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9 de janeiro de 2016

Mais Aferição da Aferição e Avaliação da Avaliação

   Não me posso impedir de começar esta entrada de uma maneira um pouco excêntrica: mas para que raio é que eu fui falar? Caso esteja a ser demasiado críptico, estou-me a referir ao facto de, antes sequer de estas… erm… maravilhosas notícias acerca das mudanças na educação terem saído, ter aqui efectuado uma reflexão sobre as provas de aferição. Tivesse eu ficado calado e, talvez, os brilhantes senhores do Ministério da Educação não teriam tido a brilhante ideia de reimplementar as provas de aferição, ainda por cima em mais anos do que os exames, e ainda mais por cima a mais disciplinas! Pronto, é certo que o Universo não funciona exactamente assim, mas não é a primeira vez que expresso a minha convicção de que algo não deve acontecer e é exactamente isso que acaba por acontecer… Nesse sentido, sinto-me levado a apresentar as minhas desculpas aos alunos do 2.º, 5.º e 8.º ano que passaram a ser afectados por estas provas…

   Bom, coincidência, acaso ou trama maquiavélica do Universo, o que é certo é que as provas de aferição cá estão, mais numerosas e mais abrangentes do que nunca. Se trocar os exames por provas de aferição já não era assim tão desejável, visto que correspondia a trocar um mal por um mal menor (ou, conforme digo na entrada anterior acerca das provas de aferição, trocar uma tortura prejudicial por uma tortura inócua), implementar ainda mais provas de aferição só vem tornar esta troca ainda menos desejável (tornando a tortura mais frequente, mesmo que se mantenha inócua).

   E, para piorar as coisas, parece que o Conselho Nacional de Educação veio fazer a modos que uma surtida em defesa dos exames nacionais (pelo menos no 9.º ano), propondo até efectuar-se mais um, o que, juntamente com uma outra notícia que por aí anda a circular e que afirma que os exames no Ensino Básico apenas são responsáveis por uma percentagem reduzida dos chumbos (por não haver, segundo parece, muitos casos em que as notas dos alunos sejam significativamente alteradas), vem fortalecer um pouco mais (ainda) a posição dos que defendem os exames.

   Mas não vou recair numa argumentação, que agora se tornaria mais do que repetitiva, acerca dos exames, das provas de aferição e indesejabilidades anexas e do quão necessário é que se abula esse tipo de instrumentos. Mas também não me posso coibir de frisar mais uma vez que a introdução anunciada de provas de aferição a mais disciplinas vem aumentar significativamente o factor stress dos alunos, com potenciais efeitos adversos na sua saúde mental, o que afecta negativamente as suas capacidades de adquirir conhecimentos, prejudicando, assim, o ensino no seu todo.

   Em todo o caso, quero deixar aqui umas perguntas a todos aqueles que concordem com exames nacionais e/ou provas de aferição (e que se encontrem a ler este texto): em que argumentos se baseiam para justificar a necessidade da existência desses métodos de avaliação? Ou seja, por que razão devem existir exames e/ou provas de aferição? Porque é que temos de avaliar/aferir o nível de conhecimento dos alunos?

   Responder-me-ão com o sempre comum (e sempre falacioso) “todos somos avaliados ao longo da nossa vida”?

   Pois, mas esse facto, por si só, não me parece suficiente para justificar que se efectue mais uma avaliação, ou várias (se quiserem, a existência de uma avaliação não pode ser usada para justificar uma outra avaliação, mesmo que uma seja vitalícia e a outra escolar; fazê-lo é incorrer num raciocínio circular, numa petição de princípio que torna toda esta argumentação inconsequente e inválida).

   Dir-me-ão que é necessário um critério de avaliação exterior, objectivo e imparcial, de modo a eliminar quaisquer desigualdades que o facto de os alunos partirem todos de condições iniciais gera?

   Bom, nem querendo contestar a objectividade e a imparcialidade das provas e exames (ainda que me apeteça muito fazê-lo…), e também não indo pela questão da injustiça, gostaria que me explicassem como é que realizar uma qualquer prova, conte ou não para avaliação, vai restabelecer essa igualdade de circunstâncias (já que, entre outras coisas, os alunos a quem não foi leccionada matéria não a aprendem subitamente só por fazerem a prova).

   Argumentarão que é necessário que o sistema de ensino possua algum instrumento para avaliar se os conhecimentos foram bem adquiridos?

   Sem sequer começar a questionar se exames e provas de aferição reflectem adequadamente o nível de conhecimentos dos alunos, creio que considerar que os resultados desses instrumentos levarão a alterações significativas e/ou a melhoramentos no sistema de ensino é partir de um pressuposto tão ou mais utópico e idealista que os próprios Mini-Ciclos de Leccionamento; por outro lado, também não vejo que lógica pode haver em deixarmos que essa avaliação do sistema de ensino tenha impactos no percurso escolar do aluno, penalizando-o injustamente por falhas que ele não cometeu (isto talvez seja um pouco menos significativo se houver provas de aferição, mas acaba sempre por haver subidas e descidas na consideração do professor, que podem beneficiar ou prejudicar o aluno…).

   Atirar-me-ão em cara que, se o ensino tem como função transmitir conhecimento (coisa que já tenho referido múltiplas vezes como sendo o seu principal propósito), então devermos determinar se aluno, de facto, adquiriu esses conhecimentos?

   Mas, então, expliquem-me como é que isso é conseguido numa prova que engloba uma miríade de matérias, podendo-se errar umas e acertar outras, sem que isso tenha qualquer efeito no sentido de permitir reaprender o que não se sabe e/ou não ter de repetir o que se aprendeu (por outras palavras, expliquem-me como se afere o conhecimento numa prova que testa as matérias como um todo, e ou se sabe uma percentagem suficiente desse todo para passar e se progride, mesmo que se deixe para trás algumas matérias que não se aprendeu, mas que, tendo-se passado, é como se se tivesse aprendido, ou não se sabe o suficiente para passar e não se progride, mesmo que haja algumas que se saiba, mas que, não se tendo passado, é como se não se tivesse aprendido).

   No meio de tanta contra-argumentação, não sei se deixei margem para os apoiantes de exames e provas de aferição que por aí andarem me responderem. Espero que ainda tenham coisas para me dizer, mais que não seja para que eu possa, finalmente, descobrir um qualquer argumento válido e significativo a favor das avaliações e/ou aferições diversas, e, através disso, atingir a maravilhosa iluminação que vós, apoiantes desses métodos, há muito que possuem… ou não.

   Seja como for, e antes de me despedir, não posso deixar de expressar o meu ligeiro espanto e o meu não tão ligeiro desagrado ante o facto de nem sequer ser considerada a abolição dos exames do Ensino Secundário. Sim, admito que falo parcialmente em proveito próprio, porque não vejo com bons olhos a possibilidade de ter de os fazer mais uma vez, mas sei que não sou o único a pensar desta forma. E, então, a todos os outros que também assim pensem, sim, a todos vocês que por aí andam, deixo o convite para a luta, para a manifestação, para a acção em prol de uma mudança que só poderá ser positiva! Abaixo os exames nacionais!

   E com estas palavras vagamente demagógicas me despeço, deixando-vos os meus votos de um bom fim-de-semana e a habitual ressalva acerca da plena disponibilidade do espaço de comentários…

P.S.: Tenho vagamente na ideia fazer uma certa renovação e revitalização do texto que descreve em pormenor os Mini-Ciclos de Leccionamento. Não será propriamente para agora, mas… para breve. Isto, claro, se entendermos “breve” como uma indicação genérica de um qualquer momento algures nas próximas semanas. Há trabalhos e testes diversos que me podem atrasar, mas espero acabar a revisão antes disso…

12 de dezembro de 2015

Aferindo Aferições Diversas

   Antes de mais nada, tenho de apresentar as minhas desculpas por mais uma ausência, facto que, infelizmente, já se tornou um hábito. Eu gostaria, sinceramente gostaria, de escrever todos os dias, mas nem sempre consigo achar a inspiração necessária, ou um tema apropriado, ou argumentos minimamente válidos… e também me deparo, com a frequência a que o actual sistema de ensino já habituou os pobres daqueles que o frequentam, com todas essas ignobilidades de testes, e trabalhos, e trabalhos de casa… Enfim. Não interessa.

   Trago-vos hoje, com relativa frescura, uma temática que foi, se não estou equivocado, vagamente abordada na Assembleia da República recentemente, embora não exactamente pelas mesmas razões que me levam a abordá-la… Bom, em virtude da abolição dos exames do 4.º ano (Viva! Mas… e os outros? Não serão também para abolir? Não? Sou eu o único maluco que pensa assim?), e no âmbito de umas declarações do actual Primeiro-Ministro acerca disso, que estabelecia algum tipo de distinção entre a avaliação dos alunos e a aferição da escola, a bancada parlamentar do CDS-PP questionou o Ministro da Educação acerca da possível reimplementação das antigas (e parcialmente famigeradas) Provas de Aferição. E eu, como não poderia deixar de ser, vou aproveitar para criticar um pouco mais o actual sistema de ensino. Já sabem como sou, não é?

   Basicamente, a questão é: exames versus provas de aferição versus nada. Creio que se consegue mais ou menos adivinhar qual será a minha resposta, mas, mesmo correndo o risco de me tornar vagamente repetitivo, não me posso impedir de realizar uma análise crítica (e, mais do que isso, céptica) daquilo que são as provas de aferição. Dos exames, não vale a pena falar: remeter-vos-ei, em vez disso, para uma entrada anterior, onde me centro especificamente nessa questão. Aqui está.

   Bom, de uma maneira geral, as provas de aferição sofrem do mesmo tipo de problemas que os exames, testes e momentos formais de avaliação afins: não reflectirem adequadamente os níveis de conhecimento do aluno (já que constituem um momento pontual de avaliação, cujos resultados podem ser adulterados por uma vasta gama de factores, conforme não me canso de repetir), ajudarem a consolidar a noção de que o ensino deve actuar como elemento diferenciador de alunos (através das notas) e/ou corresponder a um mero cumprimento de requisitos mais ou menos burocráticos (leia-se programas), em detrimento da transmissão de conhecimentos que é, ou deveria ser, o verdadeiro propósito de qualquer sistema de ensino (conforme defendo na minha Fundamentação Metafísica do Propósito da Escola), e, de uma maneira geral, constituírem uma fonte de interpretações injustas e inadequadas à realidade, ao subjugar um conjunto de situações pedagógicas diversas a um mesmo critério geral, normalizado e normalizante, que, exactamente por ser assim, não tem em conta toda uma gama de possíveis situações adversas que escapam ao controlo dos alunos, penalizando-os injustamente (e, em parte, às escolas).

   Em suma, as provas de aferição constituem, ao fim e ao cabo, mais um momento de avaliação; mesmo que não seja esse o objectivo oficial das provas de aferição, não me parece improvável que, face ao eventual contributo das provas para os rankings das escolas (e, intrinsecamente, para o seu financiamento), elas sejam apresentadas aos alunos como algo de grande importância, para o qual se devem preparar afincadamente, conferindo-lhes, por isso, o mesmo tipo de efeitos psicológicos adversos que os exames (mesmo que os efeitos das provas nas notas sejam menores; ainda assim, afigura-se-me que haverá sempre aqueles casos em que um aluno entre a positiva e a negativa acaba por ser ajudado por ter tido mais ou menos boa nota nas provas de aferição, mas isso é outra história…).

   Nesse sentido, estaremos a trocar uma tortura prejudicial (exames) por uma tortura mais ou menos inócua (provas de aferição), mas uma tortura ainda assim. De qualquer das formas, entre os dois, tenho de concordar que as provas de aferição são a opção menos má. A questão é que a existência de provas de aferição deixa ainda em aberto a possibilidade da reimplementação dos exames nacionais, e isso é tudo menos desejável. Ah, claro, e também não posso deixar de frisar que as provas de aferição, não reflectindo o verdadeiro conhecimento dos alunos (como já disse e como continuarei a dizer), podem não ser um instrumento assim tão preciso para aferir a qualidade do ensino. Isto, claro, partindo do princípio que essa aferição da qualidade do ensino levaria, de facto, a algum tipo de mudanças, coisa que, pelo andar da carruagem, não me parece muito provável…

   Enfim. Mesmo que as provas de aferição sejam preferíveis aos exames, não são um bem, são apenas um mal menor. E eu não sou propriamente fã de males menores… acho, em vez disso, que não deve haver males nenhuns. Então, se me permitem que meta aqui a colherada habitual, parece-me que a solução mesmo, mesmo melhor seria não haver provas nem exames, e implementarmos, em vez disso, um novo paradigma de ensino: Mini-Ciclos de Leccionamento. Pronto. Já disse. Já se sabia que eu ia chegar aqui. Sou repetitivo, é certo, mas não posso deixar de tentar ao máximo promover esta perspectiva que, mais do que nova, creio ser melhor e, logo, mais desejável. Por isso, não me calarei e continuarei, sempre que puder, a apregoá-la o máximo possível.

   Para terminar, desejo um bom fim-de-semana a todos os meus leitores… ou um bom dia, ou seja o que for, já que poderão estar a ler isto não exactamente durante um fim-de-semana. Até à próxima, e não se esqueçam de que o espaço de comentários está aí em baixo, à espera do que possam ter para dizer…