Nesta segunda entrada deste blog, permito-me abordar um tema deveras controverso e polémico, ainda que relativamente recorrente na opinião pública. É isso. O leitor adivinhou: o Novo Acordo Ortográfico. É certo que se trata de um tema que já foi abordado múltiplas vezes, e, não sendo eu um gramático nem um estudioso da língua de qualquer outro género, quaisquer comentários não têm nenhum tipo de valor oficialmente reconhecido, pelo que o que farei terá, à partida, efeitos nulos. Mas antes criticar do que calar, antes dizer do que reprimir, e, além disso, mais vale adquirir o hábito da crítica logo no início deste blog do que iniciar com transigência e passar gradualmente para a intransigência; assim, serei fiel à minha intenção original e criticarei...
A primeira crítica terá de ser a expressão já quase estereotipada de que se trata de um acordo mais político do que verdadeiramente linguístico. O que não percebo bem é como é que é político, se Portugal foi praticamente o único país a acarinhar esse projecto e a impô-lo na Administração Pública (e no Ensino). Talvez fosse uma tentativa falhada de aproximação ao povo irmão do Brasil (mais primo que irmão para mim, já que, quando muito, um dos "pais" será irmão de um dos nossos "pais", mas isso é outra história...). Para mim, não me importaria se houvesse (como ainda há) duas grafias grandemente diferentes do Português, uma europeia e outra... bem, americana. Já que o Brasil fica na América. Na do Sul, mas América ainda assim. Se os conhecedores das especificidades da linguagem Anglo-Saxónica bem se recordam, seria um sistema semelhante ao Inglês Americano versus o Inglês Britânico. Mas talvez seja eu que penso mal... e isso seria má ideia.
No entanto, não fico por aí. Como observador um pouco externo a todas as características da evolução linguística, e como alguém com tendência para reflectir sobre assuntos diversos, não posso deixar de pensar que as evoluções de uma língua surgem gradualmente, com a passagem do tempo, com alterações do património sócio-cultural, com a derivação do seu significado, enfim... através de várias coisas. Mas (quase) sempre lenta e gradualmente. Ora bem, se a evolução da língua (e talvez seja importante referir que uso esta expressão para designar não só uma evolução em termos fonéticos, mas também em termos ortográfico-gramáticos, que, apesar de tudo, me parecem estar associados) se efectua de um modo mais ou menos natural, afigura-se-me ilógico provocar uma alteração (embora somente ortográfica, mas, ainda assim, uma alteração) de um modo puramente artificial. Talvez aqui me pudessem dizer que, pelo meu raciocínio, ainda se escreveria pharmácia em vez de farmácia, entre muitas outras coisas, já que também era errado o acordo de 1945, e todos os outros antes dele; no entanto, só não advogo o regresso à ortografia "arcaica" porque praticamente todos os falantes de Português actualmente vivos já foram educados nesse acordo; assim, como o "mal" já está feito, temos é de garantir que não se piora. Ou seja, resumindo este parágrafo talvez excessivamente extenso, é errado fazermos a língua evoluir porque, por esta ou aquela razão, nos convém, pelo que é errado o acordo.
Além disso tudo, não posso deixar de referir todas as incongruências associadas ao acordo. É preciso ir mais longe do que cor-de-rosa ficar cor-de-rosa, mas cor-de-laranja passar a cor de laranja? É certo que a hifenização nunca foi um dos directórios mais bem organizados da nossa gramática, mas é mesmo necessário mudar para o mesmo tipo de problemas? Uma vez mais, talvez seja só defeito meu. Enfim... não tenho bem a certeza, mas o problema deve ser mesmo meu...
Poderia continuar aqui a escrever muito mais sobre o Novo (Des)Acordo Ortográfico, mas não posso. Não é minha intenção quebrar o recorde para a entrada de blog mais longa... Só não posso deixar de referir que, mesmo que o Acordo estivesse correcto (coisa que penso não estar), a forma como foi posto em prática não é, nem nunca poderia ser, correcta. Nunca se poderia impor um sistema como que unilateralmente e para todos, mesmo para aqueles já fora da idade escolar, que, por isso, em princípio já não teriam a necessidade de interiorizar novos conhecimentos em termos gramaticais, excepto naquilo que se relacionaria com a sua actividade; se, e é um grande se, estivesse correcto, penso que só poderia ser aplicado a todos aqueles que iniciassem o percurso escolar (neste ou noutro sistema) nesse mesmo ano. Assim, se as coisas tivessem sido feitas como penso que deveriam, só daqui a uma ou duas gerações se poderia adoptar essa norma enquanto oficial e correcta.
Enfim, já me alonguei demasiado. Resta só desejar um bom dia a todos os leitores (se os houver). Aceito, como espero sempre poder aceitar, quaisquer comentários que possam ter acerca disto (ou relacionados com isto).