9 de fevereiro de 2016

Do Físico e do Mental

   Leitores, se me permitem que me dirija logo assim, de chofre, a todos vós (tenho sempre uma certa tendência a pensar que são mais do que o que são, pelo que talvez, para grande desgosto meu, nem sequer se qualifiquem para um “todos”…), tenho de vos pedir as costumadas desculpas pela costumada ausência. Espero que não tenham dado muito pela minha falta (e, ao mesmo tempo, espero que tenham dado pela minha falta, porque isso significa que ligam pelo menos minimamente às baboseiras que para aqui escrevo…); caso se queira saber, ou caso não se queira saber, fui retido pelos habituais afazeres escolares, sempre enfadonhos, sempre indesejáveis e sempre prolongados… Vá lá que, por agora, há esta pequena folga, que acaba por permitir pôr em dia os assuntos em atraso. No meu caso, será a escrita e a contestação ao actual sistema de ensino…

   Por falar nisso, hoje até que nem escolhi um tema assim tão bom nesse sentido… mas foi o que me surgiu… e a escrita tem, para mim, uma forte componente intuitiva, pelo que forçar outro tema daria ainda um pior resultado. Aliás, o tema, em si, até que possui uma mistura potencialmente útil de pertinência, incomunidade (desculpem-me o termo bastante obscuro e francamente inventado…), polemicidade e possível teor filosófico, mas é mais uma reflexão do que uma crítica. Espero que não se importem…

   Ora, talvez já saibam que me aproximo bastante do estereótipo do marrão. Não é desejável que haja tais generalizações, mas o que é certo é que as há e, no sentido de melhor contextualizar o que vos vou dizer, fica aqui a informação (que, por acaso, até só me ofenderia a mim, pelo que não há grandes problemas com isso…). Sendo eu, então, um marrão, também possuo a grande falta de aptidões motoras que caracteriza essa pretensa faixa da população estudante (um sub-grupo cultural estudantil? Um estrato educacional? Não sei como lhe hei-de chamar…), em mim exacerbada numa certa falta de apreço pela actividade física. Mas, como é óbvio, há quem se encontre no lado diametralmente oposto do espectro (será o caso do leitor que está a ler isto neste momento?) e que, por isso, defenda até ao último suspiro a causa da actividade física.

   Nem vale a pensa entrarmos por grandes discussões quanto a quem tem razão, porque são ambos e não é nenhum: se, por um lado, a prática desportiva é essencial para a saúde do indivíduo, é igualmente certo que faz pouco sentido exigir, por imposição do sistema educativo, a quem levará a sua vida toda a desempenhar tarefas mentais que adquira, contra a sua vontade, conhecimentos e capacidades físicos. Percebem onde quero chegar? Ambas as partes têm razão e, se há quem insista, justamente, para que a Educação Física ganhe maior importância, nomeadamente no que toca a médias diversas, outros há que amaldiçoam, justamente, a inclusão dessa disciplina nos programas do ensino secundário.

   Tradicionalmente, e por toda a lógica, eu pertenceria a este último grupo, mas, como espero que já saibam, tenho sempre uma tendência incontrolável para ser a favor do contra… Sendo que, este caso, isso se traduz na habitual defesa de um paradigma alternativo de ensino que, pela subdivisão das matérias em ciclos de leccionamento mais curtos, confere maior liberdade e flexibilidade na selecção dos conhecimentos a adquirir; sim, já sabem, falo dos Mini-Ciclos de Leccionamento. Ora, não querendo incorrer na lengalenga do costume no sentido de evidenciar a quase panaceia que este sistema de ensino seria, vou, em vez disso, dizer mesmo que este sistema seria quase uma panaceia, ajudando, inclusivamente, a resolver, ou melhor, a tornar desnecessária esta questão.

   Está-se mesmo a ver: consoante o seu desejo (e mediante a aquisição de eventuais conhecimentos anteriores…), qualquer aluno poderia (ou não) adquirir conhecimentos relativos à prática de actividades físicas. Mas, convenhamos, não seria exactamente saber as regrazinhas, ou andar a correr de um lado para o outro com a bola na mão/no pé/no stick/seja onde for, não: seria de uma forma mais sistematizada, mais profissional, do que é hoje, ensinando mais aprofundadamente tácticas e técnicas diversas, eventualmente dando umas bases do funcionamento anátomo-fisiológico do corpo dos atletas e afins, sempre no sentido de transmitir conhecimento (o que fazer, como fazer e por que raio se faz como se faz); em suma, seria manter a parte do Física e aumentar a parte da Educação, fazendo, também, uma eventual ligação à competição desportiva mais “oficial” ou “profissional”. Mas, claro, tudo isto sem nenhum grau de obrigatoriedade.

   É certo que isto pode ser a modos que um incentivo ao sedentarismo, mas, convenhamos de novo, por um lado, quem é verdadeiramente sedentário não faz muita coisa em Educação Física (leia-se, sem ofensa, arranja formas de se escapar a fazer as coisas…), por outro lado, não serão umas poucas horas semanais que restituirão a saúde (sobretudo quando, nessas aulas, há demasiados alunos para o professor os poder auxiliar e incentivar convenientemente, e quando também há erros crassos de planeamento e execução da parte do professor, como seja a omissão de aquecimentos…) e, por outro lado ainda, é das minhas mais profundas crenças que uma actividade desempenhada voluntariamente o é muito melhor do que se for forçada, pelo que talvez funcione melhor educar e sensibilizar as pessoas para a eventual necessidade da prática de exercício físico nos seus tempos livres do que obrigá-las a praticá-lo em tempos não livres (convém, também, garantir que têm tempo para o fazer sem prejuízo das suas restantes actividades, coisa que, para os alunos, os Mini-Ciclos de Leccionamento também garantiriam…).

   Além disto, e ainda no âmbito das eventuais actividades menos intelectuais e mais físicas, há um facto vagamente incoerente que não posso deixar de destacar: no ensino, à excepção dos aparentemente vilipendiados e desprestigiados (vá-se lá saber porquê… e isto não é, de modo algum, ironia, porque nenhum conhecimento é mais ou menos digno do que outro) cursos vocacionais (se não for bem esta a designação oficial, peço aos meus leitores que me perdoem o arcaísmo; há sempre a evolução linguístico-burocrática, que torna praticamente impossível estar minimamente actualizado), são quase literalmente ignoradas certas actividades físicas que, não sendo directamente do âmbito desportivo, têm, na mesma, uma complexidade inerente que lhes cria a necessidade de serem leccionadas. Falo, portanto, de coisas como a mecânica (não no sentido do estudo das leis físicas que regulam o comportamento macroscópico dos corpos, mas no sentido do termo mecânica em “mecânica automóvel”, ou seja, no sentido da construção, manipulação e reparação de objectos e maquinarias diversas), a electrónica, a própria actividade laboratorial, a cozinha, entre muitas outras. Mesmo que haja, de vez em quando, um projectozito aqui ou ali, um workshop, uma iniciativa, ou um curso mais ou menos dedicado numa instituição mais ou menos dedicada a esse âmbito, no cômputo geral (não gosto muito desta expressão, mas era a que mais aqui se adequava…), é-lhes dada uma relevância praticamente nula.

   E isso, a meu ver, não faz qualquer sentido. Não podemos excluir conhecimentos só porque sim, só porque calha. Há que garantir a maior oferta possível, para salvaguardar a liberdade de escolha e, em última análise, para não cortar metaforicamente as asas a ninguém. Aliás, estes conhecimentos, de um domínio manifestamente prático, até têm uma utilidade social mais imediata do que os mais teóricos, pelo que a sociedade (por mais que muitos dos seus aspectos não sejam assim tão desejáveis…) até que fica a ganhar com isto…

   Assim, a inclusão destes conhecimentos na árvore dos módulos será, então, recomendável. Tudo isto permite chegar a uma conclusão que não ficou propriamente muito explícita no texto dos Mini-Ciclos de Leccionamento e que é a de que, na globalidade das matérias leccionadas, os conhecimentos mais teóricos, os conhecimentos mais práticos e todos os outros pelo meio estariam dispostos em relativa igualdade de importância, consoante, claro, as dependências e os prosseguimentos possíveis de cada um. Em última análise, isto permite juntar o ensino agora dito regular e o outro (que, por exclusão de partes, seria irregular?), eliminando, assim, uma distinção afinal injusta entre aqueles que têm maior aptidão para o pensar e os que a têm para o fazer. É certo que certos âmbitos beneficiam mais uma do que outra e, nesse sentido, certos pontos de vista darão mais valor a uma do que a outra (sendo que o ponto de vista tendencialmente académico responsável pela produção de reflexões diversas sobre o valor do conhecimento tem exactamente tendência a valorizar aquela que mais se integra no domínio académico, isto é, a aptidão mental, pelo que é esta que acaba por ser mais comummente valorizada), mas, globalmente falando, não se pode dizer que a aptidão física valha menos ou mais do que a aptidão mental, pelo que ambas deverão ter igual destaque e igual acessibilidade.

   E pronto. É isto. Um bom Carnaval a todos, se o festejarem (eu não: prefiro fazer entradas no blog…), e até à próxima entrada…

30 de janeiro de 2016

Das Greves (e) dos Estudantes

   Saúdo mais uma vez todos os leitores, a quem tenho de agradecer por se terem contido nos eventuais achincalhamentos que se poderiam ter seguido à minha entrada anterior, que acabou por ficar muito mais ridícula do que o que eu tinha esperado que fosse. Bom, independentemente disto, trago-vos hoje uma reflexão relativamente curtinha (o que, imagino, talvez apele mais a alguns leitores do que as paredes de texto que costumo fazer…) acerca de um tema que me surgiu espontaneamente no pensamento e que, por já reconhecer em mim um acesso de desinspiração em processo de formação, não posso deixar de aproveitar. Como sempre, o título estraga o suspense: decidi abordar as questões em torno das greves.

   Não quero ser arrastado para as questões político-sindicais diversas que envolvem intrinsecamente as greves, simultaneamente porque assumo (como talvez já saibam), sem qualquer vestígio de hesitação, o meu apartidarismo e porque não é, nem nunca foi, esse o âmbito deste blog e, por extensão, das reflexões que nele se podem encontrar. Ainda assim, a mais que ligeira desconfiança que tenho para com a sociedade (e os statūs quibus diversos que dela fazem parte) leva-me a questionar a utilidade, o potencial de mudança, que um método de contestação oficialmente sancionado pode ter. Mas, claro, isto é a parte mais paranóica e ligeiramente subversiva de mim a falar…

   Úteis ou não, oficialmente sancionadas ou não, as greves acabam por ser a forma mais utilizada de mostrar descontentamento. E, simultaneamente, quando se trata do caso específico da função pública (ou, mais especificamente ainda, daquela que pertence à área da educação), também são fonte de contentamento, por parte dos alunos cujas escolas foram encerradas e/ou cujas aulas não foram leccionadas por falta do pessoal necessário (o problema é que, mesmo celebrando essa balda temporária, não se importam de deixar andar as coisas como estão, com todo o sofrimento que lhes provoca essa vontade de se baldar, em vez de tentarem lutar para que as coisas sejam melhores e mais agradáveis…). Mas não é propriamente por isto que os alunos são para aqui chamados.

   O que interessa saber, ou melhor, debater, é o facto de os alunos não terem propriamente direito à greve, pelo menos tanto quanto a minha análise e a minha pesquisa, ambas pouco versadas nas minudências e nos preciosismos legais, puderam determinar. E isto, a bem dizer, não é justo. Se formos a pensar bem, os alunos têm um horário a cumprir, têm tarefas a desempenhar, têm deveres e direitos… têm, em suma, tudo o que um qualquer outro trabalhador acaba por ter (isto em relação aos trabalhadores por conta de outrem; no sector dos trabalhadores por contra própria, a história é outra, mas também me parece que este sector é um pouco falto de greves, já que tende a não haver propriamente superiores hierárquicos e decisões da chefia a contestar quando somos nós próprios esses superiores e essa chefia…), com a notável excepção do pagamento pelos seus esforços, bem como da existência de um vínculo contratual com uma entidade específica (no sentido em que os estudantes o são devido à legislação que estipula a escolaridade obrigatória ou, falando-se já do ensino pseudo-superior, por vontade ou iniciativa própria; isto leva a que, em última análise, as “entidades patronais” dos estudantes correspondam à totalidade da sociedade ou a eles mesmos). Neste sentido, os estudantes deveriam ter tanto direito quanto qualquer outra classe a manifestar-se e a mobilizar-se no sentido de alterar aquilo que, para eles, está mal.

   É certo que não há propriamente um sindicato de estudantes, e que as poucas entidades teoricamente representativas e aglutinantes dos estudantes, as associações de estudantes, estão mais ou menos dispersas e desligadas umas das outras, mas também não haveria grande dificuldade em se instituir uma organização assim, que pudesse convocar greves… ou será que haveria? Não me parece… mas, também, essa entidade acabaria por redundar no mesmo tipo de problemas e situações mais ou menos desagradáveis e mais ou menos indesejáveis de que as associações de estudantes já padecem (ver Crítica da Associação (de Estudantes Im)Pura), pelo que talvez fosse melhor não… Quer dizer… pois…

   Outra questão que também não podemos ignorar é que uma parte não tão insignificante assim dos estudantes é… como o posso dizer de uma forma legalmente correcta? Demasiado jovem para se poder convencer os senhores que pensam a reconhecer-lhes o direito de se manifestar por vontade e decisão próprias (falo, sobretudo, ao nível dos actuais 1.º e 2.º ciclos); pessoalmente, discordo desta visão, já que novos e não tão novos têm praticamente as mesmas hipóteses de tomar decisões acertadas, que são praticamente nulas (por também serem praticamente inexistentes as decisões acertadas…), mas, tratando-se, neste caso, de uma questão também legal (e não se estando aqui a falar de alterações sociais mais abrangentes do que as que se propõem no âmbito específico do ensino), teriam de ser as cabeças pensadoras a avaliar (sem trocadilhos, está bem?) e a decidir a partir de quando é que os alunos poderiam decidir com pleno direito a fazê-lo (ainda que talvez também fosse necessário avaliar e decidir se essas cabeças pensadoras teriam essa capacidade de avaliar e decidir… Nas palavras do poeta romano Juvenal, há que perguntar “quem guardará os guardas?”, ou melhor, “quem avaliará os avaliadores?”).

   Tudo isto (mais do que esperava e mais do que pretendia escrever) para dizer, apenas, que me parece vagamente ilógico que, sendo declaradas greves gerais diversas (não me estou, portanto, a referir à greve que ocorreu na passada sexta-feira, ao contrário do que questões diversas de calendário poderiam fazer pensar), os alunos nelas não possam tomar parte, bem como que não seja possível declarar uma greve especificamente para os alunos. Ou melhor, acaba sempre por poder haver uma iniciativa mais oficiosa, mais fora dos trâmites devidos, e talvez seja mesmo isso que tenha mais possibilidades de funcionar…

   Enfim. Desculpem-me a entrada estúpida e inconclusiva, bem como a argumentação de fraca qualidade, mas senti-me levado a escrever alguma coisa e isto foi o melhor que consegui. Um bom fim-de-semana a todos, fiquem bem, comentem (se quiserem) e até à próxima entrada!

22 de janeiro de 2016

Exortação da Juventude

   Em virtude de uma conversa que tive recentemente, houve quem fizesse uma pergunta muito pertinente (e, se essa pessoa estiver a ler isto, espero que aceite os meus agradecimentos, que na altura não lhe pude dar): mas, afinal, o que é que eu pretendo com tudo isto?

   Bom, a resposta é simples: melhorar as coisas, melhorar o ensino em Portugal, e, sendo ele a base de toda e qualquer sociedade, melhorá-la também, por extensão. Só que é algo easier said than done, como diriam os anglo-saxões. Nesse sentido, e visto que (para grande desprazer meu) o paradigma dos Mini-Ciclos de Leccionamento é, pelo menos por agora, menos que exequível (tendo em conta que ainda não foi possível, pela impossibilidade momentânea de ter acesso a todas as áreas do conhecimento humano e às relações entre elas, estabelecer-se a árvore dos módulos, central para a implementação deste paradigma), há que dirigir os esforços para uma luta também necessária, e bem difícil também, que é a contra os exames nacionais. Não, não vou argumentar tudo outra vez. Podem ficar descansados.

   Sei que, até agora, pouco se tem conseguido no sentido de angariar mais apoios e apoiantes nesta luta; divulgar o blog por si só, como até agora (e por falta de melhor via de acção) se tem feito, em nada contribui para divulgar a ideia, o conceito, a mensagem, a contestação. E, num certo sentido, escrever o que quer que seja aqui, pela relativa falta de tráfego e, intrinsecamente, de leitores novos, ainda eventualmente alheios à contestação, também não serve de nada, mas, pelo menos, ficarei com a noção (ilusão) de que estarei a fazer qualquer coisa de minimamente significativo. Então, e independentemente de quantos dos visados realmente lerão isto que escreverei de seguida, tenho de deixar aqui uma mensagem (não, não é essa…) a todos os jovens. Ignorem, claro, o facto de me dirigir a eles (a vocês) como se não fosse um deles (de vós), mas a segunda pessoa fica aqui melhor do que a primeira. Ignorem também a eventual demagogia, mas a minha intenção, garanto-vos, é esclarecer e não iludir (ao contrário da maioria dos exercícios demagógicos…). Ora bem, aqui vai…

Jovens, que esperais com a vossa vida? Sucesso? Emprego? Família? Uma vida perfeita, uma existência feliz, uma vivência quotidiana e agradável?

Pensai, pensai bem, pensai profundamente. Que vos aguarda o futuro? Que sortes, que oportunidades, que maravilhas vos guarda o futuro? Pensai, pensai bem…

Que esperais, que pretendeis com a vossa vida? Assegurar uma existência segura para vós e para os vossos descendentes? Mas, se calhar, essa existência segura pode deixar de o ser sem grande pré-aviso… e, de qualquer das formas, já pensastes que, ao agirdes assim, estais a perpetuar um ciclo por que já passaram os vossos pais, e os pais dos vossos pais, e, talvez, os pais dos pais dos vossos pais, e por aí fora, mantendo-vos, a vós e aos vossos presumíveis descendentes, numa situação praticamente idêntica àquela em que vos vistes pela primeira vez que observastes o Mundo, que é a da constante precaridade ditada pela existência e também pela convivência na sociedade actual (com eventuais variações de intensidade consoante a classe social)?

Pensai, pensai bem, pensai nisto… Que pretendeis com a vossa vida? Prazer e satisfação? Então, como os podeis ter ao vos subjugardes a imposições diversas (de ordem sócio-política, hierárquica, histórica, seja o que for…)? Por mais que isso possa parecer uma via para um bom emprego, talvez correspondendo, em grande medida, aos vossos interesses e aptidões, e que vos permitiria, dentro do género, fazer o que mais vos agradasse, nunca vos ocorreu que há sempre aspectos adversos a vós, a retirar-vos a possibilidade de obter esse prazer e essa satisfação que procurais (mais que não seja porque há sempre obrigações e deveres diversos, que, por definição, têm a particularidade de se sobrepor ao que seria a vossa vontade e ao que vos traria prazer e satisfação)?

Então, pensai, pensai bem, ou melhor, senti! Ignorai ethos, pathos e logos, ignorai todas as razões e critérios e noções que vos foram dadas, ignorai os vossos preconceitos e os vossos pós-conceitos, ignorai os vossos objectivos e propósitos, ignorai tudo isso, e senti, e deixai que seja o vosso interior, o vosso âmago, o vosso íntimo, o vosso subconsciente a responder-vos: estais contentes com o que tendes e com o rumo que levais?

Se a vossa resposta for um rotundo e inabalável “sim”, ignorai tudo o que acabastes de ler e saí imediatamente desta página. Mas, se há uma parte, mesmo que mínima, de vós que acha que a resposta não é tão incontestavelmente afirmativa, lede mais um pouco e ouvi mais um pedaço do que tenho para vos dizer.

É certo que o que vos tenho a propor não vos trará mais prazer ou mais segurança do que se levásseis uma vida normal, mas é igualmente certo que vos dará uma oportunidade de fazer a diferença, de mudar as coisas para melhor. A vida é curta, e os míseros segundos cósmicos que estão reservados à vossa existência não podem, ou não devem, ser desperdiçados em afazeres irrelevantes, em atitudes insignificantes cujo único contributo para a melhoria é tornar as coisas ainda mais solidamente como já eram antes (o que nem sempre corresponde a torná-las melhores…). Estais mesmo dispostos a efectuar tal desperdício, ou ansiais, como eu anseio, por fazer algo mais, por fazer algo mais significativo, por fazer algo melhor?

Se for esta a opção que fizerdes, olhai em volta, olhai em volta e vede o que está mal. Que injustiças se podem eliminar? Que erros se podem corrigir? Que tradições desajustadas, dogmaticamente mantidas pela tendência intrinsecamente conservadora da sociedade, se poderão suplantar? Tantos, sim, tantos! Tantos que dão ânsias de resolver logo todos os problemas!

Talvez não seja possível chegardes (chegarmos) todos a um consenso acerca do que está mal e de como estaria melhor. Talvez sim. Não me atrevo a tentar determiná-lo. Mas, seja como for, pergunto-vos: vedes que há coisas mal, e querei deixá-las assim?

Não! Cem vezes não! Mil vezes não! Vós, que o vedes, que o vistes, ou sabeis ou devíeis saber que os males que vistes só aumentam se os deixardes andar, se não os eliminardes. Oh! Mas é parca a força humana face à imutabilidade granítica das imposições hierárquicas e esclarecidas. Mas vós, que sois, que fostes, que agora vos tornastes minimamente esclarecidos, devíeis também saber que essa força só é limitada pelos limites que vós mesmos lhe impondes, e que a imutabilidade das instituições apenas provém da ausência de esforços para as mudar!

Assim, juntai-vos e mostrai-lhes, a todos eles, a todos esses indefinidos e sombrios eles que conspiram para manter as coisas como estão, que já estais fartos de pactuar com injustiças, que já estais fartos de suportar indesejabilidades! Juntai-vos, uni-vos e mostrai-lhes a vossa força, não para vos beneficiardes, não em prol de uma qualquer ideologia sócio-política, mas em prol daquilo que está certo, em prol daquilo que é devido, em prol daquilo que é mais desejável! Mostrai-lhes que a mudança, mais do que necessária, vem já atrasada! Mostrai-lhes, jovens, mostrai-lhes tudo isso e muito mais, mostrai-lhes, em suma, que sois mais, que sois muito mais, que os insignificantes números a que vos reduzem!

E, por mais insignificante (e, potencialmente, ridículo) que seja, gostava de vos propor, jovens, um alvo que não sendo, talvez, consensual, é, na mesma, simbólico de todas as imposições, de todos os controlos, de todos os domínios, de todas as manipulações: os exames nacionais. “A educação é a ferramenta mais poderosa que podemos usar para mudar o mundo”, como disse Nelson Mandela, e, nesse sentido, há que mudar a educação para que possamos mudar o mundo. É, pois, por aqui que devemos começar.

E, assim, junto a minha voz à vossa (e espero que vós junteis a vossa à minha) num grito, num apelo, num protesto, numa reivindicação: abaixo os exames nacionais!

   Bom, os meus leitores mais habituais que me desculpem o frenesi demagógico (preocupantemente próximo de certos discursos políticos… vade retro, politiquice aguda que me está a querer infectar!), mas deram-me ânsias e furores de escrita que não pude (ou não quis) controlar. Enfim. Se me quiserem dizer alguma coisa, aí fica o espaço de comentários; critiquem (se assim o entenderem) à vontade, porque eu próprio sou o primeiro a admitir que caí completamente no ridículo com esta minha entrada. Mas pronto. Até à próxima…