Não me posso impedir de começar esta entrada de uma maneira um pouco excêntrica: mas para que raio é que eu fui falar? Caso esteja a ser demasiado críptico, estou-me a referir ao facto de, antes sequer de estas… erm… maravilhosas notícias acerca das mudanças na educação terem saído, ter aqui efectuado uma reflexão sobre as provas de aferição. Tivesse eu ficado calado e, talvez, os brilhantes senhores do Ministério da Educação não teriam tido a brilhante ideia de reimplementar as provas de aferição, ainda por cima em mais anos do que os exames, e ainda mais por cima a mais disciplinas! Pronto, é certo que o Universo não funciona exactamente assim, mas não é a primeira vez que expresso a minha convicção de que algo não deve acontecer e é exactamente isso que acaba por acontecer… Nesse sentido, sinto-me levado a apresentar as minhas desculpas aos alunos do 2.º, 5.º e 8.º ano que passaram a ser afectados por estas provas…
Bom, coincidência, acaso ou trama maquiavélica do Universo, o que é certo é que as provas de aferição cá estão, mais numerosas e mais abrangentes do que nunca. Se trocar os exames por provas de aferição já não era assim tão desejável, visto que correspondia a trocar um mal por um mal menor (ou, conforme digo na entrada anterior acerca das provas de aferição, trocar uma tortura prejudicial por uma tortura inócua), implementar ainda mais provas de aferição só vem tornar esta troca ainda menos desejável (tornando a tortura mais frequente, mesmo que se mantenha inócua).
E, para piorar as coisas, parece que o Conselho Nacional de Educação veio fazer a modos que uma surtida em defesa dos exames nacionais (pelo menos no 9.º ano), propondo até efectuar-se mais um, o que, juntamente com uma outra notícia que por aí anda a circular e que afirma que os exames no Ensino Básico apenas são responsáveis por uma percentagem reduzida dos chumbos (por não haver, segundo parece, muitos casos em que as notas dos alunos sejam significativamente alteradas), vem fortalecer um pouco mais (ainda) a posição dos que defendem os exames.
Mas não vou recair numa argumentação, que agora se tornaria mais do que repetitiva, acerca dos exames, das provas de aferição e indesejabilidades anexas e do quão necessário é que se abula esse tipo de instrumentos. Mas também não me posso coibir de frisar mais uma vez que a introdução anunciada de provas de aferição a mais disciplinas vem aumentar significativamente o factor stress dos alunos, com potenciais efeitos adversos na sua saúde mental, o que afecta negativamente as suas capacidades de adquirir conhecimentos, prejudicando, assim, o ensino no seu todo.
Em todo o caso, quero deixar aqui umas perguntas a todos aqueles que concordem com exames nacionais e/ou provas de aferição (e que se encontrem a ler este texto): em que argumentos se baseiam para justificar a necessidade da existência desses métodos de avaliação? Ou seja, por que razão devem existir exames e/ou provas de aferição? Porque é que temos de avaliar/aferir o nível de conhecimento dos alunos?
Responder-me-ão com o sempre comum (e sempre falacioso) “todos somos avaliados ao longo da nossa vida”?
Pois, mas esse facto, por si só, não me parece suficiente para justificar que se efectue mais uma avaliação, ou várias (se quiserem, a existência de uma avaliação não pode ser usada para justificar uma outra avaliação, mesmo que uma seja vitalícia e a outra escolar; fazê-lo é incorrer num raciocínio circular, numa petição de princípio que torna toda esta argumentação inconsequente e inválida).
Dir-me-ão que é necessário um critério de avaliação exterior, objectivo e imparcial, de modo a eliminar quaisquer desigualdades que o facto de os alunos partirem todos de condições iniciais gera?
Bom, nem querendo contestar a objectividade e a imparcialidade das provas e exames (ainda que me apeteça muito fazê-lo…), e também não indo pela questão da injustiça, gostaria que me explicassem como é que realizar uma qualquer prova, conte ou não para avaliação, vai restabelecer essa igualdade de circunstâncias (já que, entre outras coisas, os alunos a quem não foi leccionada matéria não a aprendem subitamente só por fazerem a prova).
Argumentarão que é necessário que o sistema de ensino possua algum instrumento para avaliar se os conhecimentos foram bem adquiridos?
Sem sequer começar a questionar se exames e provas de aferição reflectem adequadamente o nível de conhecimentos dos alunos, creio que considerar que os resultados desses instrumentos levarão a alterações significativas e/ou a melhoramentos no sistema de ensino é partir de um pressuposto tão ou mais utópico e idealista que os próprios Mini-Ciclos de Leccionamento; por outro lado, também não vejo que lógica pode haver em deixarmos que essa avaliação do sistema de ensino tenha impactos no percurso escolar do aluno, penalizando-o injustamente por falhas que ele não cometeu (isto talvez seja um pouco menos significativo se houver provas de aferição, mas acaba sempre por haver subidas e descidas na consideração do professor, que podem beneficiar ou prejudicar o aluno…).
Atirar-me-ão em cara que, se o ensino tem como função transmitir conhecimento (coisa que já tenho referido múltiplas vezes como sendo o seu principal propósito), então devermos determinar se aluno, de facto, adquiriu esses conhecimentos?
Mas, então, expliquem-me como é que isso é conseguido numa prova que engloba uma miríade de matérias, podendo-se errar umas e acertar outras, sem que isso tenha qualquer efeito no sentido de permitir reaprender o que não se sabe e/ou não ter de repetir o que se aprendeu (por outras palavras, expliquem-me como se afere o conhecimento numa prova que testa as matérias como um todo, e ou se sabe uma percentagem suficiente desse todo para passar e se progride, mesmo que se deixe para trás algumas matérias que não se aprendeu, mas que, tendo-se passado, é como se se tivesse aprendido, ou não se sabe o suficiente para passar e não se progride, mesmo que haja algumas que se saiba, mas que, não se tendo passado, é como se não se tivesse aprendido).
No meio de tanta contra-argumentação, não sei se deixei margem para os apoiantes de exames e provas de aferição que por aí andarem me responderem. Espero que ainda tenham coisas para me dizer, mais que não seja para que eu possa, finalmente, descobrir um qualquer argumento válido e significativo a favor das avaliações e/ou aferições diversas, e, através disso, atingir a maravilhosa iluminação que vós, apoiantes desses métodos, há muito que possuem… ou não.
Seja como for, e antes de me despedir, não posso deixar de expressar o meu ligeiro espanto e o meu não tão ligeiro desagrado ante o facto de nem sequer ser considerada a abolição dos exames do Ensino Secundário. Sim, admito que falo parcialmente em proveito próprio, porque não vejo com bons olhos a possibilidade de ter de os fazer mais uma vez, mas sei que não sou o único a pensar desta forma. E, então, a todos os outros que também assim pensem, sim, a todos vocês que por aí andam, deixo o convite para a luta, para a manifestação, para a acção em prol de uma mudança que só poderá ser positiva! Abaixo os exames nacionais!
E com estas palavras vagamente demagógicas me despeço, deixando-vos os meus votos de um bom fim-de-semana e a habitual ressalva acerca da plena disponibilidade do espaço de comentários…
P.S.: Tenho vagamente na ideia fazer uma certa renovação e revitalização do texto que descreve em pormenor os Mini-Ciclos de Leccionamento. Não será propriamente para agora, mas… para breve. Isto, claro, se entendermos “breve” como uma indicação genérica de um qualquer momento algures nas próximas semanas. Há trabalhos e testes diversos que me podem atrasar, mas espero acabar a revisão antes disso…
Bom, coincidência, acaso ou trama maquiavélica do Universo, o que é certo é que as provas de aferição cá estão, mais numerosas e mais abrangentes do que nunca. Se trocar os exames por provas de aferição já não era assim tão desejável, visto que correspondia a trocar um mal por um mal menor (ou, conforme digo na entrada anterior acerca das provas de aferição, trocar uma tortura prejudicial por uma tortura inócua), implementar ainda mais provas de aferição só vem tornar esta troca ainda menos desejável (tornando a tortura mais frequente, mesmo que se mantenha inócua).
E, para piorar as coisas, parece que o Conselho Nacional de Educação veio fazer a modos que uma surtida em defesa dos exames nacionais (pelo menos no 9.º ano), propondo até efectuar-se mais um, o que, juntamente com uma outra notícia que por aí anda a circular e que afirma que os exames no Ensino Básico apenas são responsáveis por uma percentagem reduzida dos chumbos (por não haver, segundo parece, muitos casos em que as notas dos alunos sejam significativamente alteradas), vem fortalecer um pouco mais (ainda) a posição dos que defendem os exames.
Mas não vou recair numa argumentação, que agora se tornaria mais do que repetitiva, acerca dos exames, das provas de aferição e indesejabilidades anexas e do quão necessário é que se abula esse tipo de instrumentos. Mas também não me posso coibir de frisar mais uma vez que a introdução anunciada de provas de aferição a mais disciplinas vem aumentar significativamente o factor stress dos alunos, com potenciais efeitos adversos na sua saúde mental, o que afecta negativamente as suas capacidades de adquirir conhecimentos, prejudicando, assim, o ensino no seu todo.
Em todo o caso, quero deixar aqui umas perguntas a todos aqueles que concordem com exames nacionais e/ou provas de aferição (e que se encontrem a ler este texto): em que argumentos se baseiam para justificar a necessidade da existência desses métodos de avaliação? Ou seja, por que razão devem existir exames e/ou provas de aferição? Porque é que temos de avaliar/aferir o nível de conhecimento dos alunos?
Responder-me-ão com o sempre comum (e sempre falacioso) “todos somos avaliados ao longo da nossa vida”?
Pois, mas esse facto, por si só, não me parece suficiente para justificar que se efectue mais uma avaliação, ou várias (se quiserem, a existência de uma avaliação não pode ser usada para justificar uma outra avaliação, mesmo que uma seja vitalícia e a outra escolar; fazê-lo é incorrer num raciocínio circular, numa petição de princípio que torna toda esta argumentação inconsequente e inválida).
Dir-me-ão que é necessário um critério de avaliação exterior, objectivo e imparcial, de modo a eliminar quaisquer desigualdades que o facto de os alunos partirem todos de condições iniciais gera?
Bom, nem querendo contestar a objectividade e a imparcialidade das provas e exames (ainda que me apeteça muito fazê-lo…), e também não indo pela questão da injustiça, gostaria que me explicassem como é que realizar uma qualquer prova, conte ou não para avaliação, vai restabelecer essa igualdade de circunstâncias (já que, entre outras coisas, os alunos a quem não foi leccionada matéria não a aprendem subitamente só por fazerem a prova).
Argumentarão que é necessário que o sistema de ensino possua algum instrumento para avaliar se os conhecimentos foram bem adquiridos?
Sem sequer começar a questionar se exames e provas de aferição reflectem adequadamente o nível de conhecimentos dos alunos, creio que considerar que os resultados desses instrumentos levarão a alterações significativas e/ou a melhoramentos no sistema de ensino é partir de um pressuposto tão ou mais utópico e idealista que os próprios Mini-Ciclos de Leccionamento; por outro lado, também não vejo que lógica pode haver em deixarmos que essa avaliação do sistema de ensino tenha impactos no percurso escolar do aluno, penalizando-o injustamente por falhas que ele não cometeu (isto talvez seja um pouco menos significativo se houver provas de aferição, mas acaba sempre por haver subidas e descidas na consideração do professor, que podem beneficiar ou prejudicar o aluno…).
Atirar-me-ão em cara que, se o ensino tem como função transmitir conhecimento (coisa que já tenho referido múltiplas vezes como sendo o seu principal propósito), então devermos determinar se aluno, de facto, adquiriu esses conhecimentos?
Mas, então, expliquem-me como é que isso é conseguido numa prova que engloba uma miríade de matérias, podendo-se errar umas e acertar outras, sem que isso tenha qualquer efeito no sentido de permitir reaprender o que não se sabe e/ou não ter de repetir o que se aprendeu (por outras palavras, expliquem-me como se afere o conhecimento numa prova que testa as matérias como um todo, e ou se sabe uma percentagem suficiente desse todo para passar e se progride, mesmo que se deixe para trás algumas matérias que não se aprendeu, mas que, tendo-se passado, é como se se tivesse aprendido, ou não se sabe o suficiente para passar e não se progride, mesmo que haja algumas que se saiba, mas que, não se tendo passado, é como se não se tivesse aprendido).
No meio de tanta contra-argumentação, não sei se deixei margem para os apoiantes de exames e provas de aferição que por aí andarem me responderem. Espero que ainda tenham coisas para me dizer, mais que não seja para que eu possa, finalmente, descobrir um qualquer argumento válido e significativo a favor das avaliações e/ou aferições diversas, e, através disso, atingir a maravilhosa iluminação que vós, apoiantes desses métodos, há muito que possuem… ou não.
Seja como for, e antes de me despedir, não posso deixar de expressar o meu ligeiro espanto e o meu não tão ligeiro desagrado ante o facto de nem sequer ser considerada a abolição dos exames do Ensino Secundário. Sim, admito que falo parcialmente em proveito próprio, porque não vejo com bons olhos a possibilidade de ter de os fazer mais uma vez, mas sei que não sou o único a pensar desta forma. E, então, a todos os outros que também assim pensem, sim, a todos vocês que por aí andam, deixo o convite para a luta, para a manifestação, para a acção em prol de uma mudança que só poderá ser positiva! Abaixo os exames nacionais!
E com estas palavras vagamente demagógicas me despeço, deixando-vos os meus votos de um bom fim-de-semana e a habitual ressalva acerca da plena disponibilidade do espaço de comentários…
P.S.: Tenho vagamente na ideia fazer uma certa renovação e revitalização do texto que descreve em pormenor os Mini-Ciclos de Leccionamento. Não será propriamente para agora, mas… para breve. Isto, claro, se entendermos “breve” como uma indicação genérica de um qualquer momento algures nas próximas semanas. Há trabalhos e testes diversos que me podem atrasar, mas espero acabar a revisão antes disso…