26 de agosto de 2015

Da Fundamentação Metafísica do Propósito da Escola

   Peço desculpa aos meus leitores pela demora, mas fui acometido de um dos piores acessos de falta de inspiração que alguma vez experienciei. Todas as ideias me pareciam inconsequentes e insuficientes, todas as minhas palavras pareciam ocas e, por isso, não consegui propriamente encontrar nenhum bom tema para escrever, mas creio ser o meu dever fazer uma nova entrada. Por isso, e depois de muito esforço mental, decidi adoptar, à falta de melhor, este tema um pouco críptico, que não podia estar mais longe de mediático. Advirto já que a “fundamentação metafísica” se trata mais de uma expressão vagamente irónica do que propriamente de uma indicação do teor das reflexões filosóficas que se estabelecerão neste texto; não é este o lugar apropriado para reflexões dessa natureza.

   Começarei por colocar uma pergunta retórica: para que serve a escola? Numa abordagem mais paranóica, poder-se-ia dizer que constitui um importante órgão de controlo e condicionamento da população, submetendo-a aos interesses da sociedade, mas esta perspectiva é demasiado exagerada (ainda que não esteja completamente errada…) para que se a possa sustentar com sucesso. Então, qual é mesmo o propósito de um sistema de ensino? Que falta é que faz? Que necessidade é que há de haver uma coisa assim?

   Muitos diriam que o seu propósito seria contribuir para a completa formação do indivíduo, seja a nível intelectual, seja a nível social, seja a nível moral, mas sou forçado a discordar desta perspectiva principalmente por três motivos:

      1) Para que o sistema de ensino pudesse cumprir totalmente esse propósito, o indivíduo teria de estar, até terminada a sua formação, permanentemente nele incluído (para que as influências externas perturbem o menos possível), o que, além de ser impraticável, não é psicologicamente saudável (e incorre no motivo seguinte).

      2) A possibilidade de haver um aproveitamento dessa faceta profundamente formativa do actual sistema de ensino para condicionar (ainda mais…) os indivíduos, conforme melhor possa aprouver aos lobbies e aos poderes instituídos, além, claro, de abrir um caminho bastante fácil para uma situação huxleyana de subjugação do indivíduo à mecanização da sociedade através do condicionamento providenciado pela educação.

      3) A existência de uma pletora de competências (nos domínios sociais e morais, leia-se) que, pura e simplesmente, são quase impossíveis de ser ensinadas, tendo, em vez disso, de ser desenvolvidas pelo indivíduo.

   Ora, tendo tudo isto em conta, não posso, de modo algum, partilhar das opiniões que recentemente se têm vindo a popularizar acerca de avaliações formativas, valorizações de competências sócio-afectivas e outras teorias afins (sem ofensa para aqueles que as apoiam, e sem ofensa também para as teorias em si). Antes que me acusem de desvalorizar essa componente através destas minhas palavras, permitam-me que refira que, sem sombra de dúvida ou de hesitação, admito que o indivíduo só está verdadeiramente completo se possuir (em maior ou menor escala) essas componentes. Apenas defendo que a transmissão dessas competências não deve ser um dos principais propósitos do sistema de ensino.

   Então, qual será esse propósito? Permitam-me que responda laconicamente: transmitir conhecimento. Sim, claro, poder-se-ia argumentar que, em última análise, tudo é conhecimento, pelo que essas competências que refiro anteriormente também o são, e eu seria, inevitavelmente, forçado a concordar; no entanto, afigura-se-me que ainda há uma grande diferença entre saber somar e saber amar (no sentido mais poético do termo). Isto, claro, constitui um dos contrastes mais extremos, mas creio que é suficiente para ilustrar a questão: poder-se-ia dizer (se me permitem um dedinho de Filosofia) que, de uma maneira geral, há conhecimentos que surgem maioritariamente por uma via que podemos designar racional (sendo, por isso, de cariz mais exequível, além de mais facilmente transmissíveis, e possuindo maior objectividade e impessoalidade) e outros que provém de uma outra via mais psico-emocional e sensorial (embora tendo um impacto no dia-a-dia igual ou superior ao dos outros, acabam por possuir uma aplicabilidade mais pessoal e subjectiva, sendo, por isso, mais difíceis de transmitir).

   Tendo isto em conta, poder-se-á, então, reformular a resposta que dei anteriormente: o sistema de ensino deve tentar transmitir única e exclusivamente os conhecimentos racionais, sejam os do âmbito mais prático (actividades laboratoriais, culinária, mecânica…), sejam os do âmbito mais teórico (Matemática, outras ciências, línguas…).

   Mas não se pense, devido a estas palavras, que sobrevalorizo o racional e desvalorizo o psico-emocional; apenas considero que se deve separar bem as duas áreas, sem que estejam a cargo da mesma organização/entidade. Aliás, mesmo sem uma ênfase acrescida do actual sistema de ensino na área mais psico-emocional e sensorial, já considero que este se intromete demasiado nessas competências, ocupando, em consequência disso (e também das muitas outras falhas que se lhe podem apontar), demasiado tempo na vida dos alunos. Não, não faço nenhum apelo à borga ou à vida boémia que muitos adoptam nos seus tempos livres, apenas acho (e creio que, neste aspecto, já alguns psicólogos tentaram alertar para isto) que o sistema de ensino deveria providenciar mais oportunidades para que esse desenvolvimento de conhecimentos psico-emocionais e sensoriais pudesse ocorrer naturalmente, sem que houvesse trabalhos de grupo obrigatórios, sem que houvesse trabalhos de casa com o intuito de ensinar o que é um dever, sem coisas semelhantes que, muitas vezes, até têm efeitos adversos sobre as competências que visam desenvolver. Mas, da minha perspectiva, essas oportunidades não deveriam surgir no sistema de ensino em si, mas sim no tempo livre que este deixaria, mais do que o que deixa agora (e não falo de intervalos).

   É claro que não se pode deixar o desenvolvimento dessas competências exclusivamente a cargo do indivíduo, mais a mais porque muitas delas surgem e se definem em função do outro, mas, por isso, e para isso, serviria a unidade familiar (quando possível) ou uma qualquer outra entidade especializada na transmissão desses conhecimentos, que, mesmo podendo ficar situada num espaço partilhado com o sistema de ensino dos conhecimentos racionais, diferiria deste não só pelo âmbito, mas também pela abordagem, mais vocacionada, como seria de esperar, para que seja o aluno, por si, a desenvolver essas competências. E, a meu ver, este tipo de conhecimentos nunca deveria, de modo algum, ser utilizado para propósitos avaliativos ou selectivos, não possuindo, por isso, nenhum tipo de obrigatoriedade (não mais do que a normal convivência em sociedade exige), pois, conforme refiro, estes conhecimentos não podem, ou não devem, ser forçados, antes surgindo naturalmente, ao ritmo de cada um (mas, claro, podendo ser alvo de estímulo por parte de outrem), mais a mais porque a sua não aquisição não constitui, na maioria dos casos, um obstáculo inultrapassável ao normal desempenho das tarefas (o caso mais flagrante será, creio eu, o das aptidões sociais: a timidez, embora, em muitos casos, seja bastante prejudicial, não constitui, de uma maneira geral, um problema fatal para o afligido…) e porque a subjectividade inerente a este tipo de conhecimentos implica exactamente que não podem ser subjugados a um critério externo, imparcial, avaliativo.

   É, pois, aqui que divirjo grandemente das opiniões que acima referi: em vez de se englobar a transmissão dos conhecimentos psico-emocionais e sensoriais no sistema de ensino, como se tem feito, e se está a querer fazer ainda mais, face ao progressivo enfraquecimento do papel da família na formação do indivíduo (por motivos sócio-económicos diversos), proponho que, a estabelecer-se qualquer sistema de transmissão destes conhecimentos, este esteja desligado do sistema de transmissão dos conhecimentos racionais (que, de qualquer das formas, também não deve abarcar uma fatia tão alargada do dia-a-dia dos alunos e das famílias, cuja vida, de uma forma ou de outra, acaba por, hoje em dia, ser a modos que construída em torno dos condicionalismos que o sistema de ensino impõe) e, sobretudo, o mais independente possível dos interesses dos lobbies, sob pena de, se me permitem a metáfora, sermos nós próprios a entregar os fios que nos movem aos marionetistas.

   Bom, creio que concluí esta relativamente longa dissertação relativa às funções do sistema de ensino. Temo ter sido demasiado críptico e confuso na minha abordagem, ter-me imiscuído demasiado nas águas turvas da Filosofia e da Psicologia, mas são os condicionalismos que a falta de temas me impõe. As minhas desculpas a todos e quaisquer leitores que possam ficar melindrados pelas minhas palavras, mas têm a minha garantia de que a minha intenção não era, de modo algum, ofender ou magoar, apenas expressar uma ideia. Tenho, igualmente, de apresentar as minhas desculpas por quaisquer eventuais falhas e incongruências que aqui se possam eventualmente encontrar. Resta-me relembrar o facto de o espaço de comentários ficar à vossa disposição, seja para corrigir, seja para criticar, seja para (se assim o entenderem) elogiar…

12 de agosto de 2015

Análise dos Programas Eleitorais das Legislativas (na Área da Educação)

   Tenho de pedir desculpa aos meus leitores por mais uma longa ausência, que se deve fundamentalmente à falta de um assunto sobre o qual escrever. Como, de resto, já seria de esperar nestes meses de Verão, quando o Ensino é praticamente a última coisa com que a opinião pública se preocupa.

   No entanto, este ano temos a sorte (ou o infortúnio…) de acolher umas eleições legislativas, e como, à parte moções de censura e quedas de governo diversas, este é um acontecimento que apenas se verifica de quatro em quatro anos, acho que devo aproveitar a oportunidade e efectuar uma análise aos programas eleitorais (pelo menos, àqueles que consegui encontrar nos sites dos partidos), incidindo especificamente sobre a temática da educação. Desde já digo (por menos significado que isso possa ter) que sou plenamente apartidário (aliás, até sou bastante céptico face à política e, sobretudo, aos políticos) e, por isso, esta análise não é motivada por nenhum fervor dessa natureza, apenas pelo meu interesse na área da educação e, em especial, nas mudanças que se poderiam efectuar nessa área.

   Começarei pelo Partido Socialista (PS), que, de acordo com as sondagens mais recentes, lidera as intenções de voto. Entre muito palavreado inútil, alguma demagogia e laivos de populismo, é apontado o insucesso escolar como principal alvo a abater, muito embora uma das soluções apresentadas (a maioria das quais, desde já o digo, são de natureza burocrática) passe por “(…) garantir a estabilidade do trabalho nas escolas, o que pressupõe reformas progressivas, planeadas, negociadas e avaliadas (…)”, algo que, a meu ver, se pode traduzir para deixar tudo na mesma. Consideram que é desejável combater o insucesso escolar logo na educação pré-escolar (um termo que, a mim, me parece vagamente um contra-senso: se se vai a um edifício específico, eventualmente até uma escola, e se, entre outras coisas, se aprende, porque é que essa educação é “pré-escolar”? Mas pronto).

   São feitas menções à flexibilização curricular e pedagógica e à “inovação na aprendizagem”, tudo integrado numa “(…) visão holística, que amplie a autonomia pedagógica e de gestão das escolas, que respeite as diferenças, as capacidades e os ritmos de aprendizagem dos alunos e que promova um maior alinhamento das políticas educativas com as dinâmicas sociais e económicas do nosso tempo (…)”, mas algo me diz que o farão sem romperem com o que se pratica agora… Enfim, também querem promover o ensino profissional (e eu pergunto: porquê considerar-se isto algo à parte do ensino dito “regular”?), melhorar a questão da formação de adultos e resolver uns quantos problemas no ensino superior, mas, no que toca a melhorar verdadeiramente as coisas… bem… não me parece. Mas também posso ser eu que sou demasiadamente desconfiado…

   Nas sondagens e, portanto, nesta minha análise, segue-se a Coligação Portugal à Frente, pseudónimo da coligação entre o Partido Social-Democrata (PSD) e o Centro Democrático e Social – Partido Popular (CDS-PP) e que, como os meus leitores decerto saberão, se encontra actualmente no governo. Bom, entre iguais níveis de palavreado tergiversatório, estes também falam de reduzir o insucesso escolar, através de uma outra série de medidas burocráticas (algumas não tão contrastantes assim com as do PS…), como “(…) integrar os diferentes programas de promoção do sucesso escolar e de combate ao abandono (…) num Plano Nacional de Combate ao Insucesso e Abandono Escolar (…)” e “(…) reforçar a autonomia das escolas na definição dos instrumentos e dos planos de redução do insucesso e abandono escolares (…)”, mas, sobretudo, “(…) promover o sucesso escolar (…)”, algo que achei uma óptima ideia: para que não haja insucesso, vamos promover o sucesso. Genial! Mas não é só isto. Também desejam valorizar o ensino profissional e vocacional, dignificar os profissionais da educação (sendo que me conforta muito a solução que passa por “(…) criar equipas multidisciplinares orientadas para o apoio social escolar, prevenção de comportamentos de risco e para a orientação escolar e profissional que, para além do apoio dire[c]to aos alunos, às escolas e às famílias, estabelecerão ligações privilegiadas com os serviços sociais públicos e as comissões de prote[c]ção de menores (…)”; dignifica imenso, sem dúvida…), descentralizar a educação, criar uma escola “livre de barreiras e amiga da diferença” (expressão eufemística que usam para abordar a vagamente controversa questão das necessidades educativas especiais…) e promover a qualificação de adultos (que não é o mesmo que a qualificação dos adultos; é parecida, mas é só de alguns e não de todos…).

   Mas o melhor ainda estava para vir: querem criar (maravilhoso!) “uma cultura de avaliação consequente”, coisa que passaria por “(…) um sistema de avaliação que exerça uma efe[c]tiva função reguladora da aprendizagem e do funcionamento das organizações escolares (…)”, havendo, claro, “(…) avaliações externas, de cará[c]ter sumativo, sob a forma de provas nacionais no final de cada ciclo de ensino (…)” e “(…) avaliações internas que deverão desempenhar uma função tendencialmente formativa e orientadora dos percursos escolares (…)”, além de se “(…) avaliar periodicamente o desenvolvimento curricular concretizado através de metas, de forma a aferir a sua adequação aos obje[c]tivos de aprendizagem (…)”; sobretudo, aprecio a promessa patente em “(…) pretende-se conferir estabilidade aos currículos o que não significa imobilismo (…)”, sobretudo se considerarmos que passar de um ano para outro será uma forma de movimento, não havendo, portanto, esse imobilismo que parecem desprezar… Enfim, ainda há tempo de “inovar para diferenciar”, coisa que abrangeria, entre outras coisas, “(…) a organização do sistema educativo orientado para o sucesso de todos os alunos e que valorize a liberdade de escolha e a diferenciação dos percursos escolares (…)” e “(…) a reorganização dos ciclos de ensino, de forma a eliminar a excessiva segmentação potenciadora do insucesso escolar (…)”. Hmmm… estão a pensar no mesmo que eu? Posso dizer? Posso? Mini-Ciclos de Leccionamento!

   De seguida, nas sondagens, vem a Coligação Democrática Unitária (CDU), a já conhecida associação entre o Partido Comunista Português (PCP) e o Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV). Principiam por defender “uma escola pública, gratuita, de qualidade e inclusiva”, falando de coisas como “(…) reorganização curricular, tendo em conta a necessidade de uma escola orientada para a formação da cultura integral dos jovens (…)” e “(…) aprovação de novos modelos de avaliação dos estudantes, assentes em princípios de valorização da avaliação contínua (…)” (não é que isto seja ideal, mas, pelo menos, não promovem a “avaliação consequente”…), mas também dando medidas tão vagas como “(…) contratação dos meios humanos e materiais que garantam uma escola pública inclusiva e o apoio a todas as crianças e jovens que necessitem (…)”, “(…) aprovação de um plano de educação e formação de adultos, bem como de um programa de formação ao longo da vida (…)” e “(…) valorização do Ensino do Português no Estrangeiro, através de uma profunda revisão do seu regime jurídico, incluindo a necessária valorização do seu corpo docente e a abolição de propinas impostas às famílias (…)”. E, claro, também pretendem resolver os problemas do ensino superior… Mas já alguém pensou em reformular verdadeiramente todo o sistema de ensino? Pois, também me pareceu que não.

   Seguir-se-iam, nas sondagens, uns lacónicos “outros”, mas, sendo estes uma mescla de partidos diversos e não associados, abordarei, em vez disso, o partido que se segue, que é o Bloco de Esquerda (BE). Começam por se apresentar chocados com todas as decisões ministeriais e, sobretudo, com os exames do 4.º ano, derivando daí para diversas medidas, a maioria das quais relativamente familiares, tais como promoção da formação de adultos, redução de número de alunos por turma, estabelecimento de uma educação verdadeiramente gratuita, “equipas multidisciplinares de combate ao abandono e insucesso escolar” (onde é que já ouvi isto…), entre outras. Mas a boa notícia é que têm um ponto exclusivamente dedicado à “Reforma Curricular”, que corresponde a “(…) uma reorganização curricular que reduza a carga horária imposta aos alunos e a excessiva compartimentação dos saberes em disciplinas; ultrapassar a debilidade do ensino das artes; educação sexual efe[c]tiva nas escolas; promoção de proje[c]tos científicos; pôr cobro à dicotomia ardilosa entre “saberes académicos” e “saberes práticos” (…)”; aparentemente, até vão no que me parece ser a direcção certa (aparte a eventual questão controversa da educação sexual…), se é que não se trata de mero palavreado demagógico… Claro, também pretendem acabar com a municipalização do ensino e resolver os problemas do ensino superior. Mas porque é que serei eu o único idiota a achar que se poderia muito bem englobar o ensino superior no “inferior”? Porquê a manutenção dessa clivagem? Enfim…

   Depois, teríamos o Partido Democrático Republicano (PDR), mas, para grande desapontamento meu, não consegui encontrar o seu programa legislativo, pelo que não poderei tecer comentário algum. Resta-nos, então, a Candidatura Cidadã Livre/Tempo de Avançar, mais conhecida apenas pelo nome de Livre. Das primeiras coisas que referem é que defendem “(…) alterações curriculares, em diálogo com todos os intervenientes ligados à educação e com a sociedade civil, que tornem o trabalho escolar mais inclusivo, estimulante e contextualizado, numa lógica integrada e humanista, valorizando a autonomia dos professores e dos estudantes, as múltiplas inteligências e os diferentes contextos [sócio-culturais] (…)”, mas talvez seja mais uma forma de nada dizer através de muitas palavras. Ainda assim, prometem “abolir os exames nacionais no 4º e no 6º anos”, algo, para mim, louvável, ainda que considere que falte abolir os do 9.º, 11.º e 12.º, conforme os meus leitores saberão por agora. De resto, redução do número de alunos por turma, educação de adultos (que inovador: já não é formação de adultos!), formação para a cidadania (a sério?), valorização dos profissionais da educação, promoção do ensino artístico e profissional, descentralização e resolução dos problemas do ensino superior. Praticamente igual a tudo o resto, apenas com uma ou outra inovação.

   Tomei, também, a liberdade de ler (na diagonal, admito) alguns programas dos partidos agrupados como “outros”, na sondagem. Pelo que vi, nada de novo, contrariar o abandono escolar, educação centrada no aluno, cidadania, melhorar o ensino superior e coisas afins; creio que os que não li (por não ter tido acesso) deverão ser relativamente semelhantes. Enfim, após esta minha (admito que pouco aprofundada) análise, chego a uma conclusão e uma só: acaba por ir dar tudo ao mesmo. Se comecei apartidário, acabei igualmente apartidário. Nada nas propostas se destacou tão visivelmente que me poderia alterar as intenções de voto.

   Resta-me apenas deixar a ressalva de que, caso algum leitor tenha ficado incomodado com as minhas avaliações, tal não era, de forma alguma, a minha intenção; apenas quis efectuar uma análise imparcial (leia-se relativamente às perspectivas políticas e ideológicas dos partidos, ou seja, apartidária) sobre as propostas para a área da educação. Mesmo que não me tenha coibido de expressar uma ou outra opinião relativamente ao ensino em si, não fui, de modo algum, afectado por qualquer opinião que pudesse ter relativamente aos partidos cujos programas eleitorais analisei. Como sempre, deixo à vossa disposição o espaço de comentários. 

26 de julho de 2015

Ideia: Plataforma de Esclarecimento de Questões

   Com base numa acumulação de situações em que algo estava mal num teste (fosse por haver mais do que uma resposta possível, fosse por a resposta considerada correcta estar incorrecta, fosse porque fosse) e na dificuldade em convencer a grande maioria dos professores desse facto, quando ocorria, surgiu-me, há algum tempo, uma ideia que pretendo aqui partilhar, em mais um dos textos curtos que vos prometi. É certo que, da minha perspectiva, e numa situação ideal, não deveria haver testes, pelo menos não no formato a que estamos habituados, mas não me posso dar ao luxo de reflectir unicamente no âmbito do meu sistema. Assim, tenho de deixar aqui esta minha ideia.

   Acho que deveria haver algum tipo de plataforma on-line onde se pudesse enviar questões (de teste, subentenda-se) e receber a resposta correcta às mesmas (se possível, juntamente com uma explicação), mas sempre com a garantia de tudo ser, à falta de melhor expressão, double-blind: nem quem responde sabe quem pergunta, nem quem pergunta sabe quem responde. Idealmente, essa plataforma permitiria a quem pergunta classificar a pergunta de acordo com a disciplina e essa pergunta seria automaticamente encaminhada para um professor (ou um qualquer outro especialista na matéria) com qualificações suficientes para lhe responder, coisa que faria com a maior brevidade possível.

   Em termos informáticos, não haverá, decerto, grande impedimento na criação de uma plataforma desta natureza; o problema seria sempre conseguir com que os especialistas estivessem disponíveis para responder às questões, e isso implicaria, como é óbvio, algum tipo de remuneração. Ora, isto, por sua vez, obrigaria a que essa plataforma fosse suportada ou por algum tipo de instituição filantrópica (o que não seria, de todo, impossível, muito embora se me afigure como pouco provável), ou pelo Estado (o que talvez acarretaria uma perda da imparcialidade da plataforma, ao deixar em aberto a possibilidade de se subjugar o seu desempenho aos interesses da entidade que a financiaria, mais provavelmente o Ministério da Educação), o que constitui um primeiro obstáculo a ultrapassar.

   Um problema adicional seria a possibilidade de um utilizador mal intencionado enviar vezes sem conta a mesma pergunta, no intuito de frustrar os especialistas e/ou de obter, por extenuação, uma resposta favorável, o que, de certa forma, contraria o propósito da plataforma. Mas, por outro lado, não se pode excluir a hipótese de a resposta de um especialista não ser suficientemente conclusiva, não deixando o consulente esclarecido; tendo isto em conta, também deveria ser possível o envio repetido de uma questão. O problema seria mesmo conseguir um equilíbrio entre estas duas coisas.

   Mas enfim. Todas estas coisas que disse fogem, um pouco, à minha intenção original, que era, meramente, a de aqui registar esta minha ideia, de modo a que, se assim o desejarem, os meus leitores a comentem e discutam. O espaço de comentários fica, assim, à vossa disposição.

22 de julho de 2015

Confusões de Exames

   Peço desculpa por mais uma ausência, mas os assuntos escolares (nomeadamente a segunda fase da tortura dos exames nacionais) voltaram a ocupar-me o tempo e não pude adiantar mais nada. Tenho ainda mais fragmentos textuais para publicar, mas prefiro, em vez disso, comentar (com um certo atraso) um assunto que é relativamente actual, e que o título denuncia já antes de o mencionar. Sim, é isso: os exames nacionais. Outra vez.

   Como os possíveis leitores provavelmente já saberão, sou contra os exames nacionais. Já o disse várias vezes, e digo-o agora de novo. Assim sendo, não posso perder a oportunidade de desferir mais uma alfinetada, por assim dizer, nesse… grandioso… empreendimento, nessa ideia mais do que genial, nesse processo central e essencial da educação que são os exames (podem ficar descansados, que a ironia fica por conta da casa…).

   Bom, decerto se saberá já da confusão que houve relativamente aos critérios de correcção do exame de Português. Bem como do pormenor de as médias de Matemática terem subido significativamente e da investigação subsequente que o actual ministro da educação, Nuno Crato, quis encetar. Mas o que me espantou, e me continua a espantar, é o facto de não ter sido encetada nenhuma investigação relativa àqueles exames cujas médias sofreram uma descida igualmente significativa (sendo Biologia e Geologia o caso, a meu ver, mais flagrante). É curioso, não é? Se sobe, há, de certeza, marosca, mas, se desce, é normal. A culpa é dos alunos, que “não adquiriram conceitos essenciais da disciplina”, ou fosse lá como fosse que se justificou essa descida. Enfim…

   O que ninguém se lembra de referir é que a suposta “flexibilidade” nos critérios de correcção deste ano foi para descontar ainda mais, e isso (suponho eu) talvez tenha algo a ver com essa descida. Mas, que digo eu? Só podem ter sido aqueles eternos culpados, os… os alunos. Sim, esses. Quem mais? De certeza não foi, de modo algum, o IAVE, cujo director também não declarou, há algum tempo, que havia a possibilidade de, dentro do género, se definir antecipadamente os resultados dos exames, com base nos critérios de correcção. Ainda bem que nada disto aconteceu, pois, caso contrário, poder-se-ia especular um pouco sobre a verdadeira objectividade dos exames… Que, diga-se de passagem, não é assim tanta.

   Para aqueles que ainda acham que a correcção dos exames é um processo que envolve o máximo rigor e que, portanto, é das coisas mais fiáveis que existem, gostaria de saber o que pensam do facto de ter havido casos de troca de versões na correcção. Pode parecer exagero e especulação, mas é a mais pura das verdades. Houve casos desses. Sim, eu sei que errare humanum est e tudo o mais, e que é por essas e por outras que existem revisões de prova, mas não posso, de forma alguma, deixar de notar que a mera existência de casos destes (ou a mera possibilidade da sua ocorrência) ajudam, num certo sentido, a comprovar aquela que é a minha opinião, que é a de que os exames não reflectem apropriadamente o conhecimento dos alunos.

   Só necessito de fazer uma ressalva, para todos aqueles que possam ficar melindrados com o que digo nesta entrada: não é, de forma alguma, a minha intenção denegrir especificamente a imagem de todas as pessoas que, directa ou indirectamente, colaboram na elaboração dos exames nacionais e na sua correcção; o que pretendo é salientar, uma vez mais, quão ridícula e indesejável é esta prática e quão desajustada está daquele que deveria ser o propósito do ensino, que é o de transmitir conhecimento. Assim, quaisquer críticas aqui patentes não são dirigidas às partes, mas sim ao todo, e ao conceito que lhe está subjacente, que, a meu ver, não está correcto.

   Tenho dito.

10 de julho de 2015

Sobre a Municipalização do Ensino

   Este será, porventura, o tema mais antigo que tenho para abordar, um que, por qualquer razão que nem eu próprio sei especificar, nunca abordei. Bem, muito resumidamente (e tendo em conta que já correu alguma tinta sobre este assunto), vejo razões para concordar e razões para discordar, muito embora sejam mais numerosas as razões para discordar.

   Então, a favor da municipalização do ensino, vejo, acima de tudo e mais flagrantemente, a possibilidade de melhor se adequar a gestão da escola e do programa escolar àquilo que seriam as necessidades dos alunos e da região em causa, o que permitiria uma melhor gestão do orçamento e, portanto, menos desperdícios, o que (teoricamente) se traduziria em melhores condições, o que acarretaria impactos positivos no desempenho dos alunos e, portanto, na sua aquisição de conhecimentos.

   Porém, esta vantagem constitui simultaneamente a sua principal desvantagem: incorre-se no risco de se fazer o ensino depender das necessidades de uma localidade ou região, o que desvirtua aquele que, na minha perspectiva, seria o seu principal objectivo, que é o de transmitir conhecimentos, e deixa em aberto o risco de haver uma (ainda) maior restrição das escolhas dos alunos, condicionando-os a seguir a via que mais se adeque a essas mesmas necessidades regionais (independentemente daquela que seria a vontade e/ou a sua capacidade dos próprios alunos).

   Além disto, se a gestão das escolas ficar a cargo das Câmaras Municipais, há a possibilidade de a colocação dos professores ser (ainda) mais dependente das famigeradas (e quase omnipresentes…) cunhas, o que resulta, de uma maneira geral, numa degradação da qualidade dos professores colocados e, portanto, numa diminuição da qualidade do ensino, com o consequente impacto negativo na aprendizagem dos alunos.

   Um aspecto negativo adicional é a inclusão de uma disciplina ou de uma área curricular que se prende com a história, as tradições e os costumes da região (perdoem-me se estiver equivocado, mas creio que a inclusão desta área curricular era, de facto, parte integrante das mudanças associadas à municipalização do ensino), o que constitui mais um item para ocupar os horários já sobrecarregados dos alunos, mais a mais porque se me afigura que essa área curricular passaria, em grande medida, pela elaboração de trabalhos de pesquisa e outros que tais, o que vai também ocupar uma parte assim não tão insignificante quanto isso do já reduzido tempo livre dos estudantes.

Diversos Textos (Ou Textos Diversos) Que se Seguirão…

   Antes de mais, tenho de apresentar as minhas desculpas por mais uma longa ausência, mas motivos pessoais e escolares diversos (não fiquei a salvo dos sempre ignóbeis actos burocráticos que dão pelo nome de exames nacionais…) diminuíram o meu tempo livre de uma forma tal que, pura e simplesmente, não pude escrever uma entrada tão extensa quanto desejava. Em vez disso, tive de me contentar em ir alinhavando textos diversos, sobre assuntos diversos, muitos dos quais já mais ou menos ultrapassados.

   Mas, ainda assim, considero que seria um desperdício não publicar esses meus comentários (por menos valor que eles possam ter e por menos leitores que eu possa ter). Assim, dentro em breve (que é o mesmo que dizer ao longo destas próximas semanas), irei publicar, à medida que as finalizo, várias entradas, construídas a partir desses mesmos textos que fui escrevendo, e que, como sempre, pretendem abordar diversos aspectos do ensino português.

   É certo que esta entrada em particular pouco ou nenhum significado tem, mas achei por bem deixar aqui esta mensagem, sobretudo porque me permite justificar o facto de as entradas que aí se seguem não abordarem unicamente assuntos recentes, que, de qualquer forma, tendem sempre a escassear neste tempo que começa já a ser de férias… Tirando segundas fases, claro.

13 de junho de 2015

O Negócio do Ensino

   Antes que os leitores perguntem, respondo já: não, não decidi, neste (não assim tão longo) intervalo, transformar este blog num blog de negócios. Assim, e ao contrário do que o título poderia fazer pensar, esta entrada não se prende com dicas para enriquecer através do ensino; prende-se, em vez disso, e como de costume, com um conjunto de críticas ao actual sistema de ensino, desta feita motivadas por todos os interesses económicos que, directa e indirectamente, acabam por condicionar a vida a milhares (atrever-me-ia a dizer milhões) de estudantes portugueses. Mas, antes disso, e antes que me esqueça, gostaria de apresentar as minhas mais sentidas condolências a todos os estudantes que estão condenados a realizar esses ignóbeis e abjectos actos burocráticos a que se costuma chamar exames nacionais. Ainda não me desapareceu a esperança de que o boicote aos exames nacionais ao qual já apelei se concretize, mas, até ver, ainda haverá exames. Mas estou a contar convosco para alterar esse facto…

   Bom, passando, agora, àquele que é o tema que escolhi para esta entrada, creio que dificilmente se poderá negar que o actual sistema de ensino está dependente da conjuntura sócio-político-económica. Isso é certo e sabido, e mais, é inevitável na actual organização social. Mas o principal problema (que, por acaso, também resulta da actual organização social) é que esses mesmos factores sócio-político-económicos dominam (em vez de apenas o influenciarem) o actual sistema de ensino, condicionando-o e deturpando-o até ao ponto de deixar de ter o propósito de transmitir conhecimentos e passar a ter como objectivo originar o maior lucro possível para um conjunto de empresas e pessoas. Que, diga-se de passagem, é praticamente o que se passa agora.

   Em primeiro lugar, temos aquele, que, para mim, é um dos principais lobbies: o das editoras. Pois é certo que uma boa parte dos manuais (e qualquer aluno concordará comigo) tem mais “palha” do que informação propriamente útil, por vezes complicando as coisas que deveria simplificar e simplificando o que deveria ser explanado mais aprofundadamente. E não são assim tão poucos os casos de erros, incoerências e imprecisões, quer em termos científicos, quer em termos gramaticais, em manuais escolares (admito que o processo de elaborar um manual escolar é longo e moroso e a natureza humana é mais do que falível, mas a existência de revisores e de consultores científicos, creio eu, implicaria que a maioria dos erros seriam eliminados).

   Assim, afigura-se-me que muitos dos manuais são feitos mais para serem vendidos do que propriamente para transmitir conhecimento (algo que, de qualquer das formas, seria um pouco difícil neste actual sistema de ensino), algo reforçado pelo facto de os manuais terem de ser trocados periodicamente (bem sei que os actuais seis anos correspondem, em determinadas áreas, a um período de tempo demasiado longo para manter a actualidade dos conteúdos, mas, noutros áreas, tal já não é assim), limitando e impedindo a partilha de manuais entre membros da mesma família. Já para não falar dos livros de exercícios, e de preparação para testes, e de preparação para exames, e de preparação para o fim do mundo, que, mesmo que potencialmente úteis, constituem mais uma forma de as editoras se aproveitarem do receio e da eventual insegurança dos alunos relativamente aos momentos de avaliação.

   O que proponho, para este aspecto das editoras, já está contido na minha ideia principal: a existência de uma plataforma on-line (como já as há, mas desta feita uma plataforma estatal, não subordinada a uma editora em particular) contendo toda a matéria e vários exercícios; eventualmente, poder-se-ia pagar uma taxa para ter acesso a ela (mas nunca valores da ordem daqueles que actualmente se pagam para aceder a essas plataformas), mas toda a matéria seria actualizada com a maior regularidade possível e quaisquer erros poderiam ser eliminados quase de imediato.

   Mas, se o único lobby fosse o das editoras, não seria um grande problema (mais a mais porque o lucro destas permite, por exemplo, que se continuem a publicar livros, incentivando a literatura e, portanto, a cultura). Mas a questão é que não é o único lobby. Há outro bastante significativo: o das escolas privadas. Admito que seja possível (apenas possível…) que providenciem uma formação mais aprofundada e mais cuidada do que o ensino público, mas é certo que não são assim tão poucas as pessoas (e creio que praticamente toda a gente sabe disso) que recorrem ao ensino privado como forma de ter melhores notas para entrada na Universidade (ensino secundário privado) ou entrar na Universidade com piores notas (ensino superior privado).

   Assim, convém perfeitamente às escolas privadas que o actual sistema continue, com as médias de entrada na Universidade a restringirem (nem sempre de uma forma lógica e racional, nem sempre de acordo com o que seriam as necessidades do país) a liberdade na escolha de um futuro, levando, portanto, aqueles que têm uma ideia bem definida acerca do caminho que pretendem na vida (mas a quem não é dada a possibilidade de escolheram esse caminho) a ingressar no ensino privado, trazendo lucros aos donos dessas instituições. É certo que, apesar disto, haverá casos em que a instituição de ensino privado não é assim tão interesseira e se preocupa mesmo com os seus alunos, mas o (parco) conhecimento que tenho da natureza humana leva-me a presumir que os casos mais abundantes serão os da procura desenfreada do lucro.

   E, já que mencionei as Universidades, não posso deixar de as apontar como mais um lobby no ensino. Poder-se-ia dizer que o ensino superior representa um grau académico (como o nome o indicia) superior, mas é da minha convicção que uma parte assim não tão insignificante dos conhecimentos ministrados constitui uma mera revisitação dos conhecimentos anteriormente aprendidos (ou melhor, dos anteriormente leccionados…), sem aprofundamentos de maior. Além disso, a existência das médias de entrada constitui simultaneamente um critério de elitização do conhecimento, algo que, a meu ver, é altamente indesejável (por ter tendência a formar grupos restritos que acabam por constituir lobbies, que acarretam tantas consequências negativas…), e, pior do que isso, um falso critério de elitização do conhecimento, por a média de entrada poder estar inflacionada (como já referi quando falei do ensino privado) e por uma alta média de entrada não implicar directamente que o aluno adquiriu na sua quase totalidade o conhecimento que lhe foi leccionado nem que adquirirá grande parte do conhecimento que lhe será leccionado.

   E o facto de se cobrarem propinas (que, admito, podem ajudar a completar o orçamento muitas vezes muito empobrecido das Universidades, mas que, ainda assim, acabam por lhes conferir certas propriedades de negócio) dificulta a vida a muitos estudantes, quer por lhes limitar a possibilidade de frequentarem a Universidade (mesmo tendo em conta as bolsas de estudo, que dificilmente se poderia dizer cobrirem tudo), quer por os obrigar a trabalhar em conjunto com os estudos (afectando negativamente as suas capacidades de aprender), quer por implicar um endividamento que lhes dificultará o futuro. Assim, e apesar dos seus potenciais benefícios, as Universidades também têm um pendor económico muito mais preponderante do que o que normalmente se lhes atribui.

   Neste caso das Universidades, as questões que refiro poderiam ser resolvidas através da implementação dos Mini-Ciclos de Leccionamento que já propus repetidas vezes, já que as matérias que hoje se consideram fazer parte do ensino superior constituiriam um progresso natural de outras matérias anteriores. Isto está melhor explicado naquela que múltiplas vezes referi como sendo a minha ideia principal.

   Falta-me referir mais um aspecto bastante importante, não tanto por constituir um lobby poderoso, mas mais por constituir mais um interesse económico fundado em torno do ensino: o das explicações. É certo que os esclarecimentos e os apoios adicionais são bastante úteis a muitos alunos, nem sequer contestarei isso, mas serei eu o único a considerar a existência de um ligeiro conflito de interesses quando a maioria dos explicadores são igualmente professores, por vezes até na mesma escola dos alunos a quem dão explicações? E é difícil não considerar que, de certa forma, estas explicações constituem mais uma forma de se explorar o receio e a insegurança dos alunos (e, mais comummente, dos seus pais) para se obter lucro.

   Este é o único problema para o qual não tenho propriamente solução (pelo menos por agora), sobretudo porque, a meu ver, é relativamente marginal em comparação com os outros (e porque nenhum sistema de ensino permitiria eliminar completamente situações deste tipo). Se puder, em breve, apresentarei qualquer ideia que me surja relativamente a isto.

   Enfim. Creio já me ter alongado de mais, e, ao mesmo tempo, receio ter sido pouco elucidativo. Se se der o caso de a primeira hipótese ser correcta, apresento as minhas desculpas a quaisquer leitores que tenham ficado incomodados com isso (mas, provavelmente, esses nunca chegarão a ler até aqui…); se for a segunda hipótese, volto a deixar bem claro que o espaço de comentários fica à disposição de todos os leitores, pelo que podem perguntar (e, se assim o entenderem, criticar) à vontade.

31 de maio de 2015

Ainda Sobre os Testes

   Para compensar o facto de já não escrever há muito tempo, decidi hoje fazer mais uma entrada. Retomo um assunto que já anteriormente abordei, mas que, ainda assim, ainda tem muito que se lhe diga: o dos testes.

   Quem já leu minimamente as outras palavras que aqui escrevi provavelmente saberá que sou contra os testes. É verdade. Declaro-me culpado, mesmo que não me possam culpar por isso. Afinal, se formos a pensar bem, o que são, em essência, os testes? Um acto puramente burocrático, como creio já ter referido. Como se pode dizer que servem para aferir quanto conhecimento possuem os alunos, se uma porção significativa dos alunos cabula e/ou copia (porção à qual, desde já o digo, não pertenço de maneira nenhuma), se uma (outra) porção significativa dos alunos decora (porção à qual me esforço ao máximo para não pertencer) e se uma porção significativa das perguntas não está bem construída (a nível da gramática e, por vezes, da ortografia)? A meu ver, portanto, os testes são pouco mais do que uma farsa.

   Alguns diriam que os testes (e, sobretudo, as notas dos testes) servem de escalonamento do conhecimento ou algo assim, de forma a separar aqueles que não “sabem” dos que “sabem” e, portanto, a atribuir mérito àqueles que o merecem. Só que isso é, creio eu, uma grande peta (desculpem-me a expressão popular). Por um lado, é possível (como já tenho vindo a referir) saber-se e não se ter boa nota; por outro lado, é igualmente possível não se saber e ter-se boa nota. Além disso, quem corrige o teste nem sempre é completamente objectivo (mais que não seja por ser humano), beneficiando uns e prejudicando outros (nem sempre sem intenção de o fazer…). Outra objecção ainda é que faz pouco sentido considerar-se aceitável só se saber metade dos conhecimentos para se ter positiva. Mas pronto. Tudo isto já foi dito, e estou a ocupar espaço com coisas repetidas.

   O que tenho verdadeiramente de novo para dizer é o facto de, na grande maioria dos casos (ou, pelo menos, na grande maioria dos casos com os quais tenho contacto), a maioria das questões de teste serem retiradas de outros testes/exames/recursos. É certo que a disponibilidade temporal dos professores é pouca e tem vindo mais ou menos a diminuir, mas… enfim… se um aluno apresentasse um trabalho composto unicamente por textos provenientes de copy-paste da Internet, provavelmente atribuiriam classificação negativa a esse trabalho; então, se os alunos (cujo tempo livre também não é assim tanto, e que não são, de maneira nenhuma, remunerados por todo o trabalho que têm de ter) não podem fazer copy-paste, então por que razão o poderiam os professores? A meu ver, isto só vem reforçar o facto de os testes não serem feitos por mais razão nenhuma senão a de cumprir um requisito burocrático, no sentido em que demonstra que o que é importante é que se faça o teste, independentemente de os alunos já terem feito aquele mesmo exercício (num teste da Internet, num livro de questões de exame, num livro de exercícios…), independentemente da verdadeira utilidade prática do teste. Assim, a única conclusão admissível, para mim, é a seguinte: os testes são indesejáveis.

   O espaço de comentários fica à disposição de todos os que quiserem concordar comigo ou discordar de mim. Resta-me apenas desejar uma boa semana a todos, seja ela de escola ou de trabalho.

23 de maio de 2015

Mais Uma Vez Sobre os Exames (Com Acordo Ortográfico À Mistura)

   Depois daquela última entrada francamente lacónica (e de mais uma pausa por falta de tempo), espero voltar hoje à contestação propriamente dita, já que já perdi a oportunidade de comentar muitas situações e notícias que surgiram entretanto. O assunto que escolhi é, uma vez mais, os exames.

   Está já declarada a minha posição relativamente aos exames: sou contra, absolutamente contra, irrevogavelmente contra. Não sei quantos leitores partilham esta minha opinião (se é que ainda tenho leitores, depois de tanta pausa…), mas não vale a pena repetir os meus argumentos. Em vez disso, apresentarei mais uma incongruência que se tornou evidente a partir do (deveras execrável) momento em que foi anunciado o fim do período de transição do (des)Acordo Ortográfico.

   Este ano, ou melhor, a partir deste ano, nos exames, só é considerada correta a nova grafia, sendo considerado um erro ortográfico escrever de acordo com, a antiga (e, diria eu, correcta) grafia. Bom, tudo isto é muito giro, a grafia sancionada oficialmente é a nova, a outra é já “arcaica”, mas… será que alguém se questionou se esses alunos aprenderam, de facto, a nova ortografia? É que, a meu ver (e da minha experiência pessoal), deve haver muitas escolas por esse país fora onde os alunos ainda aprenderam a escrever de acordo com a antiga ortografia (não propriamente os do 4.º Ano, que, coitados, já tiveram de fazer exame, mas talvez mais os do 6.º – mais outros coitados que já fizeram exame – para cima) e nunca lhes foi ensinada a nova. Então, está-se a exigir aos alunos que realizem algo que não aprenderam (quer dizer, alguns – não sei se muitos – terão eventualmente aprendido a nova ortografia, mas certamente não foram todos os alunos que a aprenderam), o que, a meu ver, estará errado. Seria como colocar equações do 2.º grau para serem resolvidas no exame de Matemática do 4.º Ano. Um absurdo.

   Alguns (os apoiantes do Acordo) poderão argumentar que o Acordo já deveria ter sido leccionado nas escolas e que, se não foi, o problema é de cada escola e não dos exames em si. Mas, vejamos, quem sai prejudicado com isso? Bem, as escolas um pouco, sim, descem no ranking, mas (aparte eventuais questões financeiras) isso não as prejudica muito; então, quem mais? Ah, já sei, aqueles, os… os do costume, os tais que já nem me lembro do nome… os… os alunos. Sim, é isso, os alunos. Há tanto tempo que não ouvia falar deles…

   Mesmo que esses “maravilhosos” exames sirvam para criar uma suposta igualdade de circunstâncias (eliminando as diferenças resultantes de os alunos terem diferentes professores e provirem de diferentes escolas), se os alunos que a eles são submetidos não partem de uma mesma igualdade de conhecimentos leccionados (já nem falo dos conhecimentos que possuem ou não), os exames tornam-se uma injustiça. Que, de resto, são. Assim, creio eu, dever-se-ia, até só estarem a fazer exame os alunos que tenham aprendido já a nova ortografia desde que entraram na escola, aceitar também a antiga. Mas, claro, o IAVE e o governo e todas essas instituições não estarão para isso e, mesmo que estivessem, provavelmente argumentariam que já não há tempo para fazer as alterações devidas. Então, o que se pode fazer? Apresenta-se-me uma resposta possível: todos os alunos e pais e professores fazerem pressão sobre o governo para aceitar ambas as grafias. É simples, certo? E há sempre o último recurso de boicotar os exames por causa disso, coisa que não seria assim tão má ideia…

11 de abril de 2015

Esta É Para os Leitores...

   Não sei bem o que escrever. Não o tenho sabido desde a última entrada. Tenho tido uma ou outra ideia, uma ou outra queixa, mas nada suficientemente conexo para pôr aqui.

   Em todo o caso, devo-me (e devo-o a vocês, a todos os meus leitores, por menos que eles possam ser) uma nova entrada. Não sei bem o que dizer, por isso, tenho de pedir a vossa ajuda. Serão vocês a construir esta entrada. Atrevam-se a lançar as vossas críticas, as vossas queixas, as vossas ideias. A única coisa que eu posso fazer, e farei com gosto, se assim o desejarem, é dar-vos a minha opinião sobre elas, sempre e unicamente no intuito de as melhorar.

   Não sei que mais posso acrescentar além de vos informar que, agora (como sempre), o espaço de comentários fica à vossa disposição…

14 de janeiro de 2015

Comentando Comentários Alheios

   Sei que tenho estado ausente deste local a que se costuma chamar blogosfera. Nem sei bem porquê, se por falta de ânimo, se por falta de inspiração, se por falta de assunto. Certo é que o Sistema de Ensino lá continua no lugar, sem qualquer tipo de oposição, sem qualquer tipo de contestação, sem qualquer tipo de entrave. Mas hoje estou aqui para tecer um comentário a comentários alheios. Serei mais esclarecedor: na noite da terça-feira passada foi emitido o programa “Por Onde Vamos”, na SIC Notícias, dedicado ao estado do ensino em Portugal, e eu, sobretudo por saber que há muito tempo que devo uma entrada (não sei se a mim próprio se aos leitores, muitos ou poucos que sejam), tomei a liberdade de o ver para agora o comentar. Não poderia ter passado o serão de pior forma. Foi mais uma demonstração do Sistema, em prol do Sistema, para o Sistema e por causa do Sistema. Uma vergonha. Eis porquê.

   Ao longo do tempo, e sobretudo ao longo das minhas actividades bloguísticas, tenho vindo a verificar cada vez mais que, quando se fala do Ensino, os alunos vêm sempre em último lugar. Fala-se dos professores, fala-se das condições das escolas, fala-se das estatísticas, fala-se das disposições comunitárias da União Europeia, fala-se da colaboração com outros países, fala-se do abandono escolar, do insucesso escolar, disto e daquilo… mas não de alunos. Pois, tudo muito certo, são os adultos que têm maior influência no Sistema, logo são eles que importam, os jovens são demasiado imaturos para decidir por si mesmos, é mais do que óbvio, certo?

   Errado. Profundamente errado. Comecemos por isto: qual é a função do Ensino, esteja ele organizado como estiver? Ensinar parece-me a resposta mais evidente. Portanto, o Ensino serve para ensinar, isto é, para transmitir conhecimentos àqueles que não os têm de modo a que esses conhecimentos sejam adquiridos pelos seus destinatários. Estou a ser claro? Espero que sim.

   Ora bem, se a ideia é ensinar, é fundamental, para que se ensine, que haja quem aprenda. Um professor sozinho com as cadeiras e as mesas numa sala não pode ensinar nada a ninguém, como seria de esperar. Está, pois, estabelecido que não pode haver ensino sem alunos, pelo que são estes a componente fundamental de um qualquer Sistema de Ensino, são eles o “cliente final”, o derradeiro propósito da instituição escola. Então, se assim é, porque é que todos os envolvidos no Sistema de Ensino não agem como se assim fosse? Bom… talvez seja a minha lógica que é retorcida e interesseira, pelo que as minhas conclusões estão erradas, posso estar a ser tendencioso, a defender a minha classe e o meu posto… Sempre é menos prejudicial ser eu do que serem eles. O problema é que esta tendência se manifesta em praticamente todos os programas, notícias, blogs e artigos sobre o ensino, e quem sai prejudicado é quem não é mencionado: os alunos.

   Mas a culpa não é só dos que beneficiam mais com essa omissão (ou seja, os que fazem parte do sistema). O problema é que os próprios alunos tendem a amplificar esse efeito, com a sua passividade, com a sua aceitação, explícita ou implícita, de todas as determinações “superiores”, com a sua atitude colaboracionista, no sentido em que são muito poucos os que sequer pensam em mudar alguma coisa. Não sei o que temem, ou o que pensam ganhar com esse tipo de atitudes, mas parece-me, e é o que digo sempre, que têm mais potencial do que o que reconhecem em si mesmos, que podem verdadeiramente mudar. Para dar um exemplo em particular (não do que podem mudar, mas de que não fazem para mudar), como aluno, e como bom aluno, não me senti bem representado pelos dois alunos entrevistados no programa (pergunto-me se foram uma escolha arbitrária…), cuja declaração mais contestatária foi qualquer coisa como “isto até poderia ser considerado aborrecido, mas, como é bom para o meu futuro, até que é fixe”. Perfeito. Se estes são os adultos de amanhã…

   E, claro, há um outro elemento. Pais. Não, não é nenhum tipo de apelo à rebelião adolescente, estereótipo aliás útil para dirigir as energias dos jovens para contestar a autoridade directa dos pais em vez de procurar instituir mudanças sociais mais profundas, mas sim um apelo à consciência dos adultos feito por um jovem. Sem ofensa, claro. Bom, da minha perspectiva, o principal problema é que, falando na generalidade, a maioria dos pais apenas trava lutas que beneficiam directamente os seus educandos (gosto muito deste termo…), quando as travam; depois, o resto do tempo, vêem a escola como uma espécie de depósito para miúdos, pelo que, quanto mais tempo lá estiverem os alunos, melhor será. E isto, claro, quando não estão a afirmar, na generalidade, que todos os alunos, excepto, talvez, os seus filhos, são culpados de todos os males do mundo e arredores, e que só querem ter direitos e não ter deveres. Ou, talvez, seja eu que contacte com uma amostra pouco representativa dos pais de Portugal…

   Mas, para mim, o principal problema até nem é esse. O problema, e como as figuras presentes no “debate” expressaram (mais indirecta do que directamente), é que também se vê o acto de aprender andar na escola como algo cada vez mais exclusivamente burocrático (nenhum trocadilho propositado). Ou seja, há isto, isto e aquilo para fazer, nem se sabe porquê, mas, segundo o regulamento a e a directiva b e a alínea c do artigo d do decreto-lei e, está estabelecido que se deve fazer, ainda para mais porque o estudo f indica que o indicador da estatística g é melhorado por essa medida. Então e a tal história de aprender? Nada? Pois, já me esquecia, a portaria h é omissa quanto a isso. Desculpem-me o ridículo. Mas isto está, obviamente que numa menor escala, patente em belezas como as que referi na entrada anterior (Da Avaliação da Inutilidade), nomeadamente componentes mais ou menos inúteis da avaliação (como o título da entrada o indicia).

   Mas pronto, chega de generalidades gerais. Passemos a generalidades específicas. E, em particular, a uma coisa apontada pelo actual Ministro da Educação, Nuno Crato, que referiu algo do género de os professores se poderem formar mesmo não tendo aprendido algumas matérias de algumas áreas, ou melhor, mesmo tendo aproveitamento insuficiente nessas áreas. Não sei quanto aos leitores, mas eu acho que vejo mais uma oportunidade de impingir os meus Mini-Ciclos de Leccionamento. A sério, pensem nisso. Pelo menos, ninguém poderia progredir numa dada área sem saber a matéria essencial.

   Também achei curiosa a afirmação de Jorge Pedreira, que se prendia com a finalidade do ensino, que corresponderia a dar a todos os alunos a capacidade de aumentar o seu desenvolvimento pessoal, ou qualquer coisa semelhante a isso. Tudo bem, é uma ideia, mas creio que seria uma expressão mais aplicável num livro de auto-ajuda do que no contexto do ensino, que, como já referi, serviria para ensinar. Digo eu.

   Outra coisa que me captou o interesse, e curiosamente surge um pouco em oposição a uma minha afirmação no meu texto contra os Exames Nacionais, foi uma declaração de Nuno Crato no sentido de os exames não serem uma forma de duvidar da qualidade do ensino, mas sim de garantir a qualidade dos alunos que dele provêm. Então, se se for a pensar assim, de que servem os testes e a avaliação durante o ano lectivo? Deixo a pergunta no ar…

   E, para terminar com uma nota ligeiramente positiva, não posso deixar de referir que há, pelo menos, uma coisa em que concordo com as figuras presentes no debate: a falta de constância, a nível programático e de professores, prejudica os alunos. É verdade. Sem professores, é difícil aprender (mas, relembro, sem estudantes é impossível ensinar). Se bem que a inconstância seja consequência, também, dos actuais moldes do Sistema, que não posso considerar finais e irrepreensíveis.

   Não foi só isto, mas basta-me, por agora. Desejo um bom resto de semana a todos, e agradeço-vos por me terem lido. O espaço de comentários está à vossa disposição, como sempre.

23 de novembro de 2014

Da Avaliação da Inutilidade

   Para que servem os testes? Começarei por colocar esta pergunta retórica. A resposta que mais facilmente se apresenta, e que muito provavelmente foi a primeira que surgiu na mente dos leitores (e também na minha), é a de que se realizam testes para verificar qual o nível de conhecimento dos alunos relativamente a uma(s) matéria(s) em específico. Não analisarei outros usos potenciais, como sejam um intuito vagamente punitivo (“Portaram-se mal na aula passada, não foi? Pois agora têm teste surpresa!”) ou, então, um intuito formativo (realizar-se testes para potenciar o estudo da matéria testada por parte dos alunos), por serem, creio, menos frequentes e praticamente insignificantes em comparação com o que foi apresentado primeiramente.

   Já se estabeleceu, então, a finalidade dos testes, certo? Errado. Essa é só a finalidade teórica dos testes; na prática, as coisas são um pouco diferentes. Como já disse, e como nunca poderei deixar de dizer, o aluno pode não saber verdadeiramente a matéria, mas, ainda assim, ter uma boa classificação no teste, seja porque decorou essa matéria, seja porque usou cábulas, seja porque copiou por um outro colega, seja porque recebeu informações através do telemóvel que pôde manter escondido debaixo da mesa, seja porque adoptou um qualquer outro sistema que lhe tenha permitido saber as respostas que, de outra forma, não poderia ter sabido; por outro lado, o aluno pode saber a matéria, mas isso não se revelar propriamente na classificação do teste, seja porque, por um acaso infeliz (ou, parafraseando uma comunicação oficial acerca de uma certa bactéria que não vale a pena referir aqui, uma conjugação anormal de factores ambientais adversos), teve um problema, familiar ou de outra natureza, no dia anterior ao teste e isso o impediu de estar devidamente concentrado, seja porque, por uma pura questão de tempo, não conseguiu acabar o teste, seja porque o teste não estava muito bem elaborado (no sentido em que a indesejável subjectividade que às vezes se verifica em testes pode ter induzido o aluno a responder erradamente ao que pretendia o professor, mesmo que a resposta do aluno fosse a certa, de acordo com a única interpretação correcta do Português), seja porque houve qualquer outra situação que o prejudicou no decurso da realização do teste.

   Poder-se-á, então, dizer, como sempre o defendo e sempre o defenderei, que os testes podem não reflectir, de facto, o verdadeiro nível de conhecimento do aluno. Sei que me dirão que tudo aquilo que apresentei não passa de acontecimentos pontuais, e que seria improvável que um aluno conseguisse cabular ou copiar eficazmente em todos os testes, ou, então, que tivesse problemas em todos os testes; quanto ao segundo aspecto, reconheço que não é fácil que aconteça (embora haja sempre essa possibilidade), mas, quanto ao primeiro… abster-me-ei de fazer qualquer tipo de comentários. Assim, afigura-se-me lógico concluir-se que os testes podem falhar (diria que falham mesmo) o seu propósito, pelo que são um elemento de avaliação que tem de ser melhorado. A minha proposta (e remetendo, uma vez mais, para a minha ideia principal) será serem desvalorizados pelo aumento da sua frequência, no sentido em que cada exercício sirva para determinar se o aluno já sabe, ou ainda não sabe, a matéria (podendo ser visto, então, como uma espécie de “teste”, mas cuja avaliação é meramente binária: sabe ou não sabe; seria apenas vinculativo o resultado final, ou melhor, o resultado do(s) exercício(s) que fosse(m) realizado(s) mais tarde, naquilo que seria a última aula desse módulo, que, esclareço para aqueles que desconheçam ou não se recordem da minha ideia, corresponderia a duas a dez aulas).

   Mas passemos a outros elementos de avaliação. Há, em escolas por aí e por aqui, um certo costume de efectuar coisas como “Questões-Aula” e testes “Teórico-Práticos” (e, possivelmente, outras coisas semelhantes, mas das quais nunca ouvi falar; menciono apenas estas por desconhecer as outras), supostamente momentos de avaliação de somenos importância e, portanto, de menor duração e mais fácil realização (sobretudo pela sua menor extensão). Em teoria, e tendo em conta o que proponho, eu até deveria ser a favor deste tipo de elementos de avaliação, tanto mais que permitem avaliar o conhecimento do aluno naquilo que seria um momento de avaliação mais “descontraído”, com menos stress, com menos pressão, com menos matéria. No entanto, ao passarmos da teoria à prática, deparamo-nos, uma vez mais, com um obstáculo: esses supostos momentos de avaliação mais “descontraídos”, conforme os designei anteriormente, costumam degenerar em algo semelhante a um teste propriamente dito (independentemente da percentagem da nota final que lhes é atribuída), seja pela quantidade de matéria que é possível sair, seja pelo seu tamanho (e, portanto, a sua duração), seja pelo peso que os alunos preocupados (sei que acontece, já o vi – e também já me aconteceu) acabam por lhes atribuir. Assim, parece-me que o melhor que há a fazer a este tipo de coisas, visto acabarem por ser semelhantes a testes, é tratá-las como testes, e usar a mesma solução que proponho acima (a tal história dos exercícios).

   Mas há mais (e peço desculpa a todos quantos fiquem incomodados pela extensão desta minha entrada). Não querendo entrar em especificidades de disciplinas, há, sobretudo, nas línguas, mas também nalgumas outras disciplinas, o costume de se avaliar a expressão oral dos alunos através de apresentações. Pedagogias à parte, creio que este instrumento de avaliação não é propriamente o mais eficaz, nem para os alunos (que têm de fazer um mais ou menos extenso trabalho de pesquisa – ou, então, fazer copy-paste de trabalhos já feitos – e, depois, estruturar uma apresentação, o que passa, na maioria dos casos, por decorar um texto para depois o despejarem no momento da apresentação – ou, então, ler o texto que prepararam e/ou que esteja presente no suporte informático que lhes seja permitido ter), nem para os professores (no sentido em que a avaliação pode não reflectir exactamente as capacidades do aluno, por o texto ter sido decorado e estar a ser recitado em vez de composto na altura, ou, então, pelo nervosismo do aluno, que prejudica a sua capacidade de se expressar). Para isto, vejo um remédio relativamente simples: em vez das apresentações, estimular (mais frequentemente, leia-se) debates e actividades semelhantes em contexto de sala de aula, avaliando o aluno a partir do seu desempenho durante esses momentos, a partir daquilo que consegue articular no momento, de improviso, o que reflecte mais fielmente as suas verdadeiras capacidades linguísticas.

   Só tenho de referir mais uma coisa antes de passar a algum tipo de conclusão: os trabalhos escritos, cuja utilidade me escapa completamente (isto é um apelo ao esclarecimento da minha pessoa por parte de qualquer leitor iluminado: para que é que servem estes trabalhos?), embora saiba reconhecer que representam uma perda de tempo bastante significativa (para alguns; para outros, que talvez sejam muitos, basta plagiar aqui e ali e está feito), são mais um momento de avaliação cuja utilidade gostaria de pôr em causa.



   Mas, todas estas queixas e sugestões e críticas à parte, para quê sequer haver avaliação? Muitos dirão que é indispensável saber se o aluno sabe a matéria, mas eu poderei identificar aí falta de confiança por parte do sistema no próprio sistema, pois, se o sistema funcionasse, o aluno saberia certamente a matéria. Muitos dirão que nem todos os alunos têm as mesmas capacidades, e que, por isso, devem ser escalonados, separados, de acordo com o que podem ou não fazer, mas eu responderei que, se se permite a um aluno prosseguir estudos com apenas 50% da matéria “sabida”, acaba-se por o colocar numa quase igualdade com os que “sabem” mais, e acrescentarei, ainda, que não devemos apontar para o meio, mas para o topo, pois todos terão pelo menos um topo a que podem chegar (traduzindo: haverá pelo menos uma matéria que saberão integralmente, pelo que é esse saber integral que se lhe deve exigir). Muitos continuarão a afirmar que a avaliação faz parte da vida, mas eu contraporei que a vida é como nós a fazemos, que a avaliação não é uma lei absoluta, que não há nada que seja absoluto.

   Assim, só posso afirmar, e defender, até à última letra que escreva neste blog, que a avaliação, pelo menos nos moldes actuais, não faz falta; o que se devia fazer, sim, é exigir o total conhecimento da matéria (de uma unidade indivisível dela, claro), ou, se não puder ser atingido, o estudo doutra (unidade indivisível, uma vez mais); ou tudo, ou nada, em vez de qualquer coisa lá pelo meio. É isso.

25 de outubro de 2014

Ainda (e Sempre) contra os Exames Nacionais…

   O meu espírito (vagamente) filosófico não pára de me massacrar por ontem ter feito uma entrada tão… dogmática, apresentando aquilo que penso sem ter em conta as justificações possíveis para o que digo. Por isso, e por talvez poder cativar melhor os descrentes para a minha causa, passarei a expor a argumentação que me leva a ser contra os Exames Nacionais.

   Não querendo remeter imediatamente para a leitura da minha teoria principal (que, por ser um texto algo longo, pode desagradar a uma certa parte dos leitores), tenho de referir que algumas das palavras que aqui apresentarei não andam longe do que refiro nesse texto. Tenho igualmente de referir, uma vez mais, que os meus conhecimentos de pedagogia são nulos, pelo que se agradece aos leitores que se abstenham de fazer críticas relativas a afirmações contrárias aos ensinamentos da pedagogia (por menos exacta que seja a pedagogia). Feitos estes avisos, posso começar a argumentação.

   Antes de mais, para quê existirem Exames Nacionais? Deixando de parte possíveis (e possivelmente válidas) justificações que se prendem com interesses económicos (no sentido em que talvez haja uns quantos cargos gerados, directa ou indirectamente, pelos exames, cargos esses que podem ser atribuídos a pessoas escolhidas por critérios outros que a competência/adequação, se os leitores percebem o que quero dizer), afigura-se-me que a principal razão seria para providenciar uma medida de uniformização ao ensino, e, de certa forma, uma forma de avaliar os conhecimentos dos alunos.

   É exactamente este propósito que me leva a discordar dos exames. Passo a elaborar. O ensino não é, nem pode ser, igual para todos os alunos, porque é impossível verificar-se o mesmo conjunto de circunstâncias em todas as escolas; assim sendo, são uma fonte de injustiças, havendo alunos beneficiados pelo “acaso” que leva a que as circunstâncias sejam favoráveis, e outros que são prejudicados, por as circunstâncias não lhes serem tão favoráveis. Pegando num exemplo bastante pertinente, no presente ano lectivo, houve, conforme já referi em entradas anteriores e conforme a comunicação social destacou, erros na colocação de professores, que levaram a que, em muitas escolas, tenha havido turmas cujas aulas, a certas disciplinas, começaram substancialmente mais tarde; ora, estatísticas à parte, é razoável admitir que terá havido situações em que essas disciplinas coincidem, parcial ou totalmente, com as disciplinas que serão objecto de exame, colocando esses alunos numa desvantagem relativamente aos outros. Como se pode esperar, então, que o facto de serem sujeitos ao exame os beneficiará? Sei que há quem considere que é exactamente por as circunstâncias não serem todas iguais que os exames são essenciais, mas não posso concordar, por mais injustiças que haja no mundo (e que se considere ser normal, e, por isso, aceitável, haver no mundo), que se cometa mais esta, ainda para mais quando, em tantos casos, pode afectar grandemente a vida futura dos alunos.

   Por outro lado, quanto à parte de avaliar os conhecimentos dos alunos… bem, é aqui que repito o que já digo na minha teoria principal. Um aluno pode (admito que não em todas as disciplinas examinadas) decorar toda a matéria necessária, e através disso ser bem sucedido no exame; assim, o conhecimento que é supostamente testado não é verdadeiro conhecimento, é só memorização. Também se podia falar da possibilidade de cábulas e copianços (mas isso é um pouco mais difícil no caso específico dos exames) ou da possibilidade de, no dia do exame, se conjugarem circunstâncias adversas para os alunos, que perturbem a sua capacidade de efectuar o exame (falo mais a nível psicológico do que propriamente a nível físico, visto haver contingências previstas para estas últimas circunstâncias). Tudo isto se resume, portanto, a uma única conclusão lógica: os exames podem não reflectir o verdadeiro conhecimento de um aluno.

   Que mais argumentos posso dar? Não querendo incorrer no que é, de certa forma, um lugar-comum nos (poucos) textos contestatários aos exames que andam por aí, terei, ainda assim, de fazer referência à desproporcionalidade de se fazer um período de duas horas (deixando de parte as tolerâncias e variações de ano de escolaridade para ano de escolaridade) valer aproximadamente o triplo de um teste, com uma duração mais ou menos idêntica (e, por vezes, quantidade quase idêntica de matéria – porque há alguns testes que acabam por ser globais, com matéria de anos passados e tudo), e isto só para a classificação final do ano (não entrarei nas especificidades do ingresso no Ensino Superior, que podem fazer essa influência aumentar).

   Uma incongruência adicional, que, tanto quanto saiba, sou dos poucos a notar (levando-me a suspeitar de que a falha talvez seja minha…), é o facto de os exames, em essência, praticamente anularem o(s) ano(s) correspondente(s) à matéria examinada. O que quero eu dizer com isto? Basicamente, e em teoria, se um aluno conseguir resolver um exame, isso significa que, oficialmente, aprendeu/sabe a matéria desse exame (mesmo que apenas a tenha decorado); assim sendo, se o que prova o conhecimento é o exame, para quê haver aulas? Basta o aluno preparar-se para o(s) exame(s) e efectuá-lo(s), e, a título oficial, terá aprendido a matéria examinada. Assim sendo, hipoteticamente, mais valeria haver um sistema em que a única interacção do aluno com o ensino “oficial” fosse através dos exames, tendo todo o resto do ano lectivo para ele próprio se preparar. Funcionaria bem… se tivermos em conta a minha ironia. Mas… enfim… pior não ficaria… talvez…

   Essa minha hipótese à parte, talvez possa resumir o parágrafo anterior mais correctamente ao dizer que os exames acabam por ser um contra-senso, ao porem em causa a própria qualidade do ensino (ou seja, se se tem de fazer exames para descobrir se os alunos sabem a matéria, é porque se pensa que a avaliação do ano lectivo não reflecte apropriadamente o conhecimento dos alunos, e, logo, todas as aulas do ano lectivo são mais ou menos inúteis).

   Em todo o caso, e como sempre, a minha argumentação já ficou mais extensa do que o que eu pretendia. Os leitores que quiserem criticar ou comentar estão, como sempre, convidados a fazê-lo.

24 de outubro de 2014

Abaixo os Exames!

   Em vez do normal discurso argumentativo que adopto, decidi usar esta entrada para um certo populismo (quem me quiser criticar por isso, que me critique), embora unicamente bem-intencionado (e não politizado), numa tentativa de gerar um certo movimento popular (especificamente estudantil). Não interessa para agora escrutinar a argumentação possível para me afirmar contra os Exames Nacionais (poderei apresentá-la numa entrada futura, se os leitores assim o desejarem e/ou solicitarem); basta-me dizer que sou contra os Exames Nacionais.

   E, não só por ser contra, mas também, e sobretudo, por haver escolas em que, pelos erros da colocação de professores e outros “desastres” afins, as aulas começaram substancialmente mais tarde, acentuando as desigualdades em termos do funcionamento do ano lectivo, tenho uma sugestão, ou melhor, um apelo a todos os alunos: boicote aos Exames Nacionais!

   Pois se os professores, certamente menos numerosos que os alunos, tentaram boicotar a Prova de Avaliação que o Ministério lhes impôs (que não está agora em discussão, mas poderá estar, mais tarde), não poderão os alunos, uma faixa mais significativa da população, fazer o mesmo aos Exames Nacionais, provavelmente com mais sucesso?

   Pois se as outras classes de trabalhadores (pois o são os alunos, por menos que isso seja oficialmente reconhecido) fazem greves e protestos quando as coisas estão mal, porque não o poderão fazer os alunos?

   Pois se os alunos são o principal elemento do Ensino, porque não podem fazer valer as suas ideias e as suas reivindicações?

   Não é por os exames serem efectuados há já muito tempo que são mais justos! Não é por as coisas sempre terem sido assim que não mudarão! Alunos de todo o país, unam-se e lutem! Boicote aos Exames Nacionais! Têm mais poder do que o que atribuem a vocês mesmos! Acreditem em vocês! Não desistam, porque conseguirão fazer valer a vossa opinião! Boicote aos Exames Nacionais!

19 de outubro de 2014

Uma Análise aos Trabalhos de Casa

   Como os leitores já devem ter reparado, volto, uma vez mais, à carga. E, desta vez, abordo um assunto com bastante impacto na vida de um aluno, sobretudo na de todos aqueles que frequentam o Ensino Básico. Sim, o título estraga sempre o suspense: os trabalhos de casa.

   Os leitores mais perspicazes (e/ou os que tenham lido todo este blog com muita atenção) talvez já tenham intuído, a partir das ideias que aqui costumam estar expressas, qual a minha opinião acerca deste assunto: sou contra os trabalhos de casa. Ou, pelo menos, contra os trabalhos de casa na maioria dos contextos em que se apresentam. Mas, antes que seja lapidado, tenho de dizer que esta opinião não é só minha; alguns psicólogos (não me arriscaria a dizer a maioria) são da opinião de que os trabalhos de casa são indesejáveis e praticamente inúteis (as palavras são minhas, não deles), porque, por um lado, constituem uma tarefa e uma imposição que os alunos realizam apenas por a realizar, não retirando nenhum proveito em termos de aprendizagem, e, por outro lado, representam uma perda de um tempo livre por si só já bastante reduzido, que é, e não se o pode negar, essencial e fundamental para a manutenção da saúde mental de qualquer pessoa (ainda que os benefícios dessa manutenção da saúde mental sejam discutíveis…) e também para a convivência familiar. A minha voz junta-se, neste aspecto, à deles, ainda que a deles tenha tido pouco ou nenhum efeito, e que a minha voz nada contribua para alterar as coisas. Mas pronto. Temos de criticar, e criticaremos. Adiante…

   Porque surgem os trabalhos de casa? Bom, eventuais justificações pedagógicas à parte (que, de qualquer forma, poderiam ser alvo de debate, dado que, conforme refiro antes, os alunos poderão não aproveitar essa faceta pedagógica) parece-me que os trabalhos de casa surgem como uma forma de os professores prescreverem os exercícios que, por qualquer razão, não foram sequer começados na aula (e que o deveriam ter sido), no (presumivelmente bom) intuito de consolidar a matéria, e, ao mesmo tempo, como instrumento de certa forma punitivo ou repressivo, no sentido em que, por vezes, pode haver ameaças como “Ou estão quietos ou levam mais trabalhos de casa!”, ou, então, situações como “Portaram-se mal, não foi? Então levam vinte páginas de exercícios para amanhã!” (exagero, claro, mas apenas para providenciar uma certa matiz cómica ao meu texto, ainda que sabendo que não o consegui…). Há mais uma hipótese, mas falarei dela em breve, porque primeiro prefiro fazer a análise destas duas.

   Ora bem, a segunda situação, embora às vezes necessária (não posso negar que há alunos… bom… indisciplinados…), peca por ser injusta para com aqueles que não contribuem para a confusão (que, reconheço, podem não ser muitos, mas, ainda assim, são dignos de respeito e de justiça); assim sendo, podemos considerá-la indesejável, e, portanto, podemos considerar que os trabalhos de casa resultantes dessa situação são indesejáveis. Quanto à primeira, consigo ter simultaneamente duas opiniões, uma vagamente em conflito com a outra; por um lado, tal pode acontecer por o professor se preocupar com os alunos, pensando que aqueles exercícios são essenciais à compreensão da matéria, e, portanto, é um acontecimento desejável; mas, por outro lado, poder-se-á considerar que não passam de uma forma de “descargo de consciência” e de cumprimento de um dever por parte do professor, no sentido de “tem de se fazer estes exercícios; não se pôde fazer na aula, logo, faz-se em casa”, constituindo, por isso, um acontecimento indesejável. Parece-me, no entanto, que esta segunda hipótese é a mais recorrente, e, por isso, estes trabalhos de casa são, na maioria dos casos, indesejáveis.

   Em todo o caso, a terceira hipótese, que tanto tempo demorei a enumerar, é uma situação em que o professor pede aos alunos que realizem um dado conjunto de exercícios, num a parte mais para o final da aula, mas, por esta ou aquela razão, houve uns quantos exercícios (poucos) que não se pôde concluir em tempo útil. Nesta situação, acho perfeitamente lógico e razoável pedir a conclusão dos mesmos em casa, desde que esse pedido não constitua uma perda mais ou menos significativa do tempo livre (ou seja, nada dentro do género de o professor pedir que se faça vinte exercícios, potencialmente com alíneas, a cinco minutos do final, e, para casa, ficarem dezanove).

   Mas, situações e justificações à parte, e sem querer entrar muito pelos caminhos para mim mais ou menos desconhecidos da psicologia, não me parece que os trabalhos de casa tenham uma componente pedagógica assim tão significativa; conforme já o expressei antes, pela natureza intrínseca aos trabalhos de casa, os alunos acabam por os ver como uma imposição, como um trabalho, como mais uma tarefa a realizar, e, por isso, tentam terminá-los o mais rapidamente possível (para não falar dos casos em que se limitam a copiar por outros ou pelas soluções de alguns manuais…). Assim sendo, acabam por falhar o seu propósito. Por exemplo, como se poderia pensar que escrever cinquenta vezes a numeração romana de 1 a 100 seria benéfico para a aprendizagem? Os que já interiorizaram o raciocínio são obrigados a desempenhar uma tarefa quase maquinalmente; os que ainda não o interiorizaram muito provavelmente não o conseguirão interiorizar, e ficarão tão entediados quanto os primeiros. Muitos mais exemplos se poderiam dar, mas acho que este é suficiente. E é assim que chegamos ao ponto de partida: os trabalhos de casa são praticamente inúteis, e, portanto, só deveriam existir num leque muito restrito de contextos. É isto.

   Já antevejo um contra-argumento a formar-se: há disciplinas onde só praticando é que se atinge a perfeição, e por isso, pelo menos nessas deve haver trabalhos de casa. Sim, tenho de deixar essa possibilidade em aberto; no entanto, não posso deixar de considerar que essa quantidade de prática não é, nem pode ser, igual para todos os alunos, razão que me leva a remeter essa prática para o domínio do “Trabalho Autónomo”, conforme é designado oficialmente (julgo eu). Ou seja, se o aluno ainda não entende propriamente a matéria, é do seu dever encetar os esforços para o fazer, seja perguntando ao professor, seja lendo livros, seja fazendo exercícios, seja fazendo uma qualquer combinação das três. Mas também não posso deixar de dizer que nem sempre isso pode ajudar à compreensão…

   Enfim, já me alonguei demasiado e talvez já tenha perdido o fio à meada, se me permitem a expressão popular. Assim, vou limitar-me a desejar mais uma boa semana de trabalho (se é que há boas semanas de trabalho…) aos leitores, e a deixar o convite para comentarem mais esta entrada.

12 de outubro de 2014

Uma Balbúrdia de Ensino (ou um Ensino de Balbúrdia?)

   Arrependo-me vagamente de ter feito uma entrada tão inútil ontem, mas achei que a retrospectiva seria mais ou menos interessante. Em todo o caso, espero hoje poder redimir-me, e abordar um tema que tem andado mais ou menos na boca do mundo: todo o caos que tem havido em torno da contratação de professores (ou, como aparentemente é designada oficialmente, Bolsa de Contratação de Escolas, BCE). Antes de mais, não sendo professor, nem estando relacionado com o Ministério da Educação, não conheço todos os trâmites, pelo que talvez não possa fazer uma crítica completamente informada; assim, limitar-me-ei a expressar a minha opinião, que, como todas as opiniões, é passível de ser debatida e criticada.

   Não posso deixar de começar por referir todo o ridículo da situação, entre fórmulas erradas (elaboradas por um ministério dirigido por um professor universitário de Matemática…), “mantêm-se” e “manter-se-ão” e situações como mudar-se de casa de Bragança para Faro, que foi para onde se foi colocado, só para se vir a saber que se foi despedido, ou ficar colocado em milhares (sei que exagero) de escolas. Se calhar posso ser só eu, mas… não sei… estará o país a tornar-se uma verdadeira anedota? Já vi coisas menos hilariantes serem consideradas comédias… Enfim, talvez seja só eu que tem tendência para a hilaridade… Mas pronto. A desorganização é algo a que qualquer português digno desse nome aspira, e que melhor maneira de incutir o patriotismo nas gerações vindouras do que demonstrar-lhes directamente as virtudes que devem apresentar (nomeadamente a já referida desorganização)? Desculpem-me a divagação, mas foi o que achei por bem escrever…

   Voltando ao assunto. Todo este problema, que gera grande desconforto (e mais do que desconforto, problemas graves, que mexem com toda a organização de uma vida) aos professores, coisa que estes não mereciam (idiossincrasias de alguns, e do sistema, à parte…), deveria ser eliminado; dever-se-ia providenciar o máximo possível de estabilidade a estes trabalhadores (pois então não trabalham os professores?), tal como aos restantes (sim, discordo do actual paradigma de não haver “trabalho para a vida”, como se costuma dizer). Mas não são muitos os casos em que se ouve dizer que os alunos, que, como terei sempre de advogar, correspondem ao "cliente final" do ensino, também saem prejudicados com esta situação. É certo que são poucos os que se importam com não terem aulas, e que nem sempre as aulas lhes permitem adquirir conhecimentos, mas, mais que não seja, a ausência de aulas pô-los-á (presumivelmente) numa desvantagem face aos outros alunos que as tiveram, sobretudo nos anos em que tenham (indesejavelmente) exames. E isso não se traduz unicamente na matéria que não deram: é de lei (penso eu) que as aulas que lhes faltam sejam compensadas ao longo do ano, roubando ainda mais do pouco tempo livre que o horário lhes deixa, e, em última análise, prejudicando todas as disciplinas, ao diminuir o tempo disponível para o estudo (expressão que não deve, nem nunca deveria, ser entendida como sinónima de tempo livre…).

   E, antes de acabar esta longa (como sempre, como provavelmente alguns leitores abominam) entrada, tenho só de fazer uma referência à minha teoria principal, que nunca deixarei de defender: se a noção de ano escolar desaparecesse, passando as aulas, em vez disso, a decorrer ao longo de praticamente todo o ano civil, este problema, pelo menos na sua forma actual, desapareceria, no sentido em que, salvo no caso de aposentações, despedimentos ou falecimentos (não que os três possam ocorrer em simultâneo…), não haveria necessidade de se contratar novos professores no final de um ano, porque não haveria uma clara clivagem entre um período de actividade lectiva e o seguinte (já que o período em que um professor estaria em actividade seria mais ou menos contínuo, à semelhança da maioria das outras actividades laborais). Talvez tenha sido confuso nesta minha explicação… Por outras palavras, como não há início e fim de ano lectivo (porque não há propriamente um ano lectivo), não há um caos organizacional que se instale numa altura específica em que há necessidade de coordenar um número enorme de colocações de professores, porque essas colocações ocorreriam de forma gradual, ao longo do ano civil, conforme houvesse posições que se tornassem vagas (por qualquer razão que fosse).

   Enfim, bom resto (restinho…) de fim-de-semana aos leitores, e força para aguentarem a semana que aí vem, com chuvas, ventos e tormentos diversos…

11 de outubro de 2014

Análise de um Blog (Este que se Vê Aqui)

   Após mais uma longa pausa, regresso à escrita. Escrevo, agora, um pouco mais contente (mas não mais contentado) do que o costume, por ter atingido a marca mais ou menos significativa das 1000 visualizações. No entanto, isto não é razão para descurar a escrita, e dificilmente poderei ser perdoado por ter deixado tanto tempo passar sem fazer uma nova entrada. Excepto, claro, se relembrar quem quer que tenha ficado mais ou menos desgostado (para além de mim próprio) com esta ausência de que tenho (mais ou menos) uma vida para além do blog, que, por vezes, interfere com o tempo supostamente livre de uma pessoa, caso ainda mais grave quando se trata do de um aluno. Mas adiante.

   Decidi usar esta entrada para fazer uma retrospectiva da curta história deste blog, que fará em breve um mês. Tenho, antes de mais, de dizer que já tive mais 1268 (no momento da escrita) visualizações do que o que alguma vez esperei, e isso é já digno de nota. No entanto, talvez não esteja exactamente a mobilizar uma quantidade suficientemente grande de apoiantes para tornar esta causa, a dos “Mini-ciclos de Leccionamento”, mais do que uma simples ideia idiótica explicada num blog igualmente idiótico, por um autor também ele idiótico (desculpem-me a autocrítica, mas não a consigo evitar, e talvez seja mais verdadeira do que eu gostaria…). Não querendo, de modo algum, ofender ou melindrar nenhum dos leitores, se é que verdadeiramente há quem leia (e acho que há, ou pelo menos gosto de pensar que sim), talvez isso seja, suponho, devido a eu não estar a conseguir atingir propriamente o público-alvo. Talvez necessitasse mesmo de chegar directamente à comunidade estudante, mas o problema seria como o fazer eficazmente (aceitam-se sugestões, se as tiverem e se as quiserem dar). Mas também pode ser que os alunos tenham muitas outras coisas com que se ocupar, em vez de com aquilo que eventualmente poderia melhorar a (desculpem-me a linguagem) treta que experienciam todos os dias… mas isso é para outra entrada.

Por outro lado, não posso deixar de lado a possibilidade (talvez bastante provável) de a ideia não agradar à maioria das pessoas, ou, pelo menos, de a ideia, na sua forma actual, não agradar à maioria das pessoas. Se é esse o caso, tenho de pedir aos leitores que enviem quaisquer críticas que tenham, e que me dêem algum feedback, para melhorar os aspectos menos positivos, ou para que eu possa explanar (ou desenvolver) melhor os aspectos que aos leitores pareçam incompletos. Por fim, tenho, também, de equacionar a possibilidade de ser a maneira como explano as minhas ideias (com tendência para complicar o que é simples e elaborar demasiado aspectos relativamente secundários, usando, no processo, uma quantidade exagerada de palavras) que afasta os possíveis leitores, ao enfadá-los tanto que a primeira coisa que fazem é sair da página. E, se assim é, aqueles que o tiverem feito jamais saberão que lamento profundamente esse facto, mas que me é difícil escrever de outra forma.

Enfim, não sei. Se alguém quiser dizer o que o atrai, ou não o atrai, neste blog, está à vontade de usar o espaço de comentários para isso. Ou, então, se o preferir, também pode recorrer aos canais providenciados nos Contactos.



P.S.: Bom fim-de-semana aos que estiverem a ler isto, mesmo que já não seja fim-de-semana para alguns deles (falo, portanto, para o futuro)… e desculpem-me o facto de ter feito uma entrada que é basicamente inútil, e que se afasta, em grande medida, do propósito do blog (que não passa, de certeza, por reflectir sobre o próprio blog)…

28 de setembro de 2014

Sobre as Mochilas (e o Conteúdo das Mesmas)

   Antes de mais, gostaria de referir que apaguei a entrada anterior, de ontem; talvez já tenha havido alguém que se apercebeu disso. Para aqueles que se estejam a interrogar quanto às razões dessa minha acção, basicamente, fi-lo porque, ao reler a entrada, considerei que era demasiado crítica, ofensiva, até, para ficar assim, a descoberto, ao alcance de todos, expondo-me, em última análise, a um certo grau de perseguição mal-intencionada; não desejando ser alvo de processos judiciais por parte das instituições implicadas, decidi conter o meu instinto acusatório, pelo menos, até considerar que chegou o momento apropriado para as criticar, com razão e efeito, e com a força do número de apoiantes (que, neste momento, me parece deveras reduzido...) a suportar o meu esforço.

   Assim, hoje, gostaria de falar, apenas ligeira e superficialmente, do problema de muitos estudantes (talvez mais grave no caso dos das faixas etárias mais jovens, ou seja, os que frequentam o 1.º e o 2.º ciclos). O título, como sempre, denuncia-me: as mochilas, e todo o peso que carregam. Antes de mais, tenho de referir que apenas me junto a um coro de vozes talvez cada vez mais numeroso, entre pais, professores e até mesmo médicos, que sabem, se bem me recordo, que carregar mais do que 10% da massa corporal é nocivo para a saúde.

   Ora bem, a mochila é, por si só, um objecto útil. Serve para transportar uma quantidade mais ou menos grande de objectos, de uma forma prática e organizada, distribuindo mais ou menos equitativamente o peso pelos ombros. No entanto, para os estudantes, representa muito literalmente um peso em cima dos ombros, contendo todos os livros e cadernos, canetas e lápis, calculadoras e compassos, réguas e esquadros - enfim, todo o material necessário - durante todo o dia. É certo que pode haver (talvez não em todas as escolas, isso já não posso afirmar) locais onde depositar o material: os cacifos; mas, convenhamos, quando há trabalhos de casa (de que terei certamente de falar, mas não agora), esse material tem de ser trazido, ou, até, para que se possa realizar o estudo diário (para os que adoptam essa estratégia), e posteriormente (no dia seguinte) levado de volta para a escola.

   Com isto, quero dizer que, praticamente todos os dias, os estudantes têm de carregar, talvez durante mais de uma hora (no mínimo), um peso que, em muitos casos, deve superar os tais 10% da massa corporal do aluno (neste contexto, uso “massa” e “peso” com a mesma acepção, embora saiba que, cientificamente, isso está incorrecto, para não resultar numa frase confusa). Ora bem, isto está, clara e obviamente, mal. A não, claro, ser que queiramos uma sociedade futura de, desculpem-me o termo algo ofensivo, marrecos.

   Assim, tenho de propor uma mudança (que, de certa forma, já está a começar a tomar forma), a não ser, claro, que se implemente o sistema que compõe a minha teoria principal. Sugiro, então, que se faça a transição para os chamados e-manuais, sendo todos os livros acedidos a partir de um tablet ou equivalente, distribuído aos alunos por uma iniciativa tipo Magalhães. Talvez ainda pudesse acrescentar parte da minha ideia principal, no que toca ao facto de os cadernos serem também com recurso a esse tipo de tecnologia, com uma detecção do toque ainda mais precisa (ter-se-ia, claro, de aferir a exequibilidade em termos técnicos deste pormenor), podendo reconhecer uma ponta tão fina quanto a de uma caneta normal (para uma experiência de escrita praticamente igual à “tradicional”). Assim, bastaria ao aluno carregar um tablet e a “caneta” para escrever (ou, sem a detecção mais precisa, um tablet e os cadernos, bem como os restantes materiais de escrita necessários) para estar preparado para todas as eventualidades de aulas.

   Enfim, já me alonguei mais do que o que pretendia. Se quiserem, comentem. De resto, um bom início de semana a todos… por mais que nos custe…