10 de maio de 2016

Do Público e do Privado

   As minhas mais calorosas saudações a todos vós, caros leitores. Espero que não tenham passado despercebidas a nenhum de vocês as notícias que ultimamente têm surgido relativamente às questões do ensino público versus ensino privado, e da cessação dos contratos de associação. Este é uma tema inerentemente muito politizado, e isso demoveu-me, durante algum tempo, de escrever sobre ele, mas ao ver que estava a ser tão falado, não resisti a fazer uma entrada sobre isto. Provavelmente, já venho um pouco tarde, porque o tema talvez já esteja a perder destaque nos media, estando a ser substituído por outros de maior relevância (ou talvez até nem tanto…), mas isso pouco me importa… Por isso, caros leitores, e se não vos incomodar muito o meu desfasamento, prosseguirei para uma (moderadamente superficial) reflexão sobre todas as questões em torno do ensino público e privado e das relações entre ambos.

   Antes de mais, convém destacar que a minha apolitização (voluntária) implica que me absterei de tecer quaisquer comentários relativamente à desejabilidade ou indesejabilidade da decisão de cessar os contratos de associação (ainda que seja sempre importante frisar que é de suprema importância que os alunos em nada saiam prejudicados, ou seja, que não vejam a continuidade da sua aprendizagem ser interrompida por uma mudança de escola forçada; é certo que também há outros factores que causam mudanças forçadas de escola, mas isso, sendo igualmente indesejável, não pode justificar mais indesejabilidades…), e, por outro lado, a temática específica deste blog (e o facto de ainda não ter elaborado nenhum paradigma social alternativo de uma forma suficientemente pormenorizada e sistematizada para o poder apresentar) também me obriga a não exprimir qualquer tipo de opinião relativamente à desejabilidade ou indesejabilidade da existência de coisas públicas e de coisas privadas per se, in abstractum (perdoem-me a vaga de latinismos…).

   Já antes aqui falei do Negócio do Ensino, ou seja, do facto de, em última análise, o actual sistema de ensino ter uns quantos aspectos que servem mais para alimentar determinados nichos económicos que para seguir aquele que é, ou deveria ser, o seu principal propósito, o tal de ensinar (eu sei que digo sempre o mesmo, mas nunca é de mais frisar aquilo que é óbvio, mas foi esquecido…). O ensino privado não foge a essa regra: a não ser nos casos em que estejam ligadas a iniciativas filantrópicas e/ou solidárias, parece-me lícito assumir que todas as escolas privadas têm como principal (não direi “único”, mas acho que anda lá perto…) propósito dar lucro. O que, convenhamos, no actual paradigma social, até que nem é mau: mais circulação de dinheiro faz, pelo menos em teoria, crescer a economia, o que gera mais circulação de dinheiro, e por aí fora, num ciclo mais ou menos positivo e benfazejo; o problema é que nem todo esse lucro retorna à economia (há bolsos que se enchem e contas em locais mais ou menos longínquos e exóticos que se alargam…), mas isso é outra história…

   Por outro lado, no ensino público, esse propósito lucrativo não é tão preponderante (poder-nos-íamos questionar acerca da questão do preço das folhas de teste, de impressos diversos com fins burocráticos diversos e dos pedidos de inscrição e de revisão de exames nacionais, mas nem vale a pena ir por aí…), mais que não seja porque o ensino público nada mais é que uma pseudo-divisão de uma pseudo-empresa mais abrangente, que é o Estado, que, esse sim, já pretenderá ter lucro (ou melhor, balanço positivo em termos de receita e despesa, o que não é exactamente o mesmo, mas é suficientemente parecido para ser quase igual…). Mas, claro, o ensino público (e também o privado) contribui indirectamente para outros lucros: das editoras, das papelarias, das áreas comerciais que possam vender material escolar…

   Pronto, tudo isto para dizer que é perfeitamente compreensível que, ao abrigo do actual paradigma social, os estabelecimentos de ensino privado sejam negócios e não instituições ao serviço da comunidade. Mas agora, será isso desejável? Eu… diria que nem por isso. É que, independentemente de questões legais diversas (a Constituição Portuguesa, a Declaração Universal dos Direitos do Homem e outros documentos de cariz e carácter semelhante), poderemos todos concordar que ensinar é benéfico não só para o ensinado (porque adquire conhecimento, o que é bom – o actual sistema de ensino é que tende a torná-lo mau, mas não vou por aí, porque já sabem onde é que isso vai dar…), mas também para a sociedade em que este se insere (porque cidadãos com mais conhecimentos podem, à partida, tomar decisões melhores e, eventualmente, desenvolver mais ideias para melhorar a sociedade, embora o conhecimento não seja condição necessária nem suficiente para nenhuma destas coisas), e isto implica que ensinar é um serviço que prestamos a todos. Portanto, pode-se dizer que o ensino privado acaba por ser, na maioria dos casos, fruto de uma atitude a priori (mais um latinismo; desculpem lá, mas parece que hoje embiquei para aí…) errada, que é a de ver o ensino como uma oportunidade de prestar um serviço a alguém (cobrando-lhe por isso) e não a todos (logicamente, sem lhes cobrar).

   Mas, enfim, não se pode propriamente dizer que venha grande mal ao mundo só por causa disso… Teoricamente falando, e tendo em conta o actual paradigma social de mercado livre (que me absterei de classificar como “certo” ou “errado”), faria sentido que qualquer um pudesse abrir as escolas que quisesse, desde que, para isso, cumprisse os requisitos legais, tivesse o pessoal necessário e dispusesse dos meios financeiros para manter tudo a rolar, garantindo-se, também, que os alunos dessas escolas estariam em pé de igualdade, em termos de conhecimentos e capacidades, entre si e relativamente aos alunos das escolas públicas. E é aqui que está o principal problema. Se os privados (não sei bem em que proporção, mas diria que de uma maneira geral) tendem a ter melhores condições, melhores professores e melhores apoios (o que, teoricamente, se traduziria em melhores resultados), isso é mais falha da escola pública (e, inerentemente, do Ministério da Educação e do Estado) do que culpa dos privados, mas, por outro lado, havendo dinheiro envolvido (e, por vezes, em quantias não tão insignificantes assim…), nunca se poderá descartar a hipótese de favorecimentos indevidos, o que, mesmo sendo, por vezes, mais estigma que facto (até porque deverá haver, algures, instituições idóneas…), não deixa de ser fonte de potenciais desigualdades de circunstâncias. Muitos diriam que é aqui que entram os exames, mas a esses direi que é (relativamente) fácil efectuar-se um treino específico para se ter melhores notas (não nos esqueçamos de que, na maioria dos casos, as escolas privadas terão mais facilidade em arranjar salas, professores e horários para apoios diversos, chegando a ter, segundo creio, segmentos do horário dos alunos pré-designados para isso), e também que há sempre a hipótese de fraudes e auxílios teoricamente ilegais durante o próprio exame (isto é mais especulativo que comprovado, mas talvez haja algum fogo por detrás deste fumo…). Mas pronto. Se não houvesse notas que se pudessem falsificar nem exames para defraudar, não haveria estes problemas, e estaria, assim, reposta a igualdade. E, se me perguntarem a mim, o melhor seria mesmo os Mini-Ciclos de Leccionamento (desculpem, mas, mais uma vez, não resisti…), e, aí, talvez se pudesse saltar mais ou menos livremente entre público e privado, ou talvez a relação entre ambas algo mais exótico, que agora não posso imaginar.

   Partindo, então, do pressuposto de que ensino público e privado estão em pé de igualdade (o que, ao fim e ao cabo, é um grande prossuposto de se partir…), só por muito má vontade diríamos que os alunos (e/ou respectivas famílias) não poderiam ser livres de escolher entre escolas públicas e privadas, desde que, claro, houvesse disponibilidade financeira para tal. Nesse sentido, se se der o caso de, numa dada região, a rede de escolas públicas não ser suficiente para suprir as necessidades locais (seja pela baixa oferta, seja pela elevada procura…), seria perfeitamente lícito que se recorresse à rede de escolas privadas para colmatar as falhas, desde que isso não representasse um encargo adicional para as famílias, até porque a educação deve ser tendencialmente gratuita e tal. E, ou muito me engano, ou isto correspondia aos contratos de associação.

   Mas a questão é que isto não deve ser visto como uma solução permanente, mas sim temporária, porque (precisamente por a educação dever ser tendencialmente gratuita e tal), acaba por ser o dever do estado garantir que todos os cidadãos têm acesso a uma escola, e, nesse sentido, a forma mais eficiente (economicamente falando) de o fazer deverá passar por ser o próprio governo a criar e suportar todas as infra-estruturas necessárias, o que corresponde a manter a rede de escolas públicas. Assim sendo, o que se fez, que foi fechar escolas públicas e depois pagar aos privados para terem os alunos, não é, de todo, o mais desejável, até porque, se não estou equivocado, ficou-se a pagar mais aos privados do que se pagaria pela mesma turma no público. Está bem que as escolas privadas, pelas suas especificidades intrínsecas, são capazes de ter mais custos de funcionamento, mas também não me posso impedir de perguntar até que ponto não houve abotoamentos, ou seja, presentes (e não falo daquilo que os cães fazem) a certas e determinadas pessoas, que ocupam certos e determinados cargos, para decidirem de uma certa e determinada forma… Mas isto já é política, e não vale a pena irmos por aí.

   Mas também não podemos ignorar uma potencial objecção, relativamente relevante, à inexistência do ensino privado, ou, pelo menos, de escolas independentes do Estado. É que, independentemente de teorias da conspiração diversas, não podemos descartar nunca a possibilidade de se utilizar o ensino como instrumento de manipulação e condicionamento mais ainda do que agora é, e, nesse sentido, deixar tudo nas mãos do Estado (que, nessa possível distopia, seria a fonte primária e o principal beneficiário dessa manipulação e desse condicionamento) é acelerar, se me permitem o exagero lírico, os seus nefastos planos. Mas não nos iludamos: também não é tão difícil assim chegar a um gentlemen’s agreement com os possíveis donos das possíveis escolas privadas no sentido de garantir que a manipulação e o condicionamento também aí ocorram…

   Outra questão que se torna difícil de evitar é a dos apoios estatais às famílias que, por opção, pretendam pôr os seus filhos a estudar nos privados, mas que, na mesma, são taxadas para (entre outras coisas, claro…) assegurar a educação dos filhos, e não recebem qualquer benefício disso. Uns colmatam as falhas dos outros, e tudo o mais, mas percebe-se que possam reclamar o direito de escolher a educação dos filhos e ser ressarcidas do que lhes foi indirectamente cobrado, para uma despesa que, para elas, é perfeitamente desnecessária. Eventualmente, poder-se-iam sugerir várias soluções, desde as mais simples, como seja o estado contribuir com o mesmo dinheiro que gastaria com os alunos em causa na pública para pagar, em parte, as mensalidades da privada, até às mais complexas, como criar um qualquer outro sistema de contribuições que também tenha em atenção o uso que se faz dos serviços públicos, mas isto já tem demasiado a ver com alterações do paradigma social e, como disse, isso é uma coisa que, pelo menos aqui, pelo menos por agora, não quero abordar.

   Então, depois de tudo isto, em que é que ficamos? Haver públicos e privados é bom ou mau? Diria, se me permitem a ambiguidade e inconclusividade, que depende muito das circunstâncias, mas também que essa distinção é, em última análise, marca e consequência da actual organização da sociedade, que, possivelmente, não será, por si só, inteiramente livre de erros, pelo que, à semelhança do actual sistema de ensino, talvez esteja a precisar de umas quantas alterações… Talvez um dia debateremos isso, mas não será hoje…

   Então, despeço-me, sem mais assunto, sem mais vontade, sem mais inspiração, até à próxima entrada…

30 de abril de 2016

Das Escolhas Mais ou Menos Atribuladas

   Saudações a todos meus leitores. Espero que estejam todos bem desde a última vez em que nos encontrámos (mesmo que eu, dessa vez, não soubesse se estavam, ou não, bem, tal como agora não sei…). É uma coisa vagamente importante de se manifestar, o desejo de que tudo esteja bem com as pessoas com quem contactamos (e com todas as outras também, mas, a essas, torna-se impossível manifestar esse desejo…), ainda que seja mais ou menos uma futilidade que nos desvia do assunto. Que, diga-se de passagem, hoje também não é nada de jeito. Como ultimamente tem sido costume… Perdoem-me a falta de inspiração e de temas, e, como já me fartei de dizer, estejam à vontade para me transmitir quaisquer sugestões ou críticas que possam ter no intuito de melhorar estas minhas entradas.

   Ora, hoje, por razões e perspectivas que nada interessam para aqui, senti-me levado a fazer algo um pouco diferente, num tom um pouco mais pessoal, mais íntimo, e não no estilo pseudo-filosófico, pseudo-argumentativo, que habitualmente adopto (e que, no fundo, é apenas chato…). Tenho, naturalmente, algumas reservas em derramar o conteúdo do meu interior para aqui, indiscriminadamente, pelo que também não será algo tão íntimo quanto isso, e também não sei até que ponto estarão interessados no que tenho para dizer (algo me leva a prensar que talvez um pouco mais do que nas habituais paredes de texto mais ou menos enormes, por vezes excessivamente confusas, outras vezes pouco relevantes, e espero que não esteja errado…). Em suma, não esperem daqui uma grande exposição filosófica da treta, mas também não esperem uma página de um diário. Será, se assim o quisermos ver, um desabafo, contido, é certo, mas um desabafo ainda assim. Sei, ou melhor, suspeito que alguns de vós se poderão relacionar com ele, e, em parte, é por isso (e, portanto, por vós) que o faço.

   Todos nós estamos, no nosso dia-a-dia, habituados a fazer escolhas. “Vou pela esquerda ou vou pela direita”, “visto a camisola verde ou a castanha”, “como um pastel de nata ou um bolo de arroz”, “marimbo-me para o teste e vou fazer outra coisa qualquer que mais me agrade ou vou empinar aquela porcaria toda”, e muitas outras mais, que enfrentamos com frequência no nosso quotidiano, muitas vezes sem sequer repararmos nisso. Se fosse outro que não eu, diria que é um facto inevitável da vida, mas há uma parte de mim que rejeita toda e qualquer inevitabilidade (e o que aqui direi transparece isso mesmo…), pelo que direi, apenas, que se trata de um facto muito recorrente e, de uma maneira geral, muito chato. É que, independentemente da questão de a decisão ter sido a mais acertada (porque isso, além de ser muito relativo, é muito difícil de se determinar a não ser algum tempo depois – e mesmo assim a causalidade natural e o inerente efeito borboleta poder-nos-iam pregar partidas…), optar por uma coisa tenda a impedir que se dê seguimento às outras, e isso é ainda mais chato. É claro que isto nem sempre é preocupante (se se levar a camisola verde hoje, pode-se levar a castanha amanhã, sem qualquer problema), mas há situações em que pode determinar toda uma vida, como é o caso do ensino.

   Da forma como hoje em dia estão organizadas as cosias, deparamo-nos frequentemente com essa obrigação inescapável de escolher uma via de futuro, um curso, uma área de especialização, o que tem como consequência precisamente o facto de impedir, ou, pelo menos, dificultar, que se sigam as restantes. É claro que, da forma como a sociedade está hoje organizada (e, num certo sentido, já deste das primeiras comunidades de hominídeos), a distribuição de tarefas é indispensável e, nesse sentido, o generalismo de pouco ou nada serve, e, aliás, a própria natureza do conhecimento humano dificulta bastante que se saiba tudo sobre todas as áreas, mas, se é inegável que todos os indivíduos têm uma tendência natural para certas matérias/tarefas, que os torna mais bem-sucedidos aí do que nas restantes, é igualmente inegável que essa tendência nem sempre é para uma área restrita e bem-determinada. Não é, de todo, impensável que alguém tenha, por exemplo, uma afinidade natural para com tudo quanto seja Química Orgânica e, ao mesmo tempo, também tenha igual queda para História (e não falo no sentido em que ambas podem estar relacionadas, falo mesmo delas enquanto áreas distintas). Assim sendo, faz pouco sentido que os indivíduos sejam, a dado ponto, forçados a abdicar de uma das suas facetas pura e simplesmente por causa de limitações/deficiências organizacionais de um qualquer aspecto da sociedade (que, neste caso em particular, é, mais uma vez, o ensino).

   Portanto, forçar a escolha é mau. Percebe-se que há recursos limitados, que um aluno não pode estar em dois sítios ao mesmo tempo (vamos, para propósitos de simplificação, ignorar as complexas questões do funcionamento quântico do Universo, está bem?), mas não podemos, prevendo essa possibilidade de haver uma impossibilidade técnica, impor constrangimentos a priori, que impedem que, havendo possibilidade de seguir as duas, o aluno tenha, na mesma, de optar por uma só via (e vemos isto um pouco por todo o lado: na escolha de línguas estrangeiras, já desde o 3.º ciclo, nas áreas e nos cursos do secundário, e em toda a pletora de divisõezinhas do superior…).

   Tenho estado a ser repetitivo, admito isso (ao mesmo tempo que também admito ser demasiado preguiçoso para voltar atrás e corrigir e reformular tudo… espero que tenham a capacidade de me perdoar por isso…), mas, com tudo o que disse, queria, apenas, frisar que, independentemente das condicionantes que levam à necessidade de se escolher, ter-se de o fazer é mau, é indesejável, porque, em última análise, nos obriga a abdicarmos mais um pouco de nós (e, se me permitem o lirismo, abdicarmos de nós é morrermos mais um pouco em vida). Mesmo que haja quem consiga ter uma boa ideia do que quer/pode/melhor consegue fazer, e, por isso, tenha a escolha facilitada, também há quem tenha o grande problema de não fazer a mínima ideia daquilo em que é competente, ou em que teria mais possibilidades de ter sucesso, e isso só dificulta mais ainda a escolha, porque voltar atrás, se não impossível, torna-se custoso (o mais provável é perder-se todo um ano…).

   E, se isto fosse uma entrada normal, seria este o momento indicado para promover os Mini-Ciclos de Leccionamento enquanto forma ideal de garantir a máxima liberdade e as mínimas perdas resultantes de qualquer escolha, mas, não sendo esta uma entrada normal, não o farei (ainda que, indirectamente, o tenha feito… irónico…). Aproveitarei, em vez disso, para vos pedir desculpa por esta entrada de porcaria, que nem é íntima, nem argumentativa, nem lógica, nem coerente, nem clara, nem perceptível, nem nada… Raios partam a minha inspiração transviada!

   Enfim, já escrevi de mais para apagar tudo… Assim sendo, espero que estas minhas faltas de inspiração não vos estejam a afastar, caros leitores, e a retirar de vós qualquer noção que pudessem ter da possibilidade de se mudar o actual sistema de ensino… Posso andar só a escrever porcaria, mas não desisti, e espero que vocês também não, de me esforçar para tornar o mundo melhor…

   Pronto, fiquem bem, olhem para os dois lados ao atravessar a estrada (e para baixo, não vá haver um buraco onde possam tropeçar…), desculpem-me esta entrada parva e até à próxima.

19 de abril de 2016

Das Faltas e das Soluções (Não Tanto da Falta de Soluções…)

   Os meus cumprimentos a todos os leitores, quem quer que sejam e onde quer que estejam. Tenho de vos agradecer por terem tido a gentileza de passar por aqui e ler mais uma reflexão minha, hoje nada de especial, mas talvez um pouco menos subjectiva que a anterior. Como o título vos permitirá concluir logo à partida, estou hoje aqui para vos falar das multifacetadas vicissitudes dessa prática fantástica de substituir, repor ou permutar as aulas que, por um motivo ou outro, não puderam ter sido dadas.

   Já se sabe que, se um aluno faltar, o problema é dele: o professor esteve lá (a não ser que tenha faltado também…), a aula foi dada, o aluno é que tinha o dever de assistir e não o fez. É bastante discutível se não seria melhor focalizarmo-nos mais na necessidade de fazer o aluno aprender, e não tanto na de garantir que o professor tem alunos que assistam às aulas (assim justificando o seu posto de trabalho e o seu vencimento…), ou seja, se não seria melhor focalizar o ensino nos alunos e não nos professores (no sentido em que o ensino deveria estar feito para assegurar a transmissão dos conhecimentos e não o emprego dos que colaboram para isso…), mas não é isso que está em causa. Queremos saber (e debater) o que raio se deve fazer quando, por qualquer motivo que seja, para agrado ou desagrado dos alunos, um professor tiver de faltar.

   Há duas garantias essenciais e inalienáveis, que deverão integrar toda e qualquer via de acção: o tempo livre dos afectados (alunos e professores) não pode sair prejudicado (pronto, se for apenas marginalmente, ainda podemos desculpar, mas não abusemos…) e a transmissão dos conhecimentos (leia-se a sua eficácia) também não. Isto talvez seja mais fácil de dizer do que de fazer, mas já lá vamos.

   De uma maneira geral, e como será óbvio (espero eu) para uma boa parte dos leitores, há essencialmente dois grandes tipos de situação de falta: aqueles em que, por compromisso inadiável, se sabe previamente que o professor faltará (o exemplo mais significativo, e também mais comum, será o de eventuais consultas médicas), e aqueles em que a falta é mais ou menos inesperada, súbita, provocada por um qualquer acontecimento imprevisível (como seja adoecer o professor ou um familiar de que ele tem de cuidar). Logicamente, as formas de lidar com um e outro tipo de falta terão de ser vagamente diferentes (mesmo que as alternativas sejam, em última análise, praticamente as mesmas), razão por que se fará uma análise separada das duas situações.

   No que toca às faltas com aviso prévio, a eventual antecedência pode permitir-nos lidar com a situação de uma forma mais elegante, efectuando (não sei bem com que grau de legalidade, mas também nem todas as leis e nem todos os regulamentos são dignos de serem seguidos, e há sempre coisas a que, pela sua maior comodidade, podemos todos fechar os olhos…) aquilo que comummente se designa permuta, que é, caso algum leitor não esteja bem ciente disso, a prática de pura e simplesmente dois professores com horários compatíveis (em termos de aulas e de compromissos) trocarem as suas aulas, dando o da disciplina A na hora da disciplina B e o da B na hora da A. Ora, isto faz todo o sentido, porque o número de aulas dadas não se altera com a falta do professor (que já não calha na hora da aula) e não há qualquer alteração do tempo livre dos alunos (já que, a bem dizer, o seu horário permanecerá rigorosamente igual, admitindo, claro, que todos os alunos têm as disciplinas A e B), mas tem o pequeno inconveniente de nem sempre ser possível encontrar professores com horários disponíveis para a permuta (facto ainda mais notório se tivermos em conta os Mini-Ciclos de Leccionamento, que trazem o constrangimento adicional de também se ter de ter em conta o horário de cada um dos alunos matriculados no mini-ciclo em causa, de modo a que a aula do professor que aceitou a permuta – e não a do que a pediu – não coincida com outra que alguns possam ter, e à qual teriam de faltar para ir à aula permutada por necessidade).

   Por outro lado, caso o professor saiba antecipadamente que vai faltar, também pode transmitir a sua planificação a um colega da sua disciplina e/ou área que tenha a disponibilidade, em termos de horário e em termos mentais, para dar a aula por ele, o que, mesmo podendo prejudicar parcialmente o processo de ensino-aprendizagem (pela eventual falta de habituação dos alunos ao professor e vice-versa, que faz com que nem sempre as coisas sejam transmitidas da forma que mais se adequa aos alunos em causa), apenas tem o potencial de afectar o tempo livre do professor que for dar a aula de substituição (mas que, em parte, poderá ser compensado por o professor que faltou dar substituição para cobrir uma eventual falta futura do professor substituinte), sendo, por isso, uma alternativa vagamente viável às permutas (sobretudo porque será menos difícil haver um só professor com disponibilidade do que um professor e uma turma – sobretudo em termos dos Mini-Ciclos).

   Há uma terceira alternativa, que é a da remarcação da aula para uma hora diferente, que, dentro do género, seja conveniente para todos, o que permitiria dar a aula sem grandes complicações e sem grandes diferenças do que se fosse na hora prevista. Há é o grande problema de a hora que, dentro do género, convenha a todos ter forçosamente de ser extra-horário, o que prejudica o aspecto importante do tempo livre (está bem que o professor também não veio no tempo correspondente à aula a que faltou, pelo que o tempo “livre” não foi afectado: o tempo extra-horário criado pela falta foi compensado pela aula extra-horário; quanto aos alunos talvez não seja bem assim, porque, apesar de terem um furo durante a aula, esse tempo – e qualquer aluno bem o sabe – não tem exactamente o mesmo aproveitamento que aquele passado manifestamente antes ou depois das aulas, a não ser, claro, que se dê o caso de a aula não dada ser a primeira ou a última, sendo isso equivalente a os alunos entrarem mais tarde ou saírem mais cedo). Além disto, pode, por vezes, ser difícil encontrar uma hora que convenha a todos, pela eventual existência de afazeres extra-horários diversos por parte dos envolvidos, mas, sabendo-se que o professor faltará com alguma antecedência, haverá, em princípio, tempo para tentar (e conseguir) chegar a um consenso.

   Então, no que toca às eventuais vias de acção possíveis aquando de uma falta antecipadamente conhecida, é isto. Por outro lado, no que toca às faltas mais ou menos súbitas, há algumas diferenças, que reduzem, ou condicionam, as potenciais vias de acção.

   A mais flagrante de todas será o facto de, pela natureza imediata e inesperada deste tipo de faltas, ser praticamente impossível arranjar uma permuta, por o professor que falta não poder combinar nada com os colegas, mais a mais porque, por vezes, estas faltas podem ter uma duração mais ou menos indeterminada, consoante o factor que as originou (pense-se no caso da doença: nem sempre se melhora logo…), levando a que o professor falte em mais do que um dia.

   Um pouco no seguimento disto, também será um pouco difícil recorrer a um professor substituto, por razões semelhantes às anteriores (impossibilidade de o professor que falta lhe transmitir indicações e também eventual necessidade de substituir muitas aulas). No entanto, este problema poderá ser atenuado se (como creio que já se faz, não sei bem com que abrangência, diria que na maioria das escolas, mas talvez esteja a efectuar uma generalização imprópria… corrijam-se se estiver errado, como, de resto, podem – e devem – fazer sempre…) se dedicar uma parte do horário dos professores à substituição de outros professores; o problema será mesmo ter os recursos necessários para que todos os professores que faltem sejam substituídos por um outro professor capacidade para dar a disciplina em causa, e não uma outra coisa qualquer (o que costuma suceder em muitos casos, gerando a abjecção da “ocupação lectiva de tempos livres”, que obriga os alunos a ficar na sala a fazer frivolidades e/ou nada, perdendo tempo potencialmente útil para outras coisas – ainda que essas coisas pudessem passar por asneiras e/ou ilegalidades diversas, o que justifica esta prática aos olhos de muitos, apreciação da qual se torna um pouco difícil de discordar terminantemente). É claro que isto é vagamente ineficiente, porque, quando nenhum professor falta, os professores designados para substituição não terão nada para fazer, mas talvez possam aproveitar esse tempo, quando desocupados, para realizar outras tarefas (burocracia, planificações…), como, de resto, ditaria o senso comum que se fizesse.

   Por fim, a remarcação acaba por ser a alternativa mais exequível, no sentido em que (a não ser que as faltas de prolonguem por muito tempo…) o professor pode, na primeira aula logo a seguir às faltas, agendar logo com os alunos as aulas de reposição necessárias, tentando, também, encontrar o horário que a todos convenha, ainda que a perda de tempo já consumada pelas faltas implique uma certa urgência na remarcação, o que pode atrapalhar o processo de encontrar uma hora que a todos convenha.

   Claro, todas estas vias de acção apresentadas serão, muito provavelmente, do conhecimento dos leitores, até porque correspondem ao que hoje em dia se passa (perdoem-me, então, a inutilidade de escrever tudo isto…). Aliás, para completar a lista, faltará (sem trocadilhos, está bem?) uma outra alternativa, aplicável com ou sem aviso prévio, que é a de pura e simplesmente se ignorar o facto de não se ter dado a aula e continuar como se nada tivesse ocorrido, o que é vagamente exequível no actual sistema de ensino (mais que não seja porque, de qualquer das formas, há aulas desperdiçadas – nem vale a pena pensar mais longe: as famigeradas famosas aulas da rebaldaria de final de período), mas seria pouco viável o abrigo dos Mini-Ciclos de Leccionamento (a não ser que permitíssemos que o leccionamento de cada mini-ciclo se estendesse pelo tempo que fosse necessário, ainda que isto complique ainda mais toda a organização logística da coisa, razão por que, pelo menos, até todo o sistema ter entrado bem nos eixos, com a plataforma e tudo, seria melhor optar-se por não o permitir). No sentido, então, do que disse antes, e como o principal propósito do blog é mesmo o de melhorar o ensino (nunca lá se chegaria pelo nome, não é?), teremos, então, de apresentar eventuais formas de melhorar isto.

   Já sabem o que eu penso acerca do actual sistema de ensino, não sabem? Que deveria ser alterado radicalmente, muito radicalmente, para uma organização melhor e mais agradável, que, para mim (e espero que para pelo menos alguns de vocês…), passaria pelos Mini-Ciclos de Leccionamento. Perdoem-me, portanto, o erro do costume, de me deixar levar pelas minhas convicções (recuso-me a vê-las como ilusões…) e analisar e construir as propostas de melhoramento ao abrigo deste paradigma alternativo, porque propor melhorias só para um aspectozinho deixando erros no resto é pouco mais que inútil, e a minha forma de corrigir o resto corresponderia aos Mini-Ciclos.

   Ora, havendo Mini-Ciclos, teremos a questão do horário individual e individualizado dos alunos, consoante as suas escolhas, e isto praticamente impossibilita permutas, como já disse algures lá para trás, a não ser que todos os alunos do mini-ciclo do professor que falta sejam também os únicos de um outro professor com horário compatível (ou, então, que os alunos do mini-ciclo permutado sem ser por falta tenham a sorte de ter a hora do mini-ciclo a que o professor faltaria desocupada, o que talvez fosse muito pouco provável…). Assim sendo, esta não é uma solução admissível.

   Por outro lado, e também como referi anteriormente, seria demasiado complicado, em termos logísticos, caso os mini-ciclos se pudessem arrastar no tempo, ad infinitum, e, pela sua curta duração, não se poderia propriamente perder aulas (já que não haveria a necessidade de se ter aulas “para encher” e/ou para obedecer aos constrangimentos do calendário escolar), sob pena de prejudicar a aprendizagem dos conhecimentos em causa (que, em princípio, será o objectivo central do ensino). Tudo isto nos levará, então, a concluir que a solução de se ignorar o facto de se ter faltado também terá de ficar de parte.

   Restam-nos, portanto, duas soluções: substituir e remarcar (assim escrito quase parece uma qualquer táctica militar e/ou desportiva…). Ora, para que a substituição corresse bem (e ignorando completamente as ocupações lectivas de tempos livres, que têm ainda menos razão de ser ao abrigo dos Mini-Ciclos porque as aulas estariam vocacionadas para transmitir conhecimentos e não para perder tempo com tarefas de chacha…), teríamos de ter uma grande dose de professores à mão, de modo a poder cobrir todas as falhas, e isso iria aumentar mais ainda as já significativas necessidades de recursos deste sistema de ensino alternativo; podemos, para atenuar esta necessidade de recursos, recorrer mais uma vez às aulas à distância (gerando algo como “vídeo-aulas de substituição”?), com um professor centralizado a dar, via vídeo-conferência, a aula de substituição aos alunos que dela possam necessitar, mas isto não elimina o problema subjacente.

   Nesse sentido, a remarcação de aulas parece ser a única solução que falta analisar. Temos, claramente, um problema muito análogo ao que se passa com as permutas: as grandes diferenças que os horários dos alunos de um mesmo mini-ciclo podem apresentar tornam praticamente impossível encontrar uma hora livre que convenha a todos. Só que, ao contrário do que se passa com as permutas, talvez possamos dar a volta a isto: conforme já proposto no texto dos Mini-Ciclos, especificamente na Inovação, podemos criar um certo período de tempo (creio ter sugerido a tarda de sexta-feira, ou parte dela) exclusivamente para aulas de reposição (daí que se lhe chamasse “período de reposição”), estando desimpedido se não houver necessidade de as ter, e só se tendo de jogar com as aulas de reposição dos vários alunos do mini-ciclo em causa de modo a arranjar uma hora conveniente (ou seja, só se teria de garantir que a aula não calharia à mesma hora que outra aula de reposição que alguém no grupo de alunos que frequenta o mini-ciclo possa ter, e, sendo, de uma maneira geral, pouco provável que uma grande quantidade de professores falte ao mesmo tempo, isto não deverá ser muito difícil de se gerir…). Esta será, porventura, a forma menos problemática de garantir que as aulas são dadas, e nunca é de mais relembrar que a ausência de testas, trabalhos e males semelhantes, ao abrigo dos Mini-Ciclos, implica que o eventual impacto que estas reposições possam ter no tempo livre dos alunos seja muito menos significativo (além de que este “período de reposição” não é tempo livre… é, apenas, um segmento do horário raramente utilizado para fis oficiais, se me permitem a pouco clara distinção, mais retórica do que semântica, e mais semântica do que lógica…).

   Chegámos, pois, ao fim desta reflexão acerca das aulas de substituição. Mas isto não ficaria completo se não frisasse que, em última análise, numa situação ideal, aliás, numa situação mesmo ideal, não seria necessário haver aulas de substituição, porque não haveria motivos para se faltar, só que, como bem sabemos, as coisas ainda não estão tão ideais quanto isso e, por isso, este é um problema com que temos e, tanto quanto o futuro nos deixa ver, teremos sempre de lidar.

   Temo mais uma vez ter sido demasiado ligeiro, demasiado superficial ou demasiado… enfim, estúpido na minha abordagem, e lamento imenso por isso, mas, por qualquer razão, não tenho conseguido encontrar temas ou reflexões mais pertinentes. Aceitam-se sugestões, como sempre, além de comentários e críticas. Já sabem que têm o espaço de comentários, aí em baixo, à vossa espera e à vossa disposição.

   Um bom dia (ou tarde, ou noite) a todos e até à próxima.