29 de junho de 2016

Assuntos Tripartidos

   Antes de mais nada, quero apresentar os meus mais sinceros pêsames a todos os alunos por aí e por aqui que tiveram o desprazer de realizar os exames nacionais; não poderia continuar a escrever se não o dissesse. Ora bem, pelo título, creio que já vos dei a entender, caros leitores, que esta não é uma entrada exactamente normal. Bom, no fundo, nenhuma o é, até porque a normalidade é um conceito unicamente artificial e arbitrário, mas esta segue um modelo completamente diferente das outras (o que não é, de modo algum, intrinsecamente negativo…), no sentido em que aborda em simultâneo (ou melhor, sequencialmente…) três temas que se revelaram relativamente relevantes no âmbito da educação nestes últimos tempos (e para os quais arranjei alguma treta para dizer, que é o mais importante…). Portanto, e se me permitem a heterodoxia estrutural (termo que, embora pareça, em nada está relacionado com questões religiosas diversas… é uma heterodoxia no sentido figurado…), teremos três subtextos de seguida, três análises que, admito, serão relativamente abreviadas, mas acabam por ser o melhor que se arranja. Ora aí vêm…



I – Da Ressalva do IAVE

   Pouco tempo antes de se iniciar oficialmente a época de exames, os mui nobres e gentis senhores do Instituto de Avaliação Educativa, vulgo IAVE, vieram tranquilizar as indubitavelmente inquietas multidões de estudantes prestes a realizar qualquer um dos exames com a muito preciosa ressalva de que não haveria surpresas e o grau de dificuldade iria ser o mesmo. Esta é precisamente a primeira coisa que quero abordar.

   Bom, num certo sentido, e se formos na já mais que velha cantiga de que os exames são bons e necessários et cætera, e que são um instrumento importantíssimo para avaliar o conhecimento dos alunos, é mais do que positivo que o grau de dificuldade se mantenha, para que a avaliação do conhecimento dos alunos seja mesmo o mais fiável possível, de modo a que, de ano para ano, não haja injustiças.

   Mas sejamos realistas: os exames não servem propriamente para aferir o nível de conhecimento dos alunos, conforme já aqui se provou inúmeras vezes, e vir o IAVE dizer que serão iguais aos anteriores é – como  me lembrei logo de dizer assim que vi esta comunicação – estarmos nós acorrentados numa cave, onde, de temos a tempos, uns loucos /sádicos/psicopatas/serial killers macabros/captores cruéis/seja o que for aparecem para nos torturar, e ter vindo um desses torturadores à porta, lá em cima, posto a cabeça de fora e anunciar-nos, num tom de voz simpático e relaxante: “calma, tenham calma, meninos, que a gente já vos vem torturar, mas são as torturas a que já estão habituados, está bem?” Completamente tranquilizador, não é?

   Esta minha metáfora (mais que) ligeiramente estúpida à parte, importa mesmo frisar que anúncios e informações destas… enfim… são dispensáveis. É que, por um lado, o grau de dificuldade de dois conjuntos de exercícios nunca é igual (a não ser que os exercícios sejam exactamente os mesmos e aqueles que os fazem também: a dificuldade resulta não só da tarefa efectuada, mas também de quem a efectua…), e, por outro lado, também se está, de certa forma, a condicionar previamente aquela que seria a apreciação, ou, mais correctamente falando, o parecer que as várias associações de professores viriam a fazer dos exames (que, diga-se de passagem, e sem ofensa para ninguém, tendem a não ser propriamente tão rígidos quanto o IAVE o é nos critérios de correcção… ainda que, por vezes, haja umas – bem necessárias, convém acrescentar – ferroadazitas!).

   Mas pronto. Já falaram eles, já fizemos nós, e dia 13 de Junho logo haverá mais gente a reflectir sobre o grau de dificuldade dos exames… O problema é que é sempre o mesmo: só contestamos, só nos mexemos, quando nos toca directamente a nós…



II – Da Defesa da Escola Pública

   Um pouco mais recentemente que isto, vários autores de blogs do âmbito da educação (eu não!) publicaram um manifesto que afirmava a sua luta, e pretendia exortar os leitores a lutarem também, em prol da escola pública, defendendo, também, a gratuitidade do ensino, a adaptação das escolas às necessidades dos alunos e das comunidades e outras coisas.

   Ora bem, já analisei anteriormente as questões do público e do privado, nomeadamente aqui, mas não me coibirei de dizer que esta questão, à parte politiquices e ideologias diversas, é mais um bom exemplo do divide et impera em acção, concentrando as energias de pais e professores (e, em menor escala, alunos) no confronto directo dos apoiantes da perspectiva oposta em termos de público e privado para mais facilmente se deixar passar os grandes erros, as grandes falhas do actual sistema de ensino.

   Todo o debate e toda a reflexão (e, logicamente, toda a controvérsia também…) acerca do ensino acaba por constituir mais uma oportunidade para que se detectem e corrijam os problemas de que padece o sistema de ensino, mas o problema é que esta questão rapidamente descamba num debate sobre política e/ou economia… É claro que cada um tem direito às suas reivindicações, e os que agem no intuito de melhorar as coisas (como provavelmente será o caso dos subscritores do manifesto) devem ser louvados, mas talvez não estejam a agir da forma mais adequada para o conseguirem…

   Assim sendo, diria eu que, mais do que defender a escola pública, há que melhorar a escola em geral. E já sabem como, não é? Mini-Ciclos de Leccionamento!



III – Dos Contestatários dos Calendários

   Chegámos ao tema final, que, por acaso, diz respeito a uma forma de contestação. Que novidade, não é? Mas, para variar, esta contestação é alheia e não minha: trata-se exactamente do facto de, assim que são divulgados os calendários de um novo ano lectivo, haver sempre gente que se manifesta negativamente.

   Não me interpretem mal: nada tenho contra qualquer forma de contestação (à parte aquelas que prejudiquem injustamente outros seres…), e, aliás, até acho que se deveria contestar mais, contestar mais coisas, contestar mais frequentemente… A minha única questão é mesmo o facto de, como também se passa no assunto anterior, essas energias contestatárias estarem, muito provavelmente (e, mais uma vez, sem ofensa para ninguém), a ser mal empregues. É claro que podemos – e devemos – sempre manifestar o nosso descontentamento para com qualquer decisão (sobretudo para com aquelas em cuja tomada não temos qualquer parte activa…), mas torna-se mais eficaz se lutarmos pelo direito de sermos nós a tomar essa decisão.

   Para isso, e neste caso em particular, creio haver essencialmente duas opções: ou se tenta tornar a elaboração do calendário do ano lectivo um processo mais democrático, em que os pais e encarregados de educação possam ter alguma coisa a dizer (juntamente com os professores e os alunos…), ou se tenta mudar o sistema de ensino para alguma coisa que que possibilite aos alunos e respectivos pais ou encarregados de educação uma muito mais flexível selecção dos períodos de férias. E, se este último caso traz consigo o inconveniente adicional (não me lixem… que raio de inconveniente é este?) de introduzir várias alterações (que tão bem sabemos serem necessárias) no status quo, o primeiro também não é propriamente ideal, porque, mesmo numa democracia, há sempre vozes discordantes, e, logicamente, não se acabaria com a contestação. Assim, acho que o caminho deve estar mais ou menos traçado, não? Mais uma vez, Mini-Ciclos de Leccionamento!

   Um pouco paralelamente a isto, surgiu, também, uma sugestão ou uma recomendação, por parte de associações diversas de professores ou de directores, se não me engano, para que se passasse a efectuar a avaliação semestralmente. E quase que poderia fazer todo um outro subtexto sobre isto, mas, tendo esta nova subdivisão proposta todo a ver com a estruturação temporal do ensino, enquadra-se bem aqui.

   Sinceramente falando, a minha primeira reacção quando soube disto foi: “Mas que raio?” Está bem, eu percebo que, matematicamente falando, e admitindo que se seguem, na íntegra, as fórmulas e as folhas de cálculo que tanta gente gosta de brandir como escudo e/ou arma de arremesso, o resultado final vai dar ao mesmo (porque a nota final terá, em princípio, em conta a totalidade do ano lectivo…), e também entendo a questão de alunos em vias de chumbo no segundo período ficarem desmotivados e não fazerem nada no terceiro, mas pergunto-me para que é que tal mudança serviria…

   Tudo bem que isto implica menos reuniões e menos burocracias, o que é sempre um aspecto positivo, mas, por outro lado, isto também pode reduzir o feedback professor-aluno, no sentido em que, não havendo notas do segundo período, pode ser mais difícil o aluno detectar se está a ter problemas em acompanhar a matéria, o que pode fazer piorar a sua nota final. Nota essa que, como digo várias vezes, não reflecte adequadamente o nível de conhecimento dos alunos, pelo que isto tudo se torna uma não questão, já que qualquer divisão da avaliação é estúpida, por também ser estúpida a própria avaliação, e o sistema de ensino ideal seria (pelo menos, para mim…) os (já muito falados nesta entrada, como em quase todas as outras…) Mini-Ciclos de Leccionamento, onde a desmotivação seria mínima e os anos lectivos se tornariam um conceito do passado…



   E pronto, é isto, é esta a heterodoxia estrutural que eu tinha prometido. Sei que não é nada de espectacular, mas dêem-me um bocadinho de tolerância… ou, se assim o preferirem, sugiram-me temas bons e interessantes para abordar…

   Seja como for, obrigado por terem passado por cá, fiquem bem, contestem sempre o mais que possam, e até à próxima entrada…

16 de junho de 2016

Sobre a Elitização do Conhecimento

   Caros leitores, nesta semana que marca o início da época do tormento ignóbil que são os exames nacionais (e contra os quais talvez valesse a pena, dentro do género, tentar lutar… não?), trago-vos uma entrada que, não sendo propriamente nada de muito inovador, constitui, na mesma, o que eu diria ser uma certa mudança de tom e de tema que talvez venha refrescar os ares aqui no blog. Está bem que não saímos das questões do ensino, mas vamos agora fazer uma análise um pouco mais reflectida e menos contestatária, de contornos (semi-)históricos e essência (semi-)filosófica. Espero que isso não vos incomode muito.

   Ora bem, o que é que eu quero dizer com isto da “elitização do conhecimento”, ainda para mais nesta época em que praticamente toda a informação do mundo pode facilmente ser acedida, premindo uns botõezinhos com letras em cima, ou arrastando os dedinhos por um ecrã? É (relativamente) simples: trata-se da tendência (já antiga, como vamos ver, mas ainda bem viva nos dias de hoje) de tornar o conhecimento, o verdadeiro conhecimento (portanto, não propriamente dados, mas a forma de os relacionar e interpretar), algo exclusivo de um grupo mais ou menos restrito de pessoas, grupo esse cuja maneira de ser e estar se consolida e perpetua com esse mesmo monopólio do conhecimento. Isto, no fundo, trata-se de mais uma manifestação da tendência conservativa e auto-perpetuante das sociedades (neste caso em particular, correspondentes aos grupos detentores do conhecimento, embora estes, por usa vez, também se encontrem subjugados aos interesses e intuitos da sociedade mais vasta, mais abrangente, que, naturalmente, engloba esses grupos e os restantes cidadãos…), e, nesse sentido, é algo vagamente expectável, pelo que não devemos ficar demasiado espantados por acontecer. Mas já sabem como sou e como penso: esse mesmo facto não nos pode levar a pura e simplesmente aceitar que as coisas sejam assim.

   Não vale a pena entrarmos nas questões dos segredos de estado, das informações confidenciais e da espionagem, porque, além de, no fundo, se tratar de informações e não de conhecimentos (que, sem filosofias transviadas, terão um carácter “operativo”, ou seja, de raciocínio e/ou noção de como fazer, e não um carácter meramente “indicatório”, de mera constatação de um estado de coisas, como têm as informações), introduz um nível de complexidade adicional, pela vasta gama de factores que os influencia e determina (e também pela sua génese e natureza maioritariamente extra-ensino, o que leva a que fujam quase completamente ao âmbito deste blog). Nesse sentido, a esmagadora maioria dos casos que restam para analisarmos (e descontando as situações de elitização de eventuais conhecimentos metafísicos e/ou transcendentais, que entra já no domínio das sociedades secretas, da religião, da fé – e, eventualmente, da charlatanice…) diz respeito, em maior ou menos escala, ao ensino, e aos vários tipos de estruturas académicas que formam construídas a partir dele ou em torno dele.

   O ensino, ou a transmissão de conhecimentos, remontará muito provavelmente às primeiras comunidades humanas. É mais do que óbvio: as gerações mais antigas, que mais experienciaram do mundo, transmitiam as suas experiências e as suas técnicas de sobrevivência às gerações mais novas, assim garantido que a comunidade continuaria activa – e viva. Neste sentido, mesmo que haja uma acumulação do conhecimento, total ou parcialmente, num grupo mais ou menos pequeno, não fará sentido falar-se de elitização do conhecimento, porque esse grupo estava tudo menos interessado em manter esse conhecimento só para si.

   Isto correu tudo muito bem enquanto as comunidades eram pequenas e a transmissão podia ser mais ou menos directa, mas, à medida que a densidade populacional aumentava e que as tarefas se tornavam cada vez mais específicas, passou a haver problemas: pela natureza simultaneamente gregária e facciosa do ser humano, os indivíduos que se dedicavam a uma tarefa específica acabaram por se juntar, gerando um grupo mais ou menos fechado e mais ou menos estanque, que mantinha em si os segredos do ofício em causa. Logicamente, só entraria nesse grupo aquele que fosse digno de representar a classe dos profissionais em causa, e essa dignidade só se atingia após alguns (bastantes…) anos de aprendizagem e experiência. E isto, com mais umas situaçõezinhas aqui e ali, com mais umas burocracias, umas formalizações e umas leis, originaria aquilo que viriam a ser, pelo menos cá na Europa, as guildas (passou bastante tempo entretanto, é claro; isto foi um processo gradual e não instantâneo…). Se este tipo de organização trazia a grande vantagem de consolidar e (eventualmente) estimular o melhoramento dos conhecimentos, também era francamente elitizado, já que subir na hierarquia da coisa (o que traria consigo aceso a conhecimentos cada vez mais “preciosos”) não era propriamente imediato…

   Só que falar disto assim é calar, entre outras coisas, um aspecto bastante relevante, num período, aliás, em dois períodos históricos bastante interligados, e de grande importância para o desenvolvimento desta sociedade dita ocidentalizada (terá certamente havido outros semelhantes para outras culturas, mas, quer pelo público-alvo de tudo isto, quer pela própria abrangência dos meus conhecimentos – ou falta dela –, vou resumir-me a estes dois aspectos, de modo a não cometer mais erros históricos do que os que já possa ter feito); acho que será mais ou menos óbvio do que é que falo: dos filósofos da Antiguidade Clássica e dos humanistas do Renascimento. Nestes dois períodos, como os leitores provavelmente saberão, houve literalmente dois picos na liberdade de acesso ao conhecimento, havendo, dentro do género, abertura para discutir livremente uma vasta gama de assuntos (um pouco menos, talvez, no caso de Renascimento, mas, ainda assim…). Bem, não obstante toda esta liberdade, também não podemos deixar de pensar que, no fundo, ainda se verificava uma certa elitização do conhecimento, no sentido em que, na maioria dos casos, acabava por ser necessário pertencer a um determinado grupo social e ter um determinado tipo de atitudes e mentalidades para verdadeiramente ter a possibilidade de procurar e adquirir os conhecimentos… sobretudo quanto temos em conta o analfabetismo mais do que frequente nos estratos menos privilegiados da sociedade… mas isto também já é ser maldizente…

   Historicamente falando, falta ainda falar do elefante na loja de porcelana (ou na sala, se formos mais anglo-saxónicos…): a questão da religião. Em maior ou menor escala, consoante a cultura e a sociedade em que se insere, a religião, com o seu papel aglutinador e estabilizador da estrutura social (no melhor e no pior sentido…), acaba sempre por desempenhar um papel relativamente determinante nestas questões da elitização do conhecimento (e da própria transmissão do conhecimento em si). Por um lado, se estimular (ou, pelo menos, não impedir) a inovação e a renovação do conhecimento, naturalmente que conduz a uma maior disponibilidade do conhecimento (com a eventual – e já abordada – particularidade de, mesmo assim, só alguns o poderem atingir), mas, por outro lado, se fizer a apologia da manutenção do conhecimento, da confirmação do anteriormente confirmado, enfim, da evolução da continuidade, será bastante expectável que, mais tarde ou mais cedo, o conhecimento acabe por ficar nas mãos de um grupo restrito de pessoas (para garantir que nenhuma – ou quase nenhuma – mente mais livre, menos disposta a manter a estabilidade, pega nesses conhecimentos e desata a desconstruí-los…), elitizando-se, portanto.

   Mas pronto, os leitores talvez já se estejam a perguntar, ou talvez já se tenham perguntado, “a que propósito é que vem esta porcaria toda?”. Pois bem, creio que não será preciso um grande esforço de raciocínio para nos fazer ver que o presente é consequência do passado, e, nesse sentido, de modo a melhor analisarmos (e, sim, pronto, criticarmos) esse presente, convém estarmos cientes do que foi esse passado.

   E, no caso particular do sistema de ensino português, e basicamente em toda a sociedade ocidentalizada, não podemos, de modo algum, ignorar aqueles que são as suas raízes, que residem precisamente nas tradições escolásticas medievais. E, como é sabido, estas tradições escolásticas inserem-se precisamente num contexto religioso que era profundamente conservativo (enfim, sem querer ofender ninguém… esta questão das religiões é sempre espinhosa, convém ter sempre muito cuidado e deixar sempre bem presente esta ressalva: a de que não pretendo, de modo algum, ofender, criticar ou desdourar a fé de ninguém…), gerando, por isto, este já tão repetidamente mencionado fenómeno da elitização do conhecimento. Eventualmente, esta tradição escolástica deu lugar à académica, com a fundação das primeiras universidades e tudo o mais, mas, durante um grande período de tempo (alvitraria eu que até ao século XVIII ou XIX, com o advento do iluminismo, do liberalismo ou de uma outra ideologia nessa veia mais aberta, mais transparente, mais progressiva), esteve sempre fortemente dependente de e fortemente condicionada por questões religiosas diversas, mantendo, portanto (e nem sei bem porque estou a repetir tanta vez esta mesma expressão…) o conhecimento elitizado. E, por mais que as alterações sociais (será sempre relativamente debatível se serão progressos ou não, pelo que não lhes atribuirei esse epíteto) possam ter intervindo entretanto no intuito de reverter essa elitização do conhecimento, nunca se deixou de verificar essa tendência, que, em última análise, se estende até aos dias de hoje.

   É claro que não é a religião a (única) culpada disto: como comecei por dizer, a elitização do conhecimento é consequência da própria natureza do ser humano e da sociedade; no entanto, e acho que também me estou a repetir aqui, não é por as suas origens serem perfeitamente compreensíveis que a elitização do conhecimento é desejável. O conhecimento é, em última análise, uma coisa imaterial, construída como que a partir do nada, e, nesse sentido, será muito pouco razoável reivindicar a posse ou o domínio desse mesmo conhecimento, até porque (questões experimentais diversas à parte…) acaba por não ser necessário despender recursos para o originar.

   Independentemente disto, ou melhor, paralelamente a isto, sou levado a admitir que tenho estado a ser dogmático ao afirmar pura e simplesmente que a elitização do conhecimento ainda se verifica na nossa sociedade, sem dizer como, onde e porquê. É claro que, no que toca ao ensino obrigatório (básico e secundário), só por má vontade se diria que elitizamos o conhecimento, já que até se obriga os alunos a adquirir esse conhecimento (quer o queiram, quer não…), e, de resto, sendo as coisas como estão e estando as coisas como estão, o autodidactismo está ao alcance de praticamente qualquer um. O problema está quando temos em conta questões científicas, ou, de outra forma, académicas, (vistas como) de maior profundidade; podemos admitir que é frequente a adopção de um vocabulário, de um discurso ou, genericamente, de uma forma de dizer as coisas que dificulta (quando não impossibilita mesmo) a total compreensão aos “não iniciados” no assunto em causa.

   É claro (acho eu… but one can never be too sure when it comes to human beings…) que isto não surge de um esforço consciente, voluntário, concertado, maquiavélico no sentido de minar a compreensão dos outros (aliás, diria mesmo que muitos tecnicismos e muitas questões formais aparentemente confusas até que têm uma razão muito lógica para existir… mesmo que pudessem ser, pelo menos nalguns casos, evitados…), mas temos de reconhecer que gera uma situação bastante análoga aos paradigmas de Kuhn: para se estar em condições de se adquirir os conhecimentos (eventualmente para os desconstruir e melhorar…), é quase que obrigatório passar-se por um processo de aprendizagem que, em grande medida, incute aos alunos a forma de ser e estar daqueles que, até então, eram os detentores desse conhecimento, o que conduz, em última análise, à estagnação dos conhecimentos (porque essa forma de ser e estar, na maioria dos casos, acaba por envolver a aceitação e defesa de conhecimentos que praticamente se passou a ter como absolutamente verdadeiros) e da sociedade (porque se continua a manter o grupo restrito de conhecedores, que conduz ao famigerado divide et impera que é tão responsável pela ausência de alterações…).

   Portanto, fazendo um ponto de situação: a elitização do conhecimento é má, e temos elitização do conhecimento. Logo, as coisas estão más, o que quer dizer que temos de as corrigir. Importará, então, saber como. A própria natureza dos conhecimentos que o ser humano tem vindo a adquirir, nas mais diversas áreas, e as limitações psico-fisiológicas de cada indivíduo ambas implicam que seja extremamente difícil atingir o conhecimento quase total no âmbito de uma dada área do conhecimento (pior ainda se for em várias…), e muito menos sem instrução prévia; nesse sentido, há sempre uma certa dose inevitável de elitização de conhecimento, que, sendo inevitável, não conseguiremos nunca eliminar. Mas há uma coisa ou outra que ainda podemos fazer: tentar diminuir (e eliminar) a questão das elitezinhas académicas, enfim, aquele síndroma do “ó’ p’ra nós que somos alunos universitários” (que passa também por aquela resposta estúpida e repetitiva do “não se queixem, que na universidade será pior” a tudo quanto seja contestação aos exames, não sei se sabem do que falo…). Por outras palavras, há que acabar com a abrupta clivagem entre aquele que é o mundo académico-científico, sempre intrinsecamente ligado ao ensino superior, e aquele outro que, por exclusão de partes, não posso dizer senão ligado ao ensino “inferior”. E como se faria isto? Com um progresso mais natural e contínuo do conhecimento, com as matérias separadas, etc. Já estão a ver onde quero chegar? Mini-Ciclos de Leccionamento!

   Não me interpretem mal em nada do que disse: tenho o máximo respeito pelo conhecimento, qualquer que ele seja (já que, e podem sempre aproveitar-se desta frase, o conhecimento é tudo e tudo é conhecimento), e não duvido do seu valor; semelhantemente, respeito e louvo inteiramente o a força de vontade e o espírito de sacrifício daqueles que se esforçam para o atingir; só não penso o mesmo dos seres humanos que fazem gosto em alardear que são seus detentores, ou das instituições que têm a pretensão de afirmam ter como missão, intuito e propósito transmiti-lo…

   Enfim, se isto foi ainda mais chato do que o costume, peço desculpa, mas apeteceu-me variar um pouco… Não sei, mas, pronto, se se sentirem metafisicamente inspirados a tal, podem sempre rebater todas as tretas coisas que eu para aqui disse, usando, com esse propósito, o espaço de comentários aí em baixo. Ou também podem não as rebater. É convosco.

   Eu, pela minha parte, pouco mais terei a acrescentar, (medianamente) concluído o raciocínio, (totalmente) concluída esta entrada… Direi, apenas, que vos dirijo os mais cordiais cumprimentos, e que é com essa mesma cordialidade que me despeço, até à próxima entrada…

7 de junho de 2016

Das Perspectivas Educativas

   As minhas mais cordiais saudações a todos os leitores. Como talvez tenham mais ou menos adivinhado, ou assim não tanto, enfim, apesar das duas entradas de há duas semanas, tenho andado um pouco falto de temas. Já conhecem bem o fenómeno, a inspiração transviada, a mistura pouco explosiva mas muito nociva de excesso de vontade de mudar o actual sistema de ensino e de falta de vias de acção imediatas para mudar o actual sistema de ensino, e tudo o mais, e tudo isto a resultar em entradas… da treta. Como esta. Enfim, no meio das nenhumas opções que tinha, esta que me surgiu pareceu ser a menos má: vou falar-vos de uma certa tendência que desde há algum tempo tenho vindo a verificar, em tudo quanto seja debate ou reflexão sobre o ensino, e que é a de se estabelecerem duas facções, ou duas correntes de pensamento, com ideias e tendências aproximadamente opostas.

   De um lado, temos aqueles a que, sem ofensa para os referidos ou para os referentes, gosto de chamar (semi-)humoristicamente “hippies educativos”. É aquele grupo de pessoas que defende uma visão holística para o ensino, ao abrigo da qual se deveria dar primazia à cidadania, às preocupações ambientais, ao trabalho em equipa, à criatividade, à aquisição e/ou ao desenvolvimento de competências pessoais, à resolução de problemas e a coisas afins, tudo isto com aulas mais livres, com uma relação aluno-professor mais directa, tendo o aluno tendencialmente maior autonomia para definir o seu currículo em consonância com o professor e/ou havendo grupos de trabalho mais ou menos individualizados, em que vários alunos com interesses/tendências/capacidades semelhantes trabalham uns com os outros para aprender. Será, pois, algo mais ou menos no seguimento da Escola da Ponte.

   Do outro lado da barricada, estão aqueles a que, com espírito e intenção semelhantes (e, portanto, também sem querer ofender), tenho por hábito chamar “burocratas totalitários”. De uma maneira geral, são aqueles que insistem na santidade dos valores do trabalho, do empenho e da dedicação dos alunos, bem como no valor inalienável, absoluto e absolutamente obrigatório do rigor, da rectidão, da exigência e da objectividade, defendendo, por isso, um sistema de ensino bastante semelhante ao actual, em que tudo são notas, testes, exames, avaliações, medidas, números, cobrindo todas as eventuais falhas na argumentação ou na própria ideia com a sempre falaciosa (mas sempre utilizada) referência ao (aparentemente incontornável) facto de todos sermos avaliados ao longo da vida, ou uma qualquer barbaridade semelhante.

   Os leitores que me perdoem por não ter tido a imparcialidade necessária para não deixar transparecer o facto de esta última corrente me parecer muito mais errada, ou, no mínimo dos mínimos, muito mais prejudicial do que a primeira, mas também devo dizer que, como sempre, não me enquadro propriamente em nenhuma delas. Já sabem porquê, não é? Ou não? Enfim, não sei se vos interessa, mas, pronto, vou partir do princípio que vos interessará minimamente, porque, caso contrário, faria pouco sentido ter escrito isto tudo…

   Bom, antes que deambule demasiado por estas vias do pensamento negativo, vou retomar o tema. Independentemente dos possíveis argumentos a favor de cada uma das perspectivas (que eu até poderia tentar dar, se não se desse o caso de sofrer da grande falha que é não conseguir argumentar em prol daquilo em que não acredito), não podemos negar que, em ambos os casos, há um fundamento muito lógico para ambas as atitudes. Por um lado, para que todos possamos conviver em sociedade, torna-se mais ou menos essencial que sigamos um certo conjunto de regras e princípios, e, nesse sentido, percebe-se que se os queira transmitir de uma forma mais ou menos garantida e sistematizada, via sistema de ensino; o problema é que há uma linha muito, muito fina entre instrução benfazeja e condicionamento quase orwelliano… e também não nos podemos esquecer de que, no fundo, o propósito do ensino é a tal história de ensinar, leia-se transmitir conhecimentos racionais, e não propriamente o de educar, isto é, transmitir valores e conhecimentos/capacidades mais subjectivos. Por outro lado, também se percebe que se queira garantir que todos os alunos efectuaram as aprendizagens que deveriam ter efectuado, para que não haja falhas de conhecimento que os possam prejudicar em aprendizagens e/ou tarefas futuras; o problema é que, conforme já disse mais vezes do que as que me apetece contar, os testes e os exames e essas tretas todas não reflectem adequadamente o nível de conhecimento dos alunos, e, além disso, avaliar umas matérias em particular em nada contribui para as ensinar melhor, já que o ano continua e vêm mais matérias pela frente. Assim, em ambos os casos, podermos dizer, ou direi só eu porque sou só eu que estou a escrever isto, que se está a tentar fazer uma coisa boa, mas não pelos meios mais apropriados. Então, o que poderemos, ou deveremos, fazer?

   Para mim, a resposta é clara: simultaneamente alterar radicalmente o actual sistema de ensino de modo a implementar os nossos amigos Mini-Ciclos de Leccionamento, ao abrigo dos quais só se veria reconhecido que se aprendeu uma matéria se, de facto, se a tiver aprendido na sua totalidade (assim seguindo a intenção original dos “burocratas totalitários”), e, com base nisso, fazer com que o sistema de ensino ocupe uma menor porção do tempo dos alunos, levando a que tenham mais tempo de convívio e de interacção com os mais diversos elementos da sociedade, assim potenciando a transmissão – até de uma forma mais natural – dos valores e dos princípios essenciais à coexistência pacífica com os restantes seres humanos, bem como as competências de socialização, de cidadania, de criatividade e tudo o mais (satisfazendo, assim, as preocupações dos “hippies educativos”). E isto, pelo menos, para mim, afigura-se-me como uma terceira corrente, uma terceira postura, que, na mesma veia pouco cómica dos nomes anteriores, poderei dizer ser a dos “revolucionários de bolso”, porque, no fundo, será isso que somos, todos nós (sejamos quantos formos…) que acreditamos nesta questão dos Mini-Ciclos. Mas nada melhor que uma revolução de bolso para melhorar o mundo!

   Pronto, já sei o que vão dizer. “Tanta coisa para ir dar ao mesmo. Mini-Ciclos de Leccionamento para aqui, Mini-Ciclos de Leccionamento para ali, este gajo não sabe falar de mais nada!” Bom, não vos posso contradizer: vou sempre parar aos Mini-Ciclos de Leccionamento, de facto, e reconheço que até parece que não sei falar de mais nada. E, se calhar, até nem sei. É que, se me perdoam a convicção, não encontrei, até agora, uma alternativa melhor, ou mais agradável, ou mais funcional (pelo menos, na minha projecção mental das coisas) que os Mini-Ciclos de Leccionamento, e, nesse sentido, sou levado a defendê-los e a promovê-los sempre que posso. Se, algum dia, chegar à conclusão de que há uma alternativa melhor, então, passarei a defendê-la tão acerrimamente quanto defendo os Mini-Ciclos, mas, até ver, não desistirei deste esforço de mudança. E peço-vos a vós, leitores, que também não desistam de tentar mudar o mundo para melhor!

   Até à próxima entrada…

27 de maio de 2016

Alterações e Inovações nos Mini-Ciclos de Leccionamento

   Os habituais cumprimentos a todos os leitores, sejam eles também habituais ou assim não tanto. Um pouco para contrastar com o tom excessivamente demagógico e superficial da minha entrada anterior, estamos aqui reunidos não para celebrar um qualquer matrimónio, mas para debater, se não se importarem de o fazer, eventuais alterações ao paradigma dos Mini-Ciclos de Leccionamento, nomeadamente umas que surgiram em debate com alguém que talvez esteja a ler isto, ou talvez não, não sei, bom, enfim, alterações que dizem respeito às questões dos exercícios na plataforma.

   Para aqueles que não leram, ou que, enfim, não têm tão bem presente, o texto dos Mini-Ciclos, há a tal questão de, idealmente, a verificação do conhecimento dos alunos (não é uma avaliação) ser efectuada por intermédio de uma plataforma on-line, que verificaria as respostas logo ali et cætera. Ora, a questão é que, conforme a pessoa que despoletou toda esta questão me fez ver com o que disse, impor um conjunto fechado de exercícios seria bastante limitativo para a liberdade pedagógica dos professores (e, acrescentaria eu agora, geraria um ensino ainda mais maquinizado do que o que temos hoje, no sentido em que a forma de pensar dos alunos seria ainda mais moldada para o tipo de raciocínios exigidos pelos exercícios “oficiais”). Então, temos de acrescentar mais um grau de complexidade a esta questão (por si só, já complexa) da plataforma.

   A ideia seria que cada professor pudesse propor os seus exercícios, sem mais dificuldade que a de os escrever ou criar e depois submeter. Esses exercícios ficariam, então, numa “zona de testes” (trocadilho não intencional…), à qual só os professores poderiam aceder, para serem sujeitos a modos que a um peer review, ou seja a uma revisão pelos pares. Por outras palavras: os professores com conhecimentos para isso iriam verificar se os exercícios em causa se coadunam com o que seria suposto testarem. Depois, uma vez revistos e aprovados um número suficiente de vezes (será discutível quantas, mas, não sei, 5? 10?), passariam a poder ser utilizados em contexto de aula, consoante o professor que a desse os seleccionasse (já agora, a revisão pelos pares mais ou menos impede que um professor menos bem intencionado lixe os alunos ao seleccionar apenas exercícios com um grau de dificuldade exagerada e cruelmente elevado). Claro, haveria sempre a hipótese de professores e/ou alunos reportarem exercícios que lhes pareçam desadequados, e esses exercícios reportados regressariam à “zona de testes” para serem revistos e, se necessário, corrigidos.

   Adicionalmente, faria todo o sentido se se dedicasse uma parte do horário dos professores (digamos, meia hora, ou uma hora, ou coisa que o valha) precisamente à revisão de exercícios, no sentido de garantir a maior quantidade possível de exercícios disponíveis, com a maior qualidade possível. Outro aspecto que talvez não seja, de todo, descabido é a hipótese de se propor os exercícios sob a forma de um framework, de uma template, de um (raios partam estes estrangeirismos!) modelo que indicasse à plataforma, através de condições, listas, fórmulas ou quaisquer outras artimanhas de programação, várias hipóteses de valores, opções ou situações (ou seja o que for que seja necessário) para se construir o exercício (bem como, claro, chegar à sua solução…). Por exemplo, para um exercício que pretendesse aferir a capacidade de resolver equações do 2.º grau, seriam dadas indicações no sentido de escolher a, b e c (em ax²+bx+c) de modo que b²–4ac não fosse negativo (isto, claro, se se pretendesse trabalhar exclusivamente com números reais…).

   Seria, então, isto. Como sempre, estejam à vontade de dizer o que acham e o que pensam, no espaço de comentários aí em baixo, e, se a isso estiverem dispostos, podem até dar mais sugestões, quer nesse mesmo espaço de comentários, quer através dos meios indicados nos Contactos.

   De resto, daqui me despeço, até à próxima entrada, se conseguir achar um tema conveniente (espero que sim!)…

24 de maio de 2016

Apelo Novo Apesar de Repetido

   Jovens de todo o país, sei que não me ouvem, sei que não me têm ouvido, mas dirijo-me a vós na mesma, outra vez.

   Está a aproximar-se, não é? Está a aproximar-se mais uma época de exames, mais um ano, mais uma tortura. E vocês, mesmo que resmungando, encaminham-se para essa tortura, como se fosse prazer e não suplício, sorrindo alegremente e encolhendo os ombros face ao inevitável.

   Mas será esse inevitável mesmo inevitável? Não, raios, mil vezes não! Não há leis universais que ditem a obrigatoriedade de um exame, só há a tradição, o hábito, o costume, o paradigma, e nada disso é inevitável!

   Jovens, sei que estão todos ansiosos pelo futuro que querem, ou que pensam que querem, ter, sei que estão todos ansiosos por se livrarem de mais um sofrimento, o mais rápida e indolormente possível, mas eu, que olho e olhei talvez um pouco mais em frente, digo-vos, aviso-vos, que não será este o último sofrimento. Atrás dele vêm outros, e outros, e outros, e o futuro que (vos) pintam de cor-de-rosa tem mais espinhos que pétalas…

  Então, jovens, querem mesmo esse futuro? Querem mesmo chegar a um dia em que definham numa cama de hospital, e olham para trás, para a vossa vida, e vêem que, do início ao fim, o mundo manteve-se tal e qual, a mesma porcaria de sempre?

   Ou querem deixar a vossa marca sobre este planeta, sobre este Universo, e fazer alguma coisa com significado? Fazer algo que melhore as coisas para vocês e para todos, sem “mas”, sem “senão”, sem “e se”?

   Está nas vossas mãos: suportarem cada um individualmente e todos em geral um tormento injustificável, ou mobilizarem-se e agirem no sentido de demonstrar às tradições, e aos lobbies, e aos poderes instituídos, que já não toleram mais torturas, que já não suportam mais sofrimentos. Está nas vossas mãos: deixar as coisas como estão, ou mudar o ensino em Portugal para uma coisa melhor.

   Então, jovens, escolham bem: porque, independentemente de tudo o resto, o melhor momento para a mudança é sempre o agora.

   Abaixo os exames nacionais!

   (P.S.: As minhas desculpas aos leitores que esperavam uma entrada com mais pés e cabeça, sobretudo depois desta interrupção… Se serve de desculpa, ou de atenuante, aproxima-se a famigerada, ignóbil e execrável época dos famigerados, ignóbeis e execráveis exames nacionais, e, nesse sentido, foi em mim reavivada a urgência de combater este marco tão simbólico do actual paradigma de ensino e das cruéis imposições que dele advêm; além disso, além de sem tempo – já se sabe o que acontece normalmente nestas últimas semanas de aulas –, também tenho andado sem temas, pelo que, tendo-me lembrado disto, aproveitei. Em todo o caso, espero que voltem algures para a semana, quando espero já ter preparado uma entrada mais apresentável… Então, até à próxima, se me derem o enorme privilégio de me continuarem a ler…)

10 de maio de 2016

Do Público e do Privado

   As minhas mais calorosas saudações a todos vós, caros leitores. Espero que não tenham passado despercebidas a nenhum de vocês as notícias que ultimamente têm surgido relativamente às questões do ensino público versus ensino privado, e da cessação dos contratos de associação. Este é uma tema inerentemente muito politizado, e isso demoveu-me, durante algum tempo, de escrever sobre ele, mas ao ver que estava a ser tão falado, não resisti a fazer uma entrada sobre isto. Provavelmente, já venho um pouco tarde, porque o tema talvez já esteja a perder destaque nos media, estando a ser substituído por outros de maior relevância (ou talvez até nem tanto…), mas isso pouco me importa… Por isso, caros leitores, e se não vos incomodar muito o meu desfasamento, prosseguirei para uma (moderadamente superficial) reflexão sobre todas as questões em torno do ensino público e privado e das relações entre ambos.

   Antes de mais, convém destacar que a minha apolitização (voluntária) implica que me absterei de tecer quaisquer comentários relativamente à desejabilidade ou indesejabilidade da decisão de cessar os contratos de associação (ainda que seja sempre importante frisar que é de suprema importância que os alunos em nada saiam prejudicados, ou seja, que não vejam a continuidade da sua aprendizagem ser interrompida por uma mudança de escola forçada; é certo que também há outros factores que causam mudanças forçadas de escola, mas isso, sendo igualmente indesejável, não pode justificar mais indesejabilidades…), e, por outro lado, a temática específica deste blog (e o facto de ainda não ter elaborado nenhum paradigma social alternativo de uma forma suficientemente pormenorizada e sistematizada para o poder apresentar) também me obriga a não exprimir qualquer tipo de opinião relativamente à desejabilidade ou indesejabilidade da existência de coisas públicas e de coisas privadas per se, in abstractum (perdoem-me a vaga de latinismos…).

   Já antes aqui falei do Negócio do Ensino, ou seja, do facto de, em última análise, o actual sistema de ensino ter uns quantos aspectos que servem mais para alimentar determinados nichos económicos que para seguir aquele que é, ou deveria ser, o seu principal propósito, o tal de ensinar (eu sei que digo sempre o mesmo, mas nunca é de mais frisar aquilo que é óbvio, mas foi esquecido…). O ensino privado não foge a essa regra: a não ser nos casos em que estejam ligadas a iniciativas filantrópicas e/ou solidárias, parece-me lícito assumir que todas as escolas privadas têm como principal (não direi “único”, mas acho que anda lá perto…) propósito dar lucro. O que, convenhamos, no actual paradigma social, até que nem é mau: mais circulação de dinheiro faz, pelo menos em teoria, crescer a economia, o que gera mais circulação de dinheiro, e por aí fora, num ciclo mais ou menos positivo e benfazejo; o problema é que nem todo esse lucro retorna à economia (há bolsos que se enchem e contas em locais mais ou menos longínquos e exóticos que se alargam…), mas isso é outra história…

   Por outro lado, no ensino público, esse propósito lucrativo não é tão preponderante (poder-nos-íamos questionar acerca da questão do preço das folhas de teste, de impressos diversos com fins burocráticos diversos e dos pedidos de inscrição e de revisão de exames nacionais, mas nem vale a pena ir por aí…), mais que não seja porque o ensino público nada mais é que uma pseudo-divisão de uma pseudo-empresa mais abrangente, que é o Estado, que, esse sim, já pretenderá ter lucro (ou melhor, balanço positivo em termos de receita e despesa, o que não é exactamente o mesmo, mas é suficientemente parecido para ser quase igual…). Mas, claro, o ensino público (e também o privado) contribui indirectamente para outros lucros: das editoras, das papelarias, das áreas comerciais que possam vender material escolar…

   Pronto, tudo isto para dizer que é perfeitamente compreensível que, ao abrigo do actual paradigma social, os estabelecimentos de ensino privado sejam negócios e não instituições ao serviço da comunidade. Mas agora, será isso desejável? Eu… diria que nem por isso. É que, independentemente de questões legais diversas (a Constituição Portuguesa, a Declaração Universal dos Direitos do Homem e outros documentos de cariz e carácter semelhante), poderemos todos concordar que ensinar é benéfico não só para o ensinado (porque adquire conhecimento, o que é bom – o actual sistema de ensino é que tende a torná-lo mau, mas não vou por aí, porque já sabem onde é que isso vai dar…), mas também para a sociedade em que este se insere (porque cidadãos com mais conhecimentos podem, à partida, tomar decisões melhores e, eventualmente, desenvolver mais ideias para melhorar a sociedade, embora o conhecimento não seja condição necessária nem suficiente para nenhuma destas coisas), e isto implica que ensinar é um serviço que prestamos a todos. Portanto, pode-se dizer que o ensino privado acaba por ser, na maioria dos casos, fruto de uma atitude a priori (mais um latinismo; desculpem lá, mas parece que hoje embiquei para aí…) errada, que é a de ver o ensino como uma oportunidade de prestar um serviço a alguém (cobrando-lhe por isso) e não a todos (logicamente, sem lhes cobrar).

   Mas, enfim, não se pode propriamente dizer que venha grande mal ao mundo só por causa disso… Teoricamente falando, e tendo em conta o actual paradigma social de mercado livre (que me absterei de classificar como “certo” ou “errado”), faria sentido que qualquer um pudesse abrir as escolas que quisesse, desde que, para isso, cumprisse os requisitos legais, tivesse o pessoal necessário e dispusesse dos meios financeiros para manter tudo a rolar, garantindo-se, também, que os alunos dessas escolas estariam em pé de igualdade, em termos de conhecimentos e capacidades, entre si e relativamente aos alunos das escolas públicas. E é aqui que está o principal problema. Se os privados (não sei bem em que proporção, mas diria que de uma maneira geral) tendem a ter melhores condições, melhores professores e melhores apoios (o que, teoricamente, se traduziria em melhores resultados), isso é mais falha da escola pública (e, inerentemente, do Ministério da Educação e do Estado) do que culpa dos privados, mas, por outro lado, havendo dinheiro envolvido (e, por vezes, em quantias não tão insignificantes assim…), nunca se poderá descartar a hipótese de favorecimentos indevidos, o que, mesmo sendo, por vezes, mais estigma que facto (até porque deverá haver, algures, instituições idóneas…), não deixa de ser fonte de potenciais desigualdades de circunstâncias. Muitos diriam que é aqui que entram os exames, mas a esses direi que é (relativamente) fácil efectuar-se um treino específico para se ter melhores notas (não nos esqueçamos de que, na maioria dos casos, as escolas privadas terão mais facilidade em arranjar salas, professores e horários para apoios diversos, chegando a ter, segundo creio, segmentos do horário dos alunos pré-designados para isso), e também que há sempre a hipótese de fraudes e auxílios teoricamente ilegais durante o próprio exame (isto é mais especulativo que comprovado, mas talvez haja algum fogo por detrás deste fumo…). Mas pronto. Se não houvesse notas que se pudessem falsificar nem exames para defraudar, não haveria estes problemas, e estaria, assim, reposta a igualdade. E, se me perguntarem a mim, o melhor seria mesmo os Mini-Ciclos de Leccionamento (desculpem, mas, mais uma vez, não resisti…), e, aí, talvez se pudesse saltar mais ou menos livremente entre público e privado, ou talvez a relação entre ambas algo mais exótico, que agora não posso imaginar.

   Partindo, então, do pressuposto de que ensino público e privado estão em pé de igualdade (o que, ao fim e ao cabo, é um grande prossuposto de se partir…), só por muito má vontade diríamos que os alunos (e/ou respectivas famílias) não poderiam ser livres de escolher entre escolas públicas e privadas, desde que, claro, houvesse disponibilidade financeira para tal. Nesse sentido, se se der o caso de, numa dada região, a rede de escolas públicas não ser suficiente para suprir as necessidades locais (seja pela baixa oferta, seja pela elevada procura…), seria perfeitamente lícito que se recorresse à rede de escolas privadas para colmatar as falhas, desde que isso não representasse um encargo adicional para as famílias, até porque a educação deve ser tendencialmente gratuita e tal. E, ou muito me engano, ou isto correspondia aos contratos de associação.

   Mas a questão é que isto não deve ser visto como uma solução permanente, mas sim temporária, porque (precisamente por a educação dever ser tendencialmente gratuita e tal), acaba por ser o dever do estado garantir que todos os cidadãos têm acesso a uma escola, e, nesse sentido, a forma mais eficiente (economicamente falando) de o fazer deverá passar por ser o próprio governo a criar e suportar todas as infra-estruturas necessárias, o que corresponde a manter a rede de escolas públicas. Assim sendo, o que se fez, que foi fechar escolas públicas e depois pagar aos privados para terem os alunos, não é, de todo, o mais desejável, até porque, se não estou equivocado, ficou-se a pagar mais aos privados do que se pagaria pela mesma turma no público. Está bem que as escolas privadas, pelas suas especificidades intrínsecas, são capazes de ter mais custos de funcionamento, mas também não me posso impedir de perguntar até que ponto não houve abotoamentos, ou seja, presentes (e não falo daquilo que os cães fazem) a certas e determinadas pessoas, que ocupam certos e determinados cargos, para decidirem de uma certa e determinada forma… Mas isto já é política, e não vale a pena irmos por aí.

   Mas também não podemos ignorar uma potencial objecção, relativamente relevante, à inexistência do ensino privado, ou, pelo menos, de escolas independentes do Estado. É que, independentemente de teorias da conspiração diversas, não podemos descartar nunca a possibilidade de se utilizar o ensino como instrumento de manipulação e condicionamento mais ainda do que agora é, e, nesse sentido, deixar tudo nas mãos do Estado (que, nessa possível distopia, seria a fonte primária e o principal beneficiário dessa manipulação e desse condicionamento) é acelerar, se me permitem o exagero lírico, os seus nefastos planos. Mas não nos iludamos: também não é tão difícil assim chegar a um gentlemen’s agreement com os possíveis donos das possíveis escolas privadas no sentido de garantir que a manipulação e o condicionamento também aí ocorram…

   Outra questão que se torna difícil de evitar é a dos apoios estatais às famílias que, por opção, pretendam pôr os seus filhos a estudar nos privados, mas que, na mesma, são taxadas para (entre outras coisas, claro…) assegurar a educação dos filhos, e não recebem qualquer benefício disso. Uns colmatam as falhas dos outros, e tudo o mais, mas percebe-se que possam reclamar o direito de escolher a educação dos filhos e ser ressarcidas do que lhes foi indirectamente cobrado, para uma despesa que, para elas, é perfeitamente desnecessária. Eventualmente, poder-se-iam sugerir várias soluções, desde as mais simples, como seja o estado contribuir com o mesmo dinheiro que gastaria com os alunos em causa na pública para pagar, em parte, as mensalidades da privada, até às mais complexas, como criar um qualquer outro sistema de contribuições que também tenha em atenção o uso que se faz dos serviços públicos, mas isto já tem demasiado a ver com alterações do paradigma social e, como disse, isso é uma coisa que, pelo menos aqui, pelo menos por agora, não quero abordar.

   Então, depois de tudo isto, em que é que ficamos? Haver públicos e privados é bom ou mau? Diria, se me permitem a ambiguidade e inconclusividade, que depende muito das circunstâncias, mas também que essa distinção é, em última análise, marca e consequência da actual organização da sociedade, que, possivelmente, não será, por si só, inteiramente livre de erros, pelo que, à semelhança do actual sistema de ensino, talvez esteja a precisar de umas quantas alterações… Talvez um dia debateremos isso, mas não será hoje…

   Então, despeço-me, sem mais assunto, sem mais vontade, sem mais inspiração, até à próxima entrada…

30 de abril de 2016

Das Escolhas Mais ou Menos Atribuladas

   Saudações a todos meus leitores. Espero que estejam todos bem desde a última vez em que nos encontrámos (mesmo que eu, dessa vez, não soubesse se estavam, ou não, bem, tal como agora não sei…). É uma coisa vagamente importante de se manifestar, o desejo de que tudo esteja bem com as pessoas com quem contactamos (e com todas as outras também, mas, a essas, torna-se impossível manifestar esse desejo…), ainda que seja mais ou menos uma futilidade que nos desvia do assunto. Que, diga-se de passagem, hoje também não é nada de jeito. Como ultimamente tem sido costume… Perdoem-me a falta de inspiração e de temas, e, como já me fartei de dizer, estejam à vontade para me transmitir quaisquer sugestões ou críticas que possam ter no intuito de melhorar estas minhas entradas.

   Ora, hoje, por razões e perspectivas que nada interessam para aqui, senti-me levado a fazer algo um pouco diferente, num tom um pouco mais pessoal, mais íntimo, e não no estilo pseudo-filosófico, pseudo-argumentativo, que habitualmente adopto (e que, no fundo, é apenas chato…). Tenho, naturalmente, algumas reservas em derramar o conteúdo do meu interior para aqui, indiscriminadamente, pelo que também não será algo tão íntimo quanto isso, e também não sei até que ponto estarão interessados no que tenho para dizer (algo me leva a prensar que talvez um pouco mais do que nas habituais paredes de texto mais ou menos enormes, por vezes excessivamente confusas, outras vezes pouco relevantes, e espero que não esteja errado…). Em suma, não esperem daqui uma grande exposição filosófica da treta, mas também não esperem uma página de um diário. Será, se assim o quisermos ver, um desabafo, contido, é certo, mas um desabafo ainda assim. Sei, ou melhor, suspeito que alguns de vós se poderão relacionar com ele, e, em parte, é por isso (e, portanto, por vós) que o faço.

   Todos nós estamos, no nosso dia-a-dia, habituados a fazer escolhas. “Vou pela esquerda ou vou pela direita”, “visto a camisola verde ou a castanha”, “como um pastel de nata ou um bolo de arroz”, “marimbo-me para o teste e vou fazer outra coisa qualquer que mais me agrade ou vou empinar aquela porcaria toda”, e muitas outras mais, que enfrentamos com frequência no nosso quotidiano, muitas vezes sem sequer repararmos nisso. Se fosse outro que não eu, diria que é um facto inevitável da vida, mas há uma parte de mim que rejeita toda e qualquer inevitabilidade (e o que aqui direi transparece isso mesmo…), pelo que direi, apenas, que se trata de um facto muito recorrente e, de uma maneira geral, muito chato. É que, independentemente da questão de a decisão ter sido a mais acertada (porque isso, além de ser muito relativo, é muito difícil de se determinar a não ser algum tempo depois – e mesmo assim a causalidade natural e o inerente efeito borboleta poder-nos-iam pregar partidas…), optar por uma coisa tenda a impedir que se dê seguimento às outras, e isso é ainda mais chato. É claro que isto nem sempre é preocupante (se se levar a camisola verde hoje, pode-se levar a castanha amanhã, sem qualquer problema), mas há situações em que pode determinar toda uma vida, como é o caso do ensino.

   Da forma como hoje em dia estão organizadas as cosias, deparamo-nos frequentemente com essa obrigação inescapável de escolher uma via de futuro, um curso, uma área de especialização, o que tem como consequência precisamente o facto de impedir, ou, pelo menos, dificultar, que se sigam as restantes. É claro que, da forma como a sociedade está hoje organizada (e, num certo sentido, já deste das primeiras comunidades de hominídeos), a distribuição de tarefas é indispensável e, nesse sentido, o generalismo de pouco ou nada serve, e, aliás, a própria natureza do conhecimento humano dificulta bastante que se saiba tudo sobre todas as áreas, mas, se é inegável que todos os indivíduos têm uma tendência natural para certas matérias/tarefas, que os torna mais bem-sucedidos aí do que nas restantes, é igualmente inegável que essa tendência nem sempre é para uma área restrita e bem-determinada. Não é, de todo, impensável que alguém tenha, por exemplo, uma afinidade natural para com tudo quanto seja Química Orgânica e, ao mesmo tempo, também tenha igual queda para História (e não falo no sentido em que ambas podem estar relacionadas, falo mesmo delas enquanto áreas distintas). Assim sendo, faz pouco sentido que os indivíduos sejam, a dado ponto, forçados a abdicar de uma das suas facetas pura e simplesmente por causa de limitações/deficiências organizacionais de um qualquer aspecto da sociedade (que, neste caso em particular, é, mais uma vez, o ensino).

   Portanto, forçar a escolha é mau. Percebe-se que há recursos limitados, que um aluno não pode estar em dois sítios ao mesmo tempo (vamos, para propósitos de simplificação, ignorar as complexas questões do funcionamento quântico do Universo, está bem?), mas não podemos, prevendo essa possibilidade de haver uma impossibilidade técnica, impor constrangimentos a priori, que impedem que, havendo possibilidade de seguir as duas, o aluno tenha, na mesma, de optar por uma só via (e vemos isto um pouco por todo o lado: na escolha de línguas estrangeiras, já desde o 3.º ciclo, nas áreas e nos cursos do secundário, e em toda a pletora de divisõezinhas do superior…).

   Tenho estado a ser repetitivo, admito isso (ao mesmo tempo que também admito ser demasiado preguiçoso para voltar atrás e corrigir e reformular tudo… espero que tenham a capacidade de me perdoar por isso…), mas, com tudo o que disse, queria, apenas, frisar que, independentemente das condicionantes que levam à necessidade de se escolher, ter-se de o fazer é mau, é indesejável, porque, em última análise, nos obriga a abdicarmos mais um pouco de nós (e, se me permitem o lirismo, abdicarmos de nós é morrermos mais um pouco em vida). Mesmo que haja quem consiga ter uma boa ideia do que quer/pode/melhor consegue fazer, e, por isso, tenha a escolha facilitada, também há quem tenha o grande problema de não fazer a mínima ideia daquilo em que é competente, ou em que teria mais possibilidades de ter sucesso, e isso só dificulta mais ainda a escolha, porque voltar atrás, se não impossível, torna-se custoso (o mais provável é perder-se todo um ano…).

   E, se isto fosse uma entrada normal, seria este o momento indicado para promover os Mini-Ciclos de Leccionamento enquanto forma ideal de garantir a máxima liberdade e as mínimas perdas resultantes de qualquer escolha, mas, não sendo esta uma entrada normal, não o farei (ainda que, indirectamente, o tenha feito… irónico…). Aproveitarei, em vez disso, para vos pedir desculpa por esta entrada de porcaria, que nem é íntima, nem argumentativa, nem lógica, nem coerente, nem clara, nem perceptível, nem nada… Raios partam a minha inspiração transviada!

   Enfim, já escrevi de mais para apagar tudo… Assim sendo, espero que estas minhas faltas de inspiração não vos estejam a afastar, caros leitores, e a retirar de vós qualquer noção que pudessem ter da possibilidade de se mudar o actual sistema de ensino… Posso andar só a escrever porcaria, mas não desisti, e espero que vocês também não, de me esforçar para tornar o mundo melhor…

   Pronto, fiquem bem, olhem para os dois lados ao atravessar a estrada (e para baixo, não vá haver um buraco onde possam tropeçar…), desculpem-me esta entrada parva e até à próxima.

19 de abril de 2016

Das Faltas e das Soluções (Não Tanto da Falta de Soluções…)

   Os meus cumprimentos a todos os leitores, quem quer que sejam e onde quer que estejam. Tenho de vos agradecer por terem tido a gentileza de passar por aqui e ler mais uma reflexão minha, hoje nada de especial, mas talvez um pouco menos subjectiva que a anterior. Como o título vos permitirá concluir logo à partida, estou hoje aqui para vos falar das multifacetadas vicissitudes dessa prática fantástica de substituir, repor ou permutar as aulas que, por um motivo ou outro, não puderam ter sido dadas.

   Já se sabe que, se um aluno faltar, o problema é dele: o professor esteve lá (a não ser que tenha faltado também…), a aula foi dada, o aluno é que tinha o dever de assistir e não o fez. É bastante discutível se não seria melhor focalizarmo-nos mais na necessidade de fazer o aluno aprender, e não tanto na de garantir que o professor tem alunos que assistam às aulas (assim justificando o seu posto de trabalho e o seu vencimento…), ou seja, se não seria melhor focalizar o ensino nos alunos e não nos professores (no sentido em que o ensino deveria estar feito para assegurar a transmissão dos conhecimentos e não o emprego dos que colaboram para isso…), mas não é isso que está em causa. Queremos saber (e debater) o que raio se deve fazer quando, por qualquer motivo que seja, para agrado ou desagrado dos alunos, um professor tiver de faltar.

   Há duas garantias essenciais e inalienáveis, que deverão integrar toda e qualquer via de acção: o tempo livre dos afectados (alunos e professores) não pode sair prejudicado (pronto, se for apenas marginalmente, ainda podemos desculpar, mas não abusemos…) e a transmissão dos conhecimentos (leia-se a sua eficácia) também não. Isto talvez seja mais fácil de dizer do que de fazer, mas já lá vamos.

   De uma maneira geral, e como será óbvio (espero eu) para uma boa parte dos leitores, há essencialmente dois grandes tipos de situação de falta: aqueles em que, por compromisso inadiável, se sabe previamente que o professor faltará (o exemplo mais significativo, e também mais comum, será o de eventuais consultas médicas), e aqueles em que a falta é mais ou menos inesperada, súbita, provocada por um qualquer acontecimento imprevisível (como seja adoecer o professor ou um familiar de que ele tem de cuidar). Logicamente, as formas de lidar com um e outro tipo de falta terão de ser vagamente diferentes (mesmo que as alternativas sejam, em última análise, praticamente as mesmas), razão por que se fará uma análise separada das duas situações.

   No que toca às faltas com aviso prévio, a eventual antecedência pode permitir-nos lidar com a situação de uma forma mais elegante, efectuando (não sei bem com que grau de legalidade, mas também nem todas as leis e nem todos os regulamentos são dignos de serem seguidos, e há sempre coisas a que, pela sua maior comodidade, podemos todos fechar os olhos…) aquilo que comummente se designa permuta, que é, caso algum leitor não esteja bem ciente disso, a prática de pura e simplesmente dois professores com horários compatíveis (em termos de aulas e de compromissos) trocarem as suas aulas, dando o da disciplina A na hora da disciplina B e o da B na hora da A. Ora, isto faz todo o sentido, porque o número de aulas dadas não se altera com a falta do professor (que já não calha na hora da aula) e não há qualquer alteração do tempo livre dos alunos (já que, a bem dizer, o seu horário permanecerá rigorosamente igual, admitindo, claro, que todos os alunos têm as disciplinas A e B), mas tem o pequeno inconveniente de nem sempre ser possível encontrar professores com horários disponíveis para a permuta (facto ainda mais notório se tivermos em conta os Mini-Ciclos de Leccionamento, que trazem o constrangimento adicional de também se ter de ter em conta o horário de cada um dos alunos matriculados no mini-ciclo em causa, de modo a que a aula do professor que aceitou a permuta – e não a do que a pediu – não coincida com outra que alguns possam ter, e à qual teriam de faltar para ir à aula permutada por necessidade).

   Por outro lado, caso o professor saiba antecipadamente que vai faltar, também pode transmitir a sua planificação a um colega da sua disciplina e/ou área que tenha a disponibilidade, em termos de horário e em termos mentais, para dar a aula por ele, o que, mesmo podendo prejudicar parcialmente o processo de ensino-aprendizagem (pela eventual falta de habituação dos alunos ao professor e vice-versa, que faz com que nem sempre as coisas sejam transmitidas da forma que mais se adequa aos alunos em causa), apenas tem o potencial de afectar o tempo livre do professor que for dar a aula de substituição (mas que, em parte, poderá ser compensado por o professor que faltou dar substituição para cobrir uma eventual falta futura do professor substituinte), sendo, por isso, uma alternativa vagamente viável às permutas (sobretudo porque será menos difícil haver um só professor com disponibilidade do que um professor e uma turma – sobretudo em termos dos Mini-Ciclos).

   Há uma terceira alternativa, que é a da remarcação da aula para uma hora diferente, que, dentro do género, seja conveniente para todos, o que permitiria dar a aula sem grandes complicações e sem grandes diferenças do que se fosse na hora prevista. Há é o grande problema de a hora que, dentro do género, convenha a todos ter forçosamente de ser extra-horário, o que prejudica o aspecto importante do tempo livre (está bem que o professor também não veio no tempo correspondente à aula a que faltou, pelo que o tempo “livre” não foi afectado: o tempo extra-horário criado pela falta foi compensado pela aula extra-horário; quanto aos alunos talvez não seja bem assim, porque, apesar de terem um furo durante a aula, esse tempo – e qualquer aluno bem o sabe – não tem exactamente o mesmo aproveitamento que aquele passado manifestamente antes ou depois das aulas, a não ser, claro, que se dê o caso de a aula não dada ser a primeira ou a última, sendo isso equivalente a os alunos entrarem mais tarde ou saírem mais cedo). Além disto, pode, por vezes, ser difícil encontrar uma hora que convenha a todos, pela eventual existência de afazeres extra-horários diversos por parte dos envolvidos, mas, sabendo-se que o professor faltará com alguma antecedência, haverá, em princípio, tempo para tentar (e conseguir) chegar a um consenso.

   Então, no que toca às eventuais vias de acção possíveis aquando de uma falta antecipadamente conhecida, é isto. Por outro lado, no que toca às faltas mais ou menos súbitas, há algumas diferenças, que reduzem, ou condicionam, as potenciais vias de acção.

   A mais flagrante de todas será o facto de, pela natureza imediata e inesperada deste tipo de faltas, ser praticamente impossível arranjar uma permuta, por o professor que falta não poder combinar nada com os colegas, mais a mais porque, por vezes, estas faltas podem ter uma duração mais ou menos indeterminada, consoante o factor que as originou (pense-se no caso da doença: nem sempre se melhora logo…), levando a que o professor falte em mais do que um dia.

   Um pouco no seguimento disto, também será um pouco difícil recorrer a um professor substituto, por razões semelhantes às anteriores (impossibilidade de o professor que falta lhe transmitir indicações e também eventual necessidade de substituir muitas aulas). No entanto, este problema poderá ser atenuado se (como creio que já se faz, não sei bem com que abrangência, diria que na maioria das escolas, mas talvez esteja a efectuar uma generalização imprópria… corrijam-se se estiver errado, como, de resto, podem – e devem – fazer sempre…) se dedicar uma parte do horário dos professores à substituição de outros professores; o problema será mesmo ter os recursos necessários para que todos os professores que faltem sejam substituídos por um outro professor capacidade para dar a disciplina em causa, e não uma outra coisa qualquer (o que costuma suceder em muitos casos, gerando a abjecção da “ocupação lectiva de tempos livres”, que obriga os alunos a ficar na sala a fazer frivolidades e/ou nada, perdendo tempo potencialmente útil para outras coisas – ainda que essas coisas pudessem passar por asneiras e/ou ilegalidades diversas, o que justifica esta prática aos olhos de muitos, apreciação da qual se torna um pouco difícil de discordar terminantemente). É claro que isto é vagamente ineficiente, porque, quando nenhum professor falta, os professores designados para substituição não terão nada para fazer, mas talvez possam aproveitar esse tempo, quando desocupados, para realizar outras tarefas (burocracia, planificações…), como, de resto, ditaria o senso comum que se fizesse.

   Por fim, a remarcação acaba por ser a alternativa mais exequível, no sentido em que (a não ser que as faltas de prolonguem por muito tempo…) o professor pode, na primeira aula logo a seguir às faltas, agendar logo com os alunos as aulas de reposição necessárias, tentando, também, encontrar o horário que a todos convenha, ainda que a perda de tempo já consumada pelas faltas implique uma certa urgência na remarcação, o que pode atrapalhar o processo de encontrar uma hora que a todos convenha.

   Claro, todas estas vias de acção apresentadas serão, muito provavelmente, do conhecimento dos leitores, até porque correspondem ao que hoje em dia se passa (perdoem-me, então, a inutilidade de escrever tudo isto…). Aliás, para completar a lista, faltará (sem trocadilhos, está bem?) uma outra alternativa, aplicável com ou sem aviso prévio, que é a de pura e simplesmente se ignorar o facto de não se ter dado a aula e continuar como se nada tivesse ocorrido, o que é vagamente exequível no actual sistema de ensino (mais que não seja porque, de qualquer das formas, há aulas desperdiçadas – nem vale a pena pensar mais longe: as famigeradas famosas aulas da rebaldaria de final de período), mas seria pouco viável o abrigo dos Mini-Ciclos de Leccionamento (a não ser que permitíssemos que o leccionamento de cada mini-ciclo se estendesse pelo tempo que fosse necessário, ainda que isto complique ainda mais toda a organização logística da coisa, razão por que, pelo menos, até todo o sistema ter entrado bem nos eixos, com a plataforma e tudo, seria melhor optar-se por não o permitir). No sentido, então, do que disse antes, e como o principal propósito do blog é mesmo o de melhorar o ensino (nunca lá se chegaria pelo nome, não é?), teremos, então, de apresentar eventuais formas de melhorar isto.

   Já sabem o que eu penso acerca do actual sistema de ensino, não sabem? Que deveria ser alterado radicalmente, muito radicalmente, para uma organização melhor e mais agradável, que, para mim (e espero que para pelo menos alguns de vocês…), passaria pelos Mini-Ciclos de Leccionamento. Perdoem-me, portanto, o erro do costume, de me deixar levar pelas minhas convicções (recuso-me a vê-las como ilusões…) e analisar e construir as propostas de melhoramento ao abrigo deste paradigma alternativo, porque propor melhorias só para um aspectozinho deixando erros no resto é pouco mais que inútil, e a minha forma de corrigir o resto corresponderia aos Mini-Ciclos.

   Ora, havendo Mini-Ciclos, teremos a questão do horário individual e individualizado dos alunos, consoante as suas escolhas, e isto praticamente impossibilita permutas, como já disse algures lá para trás, a não ser que todos os alunos do mini-ciclo do professor que falta sejam também os únicos de um outro professor com horário compatível (ou, então, que os alunos do mini-ciclo permutado sem ser por falta tenham a sorte de ter a hora do mini-ciclo a que o professor faltaria desocupada, o que talvez fosse muito pouco provável…). Assim sendo, esta não é uma solução admissível.

   Por outro lado, e também como referi anteriormente, seria demasiado complicado, em termos logísticos, caso os mini-ciclos se pudessem arrastar no tempo, ad infinitum, e, pela sua curta duração, não se poderia propriamente perder aulas (já que não haveria a necessidade de se ter aulas “para encher” e/ou para obedecer aos constrangimentos do calendário escolar), sob pena de prejudicar a aprendizagem dos conhecimentos em causa (que, em princípio, será o objectivo central do ensino). Tudo isto nos levará, então, a concluir que a solução de se ignorar o facto de se ter faltado também terá de ficar de parte.

   Restam-nos, portanto, duas soluções: substituir e remarcar (assim escrito quase parece uma qualquer táctica militar e/ou desportiva…). Ora, para que a substituição corresse bem (e ignorando completamente as ocupações lectivas de tempos livres, que têm ainda menos razão de ser ao abrigo dos Mini-Ciclos porque as aulas estariam vocacionadas para transmitir conhecimentos e não para perder tempo com tarefas de chacha…), teríamos de ter uma grande dose de professores à mão, de modo a poder cobrir todas as falhas, e isso iria aumentar mais ainda as já significativas necessidades de recursos deste sistema de ensino alternativo; podemos, para atenuar esta necessidade de recursos, recorrer mais uma vez às aulas à distância (gerando algo como “vídeo-aulas de substituição”?), com um professor centralizado a dar, via vídeo-conferência, a aula de substituição aos alunos que dela possam necessitar, mas isto não elimina o problema subjacente.

   Nesse sentido, a remarcação de aulas parece ser a única solução que falta analisar. Temos, claramente, um problema muito análogo ao que se passa com as permutas: as grandes diferenças que os horários dos alunos de um mesmo mini-ciclo podem apresentar tornam praticamente impossível encontrar uma hora livre que convenha a todos. Só que, ao contrário do que se passa com as permutas, talvez possamos dar a volta a isto: conforme já proposto no texto dos Mini-Ciclos, especificamente na Inovação, podemos criar um certo período de tempo (creio ter sugerido a tarda de sexta-feira, ou parte dela) exclusivamente para aulas de reposição (daí que se lhe chamasse “período de reposição”), estando desimpedido se não houver necessidade de as ter, e só se tendo de jogar com as aulas de reposição dos vários alunos do mini-ciclo em causa de modo a arranjar uma hora conveniente (ou seja, só se teria de garantir que a aula não calharia à mesma hora que outra aula de reposição que alguém no grupo de alunos que frequenta o mini-ciclo possa ter, e, sendo, de uma maneira geral, pouco provável que uma grande quantidade de professores falte ao mesmo tempo, isto não deverá ser muito difícil de se gerir…). Esta será, porventura, a forma menos problemática de garantir que as aulas são dadas, e nunca é de mais relembrar que a ausência de testas, trabalhos e males semelhantes, ao abrigo dos Mini-Ciclos, implica que o eventual impacto que estas reposições possam ter no tempo livre dos alunos seja muito menos significativo (além de que este “período de reposição” não é tempo livre… é, apenas, um segmento do horário raramente utilizado para fis oficiais, se me permitem a pouco clara distinção, mais retórica do que semântica, e mais semântica do que lógica…).

   Chegámos, pois, ao fim desta reflexão acerca das aulas de substituição. Mas isto não ficaria completo se não frisasse que, em última análise, numa situação ideal, aliás, numa situação mesmo ideal, não seria necessário haver aulas de substituição, porque não haveria motivos para se faltar, só que, como bem sabemos, as coisas ainda não estão tão ideais quanto isso e, por isso, este é um problema com que temos e, tanto quanto o futuro nos deixa ver, teremos sempre de lidar.

   Temo mais uma vez ter sido demasiado ligeiro, demasiado superficial ou demasiado… enfim, estúpido na minha abordagem, e lamento imenso por isso, mas, por qualquer razão, não tenho conseguido encontrar temas ou reflexões mais pertinentes. Aceitam-se sugestões, como sempre, além de comentários e críticas. Já sabem que têm o espaço de comentários, aí em baixo, à vossa espera e à vossa disposição.

   Um bom dia (ou tarde, ou noite) a todos e até à próxima.

11 de abril de 2016

Da Arte (e) do Ensino, Do Ensino (e) da Arte

   Antes de mais nada, bom dia a todos os leitores. Agradeço-vos por, mais uma vez (ou, se for esse o caso, pela primeira vez), dedicarem uns momentos do vosso tempo a ler estas palavras que aqui escrevo. É uma coisa de que me costumo esquecer (aliás, é uma coisa de que me esqueço quase sempre…), agradecer-vos por me lerem, mas hoje fi-lo. Ora bem, without further ado, como diria um qualquer anglo-saxão, prossigamos para o tema que adoptei, que é precisamente o da questão de se englobar a arte no âmbito do ensino (ensino artístico), e dos eventuais prós e contras de tal prática.

   Ora bem, convenhamos, em última análise, toda e qualquer informação passível de ser adquirida pelo ser humano é digna de nota e, por extensão, digna de ser transmitida através do ensino, o que só nos poderá levar a concluir que, ao fim e ao cabo, até que é desejável ensinar arte. Aliás, se formos a pensar bem, a arte também acaba por desempenhar um papel, mesmo que minimamente, importante na vida de cada um de nós (no nosso bem-estar mental, se assim o quisermos dizer), e, nesse sentido, fará todo o sentido que promovamos a arte.

   Só que temos um problema: será que podemos mesmo transmitir arte, será que é possível ensinar alguém a fazer arte? Muita filosofia se poderia fazer a partir desta interrogação, mas, de uma maneira geral, sinto-me inclinado a dizer que não. É que, mais que não seja, pela minha experiência pessoal (pouco válida do ponto de vista argumentativo por ser pouco representativa do que poderá ser a experiência de todos, mas enfim…), sou levado a pensar que a arte não resulta do seguimento de um conjunto de passos específicos, estilo receita de culinária, mas sim de um conjunto de sensações, intuições e inspirações de génese e natureza mais ou menos metafísicas, tendo, portanto, um elevado carácter subjectivo e, sobretudo, pessoal. Ora, mesmo não admitindo que isto assim o é de uma forma radical, dificilmente se poderá dizer que, conhecendo todas as técnicas de pintura de Van Gogh, por hipótese, e utilizando materiais (tela, tinta, pincéis…) idênticos aos dele, teremos todas as condições para fazer arte, bastando, para tal, pintar. Ou, para vos dar um exemplo alternativo, não é por conhecermos todas as mais diversas formas de poesia, das mais familiares, como os sonetos, às mais exóticas, como o asefru (forma de poesia originária da Cabília, no norte da Argélia), que poderemos fazer arte. Tudo isto para dizer, portanto, que a arte não surge da técnica por si só.

   Claro, nisto tudo está subentendido o facto (até agora não enunciado, fosse lá porque fosse… perdoem-me a falha, mas não consigo reunir em mim a vontade de reformular tudo o que escrevi até agora…) de que só a técnica poderá ser transmitida directamente, via ensino. A parte mais subjectiva pode ser mais ou menos estimulada, de uma forma ou de outra, mas isso não significa que se a possa transmitir da mesma forma que a técnica. E isto deixa-nos em que posição? Afinal, se não se pode transmitir arte, e se até que seria bom se transmitíssemos arte, estamos mais ou menos condenados a falhar. Apesar de isso ser uma condição praticamente intrínseca à existência…), e, em particular, à existência humana (pergunto-me se não inteiramente coincidente com ela), a falha é uma coisa, por definição, indesejável, pelo que não poderemos deixar as coisas neste estado. Teremos, então, de arranjar uma solução.

   E essa solução teria mesmo de passar por uma acção mais ou menos bipartida, que a alguns leitores talvez já fosse óbvia: por um lado, tentar fazer com que a sociedade, no seu todo, promova e incentive a produção artística (ainda que isto seja uma daquelas coisas mais fáceis de dizer do que de fazer, sendo que, para ser feita em condições, exigiria uma sociedade bastante diferente da actual, com outro tipo de estruturação e organização, mas não vale a pena – pelo menos, por agora – ir por aí…), e, por outro lado, recorrer ao ensino para transmitir precisamente as técnicas da produção artística (na vagamente infundamentada esperança de que isso possa, também, permitir aos alunos desenvolver o apreço e a prática da arte).

   Mas atenção: estas técnicas seriam transmitidas sempre com a precisa ressalva de que se trata única e exclusivamente de técnicas artísticas, não se garantindo, nem exigindo, de modo algum, que os alunos produzam arte. Isto apaziguaria, logo à partida, algumas mentes mais indignadas pela sua produção artística nula, ou quase nula, mesmo depois de verem reconhecido que dominam uma ampla gama de técnicas artísticas, além de deixar bem claro a alunos e professores o que raio se está ali a fazer (o que, e não me posso impedir de o dizer, corresponde, nalguns casos, ou talvez até em muitos, a “nada”, para ambos os grupos…). É certo que renomear o que hoje seriam cursos artísticos (ou de artes, que não será exactamente a mesma coisa…) soa um pouco àquelas reorganizações político-administrativas que deixam tudo igual, mas com letreiros pintados de fresco, simbologias novas e aumentos das remunerações dos administradores, mas só assim poderemos ser explícitos no que dizemos, sem ambiguidades interpretativas que poderiam deitar esta intenção de transmitir arte a perder.

   Adicionalmente, esta designação é meio caminho andado para impedir que mentes mais brilhantes decidam avaliar os alunos precisamente pela componente artística das tarefas que desempenham (não tenho bem a certeza do quão recorrentes são, serão ou seriam estas situações, mas alvitraria que serão tudo menos inexistentes…); em vez disso, a avaliação (não bem avaliação, mas verificação…) ocorreria exclusivamente com base no facto de o aluno ter conseguido, ou não, aplicar os princípios por detrás da técnica em causa, apenas no intuito de garantir que ele, de facto, adquire essa técnica. Claro, isto nunca nos impediria de estimularmos os alunos a fazer obras de arte (nem os impediria de as fazer, com ou sem as técnicas adquiridas…), e permitiria garantir que ninguém sairia prejudicado por o seu sentido artístico contrastar ou colidir com o do professor. É certo que também poderíamos estar a abrir as portas a uma certa pragmatização (indesejável, diga-se de passagem) da arte, ao apenas exigirmos aos alunos que adquiram e apliquem determinadas técnicas, mas, repito, a ideia do ensino “artístico” seria ensinarem-se técnicas de produção artística e não ensinar-se a fazer arte em si (porque, também o convém repetir, a arte não é uma coisa propriamente transmissível).

   Mas escusado será dizer (pelo menos, para os leitores mais habituais, que já deverão saber o que esperar daqui…) que isto tudo, ao abrigo do actual sistema de ensino, não faz muito sentido, porque, por um lado, talvez nem todos os artistas de uma dada área estariam interessados em aprender as mesmas coisas, pela mesma ordem (por exemplo, tocar piano e tocar clarinete são duas coisas bastante diferentes, e não tão indissociáveis assim…), e, por outro lado, nem todos os artistas estariam interessados em ter, por arrasto, uma batelada de outras matérias, menos artísticas, que lhes seriam impostas caso todo o ensino artístico fosse englobado no ensino normal, e, por outro lado ainda (há-de se tratar de um triângulo, porque tem três lados…), talvez houvesse quem quisesse complementar perfeitamente a aprendizagem artística com uma outra aprendizagem mais científica, ou humanística, ou seja o que for, e não o poderia fazer por ter de escolher uma e uma só via. Nesse mesmo sentido, e também porque o actual sistema de ensino não apresenta exactamente os melhores instrumentos de avaliação, faria mais sentido que tudo isto ocorresse de acordo com os Mini-Ciclos de Leccionamento, que garantiriam precisamente a flexibilidade necessária a tudo isto correr bem; claro, no caso das actividades que se intersectem com outros conhecimentos (surge-me a arquitectura, vagamente relacionada com engenharias diversas), a interligação entre ambos é favorecida por esta organização.

   É certo que isto pode ser uma mudança pouco significativa, no cômputo geral, mas, se aproximarmos (mais ainda) o ensino de todas estas técnicas artísticas – literárias, musicais, dramáticas, fotográficas, cinematográficas, e por aí fora – daquilo que é hoje o ensino “regular”, mainstream, se assim preferirem, sem marginalizar os estudantes que as desejem aprender, só estaremos a contribuir para aumentar o prestígio dessa actividade, afinal importante, mesmo que amiúde esquecida, que é o de fazer arte. Além de que, ao tornarmos estas áreas verdadeiramente iguais às outras, com perfeita aceitação social e sem estigmatizações diversas dos seus estudantes, também estaremos a aumentar a flexibilidade e a liberdade na escolha dos conhecimentos, o que é sempre um bom objectivo, porque, diga-se o que se disser, ninguém aprende bem contrariado.

   E creio que será isto. Os leitores que me perdoem a eventual insignificância do tema e/ou a superficialidade da abordagem, mas mais não pude fazer. Se tiverem alguma sugestão, algum reparo, alguma crítica ou alguma opinião que queiram expressar, estejam à vontade (como sempre) para usar o espaço de comentários, ou, se preferirem contactar directamente comigo (com o autor), as possibilidades apresentadas nos Contactos.

   Uma boa semana a todos e até à próxima.

23 de março de 2016

Dos Alunos, Pais e Encarregados de Educação Reunidos

   Saúdo todos os leitores, como não poderia deixar de ser. Após esta pequena pausa mais ou menos voluntária para rever o texto dos Mini-Ciclos de Leccionamento, quis fazer uma entrada a sério, sobre alguma coisa central, fulcral, relevante, mas entrei no habitual drama de falta de tema e/ou de inspiração. Felizmente (ou assim não tanto, mas pronto), pude encontrar esta temática que, não sendo totalmente desprovida de relevância, não é, de modo algum, suficientemente para ser mais que um fait divers… Mas não vale a pena entrar nesta cantilena de deprecição do tema ou do texto, vamos, mas é, ao que interessa, que, neste caso, corresponde às reuniões que surgem em contexto escolar, quer de pais e encarregados de educação, quer de conselho de turma.

   A noção instintiva que qualquer bom português tem da eficiência e utilidade (ou falta delas) que qualquer aspecto administrativo-burocrático possui permite-nos facilmente concluir que as reuniões de conselho de turma e de pais e encarregados de educação, na maioria dos casos, não servem para nada. São um mero pro forma, uma mera formalidade para se poder dizer que se cumpriu os requisitos e se integrou os pais na comunidade escolar e na aprendizagem dos filhos e os alunos, nos processos decisivos diversos acerca da turma. Ainda para mais se tivermos em conta que a sociedade (e, neste caso em particular, o ensino) é tendencialmente conservativa, pelo que haverá sempre razões lógicas e impedimentos legais à implementação de quaisquer sugestões que possam ser feitas no sentido de melhorar as coisas.

   Não me interpretem mal; por um lado, é pedagogicamente lógico (ou logicamente pedagógico, não tenho bem a certeza…) que o professor, directa ou indirectamente, possa transmitir à globalidade dos pais e encarregados de educação o feedback que tem relativamente à turma no seu todo (e, se necessário, a alguns pais e encarregados de educação em particular questões mais sensíveis acerca dos seus educandos), bem como os resultados dos processos avaliativos; por outro lado, também é positivo que os alunos e os pais e encarregados de educação estejam presentes no conselho de turma, para que possam ser transmitidas, através dos seus representantes (admitindo que são verdadeiramente representativos, mas isso é outra história…), as suas opiniões/sugestões, também para resolver eventuais problemas que possam surgir. Só que, e não me posso impedir de o dizer, estas necessidades não teriam, idealmente, razão de existir, por não haver processos avaliativos formais… nem turmas… nem questões a resolver em termos do funcionamento prolongado das aulas… Sim, apanharam-me: estou a falar dos Mini-Ciclos de Leccionamento.

   Bom, estas minhas divagações incontroladas e incontroláveis à parte, mesmo admitindo que as coisas estavam abertas à mudança, e que tudo corria bem e todos eram devidamente ouvidos, esta história das reuniões acaba por deixar uma lacuna muito relevante: a crítica. É que, se se for a ver bem, nestas reuniões, lida-se directamente, cara-a-cara, com o director de turma (e, no caso dos conselhos de turma, com o resto dos professores da turma) e, indirectamente, com todo o grupo de professores e toda a estrutura do sistema de ensino, pelo que se torna inviável (se não mesmo impossível) criticar convenientemente o que está mal, ou, pelo menos, criticar convenientemente o que está mal sem dar azo a potenciais retaliações mais ou menos vingativas. Para ser mais concreto e vos dar um exemplo (coisa que não aprecio muito, mas pronto…), caso, numa reunião de conselho de turma, o representante dos alunos acuse um professor qualquer de ser demasiado ríspido e explicar as coisas demasiado rapidamente, não será, de todo, descabido esperar que esse problema só se agrave (devido a um raciocínio do género “Ah, é? Agora já vão ver o que é ríspido e depressa!” por parte do professor). É claro que se trata mais de um mal da essência humana do que do sistema de ensino, mas, ainda assim, poderemos fazer alguma coisa para melhorar este aspecto.

   E essa coisa seria, pelo menos, para mim, implementar um qualquer sistema de feedback anónimo de alunos e pais/encarregados de educação para professores, no qual se poderia, dentro do género, avaliar (sim, é de propósito…) o professor e/ou apontar sugestões ou críticas; isto ficaria bonitinho se fosse um formulário, com identificação do professor e algum tipo de questionário vagamente semelhante aos de satisfação do cliente, ao abrigo do qual se poderia atribuir uma classificação (continua a ser de propósito…) ao desempenho do professor. Este feedback teria de ser garantidamente anónimo, para minimizar represálias, pelo que talvez se recorresse a caixas de entrega mais ou menos espalhadas pelas escolas, ou, então, para facilitar a vida a todos, através de um formulário on-line, nas páginas das escolas, a que se poderia aceder através das múltiplas vias de anonimização informática (que não vale a pena debater aqui…). Está-se mesmo a ver que isto seria mais um serviço a incluir na plataforma dos Mini-Ciclos…

   É certo que este tipo de feedback poderia ser aproveitado para manipular contratações e despedimentos diversos, mas, se, em vez de os focarmos unicamente em prosseguir os nossos fins mais ou menos sórdidos, nos centrarmos em fazer as coisas melhor e, sobretudo, em fazer as coisas melhores (o que, por si só, já é pedir muito…), talvez possamos, ao criarmos esta questão das sugestões/críticas, melhorar o trabalho dos professores, por vezes já naturalmente excelente (espero que quem leia e assim seja perceba que o é…), outras vezes… até que nem tanto, o que só contribuirá para melhorar o ensino. É certo que isto é tudo muito utópico e irrealista, mas, convenhamos, se, por um momento que seja, deixarmos de parte o “dizer mal só por dizer mal”, e não presumirmos que tudo o que dizem e fazem é contra nós, talvez possamos, na globalidade, facilitar mais a vida de todos.

   E é isto. Sei que foi muito breve, muito pobre e muito superficial, mais foi o melhor que se conseguiu. Espero que melhores temas e melhores inspirações venham em breve… Em qualquer dos casos, se estiverem por estas bandas e tiverem vontade de comentar, nem que seja para criticar duramente, estejam à vontade para o fazer. Da minha parte, apenas vos posso assegurar que vos irei responder conforme possa.

   Resta-me, apenas, despedir-me de todos vós, leitores… No caso de só nos vermos (aliás, lermos) para a semana, e no caso de festejarem esta época, uma boa Páscoa para vocês… caso contrário, fiquemos pelo já habitual “até à próxima entrada”…

14 de março de 2016

Anúncio: Revisão do Texto dos Mini-Ciclos de Leccionamento Concluída!

   Boa noite a todos os leitores. Após algumas semanas de intenso esforço e dedicação, pude finalmente terminar a revisão do texto dos mini-ciclos de leccionamento, com que me comprometi numa entrada anterior. Caso estejam curiosos para saber do que se trata, poderão encontrar o texto no sítio do costume:

http://porumnovoensino.blogspot.pt/p/blog-page_27.html

   Agradeço a vossa compreensão pela minha ausência, mas reformular aquilo tudo demorou um pouco mais de tempo do que o que eu esperava… Enfim, cá estarei, cá andarei e espero fazer uma nova entrada, agora mesmo a sério, em breve. Assim, até à próxima e não se esqueçam de comentar, se assim o entenderem!

24 de fevereiro de 2016

Comunicação Actualizante (Ou Actualização Comunicante)

   Sei que já lá vai algum tempo desde que escrevi aqui alguma coisa. Admito que sim. Mas, felizmente, não tem sido por falta de inspiração (quando muito, por falta de tema… mas até nem por isso…). É que tenho andado mais ou menos ocupado a remodelar o texto principal dos Mini-Ciclos de Leccionamento (o tal que acaba por, em última análise, servir de base a todo este blog), de modo a torná-lo marginalmente mais compreensível. Porque, convenhamos, estava (e, aliás, ainda está) mais do que um pouco confuso…

   Só que, para grande desgosto meu, ainda não acabei essa revisão. Esperava que, por esta altura, já o tivesse feito, mas não. É pena… Enfim, só vos queria, caros leitores, deixar aqui esta informação, e a garantia de que a minha ausência não provém de qualquer desistência, doença, falecimento ou condicionamento (ou qualquer outro inconveniente mais ou menos desagradável de natureza semelhante) que me possa ter acometido nestes últimos tempos, mas sim dessa minha tentativa de rever o texto.

   Assim sendo, o propósito desta entrada está concluído… Resta-me desejar a todos um bom período de tempo até à próxima entrada (que não definirei com maior precisão: não me atreverei a definir uma data específica para o fim da minha revisão… ficará a vaga noção de que espero que seja em breve…), e uma boa contestação ao actual sistema de ensino, que é, como bem sabemos (ou como bem deveríamos saber), bem urgente, bem necessária, mesmo que bem difícil. Mas não fraquejemos e não paremos de lutar pelo melhoramento do que está errado!

9 de fevereiro de 2016

Do Físico e do Mental

   Leitores, se me permitem que me dirija logo assim, de chofre, a todos vós (tenho sempre uma certa tendência a pensar que são mais do que o que são, pelo que talvez, para grande desgosto meu, nem sequer se qualifiquem para um “todos”…), tenho de vos pedir as costumadas desculpas pela costumada ausência. Espero que não tenham dado muito pela minha falta (e, ao mesmo tempo, espero que tenham dado pela minha falta, porque isso significa que ligam pelo menos minimamente às baboseiras que para aqui escrevo…); caso se queira saber, ou caso não se queira saber, fui retido pelos habituais afazeres escolares, sempre enfadonhos, sempre indesejáveis e sempre prolongados… Vá lá que, por agora, há esta pequena folga, que acaba por permitir pôr em dia os assuntos em atraso. No meu caso, será a escrita e a contestação ao actual sistema de ensino…

   Por falar nisso, hoje até que nem escolhi um tema assim tão bom nesse sentido… mas foi o que me surgiu… e a escrita tem, para mim, uma forte componente intuitiva, pelo que forçar outro tema daria ainda um pior resultado. Aliás, o tema, em si, até que possui uma mistura potencialmente útil de pertinência, incomunidade (desculpem-me o termo bastante obscuro e francamente inventado…), polemicidade e possível teor filosófico, mas é mais uma reflexão do que uma crítica. Espero que não se importem…

   Ora, talvez já saibam que me aproximo bastante do estereótipo do marrão. Não é desejável que haja tais generalizações, mas o que é certo é que as há e, no sentido de melhor contextualizar o que vos vou dizer, fica aqui a informação (que, por acaso, até só me ofenderia a mim, pelo que não há grandes problemas com isso…). Sendo eu, então, um marrão, também possuo a grande falta de aptidões motoras que caracteriza essa pretensa faixa da população estudante (um sub-grupo cultural estudantil? Um estrato educacional? Não sei como lhe hei-de chamar…), em mim exacerbada numa certa falta de apreço pela actividade física. Mas, como é óbvio, há quem se encontre no lado diametralmente oposto do espectro (será o caso do leitor que está a ler isto neste momento?) e que, por isso, defenda até ao último suspiro a causa da actividade física.

   Nem vale a pensa entrarmos por grandes discussões quanto a quem tem razão, porque são ambos e não é nenhum: se, por um lado, a prática desportiva é essencial para a saúde do indivíduo, é igualmente certo que faz pouco sentido exigir, por imposição do sistema educativo, a quem levará a sua vida toda a desempenhar tarefas mentais que adquira, contra a sua vontade, conhecimentos e capacidades físicos. Percebem onde quero chegar? Ambas as partes têm razão e, se há quem insista, justamente, para que a Educação Física ganhe maior importância, nomeadamente no que toca a médias diversas, outros há que amaldiçoam, justamente, a inclusão dessa disciplina nos programas do ensino secundário.

   Tradicionalmente, e por toda a lógica, eu pertenceria a este último grupo, mas, como espero que já saibam, tenho sempre uma tendência incontrolável para ser a favor do contra… Sendo que, este caso, isso se traduz na habitual defesa de um paradigma alternativo de ensino que, pela subdivisão das matérias em ciclos de leccionamento mais curtos, confere maior liberdade e flexibilidade na selecção dos conhecimentos a adquirir; sim, já sabem, falo dos Mini-Ciclos de Leccionamento. Ora, não querendo incorrer na lengalenga do costume no sentido de evidenciar a quase panaceia que este sistema de ensino seria, vou, em vez disso, dizer mesmo que este sistema seria quase uma panaceia, ajudando, inclusivamente, a resolver, ou melhor, a tornar desnecessária esta questão.

   Está-se mesmo a ver: consoante o seu desejo (e mediante a aquisição de eventuais conhecimentos anteriores…), qualquer aluno poderia (ou não) adquirir conhecimentos relativos à prática de actividades físicas. Mas, convenhamos, não seria exactamente saber as regrazinhas, ou andar a correr de um lado para o outro com a bola na mão/no pé/no stick/seja onde for, não: seria de uma forma mais sistematizada, mais profissional, do que é hoje, ensinando mais aprofundadamente tácticas e técnicas diversas, eventualmente dando umas bases do funcionamento anátomo-fisiológico do corpo dos atletas e afins, sempre no sentido de transmitir conhecimento (o que fazer, como fazer e por que raio se faz como se faz); em suma, seria manter a parte do Física e aumentar a parte da Educação, fazendo, também, uma eventual ligação à competição desportiva mais “oficial” ou “profissional”. Mas, claro, tudo isto sem nenhum grau de obrigatoriedade.

   É certo que isto pode ser a modos que um incentivo ao sedentarismo, mas, convenhamos de novo, por um lado, quem é verdadeiramente sedentário não faz muita coisa em Educação Física (leia-se, sem ofensa, arranja formas de se escapar a fazer as coisas…), por outro lado, não serão umas poucas horas semanais que restituirão a saúde (sobretudo quando, nessas aulas, há demasiados alunos para o professor os poder auxiliar e incentivar convenientemente, e quando também há erros crassos de planeamento e execução da parte do professor, como seja a omissão de aquecimentos…) e, por outro lado ainda, é das minhas mais profundas crenças que uma actividade desempenhada voluntariamente o é muito melhor do que se for forçada, pelo que talvez funcione melhor educar e sensibilizar as pessoas para a eventual necessidade da prática de exercício físico nos seus tempos livres do que obrigá-las a praticá-lo em tempos não livres (convém, também, garantir que têm tempo para o fazer sem prejuízo das suas restantes actividades, coisa que, para os alunos, os Mini-Ciclos de Leccionamento também garantiriam…).

   Além disto, e ainda no âmbito das eventuais actividades menos intelectuais e mais físicas, há um facto vagamente incoerente que não posso deixar de destacar: no ensino, à excepção dos aparentemente vilipendiados e desprestigiados (vá-se lá saber porquê… e isto não é, de modo algum, ironia, porque nenhum conhecimento é mais ou menos digno do que outro) cursos vocacionais (se não for bem esta a designação oficial, peço aos meus leitores que me perdoem o arcaísmo; há sempre a evolução linguístico-burocrática, que torna praticamente impossível estar minimamente actualizado), são quase literalmente ignoradas certas actividades físicas que, não sendo directamente do âmbito desportivo, têm, na mesma, uma complexidade inerente que lhes cria a necessidade de serem leccionadas. Falo, portanto, de coisas como a mecânica (não no sentido do estudo das leis físicas que regulam o comportamento macroscópico dos corpos, mas no sentido do termo mecânica em “mecânica automóvel”, ou seja, no sentido da construção, manipulação e reparação de objectos e maquinarias diversas), a electrónica, a própria actividade laboratorial, a cozinha, entre muitas outras. Mesmo que haja, de vez em quando, um projectozito aqui ou ali, um workshop, uma iniciativa, ou um curso mais ou menos dedicado numa instituição mais ou menos dedicada a esse âmbito, no cômputo geral (não gosto muito desta expressão, mas era a que mais aqui se adequava…), é-lhes dada uma relevância praticamente nula.

   E isso, a meu ver, não faz qualquer sentido. Não podemos excluir conhecimentos só porque sim, só porque calha. Há que garantir a maior oferta possível, para salvaguardar a liberdade de escolha e, em última análise, para não cortar metaforicamente as asas a ninguém. Aliás, estes conhecimentos, de um domínio manifestamente prático, até têm uma utilidade social mais imediata do que os mais teóricos, pelo que a sociedade (por mais que muitos dos seus aspectos não sejam assim tão desejáveis…) até que fica a ganhar com isto…

   Assim, a inclusão destes conhecimentos na árvore dos módulos será, então, recomendável. Tudo isto permite chegar a uma conclusão que não ficou propriamente muito explícita no texto dos Mini-Ciclos de Leccionamento e que é a de que, na globalidade das matérias leccionadas, os conhecimentos mais teóricos, os conhecimentos mais práticos e todos os outros pelo meio estariam dispostos em relativa igualdade de importância, consoante, claro, as dependências e os prosseguimentos possíveis de cada um. Em última análise, isto permite juntar o ensino agora dito regular e o outro (que, por exclusão de partes, seria irregular?), eliminando, assim, uma distinção afinal injusta entre aqueles que têm maior aptidão para o pensar e os que a têm para o fazer. É certo que certos âmbitos beneficiam mais uma do que outra e, nesse sentido, certos pontos de vista darão mais valor a uma do que a outra (sendo que o ponto de vista tendencialmente académico responsável pela produção de reflexões diversas sobre o valor do conhecimento tem exactamente tendência a valorizar aquela que mais se integra no domínio académico, isto é, a aptidão mental, pelo que é esta que acaba por ser mais comummente valorizada), mas, globalmente falando, não se pode dizer que a aptidão física valha menos ou mais do que a aptidão mental, pelo que ambas deverão ter igual destaque e igual acessibilidade.

   E pronto. É isto. Um bom Carnaval a todos, se o festejarem (eu não: prefiro fazer entradas no blog…), e até à próxima entrada…