19 de abril de 2016

Das Faltas e das Soluções (Não Tanto da Falta de Soluções…)

   Os meus cumprimentos a todos os leitores, quem quer que sejam e onde quer que estejam. Tenho de vos agradecer por terem tido a gentileza de passar por aqui e ler mais uma reflexão minha, hoje nada de especial, mas talvez um pouco menos subjectiva que a anterior. Como o título vos permitirá concluir logo à partida, estou hoje aqui para vos falar das multifacetadas vicissitudes dessa prática fantástica de substituir, repor ou permutar as aulas que, por um motivo ou outro, não puderam ter sido dadas.

   Já se sabe que, se um aluno faltar, o problema é dele: o professor esteve lá (a não ser que tenha faltado também…), a aula foi dada, o aluno é que tinha o dever de assistir e não o fez. É bastante discutível se não seria melhor focalizarmo-nos mais na necessidade de fazer o aluno aprender, e não tanto na de garantir que o professor tem alunos que assistam às aulas (assim justificando o seu posto de trabalho e o seu vencimento…), ou seja, se não seria melhor focalizar o ensino nos alunos e não nos professores (no sentido em que o ensino deveria estar feito para assegurar a transmissão dos conhecimentos e não o emprego dos que colaboram para isso…), mas não é isso que está em causa. Queremos saber (e debater) o que raio se deve fazer quando, por qualquer motivo que seja, para agrado ou desagrado dos alunos, um professor tiver de faltar.

   Há duas garantias essenciais e inalienáveis, que deverão integrar toda e qualquer via de acção: o tempo livre dos afectados (alunos e professores) não pode sair prejudicado (pronto, se for apenas marginalmente, ainda podemos desculpar, mas não abusemos…) e a transmissão dos conhecimentos (leia-se a sua eficácia) também não. Isto talvez seja mais fácil de dizer do que de fazer, mas já lá vamos.

   De uma maneira geral, e como será óbvio (espero eu) para uma boa parte dos leitores, há essencialmente dois grandes tipos de situação de falta: aqueles em que, por compromisso inadiável, se sabe previamente que o professor faltará (o exemplo mais significativo, e também mais comum, será o de eventuais consultas médicas), e aqueles em que a falta é mais ou menos inesperada, súbita, provocada por um qualquer acontecimento imprevisível (como seja adoecer o professor ou um familiar de que ele tem de cuidar). Logicamente, as formas de lidar com um e outro tipo de falta terão de ser vagamente diferentes (mesmo que as alternativas sejam, em última análise, praticamente as mesmas), razão por que se fará uma análise separada das duas situações.

   No que toca às faltas com aviso prévio, a eventual antecedência pode permitir-nos lidar com a situação de uma forma mais elegante, efectuando (não sei bem com que grau de legalidade, mas também nem todas as leis e nem todos os regulamentos são dignos de serem seguidos, e há sempre coisas a que, pela sua maior comodidade, podemos todos fechar os olhos…) aquilo que comummente se designa permuta, que é, caso algum leitor não esteja bem ciente disso, a prática de pura e simplesmente dois professores com horários compatíveis (em termos de aulas e de compromissos) trocarem as suas aulas, dando o da disciplina A na hora da disciplina B e o da B na hora da A. Ora, isto faz todo o sentido, porque o número de aulas dadas não se altera com a falta do professor (que já não calha na hora da aula) e não há qualquer alteração do tempo livre dos alunos (já que, a bem dizer, o seu horário permanecerá rigorosamente igual, admitindo, claro, que todos os alunos têm as disciplinas A e B), mas tem o pequeno inconveniente de nem sempre ser possível encontrar professores com horários disponíveis para a permuta (facto ainda mais notório se tivermos em conta os Mini-Ciclos de Leccionamento, que trazem o constrangimento adicional de também se ter de ter em conta o horário de cada um dos alunos matriculados no mini-ciclo em causa, de modo a que a aula do professor que aceitou a permuta – e não a do que a pediu – não coincida com outra que alguns possam ter, e à qual teriam de faltar para ir à aula permutada por necessidade).

   Por outro lado, caso o professor saiba antecipadamente que vai faltar, também pode transmitir a sua planificação a um colega da sua disciplina e/ou área que tenha a disponibilidade, em termos de horário e em termos mentais, para dar a aula por ele, o que, mesmo podendo prejudicar parcialmente o processo de ensino-aprendizagem (pela eventual falta de habituação dos alunos ao professor e vice-versa, que faz com que nem sempre as coisas sejam transmitidas da forma que mais se adequa aos alunos em causa), apenas tem o potencial de afectar o tempo livre do professor que for dar a aula de substituição (mas que, em parte, poderá ser compensado por o professor que faltou dar substituição para cobrir uma eventual falta futura do professor substituinte), sendo, por isso, uma alternativa vagamente viável às permutas (sobretudo porque será menos difícil haver um só professor com disponibilidade do que um professor e uma turma – sobretudo em termos dos Mini-Ciclos).

   Há uma terceira alternativa, que é a da remarcação da aula para uma hora diferente, que, dentro do género, seja conveniente para todos, o que permitiria dar a aula sem grandes complicações e sem grandes diferenças do que se fosse na hora prevista. Há é o grande problema de a hora que, dentro do género, convenha a todos ter forçosamente de ser extra-horário, o que prejudica o aspecto importante do tempo livre (está bem que o professor também não veio no tempo correspondente à aula a que faltou, pelo que o tempo “livre” não foi afectado: o tempo extra-horário criado pela falta foi compensado pela aula extra-horário; quanto aos alunos talvez não seja bem assim, porque, apesar de terem um furo durante a aula, esse tempo – e qualquer aluno bem o sabe – não tem exactamente o mesmo aproveitamento que aquele passado manifestamente antes ou depois das aulas, a não ser, claro, que se dê o caso de a aula não dada ser a primeira ou a última, sendo isso equivalente a os alunos entrarem mais tarde ou saírem mais cedo). Além disto, pode, por vezes, ser difícil encontrar uma hora que convenha a todos, pela eventual existência de afazeres extra-horários diversos por parte dos envolvidos, mas, sabendo-se que o professor faltará com alguma antecedência, haverá, em princípio, tempo para tentar (e conseguir) chegar a um consenso.

   Então, no que toca às eventuais vias de acção possíveis aquando de uma falta antecipadamente conhecida, é isto. Por outro lado, no que toca às faltas mais ou menos súbitas, há algumas diferenças, que reduzem, ou condicionam, as potenciais vias de acção.

   A mais flagrante de todas será o facto de, pela natureza imediata e inesperada deste tipo de faltas, ser praticamente impossível arranjar uma permuta, por o professor que falta não poder combinar nada com os colegas, mais a mais porque, por vezes, estas faltas podem ter uma duração mais ou menos indeterminada, consoante o factor que as originou (pense-se no caso da doença: nem sempre se melhora logo…), levando a que o professor falte em mais do que um dia.

   Um pouco no seguimento disto, também será um pouco difícil recorrer a um professor substituto, por razões semelhantes às anteriores (impossibilidade de o professor que falta lhe transmitir indicações e também eventual necessidade de substituir muitas aulas). No entanto, este problema poderá ser atenuado se (como creio que já se faz, não sei bem com que abrangência, diria que na maioria das escolas, mas talvez esteja a efectuar uma generalização imprópria… corrijam-se se estiver errado, como, de resto, podem – e devem – fazer sempre…) se dedicar uma parte do horário dos professores à substituição de outros professores; o problema será mesmo ter os recursos necessários para que todos os professores que faltem sejam substituídos por um outro professor capacidade para dar a disciplina em causa, e não uma outra coisa qualquer (o que costuma suceder em muitos casos, gerando a abjecção da “ocupação lectiva de tempos livres”, que obriga os alunos a ficar na sala a fazer frivolidades e/ou nada, perdendo tempo potencialmente útil para outras coisas – ainda que essas coisas pudessem passar por asneiras e/ou ilegalidades diversas, o que justifica esta prática aos olhos de muitos, apreciação da qual se torna um pouco difícil de discordar terminantemente). É claro que isto é vagamente ineficiente, porque, quando nenhum professor falta, os professores designados para substituição não terão nada para fazer, mas talvez possam aproveitar esse tempo, quando desocupados, para realizar outras tarefas (burocracia, planificações…), como, de resto, ditaria o senso comum que se fizesse.

   Por fim, a remarcação acaba por ser a alternativa mais exequível, no sentido em que (a não ser que as faltas de prolonguem por muito tempo…) o professor pode, na primeira aula logo a seguir às faltas, agendar logo com os alunos as aulas de reposição necessárias, tentando, também, encontrar o horário que a todos convenha, ainda que a perda de tempo já consumada pelas faltas implique uma certa urgência na remarcação, o que pode atrapalhar o processo de encontrar uma hora que a todos convenha.

   Claro, todas estas vias de acção apresentadas serão, muito provavelmente, do conhecimento dos leitores, até porque correspondem ao que hoje em dia se passa (perdoem-me, então, a inutilidade de escrever tudo isto…). Aliás, para completar a lista, faltará (sem trocadilhos, está bem?) uma outra alternativa, aplicável com ou sem aviso prévio, que é a de pura e simplesmente se ignorar o facto de não se ter dado a aula e continuar como se nada tivesse ocorrido, o que é vagamente exequível no actual sistema de ensino (mais que não seja porque, de qualquer das formas, há aulas desperdiçadas – nem vale a pena pensar mais longe: as famigeradas famosas aulas da rebaldaria de final de período), mas seria pouco viável o abrigo dos Mini-Ciclos de Leccionamento (a não ser que permitíssemos que o leccionamento de cada mini-ciclo se estendesse pelo tempo que fosse necessário, ainda que isto complique ainda mais toda a organização logística da coisa, razão por que, pelo menos, até todo o sistema ter entrado bem nos eixos, com a plataforma e tudo, seria melhor optar-se por não o permitir). No sentido, então, do que disse antes, e como o principal propósito do blog é mesmo o de melhorar o ensino (nunca lá se chegaria pelo nome, não é?), teremos, então, de apresentar eventuais formas de melhorar isto.

   Já sabem o que eu penso acerca do actual sistema de ensino, não sabem? Que deveria ser alterado radicalmente, muito radicalmente, para uma organização melhor e mais agradável, que, para mim (e espero que para pelo menos alguns de vocês…), passaria pelos Mini-Ciclos de Leccionamento. Perdoem-me, portanto, o erro do costume, de me deixar levar pelas minhas convicções (recuso-me a vê-las como ilusões…) e analisar e construir as propostas de melhoramento ao abrigo deste paradigma alternativo, porque propor melhorias só para um aspectozinho deixando erros no resto é pouco mais que inútil, e a minha forma de corrigir o resto corresponderia aos Mini-Ciclos.

   Ora, havendo Mini-Ciclos, teremos a questão do horário individual e individualizado dos alunos, consoante as suas escolhas, e isto praticamente impossibilita permutas, como já disse algures lá para trás, a não ser que todos os alunos do mini-ciclo do professor que falta sejam também os únicos de um outro professor com horário compatível (ou, então, que os alunos do mini-ciclo permutado sem ser por falta tenham a sorte de ter a hora do mini-ciclo a que o professor faltaria desocupada, o que talvez fosse muito pouco provável…). Assim sendo, esta não é uma solução admissível.

   Por outro lado, e também como referi anteriormente, seria demasiado complicado, em termos logísticos, caso os mini-ciclos se pudessem arrastar no tempo, ad infinitum, e, pela sua curta duração, não se poderia propriamente perder aulas (já que não haveria a necessidade de se ter aulas “para encher” e/ou para obedecer aos constrangimentos do calendário escolar), sob pena de prejudicar a aprendizagem dos conhecimentos em causa (que, em princípio, será o objectivo central do ensino). Tudo isto nos levará, então, a concluir que a solução de se ignorar o facto de se ter faltado também terá de ficar de parte.

   Restam-nos, portanto, duas soluções: substituir e remarcar (assim escrito quase parece uma qualquer táctica militar e/ou desportiva…). Ora, para que a substituição corresse bem (e ignorando completamente as ocupações lectivas de tempos livres, que têm ainda menos razão de ser ao abrigo dos Mini-Ciclos porque as aulas estariam vocacionadas para transmitir conhecimentos e não para perder tempo com tarefas de chacha…), teríamos de ter uma grande dose de professores à mão, de modo a poder cobrir todas as falhas, e isso iria aumentar mais ainda as já significativas necessidades de recursos deste sistema de ensino alternativo; podemos, para atenuar esta necessidade de recursos, recorrer mais uma vez às aulas à distância (gerando algo como “vídeo-aulas de substituição”?), com um professor centralizado a dar, via vídeo-conferência, a aula de substituição aos alunos que dela possam necessitar, mas isto não elimina o problema subjacente.

   Nesse sentido, a remarcação de aulas parece ser a única solução que falta analisar. Temos, claramente, um problema muito análogo ao que se passa com as permutas: as grandes diferenças que os horários dos alunos de um mesmo mini-ciclo podem apresentar tornam praticamente impossível encontrar uma hora livre que convenha a todos. Só que, ao contrário do que se passa com as permutas, talvez possamos dar a volta a isto: conforme já proposto no texto dos Mini-Ciclos, especificamente na Inovação, podemos criar um certo período de tempo (creio ter sugerido a tarda de sexta-feira, ou parte dela) exclusivamente para aulas de reposição (daí que se lhe chamasse “período de reposição”), estando desimpedido se não houver necessidade de as ter, e só se tendo de jogar com as aulas de reposição dos vários alunos do mini-ciclo em causa de modo a arranjar uma hora conveniente (ou seja, só se teria de garantir que a aula não calharia à mesma hora que outra aula de reposição que alguém no grupo de alunos que frequenta o mini-ciclo possa ter, e, sendo, de uma maneira geral, pouco provável que uma grande quantidade de professores falte ao mesmo tempo, isto não deverá ser muito difícil de se gerir…). Esta será, porventura, a forma menos problemática de garantir que as aulas são dadas, e nunca é de mais relembrar que a ausência de testas, trabalhos e males semelhantes, ao abrigo dos Mini-Ciclos, implica que o eventual impacto que estas reposições possam ter no tempo livre dos alunos seja muito menos significativo (além de que este “período de reposição” não é tempo livre… é, apenas, um segmento do horário raramente utilizado para fis oficiais, se me permitem a pouco clara distinção, mais retórica do que semântica, e mais semântica do que lógica…).

   Chegámos, pois, ao fim desta reflexão acerca das aulas de substituição. Mas isto não ficaria completo se não frisasse que, em última análise, numa situação ideal, aliás, numa situação mesmo ideal, não seria necessário haver aulas de substituição, porque não haveria motivos para se faltar, só que, como bem sabemos, as coisas ainda não estão tão ideais quanto isso e, por isso, este é um problema com que temos e, tanto quanto o futuro nos deixa ver, teremos sempre de lidar.

   Temo mais uma vez ter sido demasiado ligeiro, demasiado superficial ou demasiado… enfim, estúpido na minha abordagem, e lamento imenso por isso, mas, por qualquer razão, não tenho conseguido encontrar temas ou reflexões mais pertinentes. Aceitam-se sugestões, como sempre, além de comentários e críticas. Já sabem que têm o espaço de comentários, aí em baixo, à vossa espera e à vossa disposição.

   Um bom dia (ou tarde, ou noite) a todos e até à próxima.

11 de abril de 2016

Da Arte (e) do Ensino, Do Ensino (e) da Arte

   Antes de mais nada, bom dia a todos os leitores. Agradeço-vos por, mais uma vez (ou, se for esse o caso, pela primeira vez), dedicarem uns momentos do vosso tempo a ler estas palavras que aqui escrevo. É uma coisa de que me costumo esquecer (aliás, é uma coisa de que me esqueço quase sempre…), agradecer-vos por me lerem, mas hoje fi-lo. Ora bem, without further ado, como diria um qualquer anglo-saxão, prossigamos para o tema que adoptei, que é precisamente o da questão de se englobar a arte no âmbito do ensino (ensino artístico), e dos eventuais prós e contras de tal prática.

   Ora bem, convenhamos, em última análise, toda e qualquer informação passível de ser adquirida pelo ser humano é digna de nota e, por extensão, digna de ser transmitida através do ensino, o que só nos poderá levar a concluir que, ao fim e ao cabo, até que é desejável ensinar arte. Aliás, se formos a pensar bem, a arte também acaba por desempenhar um papel, mesmo que minimamente, importante na vida de cada um de nós (no nosso bem-estar mental, se assim o quisermos dizer), e, nesse sentido, fará todo o sentido que promovamos a arte.

   Só que temos um problema: será que podemos mesmo transmitir arte, será que é possível ensinar alguém a fazer arte? Muita filosofia se poderia fazer a partir desta interrogação, mas, de uma maneira geral, sinto-me inclinado a dizer que não. É que, mais que não seja, pela minha experiência pessoal (pouco válida do ponto de vista argumentativo por ser pouco representativa do que poderá ser a experiência de todos, mas enfim…), sou levado a pensar que a arte não resulta do seguimento de um conjunto de passos específicos, estilo receita de culinária, mas sim de um conjunto de sensações, intuições e inspirações de génese e natureza mais ou menos metafísicas, tendo, portanto, um elevado carácter subjectivo e, sobretudo, pessoal. Ora, mesmo não admitindo que isto assim o é de uma forma radical, dificilmente se poderá dizer que, conhecendo todas as técnicas de pintura de Van Gogh, por hipótese, e utilizando materiais (tela, tinta, pincéis…) idênticos aos dele, teremos todas as condições para fazer arte, bastando, para tal, pintar. Ou, para vos dar um exemplo alternativo, não é por conhecermos todas as mais diversas formas de poesia, das mais familiares, como os sonetos, às mais exóticas, como o asefru (forma de poesia originária da Cabília, no norte da Argélia), que poderemos fazer arte. Tudo isto para dizer, portanto, que a arte não surge da técnica por si só.

   Claro, nisto tudo está subentendido o facto (até agora não enunciado, fosse lá porque fosse… perdoem-me a falha, mas não consigo reunir em mim a vontade de reformular tudo o que escrevi até agora…) de que só a técnica poderá ser transmitida directamente, via ensino. A parte mais subjectiva pode ser mais ou menos estimulada, de uma forma ou de outra, mas isso não significa que se a possa transmitir da mesma forma que a técnica. E isto deixa-nos em que posição? Afinal, se não se pode transmitir arte, e se até que seria bom se transmitíssemos arte, estamos mais ou menos condenados a falhar. Apesar de isso ser uma condição praticamente intrínseca à existência…), e, em particular, à existência humana (pergunto-me se não inteiramente coincidente com ela), a falha é uma coisa, por definição, indesejável, pelo que não poderemos deixar as coisas neste estado. Teremos, então, de arranjar uma solução.

   E essa solução teria mesmo de passar por uma acção mais ou menos bipartida, que a alguns leitores talvez já fosse óbvia: por um lado, tentar fazer com que a sociedade, no seu todo, promova e incentive a produção artística (ainda que isto seja uma daquelas coisas mais fáceis de dizer do que de fazer, sendo que, para ser feita em condições, exigiria uma sociedade bastante diferente da actual, com outro tipo de estruturação e organização, mas não vale a pena – pelo menos, por agora – ir por aí…), e, por outro lado, recorrer ao ensino para transmitir precisamente as técnicas da produção artística (na vagamente infundamentada esperança de que isso possa, também, permitir aos alunos desenvolver o apreço e a prática da arte).

   Mas atenção: estas técnicas seriam transmitidas sempre com a precisa ressalva de que se trata única e exclusivamente de técnicas artísticas, não se garantindo, nem exigindo, de modo algum, que os alunos produzam arte. Isto apaziguaria, logo à partida, algumas mentes mais indignadas pela sua produção artística nula, ou quase nula, mesmo depois de verem reconhecido que dominam uma ampla gama de técnicas artísticas, além de deixar bem claro a alunos e professores o que raio se está ali a fazer (o que, e não me posso impedir de o dizer, corresponde, nalguns casos, ou talvez até em muitos, a “nada”, para ambos os grupos…). É certo que renomear o que hoje seriam cursos artísticos (ou de artes, que não será exactamente a mesma coisa…) soa um pouco àquelas reorganizações político-administrativas que deixam tudo igual, mas com letreiros pintados de fresco, simbologias novas e aumentos das remunerações dos administradores, mas só assim poderemos ser explícitos no que dizemos, sem ambiguidades interpretativas que poderiam deitar esta intenção de transmitir arte a perder.

   Adicionalmente, esta designação é meio caminho andado para impedir que mentes mais brilhantes decidam avaliar os alunos precisamente pela componente artística das tarefas que desempenham (não tenho bem a certeza do quão recorrentes são, serão ou seriam estas situações, mas alvitraria que serão tudo menos inexistentes…); em vez disso, a avaliação (não bem avaliação, mas verificação…) ocorreria exclusivamente com base no facto de o aluno ter conseguido, ou não, aplicar os princípios por detrás da técnica em causa, apenas no intuito de garantir que ele, de facto, adquire essa técnica. Claro, isto nunca nos impediria de estimularmos os alunos a fazer obras de arte (nem os impediria de as fazer, com ou sem as técnicas adquiridas…), e permitiria garantir que ninguém sairia prejudicado por o seu sentido artístico contrastar ou colidir com o do professor. É certo que também poderíamos estar a abrir as portas a uma certa pragmatização (indesejável, diga-se de passagem) da arte, ao apenas exigirmos aos alunos que adquiram e apliquem determinadas técnicas, mas, repito, a ideia do ensino “artístico” seria ensinarem-se técnicas de produção artística e não ensinar-se a fazer arte em si (porque, também o convém repetir, a arte não é uma coisa propriamente transmissível).

   Mas escusado será dizer (pelo menos, para os leitores mais habituais, que já deverão saber o que esperar daqui…) que isto tudo, ao abrigo do actual sistema de ensino, não faz muito sentido, porque, por um lado, talvez nem todos os artistas de uma dada área estariam interessados em aprender as mesmas coisas, pela mesma ordem (por exemplo, tocar piano e tocar clarinete são duas coisas bastante diferentes, e não tão indissociáveis assim…), e, por outro lado, nem todos os artistas estariam interessados em ter, por arrasto, uma batelada de outras matérias, menos artísticas, que lhes seriam impostas caso todo o ensino artístico fosse englobado no ensino normal, e, por outro lado ainda (há-de se tratar de um triângulo, porque tem três lados…), talvez houvesse quem quisesse complementar perfeitamente a aprendizagem artística com uma outra aprendizagem mais científica, ou humanística, ou seja o que for, e não o poderia fazer por ter de escolher uma e uma só via. Nesse mesmo sentido, e também porque o actual sistema de ensino não apresenta exactamente os melhores instrumentos de avaliação, faria mais sentido que tudo isto ocorresse de acordo com os Mini-Ciclos de Leccionamento, que garantiriam precisamente a flexibilidade necessária a tudo isto correr bem; claro, no caso das actividades que se intersectem com outros conhecimentos (surge-me a arquitectura, vagamente relacionada com engenharias diversas), a interligação entre ambos é favorecida por esta organização.

   É certo que isto pode ser uma mudança pouco significativa, no cômputo geral, mas, se aproximarmos (mais ainda) o ensino de todas estas técnicas artísticas – literárias, musicais, dramáticas, fotográficas, cinematográficas, e por aí fora – daquilo que é hoje o ensino “regular”, mainstream, se assim preferirem, sem marginalizar os estudantes que as desejem aprender, só estaremos a contribuir para aumentar o prestígio dessa actividade, afinal importante, mesmo que amiúde esquecida, que é o de fazer arte. Além de que, ao tornarmos estas áreas verdadeiramente iguais às outras, com perfeita aceitação social e sem estigmatizações diversas dos seus estudantes, também estaremos a aumentar a flexibilidade e a liberdade na escolha dos conhecimentos, o que é sempre um bom objectivo, porque, diga-se o que se disser, ninguém aprende bem contrariado.

   E creio que será isto. Os leitores que me perdoem a eventual insignificância do tema e/ou a superficialidade da abordagem, mas mais não pude fazer. Se tiverem alguma sugestão, algum reparo, alguma crítica ou alguma opinião que queiram expressar, estejam à vontade (como sempre) para usar o espaço de comentários, ou, se preferirem contactar directamente comigo (com o autor), as possibilidades apresentadas nos Contactos.

   Uma boa semana a todos e até à próxima.

23 de março de 2016

Dos Alunos, Pais e Encarregados de Educação Reunidos

   Saúdo todos os leitores, como não poderia deixar de ser. Após esta pequena pausa mais ou menos voluntária para rever o texto dos Mini-Ciclos de Leccionamento, quis fazer uma entrada a sério, sobre alguma coisa central, fulcral, relevante, mas entrei no habitual drama de falta de tema e/ou de inspiração. Felizmente (ou assim não tanto, mas pronto), pude encontrar esta temática que, não sendo totalmente desprovida de relevância, não é, de modo algum, suficientemente para ser mais que um fait divers… Mas não vale a pena entrar nesta cantilena de deprecição do tema ou do texto, vamos, mas é, ao que interessa, que, neste caso, corresponde às reuniões que surgem em contexto escolar, quer de pais e encarregados de educação, quer de conselho de turma.

   A noção instintiva que qualquer bom português tem da eficiência e utilidade (ou falta delas) que qualquer aspecto administrativo-burocrático possui permite-nos facilmente concluir que as reuniões de conselho de turma e de pais e encarregados de educação, na maioria dos casos, não servem para nada. São um mero pro forma, uma mera formalidade para se poder dizer que se cumpriu os requisitos e se integrou os pais na comunidade escolar e na aprendizagem dos filhos e os alunos, nos processos decisivos diversos acerca da turma. Ainda para mais se tivermos em conta que a sociedade (e, neste caso em particular, o ensino) é tendencialmente conservativa, pelo que haverá sempre razões lógicas e impedimentos legais à implementação de quaisquer sugestões que possam ser feitas no sentido de melhorar as coisas.

   Não me interpretem mal; por um lado, é pedagogicamente lógico (ou logicamente pedagógico, não tenho bem a certeza…) que o professor, directa ou indirectamente, possa transmitir à globalidade dos pais e encarregados de educação o feedback que tem relativamente à turma no seu todo (e, se necessário, a alguns pais e encarregados de educação em particular questões mais sensíveis acerca dos seus educandos), bem como os resultados dos processos avaliativos; por outro lado, também é positivo que os alunos e os pais e encarregados de educação estejam presentes no conselho de turma, para que possam ser transmitidas, através dos seus representantes (admitindo que são verdadeiramente representativos, mas isso é outra história…), as suas opiniões/sugestões, também para resolver eventuais problemas que possam surgir. Só que, e não me posso impedir de o dizer, estas necessidades não teriam, idealmente, razão de existir, por não haver processos avaliativos formais… nem turmas… nem questões a resolver em termos do funcionamento prolongado das aulas… Sim, apanharam-me: estou a falar dos Mini-Ciclos de Leccionamento.

   Bom, estas minhas divagações incontroladas e incontroláveis à parte, mesmo admitindo que as coisas estavam abertas à mudança, e que tudo corria bem e todos eram devidamente ouvidos, esta história das reuniões acaba por deixar uma lacuna muito relevante: a crítica. É que, se se for a ver bem, nestas reuniões, lida-se directamente, cara-a-cara, com o director de turma (e, no caso dos conselhos de turma, com o resto dos professores da turma) e, indirectamente, com todo o grupo de professores e toda a estrutura do sistema de ensino, pelo que se torna inviável (se não mesmo impossível) criticar convenientemente o que está mal, ou, pelo menos, criticar convenientemente o que está mal sem dar azo a potenciais retaliações mais ou menos vingativas. Para ser mais concreto e vos dar um exemplo (coisa que não aprecio muito, mas pronto…), caso, numa reunião de conselho de turma, o representante dos alunos acuse um professor qualquer de ser demasiado ríspido e explicar as coisas demasiado rapidamente, não será, de todo, descabido esperar que esse problema só se agrave (devido a um raciocínio do género “Ah, é? Agora já vão ver o que é ríspido e depressa!” por parte do professor). É claro que se trata mais de um mal da essência humana do que do sistema de ensino, mas, ainda assim, poderemos fazer alguma coisa para melhorar este aspecto.

   E essa coisa seria, pelo menos, para mim, implementar um qualquer sistema de feedback anónimo de alunos e pais/encarregados de educação para professores, no qual se poderia, dentro do género, avaliar (sim, é de propósito…) o professor e/ou apontar sugestões ou críticas; isto ficaria bonitinho se fosse um formulário, com identificação do professor e algum tipo de questionário vagamente semelhante aos de satisfação do cliente, ao abrigo do qual se poderia atribuir uma classificação (continua a ser de propósito…) ao desempenho do professor. Este feedback teria de ser garantidamente anónimo, para minimizar represálias, pelo que talvez se recorresse a caixas de entrega mais ou menos espalhadas pelas escolas, ou, então, para facilitar a vida a todos, através de um formulário on-line, nas páginas das escolas, a que se poderia aceder através das múltiplas vias de anonimização informática (que não vale a pena debater aqui…). Está-se mesmo a ver que isto seria mais um serviço a incluir na plataforma dos Mini-Ciclos…

   É certo que este tipo de feedback poderia ser aproveitado para manipular contratações e despedimentos diversos, mas, se, em vez de os focarmos unicamente em prosseguir os nossos fins mais ou menos sórdidos, nos centrarmos em fazer as coisas melhor e, sobretudo, em fazer as coisas melhores (o que, por si só, já é pedir muito…), talvez possamos, ao criarmos esta questão das sugestões/críticas, melhorar o trabalho dos professores, por vezes já naturalmente excelente (espero que quem leia e assim seja perceba que o é…), outras vezes… até que nem tanto, o que só contribuirá para melhorar o ensino. É certo que isto é tudo muito utópico e irrealista, mas, convenhamos, se, por um momento que seja, deixarmos de parte o “dizer mal só por dizer mal”, e não presumirmos que tudo o que dizem e fazem é contra nós, talvez possamos, na globalidade, facilitar mais a vida de todos.

   E é isto. Sei que foi muito breve, muito pobre e muito superficial, mais foi o melhor que se conseguiu. Espero que melhores temas e melhores inspirações venham em breve… Em qualquer dos casos, se estiverem por estas bandas e tiverem vontade de comentar, nem que seja para criticar duramente, estejam à vontade para o fazer. Da minha parte, apenas vos posso assegurar que vos irei responder conforme possa.

   Resta-me, apenas, despedir-me de todos vós, leitores… No caso de só nos vermos (aliás, lermos) para a semana, e no caso de festejarem esta época, uma boa Páscoa para vocês… caso contrário, fiquemos pelo já habitual “até à próxima entrada”…

14 de março de 2016

Anúncio: Revisão do Texto dos Mini-Ciclos de Leccionamento Concluída!

   Boa noite a todos os leitores. Após algumas semanas de intenso esforço e dedicação, pude finalmente terminar a revisão do texto dos mini-ciclos de leccionamento, com que me comprometi numa entrada anterior. Caso estejam curiosos para saber do que se trata, poderão encontrar o texto no sítio do costume:

http://porumnovoensino.blogspot.pt/p/blog-page_27.html

   Agradeço a vossa compreensão pela minha ausência, mas reformular aquilo tudo demorou um pouco mais de tempo do que o que eu esperava… Enfim, cá estarei, cá andarei e espero fazer uma nova entrada, agora mesmo a sério, em breve. Assim, até à próxima e não se esqueçam de comentar, se assim o entenderem!

24 de fevereiro de 2016

Comunicação Actualizante (Ou Actualização Comunicante)

   Sei que já lá vai algum tempo desde que escrevi aqui alguma coisa. Admito que sim. Mas, felizmente, não tem sido por falta de inspiração (quando muito, por falta de tema… mas até nem por isso…). É que tenho andado mais ou menos ocupado a remodelar o texto principal dos Mini-Ciclos de Leccionamento (o tal que acaba por, em última análise, servir de base a todo este blog), de modo a torná-lo marginalmente mais compreensível. Porque, convenhamos, estava (e, aliás, ainda está) mais do que um pouco confuso…

   Só que, para grande desgosto meu, ainda não acabei essa revisão. Esperava que, por esta altura, já o tivesse feito, mas não. É pena… Enfim, só vos queria, caros leitores, deixar aqui esta informação, e a garantia de que a minha ausência não provém de qualquer desistência, doença, falecimento ou condicionamento (ou qualquer outro inconveniente mais ou menos desagradável de natureza semelhante) que me possa ter acometido nestes últimos tempos, mas sim dessa minha tentativa de rever o texto.

   Assim sendo, o propósito desta entrada está concluído… Resta-me desejar a todos um bom período de tempo até à próxima entrada (que não definirei com maior precisão: não me atreverei a definir uma data específica para o fim da minha revisão… ficará a vaga noção de que espero que seja em breve…), e uma boa contestação ao actual sistema de ensino, que é, como bem sabemos (ou como bem deveríamos saber), bem urgente, bem necessária, mesmo que bem difícil. Mas não fraquejemos e não paremos de lutar pelo melhoramento do que está errado!

9 de fevereiro de 2016

Do Físico e do Mental

   Leitores, se me permitem que me dirija logo assim, de chofre, a todos vós (tenho sempre uma certa tendência a pensar que são mais do que o que são, pelo que talvez, para grande desgosto meu, nem sequer se qualifiquem para um “todos”…), tenho de vos pedir as costumadas desculpas pela costumada ausência. Espero que não tenham dado muito pela minha falta (e, ao mesmo tempo, espero que tenham dado pela minha falta, porque isso significa que ligam pelo menos minimamente às baboseiras que para aqui escrevo…); caso se queira saber, ou caso não se queira saber, fui retido pelos habituais afazeres escolares, sempre enfadonhos, sempre indesejáveis e sempre prolongados… Vá lá que, por agora, há esta pequena folga, que acaba por permitir pôr em dia os assuntos em atraso. No meu caso, será a escrita e a contestação ao actual sistema de ensino…

   Por falar nisso, hoje até que nem escolhi um tema assim tão bom nesse sentido… mas foi o que me surgiu… e a escrita tem, para mim, uma forte componente intuitiva, pelo que forçar outro tema daria ainda um pior resultado. Aliás, o tema, em si, até que possui uma mistura potencialmente útil de pertinência, incomunidade (desculpem-me o termo bastante obscuro e francamente inventado…), polemicidade e possível teor filosófico, mas é mais uma reflexão do que uma crítica. Espero que não se importem…

   Ora, talvez já saibam que me aproximo bastante do estereótipo do marrão. Não é desejável que haja tais generalizações, mas o que é certo é que as há e, no sentido de melhor contextualizar o que vos vou dizer, fica aqui a informação (que, por acaso, até só me ofenderia a mim, pelo que não há grandes problemas com isso…). Sendo eu, então, um marrão, também possuo a grande falta de aptidões motoras que caracteriza essa pretensa faixa da população estudante (um sub-grupo cultural estudantil? Um estrato educacional? Não sei como lhe hei-de chamar…), em mim exacerbada numa certa falta de apreço pela actividade física. Mas, como é óbvio, há quem se encontre no lado diametralmente oposto do espectro (será o caso do leitor que está a ler isto neste momento?) e que, por isso, defenda até ao último suspiro a causa da actividade física.

   Nem vale a pensa entrarmos por grandes discussões quanto a quem tem razão, porque são ambos e não é nenhum: se, por um lado, a prática desportiva é essencial para a saúde do indivíduo, é igualmente certo que faz pouco sentido exigir, por imposição do sistema educativo, a quem levará a sua vida toda a desempenhar tarefas mentais que adquira, contra a sua vontade, conhecimentos e capacidades físicos. Percebem onde quero chegar? Ambas as partes têm razão e, se há quem insista, justamente, para que a Educação Física ganhe maior importância, nomeadamente no que toca a médias diversas, outros há que amaldiçoam, justamente, a inclusão dessa disciplina nos programas do ensino secundário.

   Tradicionalmente, e por toda a lógica, eu pertenceria a este último grupo, mas, como espero que já saibam, tenho sempre uma tendência incontrolável para ser a favor do contra… Sendo que, este caso, isso se traduz na habitual defesa de um paradigma alternativo de ensino que, pela subdivisão das matérias em ciclos de leccionamento mais curtos, confere maior liberdade e flexibilidade na selecção dos conhecimentos a adquirir; sim, já sabem, falo dos Mini-Ciclos de Leccionamento. Ora, não querendo incorrer na lengalenga do costume no sentido de evidenciar a quase panaceia que este sistema de ensino seria, vou, em vez disso, dizer mesmo que este sistema seria quase uma panaceia, ajudando, inclusivamente, a resolver, ou melhor, a tornar desnecessária esta questão.

   Está-se mesmo a ver: consoante o seu desejo (e mediante a aquisição de eventuais conhecimentos anteriores…), qualquer aluno poderia (ou não) adquirir conhecimentos relativos à prática de actividades físicas. Mas, convenhamos, não seria exactamente saber as regrazinhas, ou andar a correr de um lado para o outro com a bola na mão/no pé/no stick/seja onde for, não: seria de uma forma mais sistematizada, mais profissional, do que é hoje, ensinando mais aprofundadamente tácticas e técnicas diversas, eventualmente dando umas bases do funcionamento anátomo-fisiológico do corpo dos atletas e afins, sempre no sentido de transmitir conhecimento (o que fazer, como fazer e por que raio se faz como se faz); em suma, seria manter a parte do Física e aumentar a parte da Educação, fazendo, também, uma eventual ligação à competição desportiva mais “oficial” ou “profissional”. Mas, claro, tudo isto sem nenhum grau de obrigatoriedade.

   É certo que isto pode ser a modos que um incentivo ao sedentarismo, mas, convenhamos de novo, por um lado, quem é verdadeiramente sedentário não faz muita coisa em Educação Física (leia-se, sem ofensa, arranja formas de se escapar a fazer as coisas…), por outro lado, não serão umas poucas horas semanais que restituirão a saúde (sobretudo quando, nessas aulas, há demasiados alunos para o professor os poder auxiliar e incentivar convenientemente, e quando também há erros crassos de planeamento e execução da parte do professor, como seja a omissão de aquecimentos…) e, por outro lado ainda, é das minhas mais profundas crenças que uma actividade desempenhada voluntariamente o é muito melhor do que se for forçada, pelo que talvez funcione melhor educar e sensibilizar as pessoas para a eventual necessidade da prática de exercício físico nos seus tempos livres do que obrigá-las a praticá-lo em tempos não livres (convém, também, garantir que têm tempo para o fazer sem prejuízo das suas restantes actividades, coisa que, para os alunos, os Mini-Ciclos de Leccionamento também garantiriam…).

   Além disto, e ainda no âmbito das eventuais actividades menos intelectuais e mais físicas, há um facto vagamente incoerente que não posso deixar de destacar: no ensino, à excepção dos aparentemente vilipendiados e desprestigiados (vá-se lá saber porquê… e isto não é, de modo algum, ironia, porque nenhum conhecimento é mais ou menos digno do que outro) cursos vocacionais (se não for bem esta a designação oficial, peço aos meus leitores que me perdoem o arcaísmo; há sempre a evolução linguístico-burocrática, que torna praticamente impossível estar minimamente actualizado), são quase literalmente ignoradas certas actividades físicas que, não sendo directamente do âmbito desportivo, têm, na mesma, uma complexidade inerente que lhes cria a necessidade de serem leccionadas. Falo, portanto, de coisas como a mecânica (não no sentido do estudo das leis físicas que regulam o comportamento macroscópico dos corpos, mas no sentido do termo mecânica em “mecânica automóvel”, ou seja, no sentido da construção, manipulação e reparação de objectos e maquinarias diversas), a electrónica, a própria actividade laboratorial, a cozinha, entre muitas outras. Mesmo que haja, de vez em quando, um projectozito aqui ou ali, um workshop, uma iniciativa, ou um curso mais ou menos dedicado numa instituição mais ou menos dedicada a esse âmbito, no cômputo geral (não gosto muito desta expressão, mas era a que mais aqui se adequava…), é-lhes dada uma relevância praticamente nula.

   E isso, a meu ver, não faz qualquer sentido. Não podemos excluir conhecimentos só porque sim, só porque calha. Há que garantir a maior oferta possível, para salvaguardar a liberdade de escolha e, em última análise, para não cortar metaforicamente as asas a ninguém. Aliás, estes conhecimentos, de um domínio manifestamente prático, até têm uma utilidade social mais imediata do que os mais teóricos, pelo que a sociedade (por mais que muitos dos seus aspectos não sejam assim tão desejáveis…) até que fica a ganhar com isto…

   Assim, a inclusão destes conhecimentos na árvore dos módulos será, então, recomendável. Tudo isto permite chegar a uma conclusão que não ficou propriamente muito explícita no texto dos Mini-Ciclos de Leccionamento e que é a de que, na globalidade das matérias leccionadas, os conhecimentos mais teóricos, os conhecimentos mais práticos e todos os outros pelo meio estariam dispostos em relativa igualdade de importância, consoante, claro, as dependências e os prosseguimentos possíveis de cada um. Em última análise, isto permite juntar o ensino agora dito regular e o outro (que, por exclusão de partes, seria irregular?), eliminando, assim, uma distinção afinal injusta entre aqueles que têm maior aptidão para o pensar e os que a têm para o fazer. É certo que certos âmbitos beneficiam mais uma do que outra e, nesse sentido, certos pontos de vista darão mais valor a uma do que a outra (sendo que o ponto de vista tendencialmente académico responsável pela produção de reflexões diversas sobre o valor do conhecimento tem exactamente tendência a valorizar aquela que mais se integra no domínio académico, isto é, a aptidão mental, pelo que é esta que acaba por ser mais comummente valorizada), mas, globalmente falando, não se pode dizer que a aptidão física valha menos ou mais do que a aptidão mental, pelo que ambas deverão ter igual destaque e igual acessibilidade.

   E pronto. É isto. Um bom Carnaval a todos, se o festejarem (eu não: prefiro fazer entradas no blog…), e até à próxima entrada…

30 de janeiro de 2016

Das Greves (e) dos Estudantes

   Saúdo mais uma vez todos os leitores, a quem tenho de agradecer por se terem contido nos eventuais achincalhamentos que se poderiam ter seguido à minha entrada anterior, que acabou por ficar muito mais ridícula do que o que eu tinha esperado que fosse. Bom, independentemente disto, trago-vos hoje uma reflexão relativamente curtinha (o que, imagino, talvez apele mais a alguns leitores do que as paredes de texto que costumo fazer…) acerca de um tema que me surgiu espontaneamente no pensamento e que, por já reconhecer em mim um acesso de desinspiração em processo de formação, não posso deixar de aproveitar. Como sempre, o título estraga o suspense: decidi abordar as questões em torno das greves.

   Não quero ser arrastado para as questões político-sindicais diversas que envolvem intrinsecamente as greves, simultaneamente porque assumo (como talvez já saibam), sem qualquer vestígio de hesitação, o meu apartidarismo e porque não é, nem nunca foi, esse o âmbito deste blog e, por extensão, das reflexões que nele se podem encontrar. Ainda assim, a mais que ligeira desconfiança que tenho para com a sociedade (e os statūs quibus diversos que dela fazem parte) leva-me a questionar a utilidade, o potencial de mudança, que um método de contestação oficialmente sancionado pode ter. Mas, claro, isto é a parte mais paranóica e ligeiramente subversiva de mim a falar…

   Úteis ou não, oficialmente sancionadas ou não, as greves acabam por ser a forma mais utilizada de mostrar descontentamento. E, simultaneamente, quando se trata do caso específico da função pública (ou, mais especificamente ainda, daquela que pertence à área da educação), também são fonte de contentamento, por parte dos alunos cujas escolas foram encerradas e/ou cujas aulas não foram leccionadas por falta do pessoal necessário (o problema é que, mesmo celebrando essa balda temporária, não se importam de deixar andar as coisas como estão, com todo o sofrimento que lhes provoca essa vontade de se baldar, em vez de tentarem lutar para que as coisas sejam melhores e mais agradáveis…). Mas não é propriamente por isto que os alunos são para aqui chamados.

   O que interessa saber, ou melhor, debater, é o facto de os alunos não terem propriamente direito à greve, pelo menos tanto quanto a minha análise e a minha pesquisa, ambas pouco versadas nas minudências e nos preciosismos legais, puderam determinar. E isto, a bem dizer, não é justo. Se formos a pensar bem, os alunos têm um horário a cumprir, têm tarefas a desempenhar, têm deveres e direitos… têm, em suma, tudo o que um qualquer outro trabalhador acaba por ter (isto em relação aos trabalhadores por conta de outrem; no sector dos trabalhadores por contra própria, a história é outra, mas também me parece que este sector é um pouco falto de greves, já que tende a não haver propriamente superiores hierárquicos e decisões da chefia a contestar quando somos nós próprios esses superiores e essa chefia…), com a notável excepção do pagamento pelos seus esforços, bem como da existência de um vínculo contratual com uma entidade específica (no sentido em que os estudantes o são devido à legislação que estipula a escolaridade obrigatória ou, falando-se já do ensino pseudo-superior, por vontade ou iniciativa própria; isto leva a que, em última análise, as “entidades patronais” dos estudantes correspondam à totalidade da sociedade ou a eles mesmos). Neste sentido, os estudantes deveriam ter tanto direito quanto qualquer outra classe a manifestar-se e a mobilizar-se no sentido de alterar aquilo que, para eles, está mal.

   É certo que não há propriamente um sindicato de estudantes, e que as poucas entidades teoricamente representativas e aglutinantes dos estudantes, as associações de estudantes, estão mais ou menos dispersas e desligadas umas das outras, mas também não haveria grande dificuldade em se instituir uma organização assim, que pudesse convocar greves… ou será que haveria? Não me parece… mas, também, essa entidade acabaria por redundar no mesmo tipo de problemas e situações mais ou menos desagradáveis e mais ou menos indesejáveis de que as associações de estudantes já padecem (ver Crítica da Associação (de Estudantes Im)Pura), pelo que talvez fosse melhor não… Quer dizer… pois…

   Outra questão que também não podemos ignorar é que uma parte não tão insignificante assim dos estudantes é… como o posso dizer de uma forma legalmente correcta? Demasiado jovem para se poder convencer os senhores que pensam a reconhecer-lhes o direito de se manifestar por vontade e decisão próprias (falo, sobretudo, ao nível dos actuais 1.º e 2.º ciclos); pessoalmente, discordo desta visão, já que novos e não tão novos têm praticamente as mesmas hipóteses de tomar decisões acertadas, que são praticamente nulas (por também serem praticamente inexistentes as decisões acertadas…), mas, tratando-se, neste caso, de uma questão também legal (e não se estando aqui a falar de alterações sociais mais abrangentes do que as que se propõem no âmbito específico do ensino), teriam de ser as cabeças pensadoras a avaliar (sem trocadilhos, está bem?) e a decidir a partir de quando é que os alunos poderiam decidir com pleno direito a fazê-lo (ainda que talvez também fosse necessário avaliar e decidir se essas cabeças pensadoras teriam essa capacidade de avaliar e decidir… Nas palavras do poeta romano Juvenal, há que perguntar “quem guardará os guardas?”, ou melhor, “quem avaliará os avaliadores?”).

   Tudo isto (mais do que esperava e mais do que pretendia escrever) para dizer, apenas, que me parece vagamente ilógico que, sendo declaradas greves gerais diversas (não me estou, portanto, a referir à greve que ocorreu na passada sexta-feira, ao contrário do que questões diversas de calendário poderiam fazer pensar), os alunos nelas não possam tomar parte, bem como que não seja possível declarar uma greve especificamente para os alunos. Ou melhor, acaba sempre por poder haver uma iniciativa mais oficiosa, mais fora dos trâmites devidos, e talvez seja mesmo isso que tenha mais possibilidades de funcionar…

   Enfim. Desculpem-me a entrada estúpida e inconclusiva, bem como a argumentação de fraca qualidade, mas senti-me levado a escrever alguma coisa e isto foi o melhor que consegui. Um bom fim-de-semana a todos, fiquem bem, comentem (se quiserem) e até à próxima entrada!

22 de janeiro de 2016

Exortação da Juventude

   Em virtude de uma conversa que tive recentemente, houve quem fizesse uma pergunta muito pertinente (e, se essa pessoa estiver a ler isto, espero que aceite os meus agradecimentos, que na altura não lhe pude dar): mas, afinal, o que é que eu pretendo com tudo isto?

   Bom, a resposta é simples: melhorar as coisas, melhorar o ensino em Portugal, e, sendo ele a base de toda e qualquer sociedade, melhorá-la também, por extensão. Só que é algo easier said than done, como diriam os anglo-saxões. Nesse sentido, e visto que (para grande desprazer meu) o paradigma dos Mini-Ciclos de Leccionamento é, pelo menos por agora, menos que exequível (tendo em conta que ainda não foi possível, pela impossibilidade momentânea de ter acesso a todas as áreas do conhecimento humano e às relações entre elas, estabelecer-se a árvore dos módulos, central para a implementação deste paradigma), há que dirigir os esforços para uma luta também necessária, e bem difícil também, que é a contra os exames nacionais. Não, não vou argumentar tudo outra vez. Podem ficar descansados.

   Sei que, até agora, pouco se tem conseguido no sentido de angariar mais apoios e apoiantes nesta luta; divulgar o blog por si só, como até agora (e por falta de melhor via de acção) se tem feito, em nada contribui para divulgar a ideia, o conceito, a mensagem, a contestação. E, num certo sentido, escrever o que quer que seja aqui, pela relativa falta de tráfego e, intrinsecamente, de leitores novos, ainda eventualmente alheios à contestação, também não serve de nada, mas, pelo menos, ficarei com a noção (ilusão) de que estarei a fazer qualquer coisa de minimamente significativo. Então, e independentemente de quantos dos visados realmente lerão isto que escreverei de seguida, tenho de deixar aqui uma mensagem (não, não é essa…) a todos os jovens. Ignorem, claro, o facto de me dirigir a eles (a vocês) como se não fosse um deles (de vós), mas a segunda pessoa fica aqui melhor do que a primeira. Ignorem também a eventual demagogia, mas a minha intenção, garanto-vos, é esclarecer e não iludir (ao contrário da maioria dos exercícios demagógicos…). Ora bem, aqui vai…

Jovens, que esperais com a vossa vida? Sucesso? Emprego? Família? Uma vida perfeita, uma existência feliz, uma vivência quotidiana e agradável?

Pensai, pensai bem, pensai profundamente. Que vos aguarda o futuro? Que sortes, que oportunidades, que maravilhas vos guarda o futuro? Pensai, pensai bem…

Que esperais, que pretendeis com a vossa vida? Assegurar uma existência segura para vós e para os vossos descendentes? Mas, se calhar, essa existência segura pode deixar de o ser sem grande pré-aviso… e, de qualquer das formas, já pensastes que, ao agirdes assim, estais a perpetuar um ciclo por que já passaram os vossos pais, e os pais dos vossos pais, e, talvez, os pais dos pais dos vossos pais, e por aí fora, mantendo-vos, a vós e aos vossos presumíveis descendentes, numa situação praticamente idêntica àquela em que vos vistes pela primeira vez que observastes o Mundo, que é a da constante precaridade ditada pela existência e também pela convivência na sociedade actual (com eventuais variações de intensidade consoante a classe social)?

Pensai, pensai bem, pensai nisto… Que pretendeis com a vossa vida? Prazer e satisfação? Então, como os podeis ter ao vos subjugardes a imposições diversas (de ordem sócio-política, hierárquica, histórica, seja o que for…)? Por mais que isso possa parecer uma via para um bom emprego, talvez correspondendo, em grande medida, aos vossos interesses e aptidões, e que vos permitiria, dentro do género, fazer o que mais vos agradasse, nunca vos ocorreu que há sempre aspectos adversos a vós, a retirar-vos a possibilidade de obter esse prazer e essa satisfação que procurais (mais que não seja porque há sempre obrigações e deveres diversos, que, por definição, têm a particularidade de se sobrepor ao que seria a vossa vontade e ao que vos traria prazer e satisfação)?

Então, pensai, pensai bem, ou melhor, senti! Ignorai ethos, pathos e logos, ignorai todas as razões e critérios e noções que vos foram dadas, ignorai os vossos preconceitos e os vossos pós-conceitos, ignorai os vossos objectivos e propósitos, ignorai tudo isso, e senti, e deixai que seja o vosso interior, o vosso âmago, o vosso íntimo, o vosso subconsciente a responder-vos: estais contentes com o que tendes e com o rumo que levais?

Se a vossa resposta for um rotundo e inabalável “sim”, ignorai tudo o que acabastes de ler e saí imediatamente desta página. Mas, se há uma parte, mesmo que mínima, de vós que acha que a resposta não é tão incontestavelmente afirmativa, lede mais um pouco e ouvi mais um pedaço do que tenho para vos dizer.

É certo que o que vos tenho a propor não vos trará mais prazer ou mais segurança do que se levásseis uma vida normal, mas é igualmente certo que vos dará uma oportunidade de fazer a diferença, de mudar as coisas para melhor. A vida é curta, e os míseros segundos cósmicos que estão reservados à vossa existência não podem, ou não devem, ser desperdiçados em afazeres irrelevantes, em atitudes insignificantes cujo único contributo para a melhoria é tornar as coisas ainda mais solidamente como já eram antes (o que nem sempre corresponde a torná-las melhores…). Estais mesmo dispostos a efectuar tal desperdício, ou ansiais, como eu anseio, por fazer algo mais, por fazer algo mais significativo, por fazer algo melhor?

Se for esta a opção que fizerdes, olhai em volta, olhai em volta e vede o que está mal. Que injustiças se podem eliminar? Que erros se podem corrigir? Que tradições desajustadas, dogmaticamente mantidas pela tendência intrinsecamente conservadora da sociedade, se poderão suplantar? Tantos, sim, tantos! Tantos que dão ânsias de resolver logo todos os problemas!

Talvez não seja possível chegardes (chegarmos) todos a um consenso acerca do que está mal e de como estaria melhor. Talvez sim. Não me atrevo a tentar determiná-lo. Mas, seja como for, pergunto-vos: vedes que há coisas mal, e querei deixá-las assim?

Não! Cem vezes não! Mil vezes não! Vós, que o vedes, que o vistes, ou sabeis ou devíeis saber que os males que vistes só aumentam se os deixardes andar, se não os eliminardes. Oh! Mas é parca a força humana face à imutabilidade granítica das imposições hierárquicas e esclarecidas. Mas vós, que sois, que fostes, que agora vos tornastes minimamente esclarecidos, devíeis também saber que essa força só é limitada pelos limites que vós mesmos lhe impondes, e que a imutabilidade das instituições apenas provém da ausência de esforços para as mudar!

Assim, juntai-vos e mostrai-lhes, a todos eles, a todos esses indefinidos e sombrios eles que conspiram para manter as coisas como estão, que já estais fartos de pactuar com injustiças, que já estais fartos de suportar indesejabilidades! Juntai-vos, uni-vos e mostrai-lhes a vossa força, não para vos beneficiardes, não em prol de uma qualquer ideologia sócio-política, mas em prol daquilo que está certo, em prol daquilo que é devido, em prol daquilo que é mais desejável! Mostrai-lhes que a mudança, mais do que necessária, vem já atrasada! Mostrai-lhes, jovens, mostrai-lhes tudo isso e muito mais, mostrai-lhes, em suma, que sois mais, que sois muito mais, que os insignificantes números a que vos reduzem!

E, por mais insignificante (e, potencialmente, ridículo) que seja, gostava de vos propor, jovens, um alvo que não sendo, talvez, consensual, é, na mesma, simbólico de todas as imposições, de todos os controlos, de todos os domínios, de todas as manipulações: os exames nacionais. “A educação é a ferramenta mais poderosa que podemos usar para mudar o mundo”, como disse Nelson Mandela, e, nesse sentido, há que mudar a educação para que possamos mudar o mundo. É, pois, por aqui que devemos começar.

E, assim, junto a minha voz à vossa (e espero que vós junteis a vossa à minha) num grito, num apelo, num protesto, numa reivindicação: abaixo os exames nacionais!

   Bom, os meus leitores mais habituais que me desculpem o frenesi demagógico (preocupantemente próximo de certos discursos políticos… vade retro, politiquice aguda que me está a querer infectar!), mas deram-me ânsias e furores de escrita que não pude (ou não quis) controlar. Enfim. Se me quiserem dizer alguma coisa, aí fica o espaço de comentários; critiquem (se assim o entenderem) à vontade, porque eu próprio sou o primeiro a admitir que caí completamente no ridículo com esta minha entrada. Mas pronto. Até à próxima…

9 de janeiro de 2016

Mais Aferição da Aferição e Avaliação da Avaliação

   Não me posso impedir de começar esta entrada de uma maneira um pouco excêntrica: mas para que raio é que eu fui falar? Caso esteja a ser demasiado críptico, estou-me a referir ao facto de, antes sequer de estas… erm… maravilhosas notícias acerca das mudanças na educação terem saído, ter aqui efectuado uma reflexão sobre as provas de aferição. Tivesse eu ficado calado e, talvez, os brilhantes senhores do Ministério da Educação não teriam tido a brilhante ideia de reimplementar as provas de aferição, ainda por cima em mais anos do que os exames, e ainda mais por cima a mais disciplinas! Pronto, é certo que o Universo não funciona exactamente assim, mas não é a primeira vez que expresso a minha convicção de que algo não deve acontecer e é exactamente isso que acaba por acontecer… Nesse sentido, sinto-me levado a apresentar as minhas desculpas aos alunos do 2.º, 5.º e 8.º ano que passaram a ser afectados por estas provas…

   Bom, coincidência, acaso ou trama maquiavélica do Universo, o que é certo é que as provas de aferição cá estão, mais numerosas e mais abrangentes do que nunca. Se trocar os exames por provas de aferição já não era assim tão desejável, visto que correspondia a trocar um mal por um mal menor (ou, conforme digo na entrada anterior acerca das provas de aferição, trocar uma tortura prejudicial por uma tortura inócua), implementar ainda mais provas de aferição só vem tornar esta troca ainda menos desejável (tornando a tortura mais frequente, mesmo que se mantenha inócua).

   E, para piorar as coisas, parece que o Conselho Nacional de Educação veio fazer a modos que uma surtida em defesa dos exames nacionais (pelo menos no 9.º ano), propondo até efectuar-se mais um, o que, juntamente com uma outra notícia que por aí anda a circular e que afirma que os exames no Ensino Básico apenas são responsáveis por uma percentagem reduzida dos chumbos (por não haver, segundo parece, muitos casos em que as notas dos alunos sejam significativamente alteradas), vem fortalecer um pouco mais (ainda) a posição dos que defendem os exames.

   Mas não vou recair numa argumentação, que agora se tornaria mais do que repetitiva, acerca dos exames, das provas de aferição e indesejabilidades anexas e do quão necessário é que se abula esse tipo de instrumentos. Mas também não me posso coibir de frisar mais uma vez que a introdução anunciada de provas de aferição a mais disciplinas vem aumentar significativamente o factor stress dos alunos, com potenciais efeitos adversos na sua saúde mental, o que afecta negativamente as suas capacidades de adquirir conhecimentos, prejudicando, assim, o ensino no seu todo.

   Em todo o caso, quero deixar aqui umas perguntas a todos aqueles que concordem com exames nacionais e/ou provas de aferição (e que se encontrem a ler este texto): em que argumentos se baseiam para justificar a necessidade da existência desses métodos de avaliação? Ou seja, por que razão devem existir exames e/ou provas de aferição? Porque é que temos de avaliar/aferir o nível de conhecimento dos alunos?

   Responder-me-ão com o sempre comum (e sempre falacioso) “todos somos avaliados ao longo da nossa vida”?

   Pois, mas esse facto, por si só, não me parece suficiente para justificar que se efectue mais uma avaliação, ou várias (se quiserem, a existência de uma avaliação não pode ser usada para justificar uma outra avaliação, mesmo que uma seja vitalícia e a outra escolar; fazê-lo é incorrer num raciocínio circular, numa petição de princípio que torna toda esta argumentação inconsequente e inválida).

   Dir-me-ão que é necessário um critério de avaliação exterior, objectivo e imparcial, de modo a eliminar quaisquer desigualdades que o facto de os alunos partirem todos de condições iniciais gera?

   Bom, nem querendo contestar a objectividade e a imparcialidade das provas e exames (ainda que me apeteça muito fazê-lo…), e também não indo pela questão da injustiça, gostaria que me explicassem como é que realizar uma qualquer prova, conte ou não para avaliação, vai restabelecer essa igualdade de circunstâncias (já que, entre outras coisas, os alunos a quem não foi leccionada matéria não a aprendem subitamente só por fazerem a prova).

   Argumentarão que é necessário que o sistema de ensino possua algum instrumento para avaliar se os conhecimentos foram bem adquiridos?

   Sem sequer começar a questionar se exames e provas de aferição reflectem adequadamente o nível de conhecimentos dos alunos, creio que considerar que os resultados desses instrumentos levarão a alterações significativas e/ou a melhoramentos no sistema de ensino é partir de um pressuposto tão ou mais utópico e idealista que os próprios Mini-Ciclos de Leccionamento; por outro lado, também não vejo que lógica pode haver em deixarmos que essa avaliação do sistema de ensino tenha impactos no percurso escolar do aluno, penalizando-o injustamente por falhas que ele não cometeu (isto talvez seja um pouco menos significativo se houver provas de aferição, mas acaba sempre por haver subidas e descidas na consideração do professor, que podem beneficiar ou prejudicar o aluno…).

   Atirar-me-ão em cara que, se o ensino tem como função transmitir conhecimento (coisa que já tenho referido múltiplas vezes como sendo o seu principal propósito), então devermos determinar se aluno, de facto, adquiriu esses conhecimentos?

   Mas, então, expliquem-me como é que isso é conseguido numa prova que engloba uma miríade de matérias, podendo-se errar umas e acertar outras, sem que isso tenha qualquer efeito no sentido de permitir reaprender o que não se sabe e/ou não ter de repetir o que se aprendeu (por outras palavras, expliquem-me como se afere o conhecimento numa prova que testa as matérias como um todo, e ou se sabe uma percentagem suficiente desse todo para passar e se progride, mesmo que se deixe para trás algumas matérias que não se aprendeu, mas que, tendo-se passado, é como se se tivesse aprendido, ou não se sabe o suficiente para passar e não se progride, mesmo que haja algumas que se saiba, mas que, não se tendo passado, é como se não se tivesse aprendido).

   No meio de tanta contra-argumentação, não sei se deixei margem para os apoiantes de exames e provas de aferição que por aí andarem me responderem. Espero que ainda tenham coisas para me dizer, mais que não seja para que eu possa, finalmente, descobrir um qualquer argumento válido e significativo a favor das avaliações e/ou aferições diversas, e, através disso, atingir a maravilhosa iluminação que vós, apoiantes desses métodos, há muito que possuem… ou não.

   Seja como for, e antes de me despedir, não posso deixar de expressar o meu ligeiro espanto e o meu não tão ligeiro desagrado ante o facto de nem sequer ser considerada a abolição dos exames do Ensino Secundário. Sim, admito que falo parcialmente em proveito próprio, porque não vejo com bons olhos a possibilidade de ter de os fazer mais uma vez, mas sei que não sou o único a pensar desta forma. E, então, a todos os outros que também assim pensem, sim, a todos vocês que por aí andam, deixo o convite para a luta, para a manifestação, para a acção em prol de uma mudança que só poderá ser positiva! Abaixo os exames nacionais!

   E com estas palavras vagamente demagógicas me despeço, deixando-vos os meus votos de um bom fim-de-semana e a habitual ressalva acerca da plena disponibilidade do espaço de comentários…

P.S.: Tenho vagamente na ideia fazer uma certa renovação e revitalização do texto que descreve em pormenor os Mini-Ciclos de Leccionamento. Não será propriamente para agora, mas… para breve. Isto, claro, se entendermos “breve” como uma indicação genérica de um qualquer momento algures nas próximas semanas. Há trabalhos e testes diversos que me podem atrasar, mas espero acabar a revisão antes disso…

28 de dezembro de 2015

Sobre as Visitas

   Não, não se trata de uma reflexão vagamente anti-social e ressentida sobre as visitas mais ou menos inesperadas e mais ou menos indesejáveis que, quase inevitavelmente, surgem nesta época festiva. Coisa, que, de resto, ficaria assaz deslocada no meio de todas as coisas que digo sobre o ensino neste blog. Mas pronto. Poderia ter-me saltado a mola de vez e ter passado a escrever coisas (ainda mais) sem sentido e sem lógica… Mas não. Decidi hoje falar-vos das visitas de estudo e, mais especificamente, da efectuação das visitas de estudo no âmbito dos Mini-Ciclos de Leccionamento.

   Não posso, de modo algum, negar que as visitas de estudo podem contribuir de uma maneira significativamente positiva para as aprendizagens, ao permitirem que, dentro do género, se vejam postos em prática, em situações concretas e reais (a não ser que a visita de estudo incida sobre uma qualquer situação criada propositadamente para fins didácticos, caso em que se torna, apenas, uma situação concreta), os conhecimentos adquiridos, o que, em muitos e variados casos, contribui para a consolidação desses mesmos conhecimentos (a não ser que se seja um anti-empirista como eu, mas isso é outra história…). Nesse sentido, somos levados a concluir que as visitas de estudo são mais ou menos desejáveis. Só que também não podemos esquecer que há muitos casos em que as visitas de estudo constituem pouco mais do que uma desculpa para a borga, tendo, por vezes, quase nenhum sentido para além desse. E isto, meus meninos, não pode ser.

   Não estou propriamente a publicitar um estilo de vida monástico e espartano, desprovido de toda e qualquer alegria, de toda e qualquer diversão, nem tão pouco estou a incorrer no cliché de pedir borga, mas com calma (o que, por si só, constitui um contra-senso e uma contradição injustificáveis). Apensas não posso deixar de referir a incoerência da atitude da maioria, aproveitando toda e qualquer oportunidade para a folia, mas cedendo, quase imediatamente após esta acabar, aos apelos de “estudem para os testes!”, “façam os trabalhos de casa!”, “não se esqueçam das apresentações orais!”, “tenham cuidado com os exames!” e afins. Ora, não seria mais lógico se, em vez de tentarmos escapar sempre que pudermos ao enorme desconforto que estudar no actual sistema de ensino representa, nos esforçássemos para acabar com esse mesmo sistema de ensino e implementar um outro, em que os momentos de folia não tivessem de ser roubados, mas sim surgissem naturalmente (por estar ausente uma grande parte das tarefas – trabalhos de casa, pesquisas, estudos específicos para testes/exames… – que hoje em dia ocupam tanto tempo)? Bom, podia prosseguir para o apelo do costume relativamente à implementação dos Mini-Ciclos de Leccionamento, mas creio que seria vagamente repetitivo e, por isso, abster-me-ei de o fazer (ainda que, indirectamente, já o tenha feito ao dizer que o poderia fazer…).

   Independentemente deste meu aparte (bastante grande, diga-se de passagem), creio que já todos pudemos ver (como seria óbvio para alguns, um pouco menos, talvez, para mim) que as visitas de estudo, se apropriadamente seleccionadas de modo a estarem relacionadas com a matéria, até que são desejáveis, e isto é uma coisa que, excepcionalmente, o actual sistema de ensino até que tem a possibilidade de não fazer mal: tendo em conta a progressão de todos os alunos através de um programa pré-estabelecido, torna-se relativamente simples organizar, a nível escolar, do agrupamento ou da zona, uma visita de estudo precisamente na altura em que os conhecimentos que com ela se relacionam já foram leccionados (preferencialmente há pouco tempo, para estarem o mais frescos possível). Mas isto, apesar de ser uma vantagem do actual sistema de ensino, não elimina toda a montanha de desvantagens que ele tem. Nesse sentido, já sabem que considero mais desejável que se siga o paradigma dos Mini-Ciclos de Leccionamento, pelo que é no âmbito deste sistema, e dos seus condicionalismos organizacionais, que passarei a avaliar as visitas de estudo. Se não se importarem, claro.

   Bom, progredindo cada aluno de uma forma independente dos outros, torna-se bastante mais difícil conseguir coordenar as coisas de modo a que os conhecimentos dos alunos e as visitas de estudo estejam relacionados. Talvez isto possa ser conseguido se se organizar as visitas de modo a que os alunos só se possam inscrever (naturalmente, através da plataforma electrónica associada aos Mini-Ciclos) caso tenham adquirido os conhecimentos relacionados (numa forma vagamente reminiscente aos requisitos dos módulos, embora, para as visitas de estudo, os requisitos devam ser mais latos; por exemplo, faz sentido que, para uma visita a um qualquer aquário/oceanário/fluviário/et-caetera-ário, se tenha de ter aprendido qualquer coisa de Biologia, ainda que essa coisa, a meu ver, tanto possa ser Ictiologia, Oceanografia, Taxonomia, Ecologia, Zoologia ou, num certo sentido, até mesmo Botânica, pela parte do plâncton). Isto poderia muito provavelmente constituir um pesadelo logístico, pelo que seria lógico verificar-se, algum tempo antes da visita (três, quatro meses?), qual será o número de interessados, algo que, dentro do género, já se faz actualmente, por uma razão semelhante.

   No sentido de garantir igualmente que os alunos usufruem ao máximo das visitas de estudo, parece-me não ser má ideia tentar simultaneamente diversificar o âmbito das visitas o mais possível (para que se possa contactar com o máximo possível de realidades práticas) e realizar regularmente as mesmas visitas (para que todos os alunos possam ter, dentro do género, as mesmas experiências). Admito que estas duas práticas estejam fortemente condicionadas pela disponibilidade de meios (sobretudo financeiros), das escolas e das famílias, mas, exactamente nesse sentido de retirar pressão sobre esses meios, creio ser bem pensado realizar as visitas de estudo intervaladamente, num ciclo de alguns anos, que não deve ser nem muito grande, sob pena de um aluno que falhou por pouco uma visita não voltar a ter a hipótese de a efectuar, nem muito pequeno, para não enfadar os eventuais professores assistentes e para não sobrecarregar os alunos com visitas e as famílias e as escolas com gastos diversos (e além disso porque o facto de se estar a falar de ciclos de visitas de estudo no âmbito dos Mini-Ciclos não implica que haja mini-ciclos de visitas de estudo…). A propriedade adicional de os alunos se poderem inscrever em visitas de estudo de outras escolas pode vir a facilitar esta gestão.

   Bom, no fim de mais uma entrada inconclusiva e inútil (mas antes escrever coisas assim do que não escrever de todo…), tenho, apenas, a agradecer aos leitores que chegaram até aqui por terem suportado durante tanto tempo a minha prosa vagamente (por vezes, mais que vagamente…) enfadonha e confusa, bem como as que não conseguiram chegar até ao fim por terem tentado (embora esses fiquem alheios a este agradecimento…). Deixo o habitual convite para se servirem do espaço de comentários.

   Se não escrever mais nada até lá, um Próspero Ano Novo a todos (tirando àqueles que se possam reger por um outro calendário, cujo ano não acabe esta semana; a esses, desejo-lhes, apenas, uma boa semana, já que não é ainda altura do seu ano novo…).

22 de dezembro de 2015

Da Separação dos Poderes Educacionais

   Já por diversas vezes expressei a minha vontade de não trazer para este blog qualquer tipo de reflexão de ordem político-partidária, não só por ser plenamente apartidário, mas também por não ser esse o tema do blog. Porém, há certos assuntos da Educação com implicações políticas (mais significativas, leia-se, já que, em última análise, poderíamos afirmar que praticamente tudo o que fazemos tem uma qualquer implicação política) que não posso deixar de abordar só pelo facto de assim serem. O assunto que escolhi para esta entrada é um desses casos.

   A quem pertence o ensino? Pergunta vagamente estúpida, admito, e ainda mais confusa e irrelevante, mas, ainda assim, tentemos responder-lhe. Ora bem, se tivermos em conta aquela perspectiva de que o ensino deverá servir para transmitir conhecimentos racionais, poder-se-á dizer que que dirá respeito maioritariamente àqueles que transmitem os conhecimentos (professores) e aos que os recebem (alunos); juntamente com estes, teremos também de considerar todos os restantes que, embora não intervindo directamente nesse processo de transmissão e recepção, ainda assim acabam por ser essenciais para permitir que esse processo ocorra (pessoal não docente). Só que não podemos ignorar que todas estas pessoas estão inseridos num grupo mais vasto, o da sociedade, pelo que quaisquer coisas que os afectem irão, em última análise, afectar toda a sociedade; mais a mais, os conhecimentos transmitidos são, dentro do género, importantes para que os indivíduos desempenhem (ou não) funções futuras (e abster-me-ei, pelo menos por agora, de emitir juízos de valor relativamente a esse facto, decorrente da actual organização social…), pelo que, por esta perspectiva, também se acaba por concluir que o ensino diz respeito à sociedade no seu todo. Fica, assim, estabelecido que o ensino é de todos nós, e isto só nos pode levar a concluir que todos deveríamos poder ter algo a dizer relativamente a ele. Não, calma, ainda não vou para a pregação do costume…

   Bom, se todos deveríamos ter algum poder de decisão no âmbito do ensino, e se este, de facto, é relevante para a totalidade da população, parece fazer sentido que os processos decisivos estejam desligados de quaisquer interesses políticos, ficando, por isso, a cargo de uma entidade exterior ao governo, independente deste. Poder-se-ia objectar que, não tendo essa entidade fins lucrativos, estará sempre dependente do financiamento que o estado lhe poderia atribuir (o que levaria a que o estado a pudesse controlar na mesma), mas, mesmo sendo as coisas como são agora, já há essa particularidade, pelo que não estaríamos a originar novas indesejabilidades (ainda que estivéssemos a manter as que já existiam, o que, por si só, não é desejável, mas enfim…). Semelhantemente, também devido aos fins estritamente não lucrativos de qualquer entidade decisora no âmbito do ensino, a não intervenção política nessa entidade poderia levar a que os interesses puramente comerciais se tornassem mais preponderantes e pronunciados (em vez da forma sub-reptícia com que afecta a política), mas esta situação (além de, em parte, já ocorrer actualmente) será, em teoria, suplantada ao se fazer com que os eventuais cargos relevantes nessa entidade sejam desempenhados por pessoas escolhidas e não propriamente nomeadas (e isto tem a vantagem adicional de impedir que as nomeações variem consoante o panorama político, o que tornaria a entidade reguladora do ensino incrivelmente semelhante a um ministério, pelo menos nesse aspecto…).

   A questão será mesmo como se poderá efectuar essa escolha. Idealmente, dever-se-ia ter por base o mérito e a competência dos indivíduos, mas, sendo a aferição (sem trocadilhos, está bem?) destes aspectos extremamente difícil, sob diversos pontos de vista (e por diversos motivos), ter-se-á de recorrer, à falta de melhor, a algum tipo de sufrágio. Mas, para assim ser, teremos, também, de tentar definir, de uma forma que dê azo a limitada celeuma, quem deverão ser os eleitores. Logicamente, todos aqueles que fazem parte do funcionamento do sistema de ensino deveriam poder votar (falo, portanto, de alunos, encarregados de educação, pessoal não docente e professores, para os enunciar alfabeticamente ordenados). No entanto, tendo em conta que nem todos os alunos terão propriamente a capacidade de tomar essa decisão com pleno conhecimento de causa, há que, de alguma forma, estabelecer um limite mínimo de idade; não diria que fosse necessária a maioridade, apenas a maturidade, ainda que aferi-la seja muito subjectivo… talvez, não sei, 10 anos ou declaração de familiares ou psicólogos em como a pessoa em causa está apta? Bom, não interessa muito, é mais uma especificidadezinha organizacional, que não tentarei, pelo menos por agora, desenvolver. Voltando à questão dos votantes, creio ser importante deixar, também, a ressalva de que qualquer outro cidadão (que não esteja contemplado no grupo anterior, é claro) deverá poder, mediante um qualquer tipo de inscrição oficial, fazer também parte do grupo dos eleitores, já que, como comecei por dizer, o ensino diz respeito a todos.

   Mas estes votantes não deverão, a meu ver, desempenhar unicamente o papel de eleger pessoas para cargos diversos na entidade reguladora; deverão, também, participar em processos decisivos mais específicos, mediante alguma espécie de plataforma electrónica (eventualmente associada àquela que contém a matéria e os exercícios nos Mini-Ciclos de Leccionamento), que possibilite, de alguma forma, expressarem a sua opinião relativamente a assuntos de alguma importância. Não, não é propriamente para decidirem se se adquire um rolo adicional de papel higiénico para reabastecer as casas de banho da EB2,3 de Cascos de Rolha, mas também não lhes podemos negar a possibilidade de afectarem processos decisivos mesmo que apenas moderadamente importantes, ainda que esta classificação seja subjectiva, claro… Talvez o melhor fosse mesmo dar-lhes a possibilidade de se expressarem, de se manifestarem de uma maneira significativa, no sentido de afectar todas e quaisquer decisões que lhes possam interessar (em última análise, já o podemos fazer, mas… bom, não de uma forma que impacte directamente os processos decisivos…), exactamente através da plataforma informática de que antes falei.

   Bom, disse já tanta coisa, mas chego à conclusão de que o que disse é pouco menos que irrelevante, quando se tem em conta toda a infinidade de mudanças de que o actual sistema de ensino precisa tão desesperadamente. Mas, ainda assim, a criação de uma entidade reguladora do ensino exterior ao governo acaba por garantir escolhas (mesmo que marginalmente) melhores no âmbito da educação, por possibilitar uma maior constância das práticas positivas (por não ocorrer aquela situação, para alguns bastante negativa, para mim não mais que o resto do actual sistema de ensino, em que um ministro da Educação recentemente eleito desfaz, sem grande razão aparente, grande parte das medidas do seu antecessor), bem como, simultaneamente, uma mais rápida eliminação das práticas negativas (por não se ter de aguardar pela queda ou fim do mandato do governo para mudar as perspectivas das “cabeças pensadoras”, já que, e agora o acrescento, os votantes também poderiam, caso essa perspectiva fosse a maioritária, exigir a substituição de um qualquer membro da entidade por uma outra pessoa; além disto, e como já disse, também estaria na mão dos votantes intervir nos processos decisivos). Mas pronto. Esta reflexão tornou-se mais política, mais politizada e mais politizante do que pretendia, além de mais inútil e inconclusiva do que o que seria desejável, e, por isso, sou levado a apresentar-vos as minhas desculpas, caros leitores.

   De qualquer das formas, Boas Festas, caso considerem esta uma época festiva, Boas Férias, se as tiverem agora, ou Bom Dia (ou Tarde, ou Noite), se nenhuma das anteriores se aplicar. Eu por aqui me fico, deixando-vos, como de costume, o espaço de comentários, para fazerem o que bem entenderem com ele.

18 de dezembro de 2015

Da Verificação do (Des)Conhecimento

   Está já definido em entradas passadas que o propósito do ensino é, ou deveria ser, transmitir conhecimentos, especificamente conhecimentos racionais, preferencialmente raciocínios (por oposição à, e em detrimento da, memorização). Creio que isto é uma coisa em que poderemos todos concordar, sem grande margem para dúvidas.

   Ora, se o objectivo do ensino é transmitir esses conhecimentos, é em torno disto que todo o sistema de ensino deveria estar estruturado. Só que, actualmente, está mais centrado no cumprimento de requisitozinhos burocráticos e no seguimento de práticas e decisões que o passado, a tradição ou entidades hierarquicamente superiores (vistas quase como metafisicamente superiores, mas isso é outra história…) lhe conferiram. Mas isto, por palavras mais ou menos diferentes, já foi dito antes, e não é propriamente para ruminar a tendência conservadora do actual sistema de ensino que aqui estou hoje. Decidi, em vez disso (e também para, de alguma forma, celebrar este curto período de férias escolares que se iniciou ontem), focalizar-me um pouco mais (e mais uma vez) na questão específica da avaliação e dos métodos adoptados para a efectuar.

   Diga-se o que se disser, avaliar é sempre duvidar da eficácia do sistema de ensino. Se este funcionasse bem, e se tivéssemos essa certeza, poderíamos, sem problemas, dizer que todos os alunos adquiriram todo o conhecimento que lhes foi leccionado, sendo, por isso, desnecessário verificar se tal ocorreu. Só que, por motivos diversos (radicados maioritariamente na falibilidade humana e, por extensão, na falibilidade de todo e qualquer empreendimento humano), não podemos ter essa certeza. Nesse sentido, somos levados a adoptar um qualquer instrumento que nos permita aferir se o aluno adquiriu, de facto, o conhecimento que lhe foi leccionado. Mas, para tal, há que dar resposta a duas questões bastante revelantes: “Como se procederá a essa avaliação?” e “Que consequências deve ter essa avaliação?”.

   Começarei por abordar a primeira. Idealmente (e se me permitem um dedinho de Ficção Científica, que não está, de modo algum, relacionada com eventuais estreias de cinema que possam ter ocorrido recentemente…), dever-se-ia analisar a estrutura cerebral do aluno, de modo a determinar se as informações correspondentes ao conhecimento leccionado se encontram já adquiridas, algures na região cerebral correspondente à memória a longo prazo e/ou na região do cérebro dedicada ao tipo de actividade (motora, linguística, matemática, visual…) a que os conhecimentos em causa dizem respeito. No entanto, tendo em conta que (ainda) não temos nem os meios técnicos nem o conhecimento profundo do funcionamento do cérebro humano necessários para tornar esta visão possível, teremos sempre (ou melhor, por agora…) de recorrer a soluções um pouco mais convencionais (e um pouco mais deselegantes também, devo dizê-lo).

   Falo, portanto, da resolução de exercícios relativos aos conhecimentos leccionados. Tradicionalmente, isso seria feito sob a forma de testes, que, além de dizerem respeito a mais do que uma matéria (desvirtuando parcialmente o propósito de determinar se o aluno adquiriu um determinado conhecimento), acabam por não reflectir adequadamente, por motivos diversos (e como repito incessantemente, sempre que o possa fazer), aquilo que o aluno verdadeiramente sabe (falhando, então, inteiramente o pretenso propósito de avaliar o conhecimento do aluno).

   Assim, os testes não são a solução ideal. Aliás, incorrem, ainda, numa outra falha, que ainda não tinha apontado (e que me foi revelada por uma pessoa que espero que esteja a ler isto, e à qual não posso deixar de agradecer mais uma vez por essa ideia e pelo apoio…), e que é mais ou menos a seguinte: baralharem a existência com a recorrência dos erros. Permitam-me que me explique melhor. Ao efectuar um teste, enfim, acontece cometer-se, por vezes, certas estupidezes (por exemplo, estar tão embrenhado no processo de escrita que, inadvertidamente, se troca uma letra por outra, ou, no seguimento da frase, se esquece de um acento; ou, por outro lado, pela força do hábito, designar uma variável matemática por uma letra que não a que é indicada no enunciado…), que resultam não de um desconhecimento total ou parcial do assunto em causa, mas de uma distracção mais ou menos pontual; ora, penalizar os alunos por isto é injusto e, logo, indesejável. Admito que talvez seja difícil, em muitos casos, fazer a distinção entre o que foi um erro pontual e o que é prova de desconhecimento, mas não creio que essa incapacidade seja suficiente para justificar a penalização injusta dos que sabem…

   Então, depois disto tudo, poderiam ser levados a perguntar-me “Então e como raio é que se avalia?”; bom, mesmo não querendo ser repetitivo, creio que terei de descrever uma coisa bastante coincidente com os Mini-Ciclos de Leccionamento: à medida que se vai leccionando a matéria, os alunos vão fazendo exercícios e, quando passarem a realizá-los todos correctamente, consistentemente, deverão ter demonstrado, dentro do género, que adquiriram esse conhecimento. E, neste sentido, também os erros pontuais teriam um efeito mínimo, tendo em conta que se resolvem vários exercícios ao longo da(s) semana(s) em que a matéria é leccionada, pelo que esses erros, sendo pontuais, não ocorrerão em todos os casos. Creio, então, que fica respondida a primeira questão. Rimei, não?

   Pois bem, no que toca às consequências da avaliação, podemos dizer que, no actual sistema de ensino, são pouco mais que nulas. Sim, é verdade que, se um aluno tiver negativa nos testes e/ou exames, muito provavelmente chumbará (e o contrário também é válido). No entanto, isto em nada diz respeito ao conhecimento do aluno, porque qualquer um desses instrumentos engloba em si várias matérias, nem sempre todas encadeadas, e, por isso, o passar ou falhar essa avaliação não implica que, respectivamente, se tenha ou não se tenha adquirido os conhecimentos testados. Também nesse sentido, se um aluno chumbar, pode haver matérias que aprendeu e que é obrigado a “aprender” outra vez, ou, se passar, matérias que não aprendeu e que nunca mais irá aprender.

   Já devem ter percebido mais ou menos para onde é que eu vou levar isto outra vez, não é? Enfim, não o vou atrasar nem retardar, vou dizê-lo já: seria mais lógico se a matéria não viesse em “pacotes” de um ano, mas sim individualmente (matéria avulso, se assim quiserem), sendo cada matéria leccionada e avaliada em separado. Assim, caso um aluno não tivesse aprendido um dado conhecimento (ou seja, acabasse por não conseguir resolver acertadamente os exercícios com regularidade), poderia simplesmente (se assim o desejasse) voltar a frequentá-lo. E isto, meus caros, chama-se Mini-Ciclos de Leccionamento, como espero que por esta altura já saibam.
  
   Mas, ainda neste âmbito das consequências da avaliação, creio que também seria lógico implementar algum tipo de mecanismo segundo o qual uma grande quantidade de alunos a não conseguir adquirir uma dada matéria implicaria automaticamente algum tipo de averiguação no que toca aos motivos de tal acontecer e nas formas de se impedir que isso volte a ocorrer. Não falo exactamente de se penalizar a escola ou os professores, porque isso não resolve nada, agravando, até os problemas (os rankings são exemplo disso, levando a que escolas com piores resultados sejam menos financiadas, gerando uma degradação ainda maior das condições, o que só prejudica a aquisição de conhecimentos); falo, sim, de se tentar identificar os erros da organização e da pedagogia adoptadas e, se possível, corrigi-los. Mas pronto, isto são especificidades organizacionais de relevância reduzida, pelo menos, enquanto ainda não se implementou o novo sistema de ensino.

   Enfim. Relendo tudo isto que escrevi, creio que talvez tivesse sido mais simples pura e simplesmente escrever “Mini-Ciclos de Leccionamento!”, já que acabei por chegar (outra vez) à conclusão de que esse seria um sistema de ensino muito melhor do que o que o actual. Mas, como acabei por escrever este texto todo, considero que seria uma pena se o apagasse… Assim, e não obstante o teor vagamente repetitivo (e a relativa irrelevância) do texto, deixá-lo-ei ficar aqui, para que o leiam e (se quiserem) comentem. Um bom fim-de-semana a todos (e boas férias, para quem as tenha…).

12 de dezembro de 2015

Aferindo Aferições Diversas

   Antes de mais nada, tenho de apresentar as minhas desculpas por mais uma ausência, facto que, infelizmente, já se tornou um hábito. Eu gostaria, sinceramente gostaria, de escrever todos os dias, mas nem sempre consigo achar a inspiração necessária, ou um tema apropriado, ou argumentos minimamente válidos… e também me deparo, com a frequência a que o actual sistema de ensino já habituou os pobres daqueles que o frequentam, com todas essas ignobilidades de testes, e trabalhos, e trabalhos de casa… Enfim. Não interessa.

   Trago-vos hoje, com relativa frescura, uma temática que foi, se não estou equivocado, vagamente abordada na Assembleia da República recentemente, embora não exactamente pelas mesmas razões que me levam a abordá-la… Bom, em virtude da abolição dos exames do 4.º ano (Viva! Mas… e os outros? Não serão também para abolir? Não? Sou eu o único maluco que pensa assim?), e no âmbito de umas declarações do actual Primeiro-Ministro acerca disso, que estabelecia algum tipo de distinção entre a avaliação dos alunos e a aferição da escola, a bancada parlamentar do CDS-PP questionou o Ministro da Educação acerca da possível reimplementação das antigas (e parcialmente famigeradas) Provas de Aferição. E eu, como não poderia deixar de ser, vou aproveitar para criticar um pouco mais o actual sistema de ensino. Já sabem como sou, não é?

   Basicamente, a questão é: exames versus provas de aferição versus nada. Creio que se consegue mais ou menos adivinhar qual será a minha resposta, mas, mesmo correndo o risco de me tornar vagamente repetitivo, não me posso impedir de realizar uma análise crítica (e, mais do que isso, céptica) daquilo que são as provas de aferição. Dos exames, não vale a pena falar: remeter-vos-ei, em vez disso, para uma entrada anterior, onde me centro especificamente nessa questão. Aqui está.

   Bom, de uma maneira geral, as provas de aferição sofrem do mesmo tipo de problemas que os exames, testes e momentos formais de avaliação afins: não reflectirem adequadamente os níveis de conhecimento do aluno (já que constituem um momento pontual de avaliação, cujos resultados podem ser adulterados por uma vasta gama de factores, conforme não me canso de repetir), ajudarem a consolidar a noção de que o ensino deve actuar como elemento diferenciador de alunos (através das notas) e/ou corresponder a um mero cumprimento de requisitos mais ou menos burocráticos (leia-se programas), em detrimento da transmissão de conhecimentos que é, ou deveria ser, o verdadeiro propósito de qualquer sistema de ensino (conforme defendo na minha Fundamentação Metafísica do Propósito da Escola), e, de uma maneira geral, constituírem uma fonte de interpretações injustas e inadequadas à realidade, ao subjugar um conjunto de situações pedagógicas diversas a um mesmo critério geral, normalizado e normalizante, que, exactamente por ser assim, não tem em conta toda uma gama de possíveis situações adversas que escapam ao controlo dos alunos, penalizando-os injustamente (e, em parte, às escolas).

   Em suma, as provas de aferição constituem, ao fim e ao cabo, mais um momento de avaliação; mesmo que não seja esse o objectivo oficial das provas de aferição, não me parece improvável que, face ao eventual contributo das provas para os rankings das escolas (e, intrinsecamente, para o seu financiamento), elas sejam apresentadas aos alunos como algo de grande importância, para o qual se devem preparar afincadamente, conferindo-lhes, por isso, o mesmo tipo de efeitos psicológicos adversos que os exames (mesmo que os efeitos das provas nas notas sejam menores; ainda assim, afigura-se-me que haverá sempre aqueles casos em que um aluno entre a positiva e a negativa acaba por ser ajudado por ter tido mais ou menos boa nota nas provas de aferição, mas isso é outra história…).

   Nesse sentido, estaremos a trocar uma tortura prejudicial (exames) por uma tortura mais ou menos inócua (provas de aferição), mas uma tortura ainda assim. De qualquer das formas, entre os dois, tenho de concordar que as provas de aferição são a opção menos má. A questão é que a existência de provas de aferição deixa ainda em aberto a possibilidade da reimplementação dos exames nacionais, e isso é tudo menos desejável. Ah, claro, e também não posso deixar de frisar que as provas de aferição, não reflectindo o verdadeiro conhecimento dos alunos (como já disse e como continuarei a dizer), podem não ser um instrumento assim tão preciso para aferir a qualidade do ensino. Isto, claro, partindo do princípio que essa aferição da qualidade do ensino levaria, de facto, a algum tipo de mudanças, coisa que, pelo andar da carruagem, não me parece muito provável…

   Enfim. Mesmo que as provas de aferição sejam preferíveis aos exames, não são um bem, são apenas um mal menor. E eu não sou propriamente fã de males menores… acho, em vez disso, que não deve haver males nenhuns. Então, se me permitem que meta aqui a colherada habitual, parece-me que a solução mesmo, mesmo melhor seria não haver provas nem exames, e implementarmos, em vez disso, um novo paradigma de ensino: Mini-Ciclos de Leccionamento. Pronto. Já disse. Já se sabia que eu ia chegar aqui. Sou repetitivo, é certo, mas não posso deixar de tentar ao máximo promover esta perspectiva que, mais do que nova, creio ser melhor e, logo, mais desejável. Por isso, não me calarei e continuarei, sempre que puder, a apregoá-la o máximo possível.

   Para terminar, desejo um bom fim-de-semana a todos os meus leitores… ou um bom dia, ou seja o que for, já que poderão estar a ler isto não exactamente durante um fim-de-semana. Até à próxima, e não se esqueçam de que o espaço de comentários está aí em baixo, à espera do que possam ter para dizer…