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30 de julho de 2016

Movimento Pela Dupla Ortografia do Português

   Caros leitores, saudações mais uma vez. Escrevo, por fim, após mais uma pausa essencialmente involuntária, provocada por um daqueles acessos de falta de inspiração que já tanto injuriei aqui. Mas, agora, felizmente, já não é assim, e retomo um tema fracturante da nossa sociedade e que está, como não podia deixar de ser, bastante ligado ao ensino: a (já velha) questão do novo acordo ortográfico.

   Já deve ser relativamente óbvio para todos vocês que não estou propriamente de acordo com o acordo, antes pelo contrário, e sei que, como é óbvio, não estou sozinho nesta opinião; por outro lado, não podemos negar que há gente do outro lado da barricada, que defende (abster-me-ei de dizer se com ou sem razão…) a manutenção do acordo ortográfico. Um pouco neste sentido, e também porque a (triste) realidade é que o divide et impera funciona e é usado mais vezes do que o que talvez se possa pensar à primeira vista, cheguei recentemente à conclusão de que talvez esta luta esteja a desviar energias de outras possíveis lutas, talvez mais relevantes para o melhoramento das condições de vida de todos (nomeadamente aquelas que passassem por alterar statūs quibus nefastos diversos…), e então senti-me levado a desenvolver uma estratégia que, permitindo, dentro do género, reaver a tão delapidada identidade linguística do Português, não nos deixasse à beira de uma guerra civil entre acordistas e anti-acordistas.

   Não me interpretem mal: discordo profundamente do acordo ortográfico (e já aqui o disse antes…), acho que desvirtua o Português, quer a nível estético, quer a nível etimológico, acho que tem o potencial de gerar mais erros do que os que pretendia corrigir e, sobretudo, considero que a sua aplicação deixa muito a desejar, em particular no sentido em que o período dito de transição, desde a sua implementação (não criação, que foi, como a própria designação do acordo o indica, em 1990, mas adopção como ortografia oficial, o que ocorreu, se não me equivoco, em 2009) até ao momento em que se tornou completamente inadmissível (e penalizável em exame…) a utilização da antiga grafia, foi demasiado curto, não permitindo que as gerações que aprenderam a antiga ortografia pudessem ser totalmente substituídas (sim, estou a falar dessa actividade indesejável que é o falecimento…) pelas que só conheceram a nova (o que é ainda mais grave e inadmissível no caso dos estudantes…). Porém, e por mais que isso me agradasse, pedir a total e completa reversão do acordo ortográfico neste momento, quando já há todo um conjunto de indivíduos que não conheceram outra grafia senão a nova, seria incorrer precisamente no mesmo erro e no mesmo totalitarismo que, para mim, tornam o acordo ortográfico ainda pior do que o que ele seria se apenas se tivesse em conta o seu conteúdo.

   Então, que fazer? Sei que muitos anti-acordistas mais ferrenhos já se estarão provavelmente a preparar para me chamarem “herege”, “traidor” ou algo de conteúdo semelhante (e, sinceramente falando, também me sinto vagamente inclinado a fazer o mesmo a mim mesmo…), mas di-lo-ei na mesma, porque considero ser a melhor via de acção para todos. O que temos de fazer é, pois, pugnar pela adopção simultânea das duas grafias.

   Sim, eu sei o que vão dizer. Vão dizer que isto gera uma desvirtuação adicional da nossa língua, vão dizer que se vai anular os benefícios de se regulamentar a ortografia (que seria mesmo haver um consenso na forma de escrever), vão dizer que se vai complicar a vida a professores e alunos, ao haver grafias alternativas para as palavras (mas, de certa forma, já havia: por exemplo, “imundice” e “imundície” são igualmente aceites, tendo o mesmo significado e praticamente o mesmo som, mas sendo ortograficamente distintas…), vão dizer que se abre um precedente grave no sentido de termos tantas ortografias alternativas quanto, enfim, nos dê na cabeça, vão dizer seja o que for; admito que esta solução não seja ideal, não tenho dúvidas em afirmar que não o é. Porém, não posso deixar de frisar que esta opção, como espero que seja relativamente óbvio para os meus leitores, traz paz e harmonia a todos, porque os acordistas poderão continuar com o seu (abjecto) acordo ortográfico e os anti-acordistas, como eu, poderão manter a sua (maravilhosa) escrita antiga, permitindo, ao mesmo tempo, que qualquer mudança de posição, para qualquer dos lados, possa gradualmente ser efectuada, sem que isso afecte grandemente os utilizadores da Língua Portuguesa (afinal, a própria língua vai evoluindo lentamente…). E, para além disto tudo, também será medianamente importante referir que esta dualidade de grafias não seria propriamente um caso único no mundo: se não me falha o exemplo, a Noruega possui (entre outras formas não inteiramente oficiais) dois sistemas de escrita, o Nynorsk e o Norsk Bokmål, e acho que se entendem todos relativamente bem (à parte uns conflitos mais antigos que modernos…). É certo que as diferenças entre os dois não são exclusivamente ortográficas, há questões gramaticais também, e é igualmente certo que o contexto linguístico e cultural da Noruega é diferente do dos países de língua oficial portuguesa, mas isto não deixa de demonstrar que é, de facto, possível a coexistência de grafias diferentes numa mesma língua. Claro, teria de haver uma certa adaptação do ensino a esse pormenor, mas, tendo em conta que o ensino da ortografia ocorre maioritariamente nas fases iniciais e que, posteriormente, o foco está na gramática (e esta, tretas da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário e do Dicionário Terminológico à parte, permaneceria inalterada), essa adaptação não seria muito significativa (talvez, até, pudesse haver a hipótese de indicar logo nas matrículas a grafia escolhida, e, com base nisso, seria tudo normal, sendo leccionadas as palavras com a ortografia escolhida); na pior das hipóteses, e por mais que me custe escrever isto, sendo o novo acordo a norma oficial agora, seria apenas leccionado este, podendo os alunos utilizar a antiga ortografia sem problemas, embora não lhes fosse directamente leccionada.

   Por isso, parece-me que a via de acção melhor, mais vantajosa e menos prejudicial será mesmo esta: em vez de se fazer movimentos e petições para se anular totalmente o acordo ortográfico e/ou para se consultar a vontade da população relativamente ao mesmo, devemos, todos, acordistas e anti-acordistas (e indecisos e indiferentes também), pedir para que ambas as grafias sejam oficialmente admissíveis. É certo que os acordistas não terão razão absolutamente alguma para lutar por isto, visto que a sua ortografia é a oficialmente sancionada, mas, peço-vos, consideram só este aspecto: seria uma alteração que em nada vos afectaria e que, ainda por cima, melhoraria a vida a todos os falantes da Língua Portuguesa que, ao contrário de vós, preferem a ortografia antiga; por outras palavras, ninguém sairia prejudicado. Por outo lado, os anti-acordistas poderão ver com maus olhos esta iniciativa, no sentido em que em pouco ou nada contribuiria para acabar com o acordo ortográfico de 1990, mas peço-vos, considerem este outro aspecto: desta forma, deixariam (deixaríamos) de ser párias e renegados, e poderiam (poderíamos) escrever, com toda a confiança, com todo o reconhecimento oficial, sem qualquer penalização, ao abrigo do anterior acordo, sem, para isso, mudar à força a grafia dos outros, tal como vos (nos) mudaram a grafia à força. Então, parece-me que só por má vontade é que não se fará isto…

   Assim, termino esta entrada com um apelo a todos os leitores, para que se crie e leve a bom porto um Movimento Pela Dupla Ortografia do Português.

   Até à próxima entrada…

28 de novembro de 2015

Da Limitação de Textos (e da Criatividade)

   Tive recentemente a epifania por que aguardava ansiosamente. Finalmente, e no decurso de uma conversa, apercebi-me de que havia um aspecto relativamente relevante do actual sistema de ensino (e, em particular, nas ignóbeis avaliações que este contém) que ainda não tinha comentado. Sim, alguns diriam que é insignificante, outros diriam que está bom e faz sentido, mas eu, como de costume, sinto-me levado a dizer que está mal. Perdoem-me esta mania de ser do contra, mas asseguro-vos de que não surge de nenhuma vontade abjecta de criticar, mas sim de uma intenção de melhorar. Mas enfim. Vamos a isto…

   Creio ser do conhecimento geral que, na maioria das disciplinas que se prendem com a expressão escrita (sobretudo as linguagens, e creio que também, em certos casos, a Filosofia), há, nos textos de maior desenvolvimento, a imposição de um limite de palavras. Sim, é neste momento que me apercebo de que o que tenho para dizer é bastante picuinhas, se me permitem o termo, mas, agora que encontrei este tema, não o vou deixar escapar… Não estou exactamente com a disponibilidade criativa para rejeitar temas, como referi na minha entrada anterior. Mas pronto. Dizia eu que há a imposição de um limite de palavras, tanto para o mínimo como para o máximo. Nesse sentido (e falando mais ou menos matematicamente), estamos perante um intervalo de palavras. Só que talvez não seja assim tão desejável que esse intervalo tenha dois extremos reais, se me permitem mais uma metáfora matemática…

   Convenhamos, faz vago sentido que se exija um mínimo de palavras. Pretende-se aferir se os alunos se conseguem expressar numa dada língua, e, para tal, deverão conseguir construir um texto com uma certa extensão. Poderíamos pôr em causa se a extensão pedida é adequada, mas, por agora… creio ser melhor abstermo-nos disso. Da mesma forma, também vamos deixar de parte se a construção de um texto acaba mesmo por ser indício do conhecimento dessa língua. Só para não criar (mais) polémica aqui…

   Mas, por outro lado, não me posso conter de contestar os limites máximos. Consigo ver uma razão mais ou menos lógica para existirem; afinal, não se pretende que os alunos escrevam, nesse teste ou exame ou seja o que for, uma obra-prima literária… e também não convém muito aos professores correctores que haja grandes textos para ler, porque, se assim fosse, demorariam (ainda) mais tempo a corrigir os testes. Mas será mesmo necessário relembrar o facto de todos esses momentos de avaliação estarem, de uma forma ou de outra, condicionados pelo factor tempo? Nesse sentido, acaba por haver uma certa limitação da extensão do texto; mesmo que o aluno levasse o teste (ou qualquer outra coisa que fosse) inteiro a fazer o texto (além de isso trazer, como seria de esperar, consequências negativas ao nível da nota), não me parece plausível que atingisse uma extensão assim tão incomportável (mais a mais porque não havia mais respostas a ler…).

   Fica, assim, mais ou menos explicado que a não imposição de um limite máximo não traz grandes problemas. Mas falta falar do aspecto mais essencial: e quais são as consequências que essa imposição traz? A mais flagrante, e a mais imperdoável, é a perda de tempo acrescida representada pelos cuidados que cumprir o limite exige, sobretudo para aqueles que, tal como eu (sim, admito, esta entrada é parcialmente um queixume), têm uma grande tendência para usar mais palavras e dizer mais coisas do que o necessário; tem-se de contar as palavras, de tentar resumir, de ler e reler e ver o que está a mais e pode ser retirado… enfim, um martírio. Alguns dos leitores poderão, muito provavelmente, compreender este sofrimento. Ou talvez não. Não interessa.

   Diriam alguns que é também importante a capacidade de síntese. Enfim, não tenho grande modo de o contestar. Mas será mesmo desejável que se considere que escrever trezentas e uma palavras é uma imperfeição (implicando, por isso, um desconto na cotação) face a escrever trezentas? É por escrever mais umas quantas palavras que se deixa de saber utilizar a língua? Percebo que se exija um mínimo de desvios ao tema (com eventuais penalizações no caso de os cometer), mas agora, impor um limite fechado, estrito, totalitário, das palavras? Não me parece boa ideia. Sobretudo porque um texto, opinativo, narrativo, seja o que for, só consegue adquirir naturalidade e boa legibilidade quando é espontâneo, natural, livre, instintivo (pelo menos, é esta a minha experiência pessoal, e também a minha perspectiva artística), e essa expressão espontânea, natural, livre, instintiva, muito dificilmente será subjugada a um limite de palavras. Em suma, limitar as palavras limita a criatividade e, em última análise, a qualidade do texto produzido. Sendo assim, acaba por defraudar a aferição das capacidades linguísticas do aluno, contrariando, assim, aquilo que seria o propósito do teste. E esta é a segunda razão por que não se deveriam impor limites máximos de palavras.

   Então, depois de toda esta argumentação, o que podemos concluir? Parece-me que seja o seguinte: se vamos impor algum tipo de condição à extensão dos textos que se exigem aos alunos, devemos apenas estabelecer um valor mínimo de palavras a escrever. Desde que, claro, se trate de um valor razoável para o tema escolhido (não fará sentido exigir-se um mínimo de 5000 palavras para falar acerca do fim-de-semana que se teve…) e para o nível de conhecimento dos autores dos textos (exigir um relato de 1000 palavras a um aluno que está no início da aprendizagem de uma língua é descabido…).

   Poderia, ainda, levantar questões acerca das temáticas escolhidas, mas ficarei por aqui, sob pena de ultrapassar os limites deste texto e ser penalizado por isso, se me permitem a piada forçada e francamente idiótica. Enfim. Um bom fim-de-semana a todos, e não se esqueçam de que têm à vossa disposição o espaço de comentários, para o que quer que seja que queiram dizer.

28 de setembro de 2015

Interpretando a Interpretação

   Após mais uma ausência (que não pode ser desculpada, apenas parcialmente justificada, por este início de ano lectivo), regresso, espero eu, verdadeiramente com uma ideia, e não com os meros fiapos de pensamento que tenho aqui despejado, ainda que a vacuidade de ideias que me afligia ainda se faça sentir. Sei que o tema que escolhi não é propriamente mediático, nem nada que se assemelhe a tal, mas, ainda assim, afigura-se-me como digno de aqui ser registado.

   Interpretação textual. Uma expressão que, por si só, necessita de ser interpretada. Será “interpretação” como a de um actor, exigindo, portanto, que se leia o texto, que se o compreenda e que se junte a nossa essência à dele, fazendo-o tornar-se parcialmente nosso, ter, por assim dizer, o nosso cunho pessoal, e depois mostrá-lo, nesse estado, aos outros? Será “interpretação” como a de um (passo a vaga redundância) intérprete, traduzindo as coisas do texto para nós, e de nós para os outros, estabelecendo-se ali uma certa conversação, de modo a que todas as partes se entendam? Será “interpretação” no sentido de explicação, esclarecimento, clarificação? Ou será nenhuma destas coisas?

   Independentemente de quantas tiradas poéticas deste género se poderiam fazer (e que de pouco ou nada servem no âmbito deste blog, por mais valor retórico que pudessem ter), atrever-me-ia a afirmar que nenhuma delas se adequa à realidade que todos os alunos podem experienciar: abundam os casos (sobretudo na interpretação em níveis mais… à falta de melhor expressão, “avançados” da linguagem) em que o que é pedido é, a bem dizer, um exercício de compreensão mística do significado metafísico das palavras escritas, e não propriamente uma interpretação. Aborda-se as coisas de tal forma que quase se pode dizer que, na perspectiva daquilo que seria a interpretação textual ideal, cada frase, cada palavra, aliás, cada letra escrita pelo autor tem uma segunda intenção.

   Mas isto, por si só, não seria um grande problema, até porque, de certa forma, acaba por ser essa a intenção da arte (ou talvez não… mas esta discussão não se adequa propriamente a este blog), não fosse o caso de se considerar que essa segunda intenção era uma e uma só, sendo inadmissível qualquer outra. A própria natureza dos textos de carácter literário implica que não haja verdadeiramente uma única interpretação possível. Claro, se se fala de um “cortinado azul”, seria manifestamente errado considerar-se que se trata de um “camião amarelo” (a não ser, claro, que se trate de uma situação em que a personagem troque os termos “cortinado” e “camião” e as cores “azul” e “amarelo”, ou qualquer outra coisa semelhante), mas não há uma única interpretação possível para o significado da cor do cortinado. Uns diriam que seria uma referência ao mar, outros à tristeza, outros à calma, outros à frieza, outros ao céu, outros…

   O problema surge, como já referi, e se os meus leitores me permitem a repetição, quando se considera que esse azul do cortinado é única e exclusivamente uma referência à roupa interior que o autor vê estendida na corda da roupa da casa em frente daquela onde escreveu o livro (se me permitem o exemplo vagamente surrealista), e se considera qualquer outra interpretação errada. Dificilmente poderia haver uma coisa mais redutora de qualquer tipo de raciocínio e potenciadora da memorização do que isto, e é escusado dizer, porque o costumo repetir de muitas e variadas formas, que a memorização não conduz ao verdadeiro conhecimento.

   Então, podemos considerar que tal atitude é indesejável. É certo que é importante conseguir entender a mensagem que outros escreveram e descodificar a informação nela contida, e que tais esforços podem contribuir para a compreensão global da linguagem, enriquecendo os conhecimentos no âmbito quer do vocabulário, quer da gramática, mas… enfim… isso não implica exactamente decorar-se uma interpretação que outrem fez. Aliás, fazê-lo até pode, a meu ver, desencorajar o desenvolvimento da língua, pois, em vez de se exigir que o aluno entenda o texto, o avalie por si próprio e depois exponha e defenda as suas perspectivas (o que implica sempre exercitar as suas capacidades linguísticas), está-se a pedir que o aluno decore e despeje o que se lhe apresenta. E isso, é escusado dizer, não é, de modo algum, positivo.

   Mas será que a interpretação constitui exactamente um conhecimento que se possa leccionar? Bem, num certo sentido, sim, há um conjunto de práticas comuns a toda a actividade interpretativa (se me permitem uma expressão com tão forte sonoridade burocrática…) que se podem ensinar, mas, por outro lado, tratando-se de algo que apela mais ao lado subjectivo e artístico, em última análise, não pode verdadeiramente ser leccionado. De certa forma, enquadra-se no mesmo grupo de actividades que a escrita propriamente dita, ou a pintura (com todo o respeito às restantes actividades não enunciadas): há técnicas e princípios teóricos que podem ser leccionados, mas não se pode ensinar a actividade em si, pois esta provém intrinsecamente do seu autor. Ainda que isto esteja já a enveredar demasiado pela Filosofia e pelos debates relativamente à essência da Arte, coisa que não é, como referi, a minha intenção…

   Assim sendo, sinto-me vagamente forçado a concluir que, no âmbito da minha ideia principal (se me permitem mencioná-la pela enésima vez neste meu blog), seria lícito desligar-se de uma maneira um pouco mais vincada a interpretação textual do conhecimento da Gramática, isto é, do funcionamento da língua em causa, bem como do seu vocabulário. Não obstante tudo o que já foi referido, torna-se bastante difícil interpretar um texto escrito numa linguagem da qual pouco ou nada conhecemos, pelo que, antes de se poder interpretar, é necessário que se conheça essa linguagem; assim, a interpretação textual apenas deveria poder ser frequentada após se ter adquirido os conhecimentos relativos à utilização, por assim dizer, da linguagem em causa.

   Mas, além disso, sou levado a pensar que exigir-se a interpretação de determinadas obras (por mais marcantes e significativas que possam ser) não constitui, em última análise, um verdadeiro conhecimento, da mesma forma que exigir que se saiba que 1727 + 6234 = 7961 não constitui um verdadeiro conhecimento: ambos os casos correspondem à aplicação de um raciocínio que, esse sim, é um conhecimento, e que permite obter muitas mais informações do que estes casos em particular. É certo que, no caso específico dos textos, há sempre umas certas especificidades inerentes à obra, ao autor e às condicionantes histórico-culturais que os afectam, ao contrário dos números, tendo um impacto significativo na sua interpretação. Isto implicaria, então, que, para se poder interpretar uma obra, se teria de obter primeiro os conhecimentos relativos a esse mesmo período histórico e/ou ao(s) movimento(s) artístico(s) em que essa mesma obra se integra, mas não obrigando, de qualquer das formas, a que se ministre essa interpretação em particular como conteúdo, em vez da interpretação em geral como raciocínio. Ou seja, eventualmente, e no âmbito da aprendizagem de um dado movimento artístico, poder-se-ia interpretar um ou mais textos desse mesmo movimento, mas nunca, nunca, nunca (abster-me-ei de acrescentar “e nunca”) obrigando a que se decore uma interpretação padronizada e oficialmente sancionada, que exclui todas as outras.

   Esta minha perspectiva poderia ter a aparente desvantagem de impedir que, na sua grande maioria, os alunos tivessem contacto com a literatura, mas, convenhamos, mesmo no sistema de ensino actual, não são assim tão poucos os que não lêem as obras exigidas, preferindo, em vez disso, ler apenas os resumos (por menos que consigam evitar ler excertos, seja em contexto de aula, seja em contexto de testes…), pelo que a literatura também não é assim tão promovida com a organização que temos agora. Mas também não deveria, da minha perspectiva (e conforme deixo implícito na minha Fundamentação Metafísica do Propósito da Escola), ser o sistema de ensino o responsável por divulgar propriamente a literatura e a cultura portuguesas; esses aspectos, que, sem sombra de dúvida, são relevantes na construção de cidadãos verdadeiramente esclarecidos e conhecedores, constituem mais um desenvolvimento pessoal (de uma componente predominantemente psicossocial) do que propriamente um desenvolvimento racional, não devendo, então, fazer parte do sistema de conhecimentos leccionados no ensino. Deverá ser o aluno, eventualmente estimulado pela família, ou por qualquer outra parte da sociedade, a dispor-se a ler, de sua livre (e mais ou menos espontânea) vontade, essas obras relevantes, lendo-as não como algo didáctico, mas sim como algo pura e simplesmente lúdico, ou seja, não como mais um pedaço de matéria, mas sim como mais um livro, como mais uma fonte de entretenimento. Admito que nem todas essas obras sejam assim tão fáceis de ler quanto isso, mas torná-las obrigatórias só contribui para dificultar ainda mais a sua leitura.

   Mas creio que já me dispersei de mais. Numa tentativa de não alongar ainda mais, creio que terminarei por aqui. Resta-me desejar uma boa semana a todos os leitores, e deixar a já habitual ressalva de que podem utilizar à vontade o espaço de comentários…

23 de maio de 2015

Mais Uma Vez Sobre os Exames (Com Acordo Ortográfico À Mistura)

   Depois daquela última entrada francamente lacónica (e de mais uma pausa por falta de tempo), espero voltar hoje à contestação propriamente dita, já que já perdi a oportunidade de comentar muitas situações e notícias que surgiram entretanto. O assunto que escolhi é, uma vez mais, os exames.

   Está já declarada a minha posição relativamente aos exames: sou contra, absolutamente contra, irrevogavelmente contra. Não sei quantos leitores partilham esta minha opinião (se é que ainda tenho leitores, depois de tanta pausa…), mas não vale a pena repetir os meus argumentos. Em vez disso, apresentarei mais uma incongruência que se tornou evidente a partir do (deveras execrável) momento em que foi anunciado o fim do período de transição do (des)Acordo Ortográfico.

   Este ano, ou melhor, a partir deste ano, nos exames, só é considerada correta a nova grafia, sendo considerado um erro ortográfico escrever de acordo com, a antiga (e, diria eu, correcta) grafia. Bom, tudo isto é muito giro, a grafia sancionada oficialmente é a nova, a outra é já “arcaica”, mas… será que alguém se questionou se esses alunos aprenderam, de facto, a nova ortografia? É que, a meu ver (e da minha experiência pessoal), deve haver muitas escolas por esse país fora onde os alunos ainda aprenderam a escrever de acordo com a antiga ortografia (não propriamente os do 4.º Ano, que, coitados, já tiveram de fazer exame, mas talvez mais os do 6.º – mais outros coitados que já fizeram exame – para cima) e nunca lhes foi ensinada a nova. Então, está-se a exigir aos alunos que realizem algo que não aprenderam (quer dizer, alguns – não sei se muitos – terão eventualmente aprendido a nova ortografia, mas certamente não foram todos os alunos que a aprenderam), o que, a meu ver, estará errado. Seria como colocar equações do 2.º grau para serem resolvidas no exame de Matemática do 4.º Ano. Um absurdo.

   Alguns (os apoiantes do Acordo) poderão argumentar que o Acordo já deveria ter sido leccionado nas escolas e que, se não foi, o problema é de cada escola e não dos exames em si. Mas, vejamos, quem sai prejudicado com isso? Bem, as escolas um pouco, sim, descem no ranking, mas (aparte eventuais questões financeiras) isso não as prejudica muito; então, quem mais? Ah, já sei, aqueles, os… os do costume, os tais que já nem me lembro do nome… os… os alunos. Sim, é isso, os alunos. Há tanto tempo que não ouvia falar deles…

   Mesmo que esses “maravilhosos” exames sirvam para criar uma suposta igualdade de circunstâncias (eliminando as diferenças resultantes de os alunos terem diferentes professores e provirem de diferentes escolas), se os alunos que a eles são submetidos não partem de uma mesma igualdade de conhecimentos leccionados (já nem falo dos conhecimentos que possuem ou não), os exames tornam-se uma injustiça. Que, de resto, são. Assim, creio eu, dever-se-ia, até só estarem a fazer exame os alunos que tenham aprendido já a nova ortografia desde que entraram na escola, aceitar também a antiga. Mas, claro, o IAVE e o governo e todas essas instituições não estarão para isso e, mesmo que estivessem, provavelmente argumentariam que já não há tempo para fazer as alterações devidas. Então, o que se pode fazer? Apresenta-se-me uma resposta possível: todos os alunos e pais e professores fazerem pressão sobre o governo para aceitar ambas as grafias. É simples, certo? E há sempre o último recurso de boicotar os exames por causa disso, coisa que não seria assim tão má ideia…

15 de setembro de 2014

Discordo do Acordo...

   Nesta segunda entrada deste blog, permito-me abordar um tema deveras controverso e polémico, ainda que relativamente recorrente na opinião pública. É isso. O leitor adivinhou: o Novo Acordo Ortográfico. É certo que se trata de um tema que já foi abordado múltiplas vezes, e, não sendo eu um gramático nem um estudioso da língua de qualquer outro género, quaisquer comentários não têm nenhum tipo de valor oficialmente reconhecido, pelo que o que farei terá, à partida, efeitos nulos. Mas antes criticar do que calar, antes dizer do que reprimir, e, além disso, mais vale adquirir o hábito da crítica logo no início deste blog do que iniciar com transigência e passar gradualmente para a intransigência; assim, serei fiel à minha intenção original e criticarei...

   A primeira crítica terá de ser a expressão já quase estereotipada de que se trata de um acordo mais político do que verdadeiramente linguístico. O que não percebo bem é como é que é político, se Portugal foi praticamente o único país a acarinhar esse projecto e a impô-lo na Administração Pública (e no Ensino). Talvez fosse uma tentativa falhada de aproximação ao povo irmão do Brasil (mais primo que irmão para mim, já que, quando muito, um dos "pais" será irmão de um dos nossos "pais", mas isso é outra história...). Para mim, não me importaria se houvesse (como ainda há) duas grafias grandemente diferentes do Português, uma europeia e outra... bem, americana. Já que o Brasil fica na América. Na do Sul, mas América ainda assim. Se os conhecedores das especificidades da linguagem Anglo-Saxónica bem se recordam, seria um sistema semelhante ao Inglês Americano versus o Inglês Britânico. Mas talvez seja eu que penso mal... e isso seria má ideia.

   No entanto, não fico por aí. Como observador um pouco externo a todas as características da evolução linguística, e como alguém com tendência para reflectir sobre assuntos diversos, não posso deixar de pensar que as evoluções de uma língua surgem gradualmente, com a passagem do tempo, com alterações do património sócio-cultural, com a derivação do seu significado, enfim... através de várias coisas. Mas (quase) sempre lenta e gradualmente. Ora bem, se a evolução da língua (e talvez seja importante referir que uso esta expressão para designar não só uma evolução em termos fonéticos, mas também em termos ortográfico-gramáticos, que, apesar de tudo, me parecem estar associados) se efectua de um modo mais ou menos natural, afigura-se-me ilógico provocar uma alteração (embora somente ortográfica, mas, ainda assim, uma alteração) de um modo puramente artificial. Talvez aqui me pudessem dizer que, pelo meu raciocínio, ainda se escreveria pharmácia em vez de farmácia, entre muitas outras coisas, já que também era errado o acordo de 1945, e todos os outros antes dele; no entanto, só não advogo o regresso à ortografia "arcaica" porque praticamente todos os falantes de Português actualmente vivos já foram educados nesse acordo; assim, como o "mal" já está feito, temos é de garantir que não se piora. Ou seja, resumindo este parágrafo talvez excessivamente extenso, é errado fazermos a língua evoluir porque, por esta ou aquela razão, nos convém, pelo que é errado o acordo.

   Além disso tudo, não posso deixar de referir todas as incongruências associadas ao acordo. É preciso ir mais longe do que cor-de-rosa ficar cor-de-rosa, mas cor-de-laranja passar a cor de laranja? É certo que a hifenização nunca foi um dos directórios mais bem organizados da nossa gramática, mas é mesmo necessário mudar para o mesmo tipo de problemas? Uma vez mais, talvez seja só defeito meu. Enfim... não tenho bem a certeza, mas o problema deve ser mesmo meu...

   Poderia continuar aqui a escrever muito mais sobre o Novo (Des)Acordo Ortográfico, mas não posso. Não é minha intenção quebrar o recorde para a entrada de blog mais longa... Só não posso deixar de referir que, mesmo que o Acordo estivesse correcto (coisa que penso não estar), a forma como foi posto em prática não é, nem nunca poderia ser, correcta. Nunca se poderia impor um sistema como que unilateralmente e para todos, mesmo para aqueles já fora da idade escolar, que, por isso, em princípio já não teriam a necessidade de interiorizar novos conhecimentos em termos gramaticais, excepto naquilo que se relacionaria com a sua actividade; se, e é um grande se, estivesse correcto, penso que só poderia ser aplicado a todos aqueles que iniciassem o percurso escolar (neste ou noutro sistema) nesse mesmo ano. Assim, se as coisas tivessem sido feitas como penso que deveriam, só daqui a uma ou duas gerações se poderia adoptar essa norma enquanto oficial e correcta.

   Enfim, já me alonguei demasiado. Resta só desejar um bom dia a todos os leitores (se os houver). Aceito, como espero sempre poder aceitar, quaisquer comentários que possam ter acerca disto (ou relacionados com isto).