24 de outubro de 2015

Crítica da Associação (de Estudantes Im)Pura

   Há algum tempo, numa fase mais inicial deste blog, fiz uma entrada com este mesmo título, mas acabei por retirá-la, considerando que era, talvez, demasiado agressiva, demasiado crítica, demasiado ofensiva para aquilo que se pode considerar a minha potencial base de apoio para qualquer mudança que possa querer levar a cabo, para figurar aqui. Não tive, infelizmente, a presença de espírito suficiente para guardar uma cópia desse meu texto, e agora me arrependo disso. Não é que as condições em que me encontro, em termos de base de apoio, tenham sofrido grandes alterações, mas, por qualquer razão que fosse, senti hoje a vontade de voltar a abordar este mesmo assunto. E, por isso, assim farei. Independentemente das consequências.

   Começarei por deixar uma ressalva que, apesar de, segundo creio, já ter sido vagamente deixada nalguma outra entrada, é digna de voltar a ser referida: ao longo deste meu texto, os comentários e/ou críticas efectuados correspondem a generalizações, que, exactamente pelo facto de serem generalizações, poderão não se adequar àquilo que é a maioria dos casos (por os casos de que tenho conhecimento, e nos quais me baseio para extrapolar o que direi, não serem, se me permitem o palavreado estatístico, uma amostra representativa). Dir-me-ão que este seria um erro evitável, sobretudo se optasse pela não elaboração deste texto, até porque até há uns quantos casos (tudo bem, posso aventá-lo, mesmo sem ter conhecimento de factos que o comprovem) que se destacam pela positiva. Bom, não o posso negar. Mas, se a ideia fosse mesmo elogiar o que já existe, nunca teria feito um blog a criticar o actual sistema de ensino…

   Independentemente desta minha ressalva, e de tudo o resto que penso acerca das associações de estudantes, tenho de dizer que não posso, de maneira nenhuma, rejeitar o conceito de associação de estudantes; acaba por ser bastante positivo, bastante desejável. Tendo em conta que, no actual sistema de ensino (e, em certa medida, em qualquer sistema de ensino, incluindo os Mini-Ciclos de Leccionamento), ser estudante corresponde a uma ocupação quase a tempo inteiro (nos Mini-Ciclos um pouco menos, mas…) e implica lidar com um certo número de leis e regulamentos estatais, poder-se-ia afirmar que “estudante” corresponde a modos que a uma profissão como tantas outras (se bem que sem certos deveres e sem muitas regalias…); nesse sentido, será perfeitamente lógico que exista algum tipo de entidade responsável por defender os interesses da classe estudante, seja reivindicando melhores condições, seja alertando a administração pública para eventuais problemas, seja lutando para implementar um novo sistema de ensino. Em teoria, seria essa a função, e seria esse o propósito, de uma associação de estudantes. Só que, como de costume, entre a teoria e a prática ainda vai uma grande distância…

   E são várias as causas para isso. Mais flagrantemente, temos a atitude da juventude, que (se me permitem adoptar uma perspectiva um pouco intransigente e um nadinha careta) está muito mais focada na diversão, na farra e na borga nos momentos em que elas são possíveis, em vez de questionar circunstâncias e condicionalismos diversos que provocam exactamente as situações desconfortáveis que se tenta compensar através da borga (estou a falar de exames, testes, trabalhos e outros males afins). Ora, sendo as associações de estudantes compostas, na sua maioria, por jovens (conclusão fantástica e surpreendente, não é?), será lícito concluir que a tendência principal das associações é para organizar festas, viagens e outros eventos dessa natureza em vez de efectuar um grande esforço de contestação, deixando todos os erros do actual sistema de ensino por corrigir. Creio não estar errado nesta generalização…

   Em segundo lugar, e um pouco no seguimento do que referi mesmo agora, temos a atitude individualista e pragmática (perfeitamente justificável pela natureza humana, é certo, mas ainda assim indesejável) de se querer extrair o maior benefício possível do acto de andar na escola, eventualmente tramando outros colegas, abandonando totalmente qualquer pretensão de obter conhecimento em prol do objectivo de alcançar a média desejada para entrar no curso pretendido para desempenhar a profissão escolhida (riscar o que não interessa); em suma, vê-se o ensino como plataforma de lançamento para um futuro e não como elemento construtor desse mesmo futuro. Ora, esta atitude conduz a tudo menos à reflexão sobre como as coisas poderiam ser melhores (que originaria a contestação), e, sendo adoptada por uma boa parte dos jovens, estará, sem dúvida, representada nas associações de estudantes, que preferem relembrar todos os alunos de que devem estudar para os exames (e, eventualmente, de que são um momento determinante no seu futuro, ou outro facto semelhante) a questionar “não seria melhor se não houvesse exames nacionais?”

   Em terceiro lugar, é de se referir a dependência que há entre as associações de estudantes e as direcções das escolas em que se integram. É certo que, como elemento da comunidade escolar e todo o restante palavreado bonito que se costuma utilizar, as associações deveriam estar em contacto mais ou menos directo com as direcções, mas, quando se verifica que a associação está fisicamente (em termos das instalações providenciadas) e organizacionalmente (em termos das iniciativas e dos eventos autorizados) dependente da direcção, acho que se deve pôr um pouco em causa a possibilidade de as associações de estudantes representarem convenientemente os interesses dos alunos face aos da direcção, o que resulta, mais uma vez, numa diminuição da contestação. E isto para não conjecturar acerca dos possíveis benefícios pessoais (ao nível do desempenho escolar) que se podem obter ao defender a direcção em detrimento dos alunos. Mas, enfim… nem vale a pena ir por aí…

   Em quarto lugar, creio ser digna de referência (não por bons motivos, é claro) a intensa politização das associações de estudantes. São, se não estou equivocado, poucas as associações que, de uma maneira ou de outra, mais à esquerda, mais à direita ou mais ao centro, não estão ligadas a um partido (e/ou a uma juventude partidária). E, se é certo que isso é praticamente inevitável num sistema político democrático pluripartidário como o nosso, é igualmente certo que isso não é inteiramente positivo. Se, por um lado, a ligação a um partido providencia uma estrutura mais bem organizada para se coordenar eventuais esforços de contestação, essa ligação também acaba por submeter a associação aos interesses do partido, desvirtuando aquele que seria o seu propósito (como já disse, o de representar os alunos); pior ainda será quando o partido a que a associação está ligada forma governo, visto que será pouco provável que a associação conteste as medidas tomadas por esse mesmo governo. Além disto, esta politização das associações de estudantes também leva a que os eventuais dirigentes as tendam a ver como uma possível porta de entrada para a política e não como uma forma de melhorar as condições para si e para os restantes estudantes.

   Por fim, há mais um potencial problema de que padecem as associações de estudantes. Sendo as associações uma forma de organização permitida pela lei e pela sociedade, e sendo esta tendencialmente conservativa e auto-perpetuante (no que toca ao seu status quo), não me parece, de todo, impossível que as reais possibilidades de o normal funcionamento de uma associação de estudantes provocar alguma mudança sejam mínimas, dado que esse normal funcionamento corresponde ao que a sociedade definiu (e que terá, muito provavelmente, em vista a manutenção das regras, dos valores e das especificidades organizacionais que caracterizam essa sociedade). Podem acusar-me de estar a ser (vagamente) paranóico e anti-social, epítetos que, de resto, não posso rejeitar inteiramente, mas, de qualquer das formas, esta parece-me uma conjectura suficientemente plausível para aqui figurar.

   Bom, no fim destas minhas ruminações todas, se algum(a) leitor(a) se sentir ofendido (ou ofendida), tenho de deixar aqui a minha garantia de que não era a minha intenção ofendê-lo (ou ofendê-la) em particular. Num certo sentido, era, de facto, ofender, mas ofender muito genericamente, era chocar (muito ligeiramente), era captar as atenções e deixar aqui este apelo: não se deixem levar pela ideia de que cooperar com o status quo, daí obtendo benefícios, é a melhor forma de viver; o status quo quer manter-se a si e não manter-vos a vocês e, por isso, e tiver de vos passar por cima, fá-lo-á com a mesma implacabilidade quer o tenham ajudado, quer não; assim, mais vale arriscarem a mudança, mais vale tentarem melhorar o que está errado, até porque o pior que vos pode acontecer (a morte) é consequência intrínseca e inevitável da condição humana; assim, mais vale o esforço de corrigir os erros perpetuados pelo status quo: pelo menos, sempre há a hipótese de melhorarem as coisas, para vocês, para os vossos descendentes, para os outros, para todos.

   Despeço-me assim, deixando-vos estas palavras (vagamente demagógicas e insuficientemente inspiradoras) e o espaço de comentários, agora e sempre à vossa disposição…

10 de outubro de 2015

Uma Aproximação das Aulas à Distância

   Sei que hoje adoptei um tema relativamente insignificante e muito pouco mediático, mas, ainda assim, não deixa de ser uma adição mais ou menos relevante àquilo que é a minha ideia principal. Como o título revela logo, trata-se, exactamente, da prática que podemos designar “aulas à distância”.

   É do meu conhecimento (e creio que também do da maioria das pessoas) que é usual, sobretudo nos países do Norte da Europa, haver períodos de tempo em que os alunos frequentam as aulas por meios electrónicos, visto não se poderem deslocar fisicamente a um estabelecimento de ensino, por motivos predominantemente climáticos (leia-se grandes nevões que deixam as suas casas praticamente inacessíveis). No caso particular do nosso país, não se verificando, de uma maneira geral, fenómenos meteorológicos tão extremos (ainda que, em terras mais a Norte, não deixe de haver nevões), e sendo o grau de desenvolvimento (bastante) menor, o ensino ainda se encontra muito dependente do espaço físico correspondente à escola, com algumas excepções (apresenta-se-me o caso das crianças e dos jovens ligados às artes circenses, que, se não estou equivocado, frequentam as aulas na escola mais próxima, mudando de escola à medida que o circo muda de sítio).

   Mas, convenhamos, isso não é tão mau assim. Em última análise, surgem sempre algumas dúvidas que só são bem esclarecidas (se me permitem o galicismo) tête-à-tête, e também só se consegue apoiar bem um aluno na realização de exercícios se se estiver em contacto com ele durante essa realização; assim, seria desejável que o aluno pudesse comunicar directamente, em tempo real, com o professor, sem se interpor a eventual barreira da escrita à colocação de dúvidas e respectivo esclarecimento. Só que, claro, já há hoje em dia serviços de videochamada/videoconferência gratuitos e bastante eficazes, o que significa que isto não pode constituir uma razão para descartarmos as aulas à distância.

   Mas, de qualquer das formas, como, no actual sistema de ensino, a liberdade de escolha dos alunos é mínima (estando limitada às poucas disciplinas de opção existentes, e mesmo estas estão condicionadas pela oferta formativa da escola), será lícito admitir que todos os alunos, de uma maneira geral, têm um bom acesso ao conhecimento que se lhes pretende transmitir. À excepção, claro, dos alunos cuja escola foi encerrada e/ou que transitaram para um nível de ensino superior àquele a que corresponde a escola mais próxima, que têm, portanto, de sair cedíssimo de casa e chegar tardíssimo a casa, por ser esse o horário do transporte escolar a que têm acesso. Mas, enfim… não convém dar muita relevância a isto, porque são peanuts, como parece que agora se costuma dizer. Afinal, somos um país desenvolvido… ou pretendemos sê-lo… e não há coisas dessas num país desenvolvido… Enfim. Tudo isto (e toda esta ironia) para dizer que, casos excepcionais à parte, não parece haver, no âmbito do actual sistema de ensino, grande necessidade de aulas à distância.

   Então, se assim é, para que é que estou para aqui a escrever isto tudo? Bem, permitam-me explicar as minhas razões: nessa minha frase anterior, o elemento central não é, a meu ver, a parte de “não parece haver (…) grande necessidade de aulas à distância”, mas sim a de “no âmbito do actual sistema de ensino”. E, por esta altura, os meus leitores já sabem o que penso acerca do actual sistema de ensino: funciona mal, está mal organizado, deveria ser reformulado, deveria ser substituído por um novo paradigma, nomeadamente aquele a que gosto de chamar Mini-Ciclos de Leccionamento (ou “minha ideia principal”, conforme a minha inspiração). Sei que já o disse antes, mas não me canso de o repetir, pois é a minha mais profunda crença que esta mudança seria indiscutivelmente para melhor. Por isso, acho que não vale muito a pena avaliarmos as coisas à luz do que o actual sistema de ensino as obriga a ser, mas sim de como seriam quando (abster-me-ei de dizer “se”) se der o caso de os Mini-Ciclos de Leccionamento terem sido implementados.

   Então, tendo em conta a maior liberdade que este novo paradigma conferiria aos alunos, poder-se-ia dizer que surge o novo problema (ou seria exacerbado o problema que apenas se manifesta no caso de algumas disciplinas de opção) de o aluno desejar frequentar um dado módulo que, nesse momento, não está a ser leccionado em nenhuma escola nas imediações; é certo que esta nova organização do sistema de ensino lhe permitiria aguardar, sem grande prejuízo para a aquisição de outros conhecimentos (à parte eventuais conhecimentos dependentes do módulo não leccionado), até que se voltasse a leccionar o módulo desejado, mas poderia dar-se o caso de haver módulos que apenas seriam pretendidos por um número muito reduzido de alunos, mesmo a nível nacional, fosse pela sua especificidade, fosse pela sua dificuldade, fosse, a bem dizer, pela sua insignificância (é certo que todo o conhecimento é importante, mas não podemos negar que há algum conhecimento que tem mesmo muito pouca relevância…). Em qualquer dos casos, sei que incorporei na minha ideia a ressalva de que todos os módulos fossem leccionados num raio de 25km e num período máximo de dois meses, mas esses números, além de grandemente artificiais e maioritariamente exemplificativos, poderiam não corresponder, sobretudo num caso em que haja, por hipótese, menos de 20 alunos interessados a nível nacional, a uma boa gestão de recursos.

   Nesse sentido, afigura-se-me que a melhor opção seria mesmo recorrer-se a algum tipo de aula à distância, pondo um professor localizado onde quer que fosse em contacto com os alunos dos quatro cantos do país, de modo a que lhes possa transmitir os conhecimentos em causa, esclarecer as dúvidas, ajudar na resolução dos exercícios… E tudo isto ocorreria, como é óbvio, através de algum tipo de videochamada. Assim, seria possível a todos os alunos adquirir qualquer conhecimento que fosse, independentemente dos desejos dos restantes alunos da região circundante, e sem obrigar propriamente a um grande desperdício de recursos. Além disso, tendo em conta que, neste novo sistema de ensino, não haveria testes, nem exames, nem momentos formais de avaliação desse género, a situação dos alunos distantes da escola (ainda que apenas possa ser verdadeiramente resolvida já no plano sócio-político-económico, que foge, portanto, ao âmbito deste blog e da acção de qualquer sistema de ensino) seria bastante menos grave, visto que lhes bastaria possuírem equipamento informático e acesso à Internet para, através das aulas à distância, adquirirem quaisquer conhecimentos que pudessem desejar.

   Não posso, no entanto, negar que um sistema de ensino como o que proponho implicaria a resolução correcta de exercícios, de modo a aferir se o conhecimento que se pretende aprender foi, de facto, adquirido, e que essa realização, fora de um estabelecimento de ensino, pode levar a fraudes, mas, por um lado, sendo os exercícios vocacionados para o raciocínio (pois é preponderantemente este que se transmite), torna-se difícil cabular, e, por outro lado, mesmo no actual sistema de ensino (e até mesmo no interior dos estabelecimentos de ensino!) há fraudes, pelo que não me parece lícito que essa eventualidade, por si só, constitua um verdadeiro impedimento da adopção dos Mini-Ciclos de Leccionamento e das aulas à distância.

   Já agora, gostaria, igualmente, de fazer referência ao facto de, sendo os conhecimentos adquiridos mais ou menos separadamente, situações como as dos artistas circenses, que frequentam (no actual sistema) várias escolas ao longo do ano, ficando sujeitos a múltiplas perspectivas pedagógicas que conduzem, apesar disso, a uma avaliação global, tendo de repetir e/ou saltar matéria à medida que passam de uma escola para outra, deixariam de existir. E, de qualquer das formas, poderiam sempre recorrer às aulas à distância, de modo a frequentarem todos os módulos que quisessem, independentemente dos que estariam disponíveis a nível local.

   Assim, e depois desta argumentação toda, sinto que a minha convicção (que já era forte) em como os Mini-Ciclos de Leccionamento poderiam eliminar uma boa parte dos erros e incongruências do actual sistema de ensino ficou agora fortalecida pela conclusão de que permitirão, se a eles se juntarem as aulas à distância, melhorar outros aspectos que, embora não decorrendo directamente do sistema de ensino, ainda têm alguma influência, mais que não seja na sua eficácia. Uma outra possibilidade que me surgiu agora mesmo, e que achei por bem registar aqui, foi a de, num futuro mais ou menos longínquo, uma grande maioria das aulas ocorrer à distância, o que, se considerarmos (conforme a minha fundamentação metafísica do propósito da escola) que o propósito do sistema de ensino é transmitir conhecimentos racionais e não sócio-emocionais (sendo que estes, a meu ver, obrigarão muito mais a um contacto directo, presencial, e, por isso, não poderão ser transmitidos à distância), tem pouco ou nenhum impacto na eficácia da transmissão dos conhecimentos e pode mesmo afectar muito positivamente a sua eficiência. Mas isto, claro, não é, nem deve ser, um aspecto integrante dos Mini-Ciclos de Leccionamento ou da minha perspectiva das aulas à distância; é apenas, e só, um curto exercício de futurologia, que, como todos os outros, tem bastantes hipóteses de estar errado, e que, talvez, até nem se enquadre propriamente no âmbito desta entrada. Em todo o caso, está dito, ou melhor, está escrito, seja o que for que desse facto possa advir.

   Terminarei, como sempre, com a ressalva de que os leitores têm à sua disposição o espaço de comentários. Um bom fim-de-semana a todos.

28 de setembro de 2015

Interpretando a Interpretação

   Após mais uma ausência (que não pode ser desculpada, apenas parcialmente justificada, por este início de ano lectivo), regresso, espero eu, verdadeiramente com uma ideia, e não com os meros fiapos de pensamento que tenho aqui despejado, ainda que a vacuidade de ideias que me afligia ainda se faça sentir. Sei que o tema que escolhi não é propriamente mediático, nem nada que se assemelhe a tal, mas, ainda assim, afigura-se-me como digno de aqui ser registado.

   Interpretação textual. Uma expressão que, por si só, necessita de ser interpretada. Será “interpretação” como a de um actor, exigindo, portanto, que se leia o texto, que se o compreenda e que se junte a nossa essência à dele, fazendo-o tornar-se parcialmente nosso, ter, por assim dizer, o nosso cunho pessoal, e depois mostrá-lo, nesse estado, aos outros? Será “interpretação” como a de um (passo a vaga redundância) intérprete, traduzindo as coisas do texto para nós, e de nós para os outros, estabelecendo-se ali uma certa conversação, de modo a que todas as partes se entendam? Será “interpretação” no sentido de explicação, esclarecimento, clarificação? Ou será nenhuma destas coisas?

   Independentemente de quantas tiradas poéticas deste género se poderiam fazer (e que de pouco ou nada servem no âmbito deste blog, por mais valor retórico que pudessem ter), atrever-me-ia a afirmar que nenhuma delas se adequa à realidade que todos os alunos podem experienciar: abundam os casos (sobretudo na interpretação em níveis mais… à falta de melhor expressão, “avançados” da linguagem) em que o que é pedido é, a bem dizer, um exercício de compreensão mística do significado metafísico das palavras escritas, e não propriamente uma interpretação. Aborda-se as coisas de tal forma que quase se pode dizer que, na perspectiva daquilo que seria a interpretação textual ideal, cada frase, cada palavra, aliás, cada letra escrita pelo autor tem uma segunda intenção.

   Mas isto, por si só, não seria um grande problema, até porque, de certa forma, acaba por ser essa a intenção da arte (ou talvez não… mas esta discussão não se adequa propriamente a este blog), não fosse o caso de se considerar que essa segunda intenção era uma e uma só, sendo inadmissível qualquer outra. A própria natureza dos textos de carácter literário implica que não haja verdadeiramente uma única interpretação possível. Claro, se se fala de um “cortinado azul”, seria manifestamente errado considerar-se que se trata de um “camião amarelo” (a não ser, claro, que se trate de uma situação em que a personagem troque os termos “cortinado” e “camião” e as cores “azul” e “amarelo”, ou qualquer outra coisa semelhante), mas não há uma única interpretação possível para o significado da cor do cortinado. Uns diriam que seria uma referência ao mar, outros à tristeza, outros à calma, outros à frieza, outros ao céu, outros…

   O problema surge, como já referi, e se os meus leitores me permitem a repetição, quando se considera que esse azul do cortinado é única e exclusivamente uma referência à roupa interior que o autor vê estendida na corda da roupa da casa em frente daquela onde escreveu o livro (se me permitem o exemplo vagamente surrealista), e se considera qualquer outra interpretação errada. Dificilmente poderia haver uma coisa mais redutora de qualquer tipo de raciocínio e potenciadora da memorização do que isto, e é escusado dizer, porque o costumo repetir de muitas e variadas formas, que a memorização não conduz ao verdadeiro conhecimento.

   Então, podemos considerar que tal atitude é indesejável. É certo que é importante conseguir entender a mensagem que outros escreveram e descodificar a informação nela contida, e que tais esforços podem contribuir para a compreensão global da linguagem, enriquecendo os conhecimentos no âmbito quer do vocabulário, quer da gramática, mas… enfim… isso não implica exactamente decorar-se uma interpretação que outrem fez. Aliás, fazê-lo até pode, a meu ver, desencorajar o desenvolvimento da língua, pois, em vez de se exigir que o aluno entenda o texto, o avalie por si próprio e depois exponha e defenda as suas perspectivas (o que implica sempre exercitar as suas capacidades linguísticas), está-se a pedir que o aluno decore e despeje o que se lhe apresenta. E isso, é escusado dizer, não é, de modo algum, positivo.

   Mas será que a interpretação constitui exactamente um conhecimento que se possa leccionar? Bem, num certo sentido, sim, há um conjunto de práticas comuns a toda a actividade interpretativa (se me permitem uma expressão com tão forte sonoridade burocrática…) que se podem ensinar, mas, por outro lado, tratando-se de algo que apela mais ao lado subjectivo e artístico, em última análise, não pode verdadeiramente ser leccionado. De certa forma, enquadra-se no mesmo grupo de actividades que a escrita propriamente dita, ou a pintura (com todo o respeito às restantes actividades não enunciadas): há técnicas e princípios teóricos que podem ser leccionados, mas não se pode ensinar a actividade em si, pois esta provém intrinsecamente do seu autor. Ainda que isto esteja já a enveredar demasiado pela Filosofia e pelos debates relativamente à essência da Arte, coisa que não é, como referi, a minha intenção…

   Assim sendo, sinto-me vagamente forçado a concluir que, no âmbito da minha ideia principal (se me permitem mencioná-la pela enésima vez neste meu blog), seria lícito desligar-se de uma maneira um pouco mais vincada a interpretação textual do conhecimento da Gramática, isto é, do funcionamento da língua em causa, bem como do seu vocabulário. Não obstante tudo o que já foi referido, torna-se bastante difícil interpretar um texto escrito numa linguagem da qual pouco ou nada conhecemos, pelo que, antes de se poder interpretar, é necessário que se conheça essa linguagem; assim, a interpretação textual apenas deveria poder ser frequentada após se ter adquirido os conhecimentos relativos à utilização, por assim dizer, da linguagem em causa.

   Mas, além disso, sou levado a pensar que exigir-se a interpretação de determinadas obras (por mais marcantes e significativas que possam ser) não constitui, em última análise, um verdadeiro conhecimento, da mesma forma que exigir que se saiba que 1727 + 6234 = 7961 não constitui um verdadeiro conhecimento: ambos os casos correspondem à aplicação de um raciocínio que, esse sim, é um conhecimento, e que permite obter muitas mais informações do que estes casos em particular. É certo que, no caso específico dos textos, há sempre umas certas especificidades inerentes à obra, ao autor e às condicionantes histórico-culturais que os afectam, ao contrário dos números, tendo um impacto significativo na sua interpretação. Isto implicaria, então, que, para se poder interpretar uma obra, se teria de obter primeiro os conhecimentos relativos a esse mesmo período histórico e/ou ao(s) movimento(s) artístico(s) em que essa mesma obra se integra, mas não obrigando, de qualquer das formas, a que se ministre essa interpretação em particular como conteúdo, em vez da interpretação em geral como raciocínio. Ou seja, eventualmente, e no âmbito da aprendizagem de um dado movimento artístico, poder-se-ia interpretar um ou mais textos desse mesmo movimento, mas nunca, nunca, nunca (abster-me-ei de acrescentar “e nunca”) obrigando a que se decore uma interpretação padronizada e oficialmente sancionada, que exclui todas as outras.

   Esta minha perspectiva poderia ter a aparente desvantagem de impedir que, na sua grande maioria, os alunos tivessem contacto com a literatura, mas, convenhamos, mesmo no sistema de ensino actual, não são assim tão poucos os que não lêem as obras exigidas, preferindo, em vez disso, ler apenas os resumos (por menos que consigam evitar ler excertos, seja em contexto de aula, seja em contexto de testes…), pelo que a literatura também não é assim tão promovida com a organização que temos agora. Mas também não deveria, da minha perspectiva (e conforme deixo implícito na minha Fundamentação Metafísica do Propósito da Escola), ser o sistema de ensino o responsável por divulgar propriamente a literatura e a cultura portuguesas; esses aspectos, que, sem sombra de dúvida, são relevantes na construção de cidadãos verdadeiramente esclarecidos e conhecedores, constituem mais um desenvolvimento pessoal (de uma componente predominantemente psicossocial) do que propriamente um desenvolvimento racional, não devendo, então, fazer parte do sistema de conhecimentos leccionados no ensino. Deverá ser o aluno, eventualmente estimulado pela família, ou por qualquer outra parte da sociedade, a dispor-se a ler, de sua livre (e mais ou menos espontânea) vontade, essas obras relevantes, lendo-as não como algo didáctico, mas sim como algo pura e simplesmente lúdico, ou seja, não como mais um pedaço de matéria, mas sim como mais um livro, como mais uma fonte de entretenimento. Admito que nem todas essas obras sejam assim tão fáceis de ler quanto isso, mas torná-las obrigatórias só contribui para dificultar ainda mais a sua leitura.

   Mas creio que já me dispersei de mais. Numa tentativa de não alongar ainda mais, creio que terminarei por aqui. Resta-me desejar uma boa semana a todos os leitores, e deixar a já habitual ressalva de que podem utilizar à vontade o espaço de comentários…