a praticamente tudo o resto, o que quer dizer que haveria, na melhor das hipóteses, apenas uma interdisciplinaridade aparente. O que é o mesmo que dizer, nenhuma interdisciplinaridade.

    De não menor importância foram as referências à necessidade de encontrar mecanismos para aferir (abster-me-ei, por razões que espero que sejam óbvias, de usar o termo “avaliar”…) até que ponto uma qualquer mudança, uma qualquer inovação no ensino é bem-sucedida. Por toda a lógica, isto faz sentido, enfim, se o objectivo é melhorar as coisas, convém garantir, dada a complexidade inerente a todos os aspectos intervencionados, que as medidas tomadas vão, de facto, no sentido pretendido, o problema está em discernir critérios apropriados para o fazer de forma completamente objectiva e, sobretudo, não tendenciosa. Por um lado, tendendo as instituições a ser maioritariamente conservadoras e resistentes à mudança, é bem possível que, a priori, a aferição seja efectuada de uma forma que beneficia o que já existe (não direi que obrigatoriamente de uma forma deliberada, pode ser simplesmente uma tendência inconsciente para o conservadorismo); por outro lado, pode acontecer que as alterações que estão a ser aferidas inviabilizem o uso, ou, no mínimo, a fiabilidade de alguns instrumentos que antes existiam e que, como tal, poderiam ser tidos como bons critérios (um exemplo concreto seria o da eventual aferição da viabilidade dos Mini-Ciclos de Leccionamento por intermédio da comparação dos resultados dos alunos deles provenientes nos exames nacionais com os dos restantes alunos: não me parece, de todo, inverosímil que as diferenças no ritmo de aprendizagem, na forma de aprendizagem, na filosofia por detrás da aprendizagem, bem como a muito menor exposição a momentos de avaliação como os exames – além da quase nula preparação específica para eles… – implicassem resultados piores, não tanto porque os alunos não soubessem as matérias em causa, mas porque não estavam tão familiarizados com a forma como lhes era pedido que demonstrassem que as sabiam). E, neste mesmo sentido, devo destacar que a confiança nos, ou dependência dos, testes PISA para efectuar análises comparativas de sistemas de ensino pode incorrer precisamente neste tipo de problemas, mais a mais porque (como vim a descobrir há não muito tempo, com alguma surpresa, mas também algum contentamento…) estes podem não ser tão isentos de falhas na sua aplicação quanto habitualmente se pensa…

Também se mencionou outro aspecto que vale a pena abordar aqui: até que ponto mudou, efectivamente, o ensino nestes últimos tempos? A opinião geral e mais ou menos consensual pareceu-me ser a de que a resposta era afirmativa, mas eu, como sempre, tenho de me atrever a discordar. É certo que se verificam algumas diferenças entre o ensino de outrora e o ensino de agora, mas não me parece muito lícito considerá-las como resultado de um processo inteiramente deliberado de alteração do sistema de ensino; afinal, houve todo um conjunto de modificações a nível social, tecnológico, científico, quando não mesmo político, e isso, por si só, promove novas maneiras de encarar a escola, novas filosofias de ensino, que, a meu ver, são capazes de originar grande parte das diferenças que se verificam. Não poderei negar que certos aspectos organizacionais, legislativos e/ou burocráticos foram, de facto, alterados, mas arriscaria dizer que essas alterações, quando considerada a totalidade do funcionamento do sistema de ensino, foram essencialmente cosméticas, marginais, insignificantes, porque todo o paradigma de ensino ficou praticamente na mesma. Portanto, em última análise, podemos dizer que o ensino permanece essencialmente inalterado. Ainda assim, há motivos (não despiciendos, devo admitir) para criticar uma certa instabilidade no ensino, no sentido em que, consoante mudam os Ministérios da Educação e/ou os governos a que pertencem, também mudam certos aspectos, certas iniciativas, certas políticas, por vezes de uma forma quase cíclica, prejudicando diversamente a capacidade do sistema de ensino para desempenhar a sua função – precisamente a de ensinar. Devo mencionar que já antes dei uma potencial solução para esta problemática, que considero digna de voltar a ser referida aqui: a criação de uma entidade oficial, estatal, mas independente do poder político, que fosse responsável precisamente por dirigir, gerir e administrar o ensino.

   Uma outra temática mais ou menos inevitável seria a do abandono escolar, que, embora não tão amplamente discutida, foi, na mesma, mencionada. O problema nessa abordagem, devo dizê-lo, foi ter sido dado um destaque muito maior às causas económicas e sociais (que, sem dúvida, existem e devem ser resolvidas – ainda que fique, pelo menos, por agora, por determinar a forma de as resolver…) do que o que foi dado às causas intrínsecas ao sistema de ensino. É certo que as primeiras são mais prementes do que as últimas, mas creio não ser ilógico pensar que, se aprender fosse uma actividade muito mais agradável do que é agora, as situações de abandono escolar seriam menos frequentes; nesse sentido, parte da culpa tem de residir sempre na estruturação do sistema de ensino, que, quod est demonstrandum, não é, de todo, ideal. Volto a dizer, a componente sócio-económica do problema não deve ser ignorada, não pode ser ignorada, não é admissível nem desejável que o seja, pelo que tem de ser resolvida, e, já que falo de questões sociais, devo destacar um comentário por parte de Maria Manuel Mota, que mencionou que a sociedade actual não dá o devido destaque e a devida importância ao conhecimento, que (já o estou a acrescentar eu) deve ser bastante .

   E, para terminar as considerações gerais, devo fazer uma de natureza indirecta: mencionou-se, com a maior das naturalidades, a desigualdade que é gerada pelas diferentes capacidades financeiras e subsequentes diferenças na capacidade de acesso a alguns meios de apoio, em particular, as explicações. Sem querer entrar em mais espinhosas reflexões acerca de gratuitidades devidas ou necessárias, e da possibilidade de certos aspectos e/ou pormenores do funcionamento do ensino estarem estruturados não tanto, ou não só, no sentido de potenciar a aprendizagem, mas sim aquilo a que cheguei a chamar O Negócio do Ensino, dificilmente poderia deixar de me questionar: será que um sistema de ensino onde uma percentagem tão significativa dos alunos recorre, mais tarde ou mais cedo, a um explicador externo para suprir as falhas na aprendizagem que se torna relativamente habitual, senão mesmo comum, falar dessa prática funciona bem? Há coisas que existem e não podem ser ignoradas, sim, mas mencioná-las natural e despreocupadamente (relativamente a elas, entenda-se, posto que a preocupação existia, mas ia noutro sentido) é basicamente o mesmo que aceitá-las, e eu muito dificilmente poderia considerar lícita a perspectiva de que não é o dever do sistema de ensino garantir a melhor compreensão possível por parte dos alunos no que toca aos conhecimentos em causa… Voltando a ser um pouco especulativo, sinto-me tentado a dizer que o facto de esta ser uma problemática muito pouco levantada quando se fala do ensino pode ser motivado pela possibilidade de haver muita gente que extrai alguma forma de conforto ou benefício da forma como as coisas estão…

   E, nesta mesma veia de afirmar algo naturalmente ser equivalente a aceitá-lo, tenho de mencionar os dois momentos em que se fez isso mesmo relativamente ao pormenor de grande parte do dia das crianças e jovens ser passado na escola (pese embora tenha havido uma comparação com o número de horas passadas na escola noutros países europeus, foi mais a forma como esse número evoluía ao longo dos anos escolares e não o número propriamente dito que foi posto em causa). Temos de compreender que muitas famílias não conseguem ter a disponibilidade temporal de cuidar dos alunos durante grande parte do dia (e/ou a disponibilidade financeira de os inscreverem num qualquer estabelecimento capaz de o fazer – acção que, de resto, não é, de todo, isenta de falhas e indesejabilidades), mas talvez fosse o dever da totalidade da sociedade garantir que todos os seus membros, e sobretudo os mais indefesos e/ou menos capazes de resolver por sua conta os problemas que possam surgir, estavam em segurança. Estou a ser utópico (mais ainda do que o habitual), bem o sei, a natureza falível do ser humano a modos que o impossibilita, mas creio não estar, de todo, equivocado se afirmar que, quanto maior o tempo passado (subentenda-se, sem necessidade e/ou sem interesse…) pelos alunos na escola, mais duvidosa a qualidade do sistema de ensino e a capacidade da sociedade em causa de cuidar dos mais novos…

   Passando, agora, a situações concretas, a dado momento, David Justino afirmou algo como “o ensino de massas permitiu escolarizar 80% da população mundial”. Sem querer incorrer na muito natural falha de cuspir no prato onde come a mão ligeiramente mordida que já nos fez passar fome da ingratidão, parece-me que, dado o rumo que o Mundo aparenta estar a seguir, se está a ver bem que tipo de resultados é que esse tipo de escolarização, tal como é, tal como foi, tem tido… Cepticismos e cinismos à parte, acaba por ficar sempre em aberto uma importante questão: desses 80% que foram escolarizados pelo ensino de massas, que porção do conhecimento que (supostamente) lhes foi transmitido, e que, como tal, lhes é oficialmente reconhecido, é que conseguiram verdadeiramente guardar? Ou, por outras palavras, que tempo e recursos não terão sido desperdiçados, devido às próprias características do ensino de massas, em exposições (por parte dos professores) e tentativas de compreensão (por parte dos alunos) que, mais tarde, vieram a resultar em pouco ou nada?

   E, para terminar, uma reacção a uma outra declaração de Maria Manuel Mota, que apontou (correctamente, devo acrescentar…) como falha grave da sociedade e do ensino o pormenor de não se acreditar que aprender é uma coisa maravilhosa. E o que queria dizer era mesmo que essa crença não existe, em grande medida, devido aos erros do sistema de ensino, que ajouja essa potencialmente agradável actividade a um sem-fim de outras obrigações, de outros actos mais ou menos burocráticos, mais ou menos sem sentido, que pura e simplesmente retiram todo e qualquer prazer a esse acto de aprender; nesse sentido, dizer que, para melhorar o ensino, se torna necessário fazer as pessoas crer que aprender é agradável é… falacioso: diria antes que, se o ensino for suficientemente melhorado, sobressairá, automática e naturalmente, aos olhos de todos, que aprender é, de facto, uma coisa maravilhosa.

   E, sendo este um pensamento que, sem grande subjectividade, poderemos considerar agradável, será, também, agora o momento ideal para dar esta entrada por terminada, até porque já me excedi bastante. Fiquem bem, contestem sempre, comentem (se quiserem), aqui ou nos Contactos, e até à próxima entrada!

23 de agosto de 2017

Da Cultura na Escola

   Caros leitores, após mais uma imperdoável ausência, pude encontrar em mim um tema para aqui abordar. E, antes de prosseguir para a sua análise, gostaria de deixar um convite a quem quer que seja que ainda passe os olhos por estas palavras, para sugerirem, se os tiverem e se acharem por bem divulga-los, eventuais novos temas, pelas vias providenciadas nos Contactos, a ver se estas ausências se encurtam!

   Pois bem, já tenho mencionado abundantes vezes que um sistema de ensino tem como principal propósito transmitir conhecimentos, e até já dediquei toda uma entrada a analisar e reflectir precisamente sobre isso. Porém, um aspecto que nunca abordei directamente, ou, pelo menos, não de uma forma que considere satisfatória, foi o do conjunto de informações e conhecimentos que dizem respeito à cultura, particular ou geral, dos alunos, e que, quer queiramos, quer não, acaba por ser mais ou menos essencial para que se exista verdadeiramente como indivíduo e cidadão.

   Recorrendo às classificações genéricas e generalistas apresentadas na entrada das Perspectivas Educativas, trata-se de uma temática a que nem hippies educativos, nem burocratas totalitários se furtam, englobando-a, no primeiro caso, mais intensamente, no segundo, em menor escala, no normal decorrer do processo de ensino. Ao abrigo dos Mini-Ciclos de Leccionamento, porém, não me parece tão fácil (ou tão lícito) incluir esse tipo de conhecimentos, posto que acarretam uma visão muito mais holística do conhecimento humano (o que, diriam alguns, só demonstra uma falha dos Mini-Ciclos, e que posso eu mais fazer do que encolher os ombros e discordar respeitosamente?), que dificilmente se coadunaria com o resto do processo de ensino-aprendizagem.

   Porém, como comecei por dizer, a cultura faz falta. Que sentido faria ensinar aos alunos as Ciências, as Línguas, as técnicas das Artes, e milhentas outras coisas, mas não lhes transmitir qualquer noção emocional, instintiva, não racional do Mundo e das coisas? Seria o mesmo que criar robots (ou, para os mais desligados dos condicionalismos do mundo real, vulcanos…), e isso é fundamentalmente inadmissível. O que quer dizer que tem de haver algum tipo de garantia de que a cultura não é esquecida.

   A resposta mais importante, mas também mais imediata (e menos intrusiva no funcionamento projectado deste sistema de ensino…), seria a de que se trata de um processo que deve ocorrer essencialmente ao nível social e não escolar, e, aliás, tem sido sempre essa a solução que tenho proposto para o problema. Agora, porém, após ter reflectido mais um pouco sobre o assunto, chego à duplamente preocupante conclusão de que, por um lado, isso talvez não seja suficiente, e, por outro lado, talvez não passe de uma forma assaz confortável de desconsiderar o problema, removendo-o do âmbito do assunto em análise (que sempre foi o do ensino e não o da sociedade, como é óbvio).

   Nesse sentido, não poderei dizer que basta confiarmos naqueles que rodeiam os alunos (por outras palavras, nas suas famílias) para lhes transmitirem tudo isso, até porque poderão não ser os indivíduos mais capacitados para o fazer – nem, de resto, faz grande sentido exigir que o sejam. Porém, também não creio que possamos pura e simplesmente atirar a cultura para o meio dos conhecimentos a adquirir e dar o problema por resolvido, mais a mais porque constitui um tipo de conhecimento que dificilmente poderemos ver como… verificável, o que quer dizer que, à partida, não há grande forma de garantir que se aprendeu toda a cultura que se quis transmitir, o que quer dizer que será sempre uma componente à parte do resto do ensino. Isso não nos pode impedir, porém, de a tentar transmitir na mesma, e vejo essencialmente três vias para o fazermos.

   Em primeiro lugar, não obstante o facto de ser insuficiente basearmo-nos nos que estão mais próximos, não é despiciendo tentar tornar a sociedade, no seu todo, mais aceitadora, acolhedora e promotora da cultura do que é hoje em dia (pelo menos neste recantozinho da Europa…), aumentando a disponibilidade, a acessibilidade e a aceitação dos mais variados eventos culturais. Em segundo lugar, e no seguimento dessa tendência, também faz sentido tentar estimular que, no decurso do processo de ensino-aprendizagem, e, claro, desde que apropriado, sejam feitas, por parte do professor, algumas referências ou explicações culturais (por exemplo, no decurso de uma qualquer abordagem das questões da impulsão e da flutuação, ser relatada a história de Arquimedes e da coroa do governante de Siracusa), mas sempre – e é importante frisar isto muito bem – sem prejudicar a transmissão dos conhecimentos por causa disso. Atrever-me-ia a dizer que, nalguns casos, a inclusão deste tipo de referências até pode ser uma estratégia pedagogicamente eficaz para potenciar o interesse e a curiosidade dos alunos, e, de resto, também albergo a esperança de que, com ou sem qualquer iniciativa oficial nesse sentido, fossem muitos os professores que o fizessem por si mesmos, quer pelo puro gosto de ensinar coisas novas, quer pelo colorido acrescido que este tipo de informações confere à matéria.

   Em terceiro lugar, e, talvez, com maior importância, talvez não fosse má ideia estabelecer algum tipo de programa de dinamização cultural a nível nacional, eventualmente em espaços pertencentes às escolas, ao abrigo do qual, num qualquer segmento do seu horário que talvez pudesse ser especialmente designado para tal (eventualmente coincidente com o período de reposição de que já antes falei, sendo ocupado caso haja essa necessidade?), os alunos poderiam participar numa vasta gama de actividades (de acordo, claro está, com as possibilidades da zona…) de natureza cultural, quer no sentido de receberem cultura, quer no sentido de a produzir, quer no sentido de a transmitir a outros. Claro está, tudo isso teria de ser feito da melhor forma possível, fazendo as coisas de modo a retirar todo e qualquer pendor oficial, obrigatório, aborrecido, da cultura, e a apresentá-la como uma coisa lúdica, agradável e importante, que o é…

   No meio disto tudo, haveria – como, de resto, há na maioria das questões relacionadas com o ensino – o risco de que este tipo de abertura para falar de uma vasta gama de assuntos pudesse ser aproveitado para propósitos de condicionamento e manipulação. Sendo a sociedade o que é, sendo a humanidade como é, há fortes probabilidades de isso acontecer (como, de certa forma, já acontece…), mas cabe a todos nós tentar pugnar para que assim não seja, agora e sempre. Mais a mais, nem sequer falar de cultura seria uma outra forma de manipulação, porventura ainda mais sinistra, por trazer consigo o espectro da desumanização, da construção de uma sabedoria largamente maquinal, que, sabendo, mas não reflectindo nem sentindo, mais facilmente realiza as tarefas que lhe são atribuídas e mais dificilmente pára para pensar em como as coisas deveriam ser, mas não são, ou em como as coisas são, mas não deveriam ser… E é esse o tipo de futuro, e é este o tipo de presente, que é nosso dever tentar evitar.

   E com estas palavas de aviso me despeço, até à próxima entrada…

8 de setembro de 2016

Da Temporização Avaliativa

   Como de costume, saúdo calorosamente todos vós, leitores, assegurando-vos já que esta entrada será integralmente em prosa (resta saber se para vosso contentamento ou descontentamento…). Após muita indecisão, após muitos retrocessos e avanços, consegui, finalmente, arranjar um tema para debater aqui; enfim, por menos interessante que possa parecer, esta questão da temporização avaliativa (que, ao contrário do que os títulos poderiam indiciar, pouco ou nada tem a ver com a Obrigatoriedade Educativa…) não deixa de possuir uma certa relevância, mesmo que reduzida, e, sendo um tema que ainda não tinha abordado directamente aqui, decidi aproveitar.

   Ora bem, creio que não será necessário alongar-me em grandes explanações relativamente à natureza da temporização avaliativa, porque, além de não haver grandes idiossincrasias para descrever, creio que todos vós (aliás, todos nós) podemos imediatamente perceber que se trata pura e simplesmente do facto de se contar/limitar o tempo que os alunos têm disponível para desempenhar as tarefas que se lhes atribuiu para fins avaliativos. Claro, convém esclarecer que os fins avaliativos de que falo são aqueles que existem no âmbito dos Mini-Ciclos de Leccionamento (portanto, tomam a forma mais de uma verificação do que de uma avaliação propriamente dita), porque do actual sistema de ensino não falarei porque se torna totalmente absurdo reflectir sobre uma partezinha de um todo quando esse mesmo todo está bastante longe da perfeição…

   Pois bem, que razões teríamos para impor um constrangimento de tempo na realização de exercícios (que, relembro, seria a forma de verificação por excelência, ao abrigo dos Mini-Ciclos)? Afinal, o actual sistema de ensino bem nos permite concluir que esse constrangimento temporal pode, muitas vezes, prejudicar o desempenho do aluno, simultaneamente por o impedir de terminar o(s) exercício(s) e por constituir uma fonte de stress, que, como sabemos, não é exactamente a coisa que mais contribuir para uma boa prestação… Então, por que razão quereríamos fazer isto às criancinhas (e aos jovens, e aos adultos…)? Só consigo ver dois motivos: em primeiro lugar, o tempo de aula não é ilimitado, o que quer dizer que o aluno não pode ficar ad æternum a realizar os exercícios; em segundo lugar, pode haver (posso, até, ter o atrevimento de dizer que há mesmo, por exemplo, em certas áreas da Matemática) matérias cujo domínio seja demonstrado não só pela capacidade de realizar os exercícios, mas também pela capacidade de o fazer com relativa rapidez e eficácia (para ser um pouco lírico, isto é, em última análise, consequência do chamado “teorema do macaco infinito”: um macaco – não me perguntem porque é que escolheram um macaco – põe-se em frente a uma máquina de escrever e preme as teclas perfeitamente ao acaso; à medida que o número de teclas premidas aumenta, a probabilidade de ele escrever um qualquer texto específico, letra por letra, é cada vez mais próxima de 100%). Neste sentido, temos duas razões mais ou menos lógicas (e mais ou menos inevitáveis) para praticar esta temporização avaliativa.

   Por outro lado, também há motivos para não a praticar. Além dos já mencionados prejuízos que pode trazer ao aluno (e à fiabilidade da verificação do seu conhecimento), pelo seu próprio conceito, não podemos ignorar que, no fundo, todos os seres humanos são fundamentalmente diferentes uns dos outros, o que implica que, em última análise, todos teremos, naturalmente, ritmos diferentes de fazer as coisas. Ainda assim, estas nossas objecções poderão ser mais ou menos contornadas: tendo em conta que, ao abrigo dos Mini-Ciclos de Leccionamento, nenhuma avaliação (aliás, verificação) é propriamente definitiva, o factor stress é, à partida, muito menor, e a própria estruturação do sistema de ensino implicaria que, caso aluno não fosse aprovado por causa da temporização avaliativa (ou de qualquer outro motivo, mas é deste que falamos agora…), facilmente poderia tentar de novo, sem grandes prejuízos para si; quanto à questão dos ritmos diferentes, se os limites de tempo forem estabelecidos com uma suficiente margem de segurança, tendo já em vista este pormenor, não deve haver grande problema.

   No entanto, acho que já sabem que não sou grande fã de imposições, que as considero, até, abjectas e indesejáveis (e espero sinceramente não estar sozinho nesta perspectiva…); nesse sentido, não posso, nem nunca poderia, defender que se impusesse a temporização indiscriminadamente, como se ela fosse algo positivo e desejável. Longe disso: nos exercícios em cuja realização o tempo demorado pudesse ser, também, significativo para a aferição do conhecimento (enfim, pode acontecer que nem todas as tipologias de exercícios, dentro de uma dada matéria, o exigem), teria, enfim, de haver um limite de tempo (claramente identificado na plataforma, com um temporizador todo bonitinho junto do enunciado); nos restantes casos, se o aluno fosse mais lento e não conseguisse fazer tantos exercícios quanto os outros até terminar o tempo que o professor designou para essa realização de exercícios, não haveria, a meu ver, um grande problema, porque, se os conseguisse fazer bem, seria porque, em princípio, sabia a matéria (e, se não conseguisse, teríamos de concluir que não sabia…). Assim, acho que poderemos mais ou menos reunir o melhor de dois mundos, aplicando a temporização com muito cuidado, única e exclusivamente onde é necessária, e em mais nenhum lugar.

   Creio, por isso, ter chegado a uma conclusão, conseguido o meu objectivo, e, por isso, terminado a minha reflexão. Já sabem, podem sempre comunicar pelas vias do costume (os comentários aí em baixo e os Contactos), ou não, se não o quiserem fazer. De resto, fiquem bem, cuidem de vocês, e não deixem de contestar, sempre, o que está errado.

   Até à próxima entrada…

24 de agosto de 2016

Da Obrigatoriedade Educativa

   Saudações a todos os leitores. Voltamos a encontrar-nos após uma pausa um pouco maior do que o que eu queria, mas a falta de inspiração e de temas que se costuma instalar no Verão fez-se sentir agora em força, o que quer dizer que, para grande desgosto meu, não será esta a entrada maravilha por que tanto assinava eu (e, não sei, mas, se calhar, vocês também). Seja como for, o que tenho a dizer não será inteiramente desprovido de interesse ou relevância, porque vou abordar aquele que é, ou que me tem parecido, um dos aspectos dos Mini-Ciclos de Leccionamento que mais dúvidas e questões levanta. Estou a falar, como o título indicia, da inexistência de qualquer tipo de obrigatoriedade na aprendizagem ao abrigo deste sistema de ensino.

   Começo já por dizer que entendo perfeitamente as razões que levam a que se defenda a existência de um certo grau de obrigatoriedade no ensino. Afinal, se o propósito de qualquer sistema de ensino é mesmo o de ensinar (conforme tenho vindo a defender desde a Fundamentação Metafísica do Propósito da Escola), para que se posa cumprir tal propósito, torna-se mais ou menos essencial que o aluno aprenda, e, como a natureza humana tende mais para a preguiça que para a realização de tarefas mais ou menos desagradáveis, mas mais ou menos necessárias, acaba por fazer sentido obrigar o aluno a aprender (não necessariamente de uma forma prepotente ou totalitária…), porque ele, naturalmente, não terá uma tendência assim tão grande para o fazer.

   Porém, devo confessar que discordo desta perspectiva. Além de um certo preconceito muito particular relativamente às obrigações em geral, sou levado a crer que o ser humano se socorre de um sem-número de estratégias e artimanhas para, sempre que possível, fazer prevalecer a sua vontade (não vou é debater até que ponto essa vontade será absolutamente livre e espontânea…), e, nesse sentido, se um aluno não quer aprender, ele inevitavelmente arranjará uma forma de não aprender; mesmo que se imponham verificações do conhecimento, de modo a garantir que o aluno terá de levar com a matéria de novo se não a tiver aprendido, em última análise, o aluno poderá sempre treinar-se e preparar-se especificamente para essas verificações e depois, uma vez passado, pôr tudo para trás das coisas. Quererá isto dizer, portanto, que todos os alunos são causas perdidas e que então não devemos tentar levá-los a transcender o seu natural e original estado de ignorância? Não, nem por sombras. Isto apenas pretende demonstrar que apontar-lhes uma arma à cabeça (com variados graus de literalidade…) e dizer “estuda!” não é exactamente a solução mais eficaz. E, diga-se de passagem, acarreta consigo um efeito secundário muito nocivo, que é o da desmotivação dos alunos (que é meio caminho andado para a não aprendizagem), face ao facto de serem obrigados a ouvir e a aprender matéria na qual não têm qualquer interesse (mesmo que lhes possa fazer falta posteriormente…).

   Assim, creio que todos podemos mais ou menos ver que, se calhar, obrigar os alunos a aprender talvez não seja assim tão produtivo para as suas aprendizagens, o que, embora pareça, à primeira vista, um grande contra-senso, começa a fazer cada vez mais sentido (pelo menos, para mim, começou…) à medida que se vai esmiuçando mais as coisas. Mas, bom, se obrigar não dá, o que podemos fazer? Bem, possivelmente, um milhão de coisas diferentes (se não mais…), mas acho que já conhecem a minha predilecção para analisar as coisas ao abrigo de um certo e determinado paradigma de ensino alternativo… pelo que já devem conhecer medianamente a minha resposta.

   Pois bem, ao abrigo dos Mini-Ciclos de Leccionamento, não temos, de facto, qualquer tipo de obrigatoriedade educativa, não só pelo facto de esta ser (ou, no mínimo, se me afigurar como) medianamente contraproducente para a eficácia da aprendizagem, mas também porque contradiria toda a filosofia de máxima flexibilidade que este sistema de ensino alternativo pretende seguir. No entanto, tal não significa que os alunos sejam pura e simplesmente deixados à solta, sem que haja a mínima atenção ou consideração para com a sua aprendizagem, e, portanto, colocados no rumo da ignorância. Antes pelo contrário, tenho fortes razões para crer que, ao abrigo dos Mini-Ciclos de Leccionamento, os alunos até aprenderiam mais e melhor (mas, como acho que já se aperceberam, não devo ser exactamente a pessoa pais imparcial para o aferir…).

   Acima e tudo, há um aspecto que nunca é de mais destacar: um dos principais desincentivos à aprendizagem (excluindo questões de ordem sócio-económica, questões essas que sistema de ensino nenhum por si só, conseguiria resolver, o que implica que, por mais infelizes e indesejáveis que sejam – que o são –, não se as abordará aqui por não se ter – ainda – uma alternativa mais ou menos viável… lá virá o dia, mas não será hoje…) é mesmo o conjunto de tarefas que, de uma forma ou de outra, vêm agregadas ao acto de aprender. E, se há algumas que são quase inevitáveis (ir às aulas, estar atento à matéria…), há umas quantas (e, acrescentaria eu, umas quantas das mais relevantes) que os Mini-Ciclos de Leccionamento eliminam: precisamente os testes, os trabalhos de casa e indesejabilidades anexas. Assim sendo, creio que temos, logo à partida, menos razões para que o aluno rejeite apender, o que é praticamente equivalente a haver mais razões para o aluno aprender.

   Para além disto, se o sistema de ensino (e, num certo sentido, toda a sociedade) estiver estruturado de forma a promover o conhecimento como ideal mais ou menos atingível (e não só uma coisa que se tem de ter, ou provar que se tem, porque assim mandam as regras e os regulamentos…), e se, complementarmente a isto, os membros da sociedade com que os alunos interagem mais frequentemente (na maioria dos casos, serão, sobretudo, os familiares e os professores, mas não importa propriamente quem sejam…) exercerem a quantidade certa de pressão e persuasão benfazejas no sentido de estimular os alunos a aprender, aguçar-lhes a curiosidade, levá-los a querer saber, mais motivos ainda haverá para que os alunos queiram estudar.

   Um pouco em paralelo com isto, e a modos que em contraponto com o sistema de ensino, a própria natureza do conhecimento humano e das tarefas que a organização social origina implica que haveria sempre uma espécie de soft obligation (não sei bem porquê, apesar de não apreciar grandemente os estrangeirismos gratuitos, não poderia ter deixado de usar esta expressão…) no que toca ao ensino, no sentido em que, com a possível excepção das tarefas… mais simples (que são, convém frisar, tão importantes e dignas de respeito quanto quaisquer outras, por menos que a organização sócio-económica actual o demonstre…), a grande maioria das tarefas acabaria por ter como requisito (entre outros mais específicos) um conjunto de conhecimentos básicos e essenciais para qualquer coisa (assim muito genericamente, os fundamentos da linguagem, da Matemática, do Funcionamento do Universo e dos Seres Vivos e da História e Cultura Humanas, ou seja, praticamente até ao caule da Árvore do Conhecimento). Isto, convém frisar, não seria característica nenhuma do sistema de ensino, seria apenas uma consequência natural da sua estruturação e da sua relação com aquele que hoje em dia é o mundo laboral. De qualquer das formas, se a estruturação social se mantiver mais ou semelhante à actual, temos aqui mais um incentivo para que se estude, no sentido em que, para se ter um emprego melhor (correspondente, em última análise, a uma tarefa mais bem vista pela actual organização social, que, grosso modo, acaba por corresponder a uma tarefa mais complexa, para a qual será necessária maior dose de conhecimento prévio, embora nem sempre…) e tudo o que daí advém, se teria de ter mais conhecimento.

   Com estes três aspectos, creio que poderemos, mais ou menos, concluir que, ao abrigo dos Mini-Ciclos de Leccionamento, haveria tantos ou mais incentivos para se estudar, com a vantagem adicional de a flexibilidade e ausência de obrigatoriedade permitirem que tudo corra de uma maneira mais fácil e natural. No entanto, não podemos negar que os alunos não são perfeitos e, sendo humanos, poderão sempre deixar-se levar pela preguiça, o que implica que nunca poderemos eliminar totalmente a possibilidade de escolherem não aprender (e, como disse antes, nem mesmo a imposição de uma obrigação de aprender o consegue fazer); isto é uma falha que, a meu ver, muito dificilmente se contorna, só se mitiga, e, nesse intuito de a mitigar, creio que os Mini-Ciclos de Leccionamento também se comportariam muito bem. Afinal, a flexibilidade que dão é também etária, o que implica que qualquer pessoa, em praticamente qualquer momento da sua vida, possa, se para tal tiver tempo e vontade, (re)aprender, assim permitindo-lhe colmatar eventuais falhas nas suas aprendizagens, o que reduziria o pendor definitivo das escolhas dos alunos, no sentido em que poderiam sempre voltar atrás e aprender o que antes não aprenderam, mas agora precisam de saber.

   Além disto tudo, há uma questão adicional que devo referir. É mais ou menos inegável que, sobretudo nas faixas etárias mais baixas, os alunos podem não estar propriamente capacitados para tomar as melhores decisões por si próprios (ainda que se possa pôr em causa se alguma vez alguém está verdadeiramente em condições de fazer tal coisa…); nesse sentido, esta flexibilidade, esta não obrigatoriedade de aprender, esta liberdade toda até que pode dar origem a uns quantos problemas. Porém, com uma rede de apoio suficientemente coesa (e competente…), entre familiares, professores e equipas de psicólogos especializados, creio que se conseguirá providenciar uma aconselhamento suficiente para se garantir que os alunos estão totalmente capacitados para agir da forma que lhes seja mais benéfica, independentemente de qual forma seja essa.

   Assim, tendo todas estas coisas que eu disse em consideração, acho que consegui justificar, espero que de forma minimamente satisfatória, aquela que, possivelmente, seria uma das principais questões em torno dos Mini-Ciclos de Leccionamento. Se, ainda assim, tiverem mais coisas a dizer, estejam à vontade para usar o espaço de comentários.

   Pela minha parte, nada mais tenho a dizer senão “adeus” e “até à próxima entrada”, pelo que… enfim… Adeus e até à próxima entrada!

27 de maio de 2016

Alterações e Inovações nos Mini-Ciclos de Leccionamento

   Os habituais cumprimentos a todos os leitores, sejam eles também habituais ou assim não tanto. Um pouco para contrastar com o tom excessivamente demagógico e superficial da minha entrada anterior, estamos aqui reunidos não para celebrar um qualquer matrimónio, mas para debater, se não se importarem de o fazer, eventuais alterações ao paradigma dos Mini-Ciclos de Leccionamento, nomeadamente umas que surgiram em debate com alguém que talvez esteja a ler isto, ou talvez não, não sei, bom, enfim, alterações que dizem respeito às questões dos exercícios na plataforma.

   Para aqueles que não leram, ou que, enfim, não têm tão bem presente, o texto dos Mini-Ciclos, há a tal questão de, idealmente, a verificação do conhecimento dos alunos (não é uma avaliação) ser efectuada por intermédio de uma plataforma on-line, que verificaria as respostas logo ali et cætera. Ora, a questão é que, conforme a pessoa que despoletou toda esta questão me fez ver com o que disse, impor um conjunto fechado de exercícios seria bastante limitativo para a liberdade pedagógica dos professores (e, acrescentaria eu agora, geraria um ensino ainda mais maquinizado do que o que temos hoje, no sentido em que a forma de pensar dos alunos seria ainda mais moldada para o tipo de raciocínios exigidos pelos exercícios “oficiais”). Então, temos de acrescentar mais um grau de complexidade a esta questão (por si só, já complexa) da plataforma.

   A ideia seria que cada professor pudesse propor os seus exercícios, sem mais dificuldade que a de os escrever ou criar e depois submeter. Esses exercícios ficariam, então, numa “zona de testes” (trocadilho não intencional…), à qual só os professores poderiam aceder, para serem sujeitos a modos que a um peer review, ou seja a uma revisão pelos pares. Por outras palavras: os professores com conhecimentos para isso iriam verificar se os exercícios em causa se coadunam com o que seria suposto testarem. Depois, uma vez revistos e aprovados um número suficiente de vezes (será discutível quantas, mas, não sei, 5? 10?), passariam a poder ser utilizados em contexto de aula, consoante o professor que a desse os seleccionasse (já agora, a revisão pelos pares mais ou menos impede que um professor menos bem intencionado lixe os alunos ao seleccionar apenas exercícios com um grau de dificuldade exagerada e cruelmente elevado). Claro, haveria sempre a hipótese de professores e/ou alunos reportarem exercícios que lhes pareçam desadequados, e esses exercícios reportados regressariam à “zona de testes” para serem revistos e, se necessário, corrigidos.

   Adicionalmente, faria todo o sentido se se dedicasse uma parte do horário dos professores (digamos, meia hora, ou uma hora, ou coisa que o valha) precisamente à revisão de exercícios, no sentido de garantir a maior quantidade possível de exercícios disponíveis, com a maior qualidade possível. Outro aspecto que talvez não seja, de todo, descabido é a hipótese de se propor os exercícios sob a forma de um framework, de uma template, de um (raios partam estes estrangeirismos!) modelo que indicasse à plataforma, através de condições, listas, fórmulas ou quaisquer outras artimanhas de programação, várias hipóteses de valores, opções ou situações (ou seja o que for que seja necessário) para se construir o exercício (bem como, claro, chegar à sua solução…). Por exemplo, para um exercício que pretendesse aferir a capacidade de resolver equações do 2.º grau, seriam dadas indicações no sentido de escolher a, b e c (em ax²+bx+c) de modo que b²–4ac não fosse negativo (isto, claro, se se pretendesse trabalhar exclusivamente com números reais…).

   Seria, então, isto. Como sempre, estejam à vontade de dizer o que acham e o que pensam, no espaço de comentários aí em baixo, e, se a isso estiverem dispostos, podem até dar mais sugestões, quer nesse mesmo espaço de comentários, quer através dos meios indicados nos Contactos.

   De resto, daqui me despeço, até à próxima entrada, se conseguir achar um tema conveniente (espero que sim!)…

14 de março de 2016

Anúncio: Revisão do Texto dos Mini-Ciclos de Leccionamento Concluída!

   Boa noite a todos os leitores. Após algumas semanas de intenso esforço e dedicação, pude finalmente terminar a revisão do texto dos mini-ciclos de leccionamento, com que me comprometi numa entrada anterior. Caso estejam curiosos para saber do que se trata, poderão encontrar o texto no sítio do costume:

http://porumnovoensino.blogspot.pt/p/blog-page_27.html

   Agradeço a vossa compreensão pela minha ausência, mas reformular aquilo tudo demorou um pouco mais de tempo do que o que eu esperava… Enfim, cá estarei, cá andarei e espero fazer uma nova entrada, agora mesmo a sério, em breve. Assim, até à próxima e não se esqueçam de comentar, se assim o entenderem!

24 de fevereiro de 2016

Comunicação Actualizante (Ou Actualização Comunicante)

   Sei que já lá vai algum tempo desde que escrevi aqui alguma coisa. Admito que sim. Mas, felizmente, não tem sido por falta de inspiração (quando muito, por falta de tema… mas até nem por isso…). É que tenho andado mais ou menos ocupado a remodelar o texto principal dos Mini-Ciclos de Leccionamento (o tal que acaba por, em última análise, servir de base a todo este blog), de modo a torná-lo marginalmente mais compreensível. Porque, convenhamos, estava (e, aliás, ainda está) mais do que um pouco confuso…

   Só que, para grande desgosto meu, ainda não acabei essa revisão. Esperava que, por esta altura, já o tivesse feito, mas não. É pena… Enfim, só vos queria, caros leitores, deixar aqui esta informação, e a garantia de que a minha ausência não provém de qualquer desistência, doença, falecimento ou condicionamento (ou qualquer outro inconveniente mais ou menos desagradável de natureza semelhante) que me possa ter acometido nestes últimos tempos, mas sim dessa minha tentativa de rever o texto.

   Assim sendo, o propósito desta entrada está concluído… Resta-me desejar a todos um bom período de tempo até à próxima entrada (que não definirei com maior precisão: não me atreverei a definir uma data específica para o fim da minha revisão… ficará a vaga noção de que espero que seja em breve…), e uma boa contestação ao actual sistema de ensino, que é, como bem sabemos (ou como bem deveríamos saber), bem urgente, bem necessária, mesmo que bem difícil. Mas não fraquejemos e não paremos de lutar pelo melhoramento do que está errado!