19 de abril de 2016

Das Faltas e das Soluções (Não Tanto da Falta de Soluções…)

   Os meus cumprimentos a todos os leitores, quem quer que sejam e onde quer que estejam. Tenho de vos agradecer por terem tido a gentileza de passar por aqui e ler mais uma reflexão minha, hoje nada de especial, mas talvez um pouco menos subjectiva que a anterior. Como o título vos permitirá concluir logo à partida, estou hoje aqui para vos falar das multifacetadas vicissitudes dessa prática fantástica de substituir, repor ou permutar as aulas que, por um motivo ou outro, não puderam ter sido dadas.

   Já se sabe que, se um aluno faltar, o problema é dele: o professor esteve lá (a não ser que tenha faltado também…), a aula foi dada, o aluno é que tinha o dever de assistir e não o fez. É bastante discutível se não seria melhor focalizarmo-nos mais na necessidade de fazer o aluno aprender, e não tanto na de garantir que o professor tem alunos que assistam às aulas (assim justificando o seu posto de trabalho e o seu vencimento…), ou seja, se não seria melhor focalizar o ensino nos alunos e não nos professores (no sentido em que o ensino deveria estar feito para assegurar a transmissão dos conhecimentos e não o emprego dos que colaboram para isso…), mas não é isso que está em causa. Queremos saber (e debater) o que raio se deve fazer quando, por qualquer motivo que seja, para agrado ou desagrado dos alunos, um professor tiver de faltar.

   Há duas garantias essenciais e inalienáveis, que deverão integrar toda e qualquer via de acção: o tempo livre dos afectados (alunos e professores) não pode sair prejudicado (pronto, se for apenas marginalmente, ainda podemos desculpar, mas não abusemos…) e a transmissão dos conhecimentos (leia-se a sua eficácia) também não. Isto talvez seja mais fácil de dizer do que de fazer, mas já lá vamos.

   De uma maneira geral, e como será óbvio (espero eu) para uma boa parte dos leitores, há essencialmente dois grandes tipos de situação de falta: aqueles em que, por compromisso inadiável, se sabe previamente que o professor faltará (o exemplo mais significativo, e também mais comum, será o de eventuais consultas médicas), e aqueles em que a falta é mais ou menos inesperada, súbita, provocada por um qualquer acontecimento imprevisível (como seja adoecer o professor ou um familiar de que ele tem de cuidar). Logicamente, as formas de lidar com um e outro tipo de falta terão de ser vagamente diferentes (mesmo que as alternativas sejam, em última análise, praticamente as mesmas), razão por que se fará uma análise separada das duas situações.

   No que toca às faltas com aviso prévio, a eventual antecedência pode permitir-nos lidar com a situação de uma forma mais elegante, efectuando (não sei bem com que grau de legalidade, mas também nem todas as leis e nem todos os regulamentos são dignos de serem seguidos, e há sempre coisas a que, pela sua maior comodidade, podemos todos fechar os olhos…) aquilo que comummente se designa permuta, que é, caso algum leitor não esteja bem ciente disso, a prática de pura e simplesmente dois professores com horários compatíveis (em termos de aulas e de compromissos) trocarem as suas aulas, dando o da disciplina A na hora da disciplina B e o da B na hora da A. Ora, isto faz todo o sentido, porque o número de aulas dadas não se altera com a falta do professor (que já não calha na hora da aula) e não há qualquer alteração do tempo livre dos alunos (já que, a bem dizer, o seu horário permanecerá rigorosamente igual, admitindo, claro, que todos os alunos têm as disciplinas A e B), mas tem o pequeno inconveniente de nem sempre ser possível encontrar professores com horários disponíveis para a permuta (facto ainda mais notório se tivermos em conta os Mini-Ciclos de Leccionamento, que trazem o constrangimento adicional de também se ter de ter em conta o horário de cada um dos alunos matriculados no mini-ciclo em causa, de modo a que a aula do professor que aceitou a permuta – e não a do que a pediu – não coincida com outra que alguns possam ter, e à qual teriam de faltar para ir à aula permutada por necessidade).

   Por outro lado, caso o professor saiba antecipadamente que vai faltar, também pode transmitir a sua planificação a um colega da sua disciplina e/ou área que tenha a disponibilidade, em termos de horário e em termos mentais, para dar a aula por ele, o que, mesmo podendo prejudicar parcialmente o processo de ensino-aprendizagem (pela eventual falta de habituação dos alunos ao professor e vice-versa, que faz com que nem sempre as coisas sejam transmitidas da forma que mais se adequa aos alunos em causa), apenas tem o potencial de afectar o tempo livre do professor que for dar a aula de substituição (mas que, em parte, poderá ser compensado por o professor que faltou dar substituição para cobrir uma eventual falta futura do professor substituinte), sendo, por isso, uma alternativa vagamente viável às permutas (sobretudo porque será menos difícil haver um só professor com disponibilidade do que um professor e uma turma – sobretudo em termos dos Mini-Ciclos).

   Há uma terceira alternativa, que é a da remarcação da aula para uma hora diferente, que, dentro do género, seja conveniente para todos, o que permitiria dar a aula sem grandes complicações e sem grandes diferenças do que se fosse na hora prevista. Há é o grande problema de a hora que, dentro do género, convenha a todos ter forçosamente de ser extra-horário, o que prejudica o aspecto importante do tempo livre (está bem que o professor também não veio no tempo correspondente à aula a que faltou, pelo que o tempo “livre” não foi afectado: o tempo extra-horário criado pela falta foi compensado pela aula extra-horário; quanto aos alunos talvez não seja bem assim, porque, apesar de terem um furo durante a aula, esse tempo – e qualquer aluno bem o sabe – não tem exactamente o mesmo aproveitamento que aquele passado manifestamente antes ou depois das aulas, a não ser, claro, que se dê o caso de a aula não dada ser a primeira ou a última, sendo isso equivalente a os alunos entrarem mais tarde ou saírem mais cedo). Além disto, pode, por vezes, ser difícil encontrar uma hora que convenha a todos, pela eventual existência de afazeres extra-horários diversos por parte dos envolvidos, mas, sabendo-se que o professor faltará com alguma antecedência, haverá, em princípio, tempo para tentar (e conseguir) chegar a um consenso.

   Então, no que toca às eventuais vias de acção possíveis aquando de uma falta antecipadamente conhecida, é isto. Por outro lado, no que toca às faltas mais ou menos súbitas, há algumas diferenças, que reduzem, ou condicionam, as potenciais vias de acção.

   A mais flagrante de todas será o facto de, pela natureza imediata e inesperada deste tipo de faltas, ser praticamente impossível arranjar uma permuta, por o professor que falta não poder combinar nada com os colegas, mais a mais porque, por vezes, estas faltas podem ter uma duração mais ou menos indeterminada, consoante o factor que as originou (pense-se no caso da doença: nem sempre se melhora logo…), levando a que o professor falte em mais do que um dia.

   Um pouco no seguimento disto, também será um pouco difícil recorrer a um professor substituto, por razões semelhantes às anteriores (impossibilidade de o professor que falta lhe transmitir indicações e também eventual necessidade de substituir muitas aulas). No entanto, este problema poderá ser atenuado se (como creio que já se faz, não sei bem com que abrangência, diria que na maioria das escolas, mas talvez esteja a efectuar uma generalização imprópria… corrijam-se se estiver errado, como, de resto, podem – e devem – fazer sempre…) se dedicar uma parte do horário dos professores à substituição de outros professores; o problema será mesmo ter os recursos necessários para que todos os professores que faltem sejam substituídos por um outro professor capacidade para dar a disciplina em causa, e não uma outra coisa qualquer (o que costuma suceder em muitos casos, gerando a abjecção da “ocupação lectiva de tempos livres”, que obriga os alunos a ficar na sala a fazer frivolidades e/ou nada, perdendo tempo potencialmente útil para outras coisas – ainda que essas coisas pudessem passar por asneiras e/ou ilegalidades diversas, o que justifica esta prática aos olhos de muitos, apreciação da qual se torna um pouco difícil de discordar terminantemente). É claro que isto é vagamente ineficiente, porque, quando nenhum professor falta, os professores designados para substituição não terão nada para fazer, mas talvez possam aproveitar esse tempo, quando desocupados, para realizar outras tarefas (burocracia, planificações…), como, de resto, ditaria o senso comum que se fizesse.

   Por fim, a remarcação acaba por ser a alternativa mais exequível, no sentido em que (a não ser que as faltas de prolonguem por muito tempo…) o professor pode, na primeira aula logo a seguir às faltas, agendar logo com os alunos as aulas de reposição necessárias, tentando, também, encontrar o horário que a todos convenha, ainda que a perda de tempo já consumada pelas faltas implique uma certa urgência na remarcação, o que pode atrapalhar o processo de encontrar uma hora que a todos convenha.

   Claro, todas estas vias de acção apresentadas serão, muito provavelmente, do conhecimento dos leitores, até porque correspondem ao que hoje em dia se passa (perdoem-me, então, a inutilidade de escrever tudo isto…). Aliás, para completar a lista, faltará (sem trocadilhos, está bem?) uma outra alternativa, aplicável com ou sem aviso prévio, que é a de pura e simplesmente se ignorar o facto de não se ter dado a aula e continuar como se nada tivesse ocorrido, o que é vagamente exequível no actual sistema de ensino (mais que não seja porque, de qualquer das formas, há aulas desperdiçadas – nem vale a pena pensar mais longe: as famigeradas famosas aulas da rebaldaria de final de período), mas seria pouco viável o abrigo dos Mini-Ciclos de Leccionamento (a não ser que permitíssemos que o leccionamento de cada mini-ciclo se estendesse pelo tempo que fosse necessário, ainda que isto complique ainda mais toda a organização logística da coisa, razão por que, pelo menos, até todo o sistema ter entrado bem nos eixos, com a plataforma e tudo, seria melhor optar-se por não o permitir). No sentido, então, do que disse antes, e como o principal propósito do blog é mesmo o de melhorar o ensino (nunca lá se chegaria pelo nome, não é?), teremos, então, de apresentar eventuais formas de melhorar isto.

   Já sabem o que eu penso acerca do actual sistema de ensino, não sabem? Que deveria ser alterado radicalmente, muito radicalmente, para uma organização melhor e mais agradável, que, para mim (e espero que para pelo menos alguns de vocês…), passaria pelos Mini-Ciclos de Leccionamento. Perdoem-me, portanto, o erro do costume, de me deixar levar pelas minhas convicções (recuso-me a vê-las como ilusões…) e analisar e construir as propostas de melhoramento ao abrigo deste paradigma alternativo, porque propor melhorias só para um aspectozinho deixando erros no resto é pouco mais que inútil, e a minha forma de corrigir o resto corresponderia aos Mini-Ciclos.

   Ora, havendo Mini-Ciclos, teremos a questão do horário individual e individualizado dos alunos, consoante as suas escolhas, e isto praticamente impossibilita permutas, como já disse algures lá para trás, a não ser que todos os alunos do mini-ciclo do professor que falta sejam também os únicos de um outro professor com horário compatível (ou, então, que os alunos do mini-ciclo permutado sem ser por falta tenham a sorte de ter a hora do mini-ciclo a que o professor faltaria desocupada, o que talvez fosse muito pouco provável…). Assim sendo, esta não é uma solução admissível.

   Por outro lado, e também como referi anteriormente, seria demasiado complicado, em termos logísticos, caso os mini-ciclos se pudessem arrastar no tempo, ad infinitum, e, pela sua curta duração, não se poderia propriamente perder aulas (já que não haveria a necessidade de se ter aulas “para encher” e/ou para obedecer aos constrangimentos do calendário escolar), sob pena de prejudicar a aprendizagem dos conhecimentos em causa (que, em princípio, será o objectivo central do ensino). Tudo isto nos levará, então, a concluir que a solução de se ignorar o facto de se ter faltado também terá de ficar de parte.

   Restam-nos, portanto, duas soluções: substituir e remarcar (assim escrito quase parece uma qualquer táctica militar e/ou desportiva…). Ora, para que a substituição corresse bem (e ignorando completamente as ocupações lectivas de tempos livres, que têm ainda menos razão de ser ao abrigo dos Mini-Ciclos porque as aulas estariam vocacionadas para transmitir conhecimentos e não para perder tempo com tarefas de chacha…), teríamos de ter uma grande dose de professores à mão, de modo a poder cobrir todas as falhas, e isso iria aumentar mais ainda as já significativas necessidades de recursos deste sistema de ensino alternativo; podemos, para atenuar esta necessidade de recursos, recorrer mais uma vez às aulas à distância (gerando algo como “vídeo-aulas de substituição”?), com um professor centralizado a dar, via vídeo-conferência, a aula de substituição aos alunos que dela possam necessitar, mas isto não elimina o problema subjacente.

   Nesse sentido, a remarcação de aulas parece ser a única solução que falta analisar. Temos, claramente, um problema muito análogo ao que se passa com as permutas: as grandes diferenças que os horários dos alunos de um mesmo mini-ciclo podem apresentar tornam praticamente impossível encontrar uma hora livre que convenha a todos. Só que, ao contrário do que se passa com as permutas, talvez possamos dar a volta a isto: conforme já proposto no texto dos Mini-Ciclos, especificamente na Inovação, podemos criar um certo período de tempo (creio ter sugerido a tarda de sexta-feira, ou parte dela) exclusivamente para aulas de reposição (daí que se lhe chamasse “período de reposição”), estando desimpedido se não houver necessidade de as ter, e só se tendo de jogar com as aulas de reposição dos vários alunos do mini-ciclo em causa de modo a arranjar uma hora conveniente (ou seja, só se teria de garantir que a aula não calharia à mesma hora que outra aula de reposição que alguém no grupo de alunos que frequenta o mini-ciclo possa ter, e, sendo, de uma maneira geral, pouco provável que uma grande quantidade de professores falte ao mesmo tempo, isto não deverá ser muito difícil de se gerir…). Esta será, porventura, a forma menos problemática de garantir que as aulas são dadas, e nunca é de mais relembrar que a ausência de testas, trabalhos e males semelhantes, ao abrigo dos Mini-Ciclos, implica que o eventual impacto que estas reposições possam ter no tempo livre dos alunos seja muito menos significativo (além de que este “período de reposição” não é tempo livre… é, apenas, um segmento do horário raramente utilizado para fis oficiais, se me permitem a pouco clara distinção, mais retórica do que semântica, e mais semântica do que lógica…).

   Chegámos, pois, ao fim desta reflexão acerca das aulas de substituição. Mas isto não ficaria completo se não frisasse que, em última análise, numa situação ideal, aliás, numa situação mesmo ideal, não seria necessário haver aulas de substituição, porque não haveria motivos para se faltar, só que, como bem sabemos, as coisas ainda não estão tão ideais quanto isso e, por isso, este é um problema com que temos e, tanto quanto o futuro nos deixa ver, teremos sempre de lidar.

   Temo mais uma vez ter sido demasiado ligeiro, demasiado superficial ou demasiado… enfim, estúpido na minha abordagem, e lamento imenso por isso, mas, por qualquer razão, não tenho conseguido encontrar temas ou reflexões mais pertinentes. Aceitam-se sugestões, como sempre, além de comentários e críticas. Já sabem que têm o espaço de comentários, aí em baixo, à vossa espera e à vossa disposição.

   Um bom dia (ou tarde, ou noite) a todos e até à próxima.

11 de abril de 2016

Da Arte (e) do Ensino, Do Ensino (e) da Arte

   Antes de mais nada, bom dia a todos os leitores. Agradeço-vos por, mais uma vez (ou, se for esse o caso, pela primeira vez), dedicarem uns momentos do vosso tempo a ler estas palavras que aqui escrevo. É uma coisa de que me costumo esquecer (aliás, é uma coisa de que me esqueço quase sempre…), agradecer-vos por me lerem, mas hoje fi-lo. Ora bem, without further ado, como diria um qualquer anglo-saxão, prossigamos para o tema que adoptei, que é precisamente o da questão de se englobar a arte no âmbito do ensino (ensino artístico), e dos eventuais prós e contras de tal prática.

   Ora bem, convenhamos, em última análise, toda e qualquer informação passível de ser adquirida pelo ser humano é digna de nota e, por extensão, digna de ser transmitida através do ensino, o que só nos poderá levar a concluir que, ao fim e ao cabo, até que é desejável ensinar arte. Aliás, se formos a pensar bem, a arte também acaba por desempenhar um papel, mesmo que minimamente, importante na vida de cada um de nós (no nosso bem-estar mental, se assim o quisermos dizer), e, nesse sentido, fará todo o sentido que promovamos a arte.

   Só que temos um problema: será que podemos mesmo transmitir arte, será que é possível ensinar alguém a fazer arte? Muita filosofia se poderia fazer a partir desta interrogação, mas, de uma maneira geral, sinto-me inclinado a dizer que não. É que, mais que não seja, pela minha experiência pessoal (pouco válida do ponto de vista argumentativo por ser pouco representativa do que poderá ser a experiência de todos, mas enfim…), sou levado a pensar que a arte não resulta do seguimento de um conjunto de passos específicos, estilo receita de culinária, mas sim de um conjunto de sensações, intuições e inspirações de génese e natureza mais ou menos metafísicas, tendo, portanto, um elevado carácter subjectivo e, sobretudo, pessoal. Ora, mesmo não admitindo que isto assim o é de uma forma radical, dificilmente se poderá dizer que, conhecendo todas as técnicas de pintura de Van Gogh, por hipótese, e utilizando materiais (tela, tinta, pincéis…) idênticos aos dele, teremos todas as condições para fazer arte, bastando, para tal, pintar. Ou, para vos dar um exemplo alternativo, não é por conhecermos todas as mais diversas formas de poesia, das mais familiares, como os sonetos, às mais exóticas, como o asefru (forma de poesia originária da Cabília, no norte da Argélia), que poderemos fazer arte. Tudo isto para dizer, portanto, que a arte não surge da técnica por si só.

   Claro, nisto tudo está subentendido o facto (até agora não enunciado, fosse lá porque fosse… perdoem-me a falha, mas não consigo reunir em mim a vontade de reformular tudo o que escrevi até agora…) de que só a técnica poderá ser transmitida directamente, via ensino. A parte mais subjectiva pode ser mais ou menos estimulada, de uma forma ou de outra, mas isso não significa que se a possa transmitir da mesma forma que a técnica. E isto deixa-nos em que posição? Afinal, se não se pode transmitir arte, e se até que seria bom se transmitíssemos arte, estamos mais ou menos condenados a falhar. Apesar de isso ser uma condição praticamente intrínseca à existência…), e, em particular, à existência humana (pergunto-me se não inteiramente coincidente com ela), a falha é uma coisa, por definição, indesejável, pelo que não poderemos deixar as coisas neste estado. Teremos, então, de arranjar uma solução.

   E essa solução teria mesmo de passar por uma acção mais ou menos bipartida, que a alguns leitores talvez já fosse óbvia: por um lado, tentar fazer com que a sociedade, no seu todo, promova e incentive a produção artística (ainda que isto seja uma daquelas coisas mais fáceis de dizer do que de fazer, sendo que, para ser feita em condições, exigiria uma sociedade bastante diferente da actual, com outro tipo de estruturação e organização, mas não vale a pena – pelo menos, por agora – ir por aí…), e, por outro lado, recorrer ao ensino para transmitir precisamente as técnicas da produção artística (na vagamente infundamentada esperança de que isso possa, também, permitir aos alunos desenvolver o apreço e a prática da arte).

   Mas atenção: estas técnicas seriam transmitidas sempre com a precisa ressalva de que se trata única e exclusivamente de técnicas artísticas, não se garantindo, nem exigindo, de modo algum, que os alunos produzam arte. Isto apaziguaria, logo à partida, algumas mentes mais indignadas pela sua produção artística nula, ou quase nula, mesmo depois de verem reconhecido que dominam uma ampla gama de técnicas artísticas, além de deixar bem claro a alunos e professores o que raio se está ali a fazer (o que, e não me posso impedir de o dizer, corresponde, nalguns casos, ou talvez até em muitos, a “nada”, para ambos os grupos…). É certo que renomear o que hoje seriam cursos artísticos (ou de artes, que não será exactamente a mesma coisa…) soa um pouco àquelas reorganizações político-administrativas que deixam tudo igual, mas com letreiros pintados de fresco, simbologias novas e aumentos das remunerações dos administradores, mas só assim poderemos ser explícitos no que dizemos, sem ambiguidades interpretativas que poderiam deitar esta intenção de transmitir arte a perder.

   Adicionalmente, esta designação é meio caminho andado para impedir que mentes mais brilhantes decidam avaliar os alunos precisamente pela componente artística das tarefas que desempenham (não tenho bem a certeza do quão recorrentes são, serão ou seriam estas situações, mas alvitraria que serão tudo menos inexistentes…); em vez disso, a avaliação (não bem avaliação, mas verificação…) ocorreria exclusivamente com base no facto de o aluno ter conseguido, ou não, aplicar os princípios por detrás da técnica em causa, apenas no intuito de garantir que ele, de facto, adquire essa técnica. Claro, isto nunca nos impediria de estimularmos os alunos a fazer obras de arte (nem os impediria de as fazer, com ou sem as técnicas adquiridas…), e permitiria garantir que ninguém sairia prejudicado por o seu sentido artístico contrastar ou colidir com o do professor. É certo que também poderíamos estar a abrir as portas a uma certa pragmatização (indesejável, diga-se de passagem) da arte, ao apenas exigirmos aos alunos que adquiram e apliquem determinadas técnicas, mas, repito, a ideia do ensino “artístico” seria ensinarem-se técnicas de produção artística e não ensinar-se a fazer arte em si (porque, também o convém repetir, a arte não é uma coisa propriamente transmissível).

   Mas escusado será dizer (pelo menos, para os leitores mais habituais, que já deverão saber o que esperar daqui…) que isto tudo, ao abrigo do actual sistema de ensino, não faz muito sentido, porque, por um lado, talvez nem todos os artistas de uma dada área estariam interessados em aprender as mesmas coisas, pela mesma ordem (por exemplo, tocar piano e tocar clarinete são duas coisas bastante diferentes, e não tão indissociáveis assim…), e, por outro lado, nem todos os artistas estariam interessados em ter, por arrasto, uma batelada de outras matérias, menos artísticas, que lhes seriam impostas caso todo o ensino artístico fosse englobado no ensino normal, e, por outro lado ainda (há-de se tratar de um triângulo, porque tem três lados…), talvez houvesse quem quisesse complementar perfeitamente a aprendizagem artística com uma outra aprendizagem mais científica, ou humanística, ou seja o que for, e não o poderia fazer por ter de escolher uma e uma só via. Nesse mesmo sentido, e também porque o actual sistema de ensino não apresenta exactamente os melhores instrumentos de avaliação, faria mais sentido que tudo isto ocorresse de acordo com os Mini-Ciclos de Leccionamento, que garantiriam precisamente a flexibilidade necessária a tudo isto correr bem; claro, no caso das actividades que se intersectem com outros conhecimentos (surge-me a arquitectura, vagamente relacionada com engenharias diversas), a interligação entre ambos é favorecida por esta organização.

   É certo que isto pode ser uma mudança pouco significativa, no cômputo geral, mas, se aproximarmos (mais ainda) o ensino de todas estas técnicas artísticas – literárias, musicais, dramáticas, fotográficas, cinematográficas, e por aí fora – daquilo que é hoje o ensino “regular”, mainstream, se assim preferirem, sem marginalizar os estudantes que as desejem aprender, só estaremos a contribuir para aumentar o prestígio dessa actividade, afinal importante, mesmo que amiúde esquecida, que é o de fazer arte. Além de que, ao tornarmos estas áreas verdadeiramente iguais às outras, com perfeita aceitação social e sem estigmatizações diversas dos seus estudantes, também estaremos a aumentar a flexibilidade e a liberdade na escolha dos conhecimentos, o que é sempre um bom objectivo, porque, diga-se o que se disser, ninguém aprende bem contrariado.

   E creio que será isto. Os leitores que me perdoem a eventual insignificância do tema e/ou a superficialidade da abordagem, mas mais não pude fazer. Se tiverem alguma sugestão, algum reparo, alguma crítica ou alguma opinião que queiram expressar, estejam à vontade (como sempre) para usar o espaço de comentários, ou, se preferirem contactar directamente comigo (com o autor), as possibilidades apresentadas nos Contactos.

   Uma boa semana a todos e até à próxima.

23 de março de 2016

Dos Alunos, Pais e Encarregados de Educação Reunidos

   Saúdo todos os leitores, como não poderia deixar de ser. Após esta pequena pausa mais ou menos voluntária para rever o texto dos Mini-Ciclos de Leccionamento, quis fazer uma entrada a sério, sobre alguma coisa central, fulcral, relevante, mas entrei no habitual drama de falta de tema e/ou de inspiração. Felizmente (ou assim não tanto, mas pronto), pude encontrar esta temática que, não sendo totalmente desprovida de relevância, não é, de modo algum, suficientemente para ser mais que um fait divers… Mas não vale a pena entrar nesta cantilena de deprecição do tema ou do texto, vamos, mas é, ao que interessa, que, neste caso, corresponde às reuniões que surgem em contexto escolar, quer de pais e encarregados de educação, quer de conselho de turma.

   A noção instintiva que qualquer bom português tem da eficiência e utilidade (ou falta delas) que qualquer aspecto administrativo-burocrático possui permite-nos facilmente concluir que as reuniões de conselho de turma e de pais e encarregados de educação, na maioria dos casos, não servem para nada. São um mero pro forma, uma mera formalidade para se poder dizer que se cumpriu os requisitos e se integrou os pais na comunidade escolar e na aprendizagem dos filhos e os alunos, nos processos decisivos diversos acerca da turma. Ainda para mais se tivermos em conta que a sociedade (e, neste caso em particular, o ensino) é tendencialmente conservativa, pelo que haverá sempre razões lógicas e impedimentos legais à implementação de quaisquer sugestões que possam ser feitas no sentido de melhorar as coisas.

   Não me interpretem mal; por um lado, é pedagogicamente lógico (ou logicamente pedagógico, não tenho bem a certeza…) que o professor, directa ou indirectamente, possa transmitir à globalidade dos pais e encarregados de educação o feedback que tem relativamente à turma no seu todo (e, se necessário, a alguns pais e encarregados de educação em particular questões mais sensíveis acerca dos seus educandos), bem como os resultados dos processos avaliativos; por outro lado, também é positivo que os alunos e os pais e encarregados de educação estejam presentes no conselho de turma, para que possam ser transmitidas, através dos seus representantes (admitindo que são verdadeiramente representativos, mas isso é outra história…), as suas opiniões/sugestões, também para resolver eventuais problemas que possam surgir. Só que, e não me posso impedir de o dizer, estas necessidades não teriam, idealmente, razão de existir, por não haver processos avaliativos formais… nem turmas… nem questões a resolver em termos do funcionamento prolongado das aulas… Sim, apanharam-me: estou a falar dos Mini-Ciclos de Leccionamento.

   Bom, estas minhas divagações incontroladas e incontroláveis à parte, mesmo admitindo que as coisas estavam abertas à mudança, e que tudo corria bem e todos eram devidamente ouvidos, esta história das reuniões acaba por deixar uma lacuna muito relevante: a crítica. É que, se se for a ver bem, nestas reuniões, lida-se directamente, cara-a-cara, com o director de turma (e, no caso dos conselhos de turma, com o resto dos professores da turma) e, indirectamente, com todo o grupo de professores e toda a estrutura do sistema de ensino, pelo que se torna inviável (se não mesmo impossível) criticar convenientemente o que está mal, ou, pelo menos, criticar convenientemente o que está mal sem dar azo a potenciais retaliações mais ou menos vingativas. Para ser mais concreto e vos dar um exemplo (coisa que não aprecio muito, mas pronto…), caso, numa reunião de conselho de turma, o representante dos alunos acuse um professor qualquer de ser demasiado ríspido e explicar as coisas demasiado rapidamente, não será, de todo, descabido esperar que esse problema só se agrave (devido a um raciocínio do género “Ah, é? Agora já vão ver o que é ríspido e depressa!” por parte do professor). É claro que se trata mais de um mal da essência humana do que do sistema de ensino, mas, ainda assim, poderemos fazer alguma coisa para melhorar este aspecto.

   E essa coisa seria, pelo menos, para mim, implementar um qualquer sistema de feedback anónimo de alunos e pais/encarregados de educação para professores, no qual se poderia, dentro do género, avaliar (sim, é de propósito…) o professor e/ou apontar sugestões ou críticas; isto ficaria bonitinho se fosse um formulário, com identificação do professor e algum tipo de questionário vagamente semelhante aos de satisfação do cliente, ao abrigo do qual se poderia atribuir uma classificação (continua a ser de propósito…) ao desempenho do professor. Este feedback teria de ser garantidamente anónimo, para minimizar represálias, pelo que talvez se recorresse a caixas de entrega mais ou menos espalhadas pelas escolas, ou, então, para facilitar a vida a todos, através de um formulário on-line, nas páginas das escolas, a que se poderia aceder através das múltiplas vias de anonimização informática (que não vale a pena debater aqui…). Está-se mesmo a ver que isto seria mais um serviço a incluir na plataforma dos Mini-Ciclos…

   É certo que este tipo de feedback poderia ser aproveitado para manipular contratações e despedimentos diversos, mas, se, em vez de os focarmos unicamente em prosseguir os nossos fins mais ou menos sórdidos, nos centrarmos em fazer as coisas melhor e, sobretudo, em fazer as coisas melhores (o que, por si só, já é pedir muito…), talvez possamos, ao criarmos esta questão das sugestões/críticas, melhorar o trabalho dos professores, por vezes já naturalmente excelente (espero que quem leia e assim seja perceba que o é…), outras vezes… até que nem tanto, o que só contribuirá para melhorar o ensino. É certo que isto é tudo muito utópico e irrealista, mas, convenhamos, se, por um momento que seja, deixarmos de parte o “dizer mal só por dizer mal”, e não presumirmos que tudo o que dizem e fazem é contra nós, talvez possamos, na globalidade, facilitar mais a vida de todos.

   E é isto. Sei que foi muito breve, muito pobre e muito superficial, mais foi o melhor que se conseguiu. Espero que melhores temas e melhores inspirações venham em breve… Em qualquer dos casos, se estiverem por estas bandas e tiverem vontade de comentar, nem que seja para criticar duramente, estejam à vontade para o fazer. Da minha parte, apenas vos posso assegurar que vos irei responder conforme possa.

   Resta-me, apenas, despedir-me de todos vós, leitores… No caso de só nos vermos (aliás, lermos) para a semana, e no caso de festejarem esta época, uma boa Páscoa para vocês… caso contrário, fiquemos pelo já habitual “até à próxima entrada”…