24 de agosto de 2016

Da Obrigatoriedade Educativa

   Saudações a todos os leitores. Voltamos a encontrar-nos após uma pausa um pouco maior do que o que eu queria, mas a falta de inspiração e de temas que se costuma instalar no Verão fez-se sentir agora em força, o que quer dizer que, para grande desgosto meu, não será esta a entrada maravilha por que tanto assinava eu (e, não sei, mas, se calhar, vocês também). Seja como for, o que tenho a dizer não será inteiramente desprovido de interesse ou relevância, porque vou abordar aquele que é, ou que me tem parecido, um dos aspectos dos Mini-Ciclos de Leccionamento que mais dúvidas e questões levanta. Estou a falar, como o título indicia, da inexistência de qualquer tipo de obrigatoriedade na aprendizagem ao abrigo deste sistema de ensino.

   Começo já por dizer que entendo perfeitamente as razões que levam a que se defenda a existência de um certo grau de obrigatoriedade no ensino. Afinal, se o propósito de qualquer sistema de ensino é mesmo o de ensinar (conforme tenho vindo a defender desde a Fundamentação Metafísica do Propósito da Escola), para que se posa cumprir tal propósito, torna-se mais ou menos essencial que o aluno aprenda, e, como a natureza humana tende mais para a preguiça que para a realização de tarefas mais ou menos desagradáveis, mas mais ou menos necessárias, acaba por fazer sentido obrigar o aluno a aprender (não necessariamente de uma forma prepotente ou totalitária…), porque ele, naturalmente, não terá uma tendência assim tão grande para o fazer.

   Porém, devo confessar que discordo desta perspectiva. Além de um certo preconceito muito particular relativamente às obrigações em geral, sou levado a crer que o ser humano se socorre de um sem-número de estratégias e artimanhas para, sempre que possível, fazer prevalecer a sua vontade (não vou é debater até que ponto essa vontade será absolutamente livre e espontânea…), e, nesse sentido, se um aluno não quer aprender, ele inevitavelmente arranjará uma forma de não aprender; mesmo que se imponham verificações do conhecimento, de modo a garantir que o aluno terá de levar com a matéria de novo se não a tiver aprendido, em última análise, o aluno poderá sempre treinar-se e preparar-se especificamente para essas verificações e depois, uma vez passado, pôr tudo para trás das coisas. Quererá isto dizer, portanto, que todos os alunos são causas perdidas e que então não devemos tentar levá-los a transcender o seu natural e original estado de ignorância? Não, nem por sombras. Isto apenas pretende demonstrar que apontar-lhes uma arma à cabeça (com variados graus de literalidade…) e dizer “estuda!” não é exactamente a solução mais eficaz. E, diga-se de passagem, acarreta consigo um efeito secundário muito nocivo, que é o da desmotivação dos alunos (que é meio caminho andado para a não aprendizagem), face ao facto de serem obrigados a ouvir e a aprender matéria na qual não têm qualquer interesse (mesmo que lhes possa fazer falta posteriormente…).

   Assim, creio que todos podemos mais ou menos ver que, se calhar, obrigar os alunos a aprender talvez não seja assim tão produtivo para as suas aprendizagens, o que, embora pareça, à primeira vista, um grande contra-senso, começa a fazer cada vez mais sentido (pelo menos, para mim, começou…) à medida que se vai esmiuçando mais as coisas. Mas, bom, se obrigar não dá, o que podemos fazer? Bem, possivelmente, um milhão de coisas diferentes (se não mais…), mas acho que já conhecem a minha predilecção para analisar as coisas ao abrigo de um certo e determinado paradigma de ensino alternativo… pelo que já devem conhecer medianamente a minha resposta.

   Pois bem, ao abrigo dos Mini-Ciclos de Leccionamento, não temos, de facto, qualquer tipo de obrigatoriedade educativa, não só pelo facto de esta ser (ou, no mínimo, se me afigurar como) medianamente contraproducente para a eficácia da aprendizagem, mas também porque contradiria toda a filosofia de máxima flexibilidade que este sistema de ensino alternativo pretende seguir. No entanto, tal não significa que os alunos sejam pura e simplesmente deixados à solta, sem que haja a mínima atenção ou consideração para com a sua aprendizagem, e, portanto, colocados no rumo da ignorância. Antes pelo contrário, tenho fortes razões para crer que, ao abrigo dos Mini-Ciclos de Leccionamento, os alunos até aprenderiam mais e melhor (mas, como acho que já se aperceberam, não devo ser exactamente a pessoa pais imparcial para o aferir…).

   Acima e tudo, há um aspecto que nunca é de mais destacar: um dos principais desincentivos à aprendizagem (excluindo questões de ordem sócio-económica, questões essas que sistema de ensino nenhum por si só, conseguiria resolver, o que implica que, por mais infelizes e indesejáveis que sejam – que o são –, não se as abordará aqui por não se ter – ainda – uma alternativa mais ou menos viável… lá virá o dia, mas não será hoje…) é mesmo o conjunto de tarefas que, de uma forma ou de outra, vêm agregadas ao acto de aprender. E, se há algumas que são quase inevitáveis (ir às aulas, estar atento à matéria…), há umas quantas (e, acrescentaria eu, umas quantas das mais relevantes) que os Mini-Ciclos de Leccionamento eliminam: precisamente os testes, os trabalhos de casa e indesejabilidades anexas. Assim sendo, creio que temos, logo à partida, menos razões para que o aluno rejeite apender, o que é praticamente equivalente a haver mais razões para o aluno aprender.

   Para além disto, se o sistema de ensino (e, num certo sentido, toda a sociedade) estiver estruturado de forma a promover o conhecimento como ideal mais ou menos atingível (e não só uma coisa que se tem de ter, ou provar que se tem, porque assim mandam as regras e os regulamentos…), e se, complementarmente a isto, os membros da sociedade com que os alunos interagem mais frequentemente (na maioria dos casos, serão, sobretudo, os familiares e os professores, mas não importa propriamente quem sejam…) exercerem a quantidade certa de pressão e persuasão benfazejas no sentido de estimular os alunos a aprender, aguçar-lhes a curiosidade, levá-los a querer saber, mais motivos ainda haverá para que os alunos queiram estudar.

   Um pouco em paralelo com isto, e a modos que em contraponto com o sistema de ensino, a própria natureza do conhecimento humano e das tarefas que a organização social origina implica que haveria sempre uma espécie de soft obligation (não sei bem porquê, apesar de não apreciar grandemente os estrangeirismos gratuitos, não poderia ter deixado de usar esta expressão…) no que toca ao ensino, no sentido em que, com a possível excepção das tarefas… mais simples (que são, convém frisar, tão importantes e dignas de respeito quanto quaisquer outras, por menos que a organização sócio-económica actual o demonstre…), a grande maioria das tarefas acabaria por ter como requisito (entre outros mais específicos) um conjunto de conhecimentos básicos e essenciais para qualquer coisa (assim muito genericamente, os fundamentos da linguagem, da Matemática, do Funcionamento do Universo e dos Seres Vivos e da História e Cultura Humanas, ou seja, praticamente até ao caule da Árvore do Conhecimento). Isto, convém frisar, não seria característica nenhuma do sistema de ensino, seria apenas uma consequência natural da sua estruturação e da sua relação com aquele que hoje em dia é o mundo laboral. De qualquer das formas, se a estruturação social se mantiver mais ou semelhante à actual, temos aqui mais um incentivo para que se estude, no sentido em que, para se ter um emprego melhor (correspondente, em última análise, a uma tarefa mais bem vista pela actual organização social, que, grosso modo, acaba por corresponder a uma tarefa mais complexa, para a qual será necessária maior dose de conhecimento prévio, embora nem sempre…) e tudo o que daí advém, se teria de ter mais conhecimento.

   Com estes três aspectos, creio que poderemos, mais ou menos, concluir que, ao abrigo dos Mini-Ciclos de Leccionamento, haveria tantos ou mais incentivos para se estudar, com a vantagem adicional de a flexibilidade e ausência de obrigatoriedade permitirem que tudo corra de uma maneira mais fácil e natural. No entanto, não podemos negar que os alunos não são perfeitos e, sendo humanos, poderão sempre deixar-se levar pela preguiça, o que implica que nunca poderemos eliminar totalmente a possibilidade de escolherem não aprender (e, como disse antes, nem mesmo a imposição de uma obrigação de aprender o consegue fazer); isto é uma falha que, a meu ver, muito dificilmente se contorna, só se mitiga, e, nesse intuito de a mitigar, creio que os Mini-Ciclos de Leccionamento também se comportariam muito bem. Afinal, a flexibilidade que dão é também etária, o que implica que qualquer pessoa, em praticamente qualquer momento da sua vida, possa, se para tal tiver tempo e vontade, (re)aprender, assim permitindo-lhe colmatar eventuais falhas nas suas aprendizagens, o que reduziria o pendor definitivo das escolhas dos alunos, no sentido em que poderiam sempre voltar atrás e aprender o que antes não aprenderam, mas agora precisam de saber.

   Além disto tudo, há uma questão adicional que devo referir. É mais ou menos inegável que, sobretudo nas faixas etárias mais baixas, os alunos podem não estar propriamente capacitados para tomar as melhores decisões por si próprios (ainda que se possa pôr em causa se alguma vez alguém está verdadeiramente em condições de fazer tal coisa…); nesse sentido, esta flexibilidade, esta não obrigatoriedade de aprender, esta liberdade toda até que pode dar origem a uns quantos problemas. Porém, com uma rede de apoio suficientemente coesa (e competente…), entre familiares, professores e equipas de psicólogos especializados, creio que se conseguirá providenciar uma aconselhamento suficiente para se garantir que os alunos estão totalmente capacitados para agir da forma que lhes seja mais benéfica, independentemente de qual forma seja essa.

   Assim, tendo todas estas coisas que eu disse em consideração, acho que consegui justificar, espero que de forma minimamente satisfatória, aquela que, possivelmente, seria uma das principais questões em torno dos Mini-Ciclos de Leccionamento. Se, ainda assim, tiverem mais coisas a dizer, estejam à vontade para usar o espaço de comentários.

   Pela minha parte, nada mais tenho a dizer senão “adeus” e “até à próxima entrada”, pelo que… enfim… Adeus e até à próxima entrada!

10 de agosto de 2016

Dos Aspectos Organizacionais dos Exames

   As mais que habituais saudações a todos os leitores (e também aos que não o sejam, mas que, precisamente por isso, nunca saberão que lhas dei, que é o mesmo que nunca lhas ter dado…). Admito já que o tema, hoje, é pouco pertinente, mas, enfim, acaba por ser uma questão do actual sistema de ensino que ainda não abordei totalmente, pelo menos não neste sentido, e que acabou por ser a única coisa que consegui mais ou menos encontrar.

   Espero que, por esta altura, já seja sobejamente conhecida a minha total oposição aos exames nacionais; não voltarei a argumentar aqui, porque, convenhamos, nem sempre é exclusivamente pela fadiga que se vence, e muitas vezes a repetição excessiva desvirtua e desvaloriza os argumentos. Portanto, já sabem que, para mim, não haveria exames. Só que… há (chocante, não é? Acho que grande parte dos leitores não estava à espera de tal revelação…). E, nesse sentido, há algumas especificidades organizacionais que, não sendo directamente decorrentes dos exames, surgem, na mesma, da sua existência, e que, em parte devido à minha intensa oposição aos exames, ainda não tive a presença de espírito de abordar propriamente. É basicamente isso que espero vir para aqui fazer.

   Em primeiro lugar, as fases. Aqui, podemos dizer que até que é das partes menos mal pensadas disto tudo (não que isso seja dizer muito…). Afinal, dá-se aos alunos o direito de, se assim quiserem (ou se de tal necessitarem), repetir o exame, o que dissipa, em parte, aquela questão de haver um dia em que, por uma conjugação anormal de factores ambientais adversos, não se está na melhor das formas, e retira parcialmente o pendor definitivo do exame (ainda que, havendo só duas hipóteses, este ainda exista, e também não é, de todo, impossível que se tenha dois dias maus precisamente na altura mais inconveniente, ainda para mais porque o exame é um factor de stress, e o stress é um factor muito importante no que toca a ter dias maus…). O problema é que, havendo dois exames, haverá dois conjuntos diferentes de exercícios, o que implica que há diferentes graus de dificuldade, o que, num certo sentido, pode gerar injustiças (embora, diria eu, não mais do que os exames per se conseguem gerar…), e isso a modos que anula o tal propósito sagrado dos exames, o de assegurar a igualdade de circunstâncias entre alunos. Diriam alguns que é por estas e por outras que há, depois, fases diferentes de candidatura, mas não vale muito a pena irmos por aí porque, simultaneamente, tal não se aplica no caso do 9.º ano (onde há, na mesma, duas fases, embora a segunda só seja mesmo para aqueles que não passam na primeira, se não me falha a informação), e também a divisão entre o ensino superior e o restante, o tal a que sou levado, por exclusão de partes, a chamar “inferior”, não é, para mim, facto assente e assunto enterrado…

   Em segundo lugar, as inscrições. Isto, claro, diz respeito aos exames de 11.º e de 12.º e não tanto aos do 9.º, porque aí é automática (se não me equivoco), mas não deixa de ser mais um aspecto dos exames que poderemos abordar. Claro que, por toda e qualquer forma de lógica, faz mais do que sentido que, havendo uma vasta gama de exames, todos realizáveis independentemente da situação do aluno, tenha de haver algum tipo de aviso prévio em como se vai efectuar o A, o B e o C e não o D, o E ou o F; no entanto, sou levado a perguntar-me: num mundo onde já tanta coisa é efectuada por meios electrónicos, até mesmo no âmbito do ensino, por que razão se mantêm as inscrições em papel? É que, além de considerações ecológicas diversas, este estado de coisas só leva a que se estabeleçam filas enormes nas secretarias das escolas, como qualquer aluno prontamente poderá testemunhar (juntamente com o facto de as secretarias nem sempre serem pináculos da eficiência…), gerando atrasos que, mesmo que não impeçam a inscrição em si, sempre a tornam mais uma fonte de stress e de desagrado, algo que não se verificaria caso a inscrição se efectuasse por via electrónica (descontando eventuais problemas informáticos, que, por vezes, têm o desagradável costume de surgir em tudo quanto sejam sites, plataformas ou portais públicos…). E há, claro, uma outra vantagem, além deste maior conforto na inscrição, que é uma maior eficiência no processo de recolha e tratamento dos dados relativos às inscrições (no sentido em que a informação toda estaria mais ou menos centralizada no site da inscrição), o que resultaria na redução dos custos organizacionais disto tudo. E, por falar em custos, posso também referir que o custo desnecessário do próprio impresso de inscrição para os exames seria, assim, evitado (pode não ser tão exorbitante assim, mas é francamente desnecessário, face à velha história de o ensino dever ser “tendencialmente gratuito”, e afigura-se-me vagamente exagerado face ao custo dos materiais envolvidos na sua produção)…

   Em terceiro (e último) lugar, temos a questão das reapreciações de prova. Este acaba por ser outro aspecto medianamente positivo, no sentido em que reconhece que todo o ser humano é intrinsecamente falível e providencia uma forma de, dentro do género, contornarmos algumas situações provocadas por essa falibilidade; há é uns quantos problemas na sua execução. Acima de tudo, a impossibilidade de se contestar os critérios de correcção acaba por equivaler à admissão da infalibilidade dos responsáveis pela elaboração desses mesmos critérios, coisa que é, obviamente, falsa (está bem que as associações de professores da disciplina dão pareceres, mas parece-me que nunca nenhum desses pareceres teve grande efeito…). Por outro lado, os efeitos da reapreciação assumem uns contornos, a meu ver, demasiado punitivos, no sentido em que agem como um agente dissuasor tão intenso que transforma a reapreciação numa oportunidade apenas aparente, criada e concebida para fazer parecer que se tem em conta a falibilidade dos correctores, quando, na verdade, praticamente não se tem. Estou a falar precisamente do duplo facto de a reapreciação de prova incidir sempre sobre a totalidade do exame e de a nota dada ser final; a meu ver, ou se permitia ao aluno pedir a reapreciação apenas dos exercícios nos quais considerasse ter havido má aplicação dos critérios (para reduzir as possibilidades de ser prejudicado nos outros exercícios, onde a ambiguidade da resposta ou do critério poderia permitir essa margem de manobra por parte do corrector), ou se daria a garantia de que prevaleceria sempre a melhor das duas classificações, ou, se quisermos ser mesmo simpáticos, que ficaria a melhor das cotações em cada exercício (impedindo, assim, que o aluno fosse prejudicado só pelo facto de pedir a reapreciação de prova). E isto é para não falar no dissuasor ainda mais significativo que é o custo da reapreciação. Bem, posso vagamente tentar compreender – isto é um processo vagamente moroso, burocraticamente conturbado e causador de não pouco desconforto aos professores a quem calha a “batata quente” do trabalho adicional; nesse sentido, quanto menos pedidos de reapreciação houver, melhor para toda a organização disto tudo, mas, convenhamos, para quê darem a hipótese e depois tentarem levar as pessoas a não a efectuar? Não consigo encontrar uma resposta que permita manter uma visão positiva e elogiosa das instituições em causa e que, ao mesmo tempo, se afigure como minimamente satisfatória…

   Mas pronto, tudo isto são faits divers, críticas, contestações e sugestões perfeitamente supérfluas, porque o essencial é mesmo acabar com os exames e não corrigir pequenas questiúnculas que deles decorrem, porque eles próprios são uma abjecção tão grande que supera quaisquer esforços de melhorar as coisas sem os eliminar. O que quer dizer que mais valia não ter escrito isto tudo, mas agora já vou tarde…

   Enfim, espero que a próxima entrada já tenha um assunto mais relevante, e é por isso que me despeço de vós, caros leitores, aguardando já pela inspiração que me permita escrever essa entrada, na qual espero que nos reencontremos…

30 de julho de 2016

Movimento Pela Dupla Ortografia do Português

   Caros leitores, saudações mais uma vez. Escrevo, por fim, após mais uma pausa essencialmente involuntária, provocada por um daqueles acessos de falta de inspiração que já tanto injuriei aqui. Mas, agora, felizmente, já não é assim, e retomo um tema fracturante da nossa sociedade e que está, como não podia deixar de ser, bastante ligado ao ensino: a (já velha) questão do novo acordo ortográfico.

   Já deve ser relativamente óbvio para todos vocês que não estou propriamente de acordo com o acordo, antes pelo contrário, e sei que, como é óbvio, não estou sozinho nesta opinião; por outro lado, não podemos negar que há gente do outro lado da barricada, que defende (abster-me-ei de dizer se com ou sem razão…) a manutenção do acordo ortográfico. Um pouco neste sentido, e também porque a (triste) realidade é que o divide et impera funciona e é usado mais vezes do que o que talvez se possa pensar à primeira vista, cheguei recentemente à conclusão de que talvez esta luta esteja a desviar energias de outras possíveis lutas, talvez mais relevantes para o melhoramento das condições de vida de todos (nomeadamente aquelas que passassem por alterar statūs quibus nefastos diversos…), e então senti-me levado a desenvolver uma estratégia que, permitindo, dentro do género, reaver a tão delapidada identidade linguística do Português, não nos deixasse à beira de uma guerra civil entre acordistas e anti-acordistas.

   Não me interpretem mal: discordo profundamente do acordo ortográfico (e já aqui o disse antes…), acho que desvirtua o Português, quer a nível estético, quer a nível etimológico, acho que tem o potencial de gerar mais erros do que os que pretendia corrigir e, sobretudo, considero que a sua aplicação deixa muito a desejar, em particular no sentido em que o período dito de transição, desde a sua implementação (não criação, que foi, como a própria designação do acordo o indica, em 1990, mas adopção como ortografia oficial, o que ocorreu, se não me equivoco, em 2009) até ao momento em que se tornou completamente inadmissível (e penalizável em exame…) a utilização da antiga grafia, foi demasiado curto, não permitindo que as gerações que aprenderam a antiga ortografia pudessem ser totalmente substituídas (sim, estou a falar dessa actividade indesejável que é o falecimento…) pelas que só conheceram a nova (o que é ainda mais grave e inadmissível no caso dos estudantes…). Porém, e por mais que isso me agradasse, pedir a total e completa reversão do acordo ortográfico neste momento, quando já há todo um conjunto de indivíduos que não conheceram outra grafia senão a nova, seria incorrer precisamente no mesmo erro e no mesmo totalitarismo que, para mim, tornam o acordo ortográfico ainda pior do que o que ele seria se apenas se tivesse em conta o seu conteúdo.

   Então, que fazer? Sei que muitos anti-acordistas mais ferrenhos já se estarão provavelmente a preparar para me chamarem “herege”, “traidor” ou algo de conteúdo semelhante (e, sinceramente falando, também me sinto vagamente inclinado a fazer o mesmo a mim mesmo…), mas di-lo-ei na mesma, porque considero ser a melhor via de acção para todos. O que temos de fazer é, pois, pugnar pela adopção simultânea das duas grafias.

   Sim, eu sei o que vão dizer. Vão dizer que isto gera uma desvirtuação adicional da nossa língua, vão dizer que se vai anular os benefícios de se regulamentar a ortografia (que seria mesmo haver um consenso na forma de escrever), vão dizer que se vai complicar a vida a professores e alunos, ao haver grafias alternativas para as palavras (mas, de certa forma, já havia: por exemplo, “imundice” e “imundície” são igualmente aceites, tendo o mesmo significado e praticamente o mesmo som, mas sendo ortograficamente distintas…), vão dizer que se abre um precedente grave no sentido de termos tantas ortografias alternativas quanto, enfim, nos dê na cabeça, vão dizer seja o que for; admito que esta solução não seja ideal, não tenho dúvidas em afirmar que não o é. Porém, não posso deixar de frisar que esta opção, como espero que seja relativamente óbvio para os meus leitores, traz paz e harmonia a todos, porque os acordistas poderão continuar com o seu (abjecto) acordo ortográfico e os anti-acordistas, como eu, poderão manter a sua (maravilhosa) escrita antiga, permitindo, ao mesmo tempo, que qualquer mudança de posição, para qualquer dos lados, possa gradualmente ser efectuada, sem que isso afecte grandemente os utilizadores da Língua Portuguesa (afinal, a própria língua vai evoluindo lentamente…). E, para além disto tudo, também será medianamente importante referir que esta dualidade de grafias não seria propriamente um caso único no mundo: se não me falha o exemplo, a Noruega possui (entre outras formas não inteiramente oficiais) dois sistemas de escrita, o Nynorsk e o Norsk Bokmål, e acho que se entendem todos relativamente bem (à parte uns conflitos mais antigos que modernos…). É certo que as diferenças entre os dois não são exclusivamente ortográficas, há questões gramaticais também, e é igualmente certo que o contexto linguístico e cultural da Noruega é diferente do dos países de língua oficial portuguesa, mas isto não deixa de demonstrar que é, de facto, possível a coexistência de grafias diferentes numa mesma língua. Claro, teria de haver uma certa adaptação do ensino a esse pormenor, mas, tendo em conta que o ensino da ortografia ocorre maioritariamente nas fases iniciais e que, posteriormente, o foco está na gramática (e esta, tretas da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário e do Dicionário Terminológico à parte, permaneceria inalterada), essa adaptação não seria muito significativa (talvez, até, pudesse haver a hipótese de indicar logo nas matrículas a grafia escolhida, e, com base nisso, seria tudo normal, sendo leccionadas as palavras com a ortografia escolhida); na pior das hipóteses, e por mais que me custe escrever isto, sendo o novo acordo a norma oficial agora, seria apenas leccionado este, podendo os alunos utilizar a antiga ortografia sem problemas, embora não lhes fosse directamente leccionada.

   Por isso, parece-me que a via de acção melhor, mais vantajosa e menos prejudicial será mesmo esta: em vez de se fazer movimentos e petições para se anular totalmente o acordo ortográfico e/ou para se consultar a vontade da população relativamente ao mesmo, devemos, todos, acordistas e anti-acordistas (e indecisos e indiferentes também), pedir para que ambas as grafias sejam oficialmente admissíveis. É certo que os acordistas não terão razão absolutamente alguma para lutar por isto, visto que a sua ortografia é a oficialmente sancionada, mas, peço-vos, consideram só este aspecto: seria uma alteração que em nada vos afectaria e que, ainda por cima, melhoraria a vida a todos os falantes da Língua Portuguesa que, ao contrário de vós, preferem a ortografia antiga; por outras palavras, ninguém sairia prejudicado. Por outo lado, os anti-acordistas poderão ver com maus olhos esta iniciativa, no sentido em que em pouco ou nada contribuiria para acabar com o acordo ortográfico de 1990, mas peço-vos, considerem este outro aspecto: desta forma, deixariam (deixaríamos) de ser párias e renegados, e poderiam (poderíamos) escrever, com toda a confiança, com todo o reconhecimento oficial, sem qualquer penalização, ao abrigo do anterior acordo, sem, para isso, mudar à força a grafia dos outros, tal como vos (nos) mudaram a grafia à força. Então, parece-me que só por má vontade é que não se fará isto…

   Assim, termino esta entrada com um apelo a todos os leitores, para que se crie e leve a bom porto um Movimento Pela Dupla Ortografia do Português.

   Até à próxima entrada…